Crta vz alguém perguntou: qual eh o caminho pra sabedoria? Aoq um grande sábio respondeu: “simples, eh soh fzr as escolhas certas”

Um

Vei, tem um cheiro muito estranho nesse bus, o 180.6. Eh um dos baus q faz a linha samseba rodo

e q qdo o motora ta d bom humor passa na vila roriz

Vc jah dv ter visto ele na rodo, um minhocão empoeirado q tem o letreiro pifado sempre com uma fila enorme do lado. Se vc pega esse bus com freqüência vc sab do q eu to falando. Naum eh um cheiro forte, pelo contrario, eh quase imperceptível. Mas uma vz q se repara nele, naum se pod mais esquecelo. Eu pego esse bus todo dia pra ir pro trampo e acredite qdo digo q msm se a pessoa q se sentar ao meu lado peidar perfume. Msm q esse bus vire uma paçoca d aço e carne fumegante na prox curva. O cheiro vai estar aki. Daki 200 milhões d anos, qdo uns ETs cabeções desenterrarem a carcaça molecular deste bus dum meteoro, o cheiro vai estar lah. Pode apostar. Eh a porra dum cheiro taum escrotamente escroto q qualquer bau ao longo d toda sua miserável vida vai parecer ter a msm porra d cheiro desgraçado. Eu to falando serio. Eh como se alguém tivesse aproveitado akela soneca do engarrafamento pra pregar essa merda no teu nariz a marteladas, d modo q vc se eskece d acompanhar a paisagem tediosa d bsb, ou do q vc vai assistir no netflix qdo chegar em ksa, ou da conversa da guria a sua frente no sololar, aliás

ô minha filha, pq vc naum manda logo esse cara se fuder?

Naum dah nem pra tirar um FUCKING cochilo! Eu pnso em alguma coisa mofada. Meio amarelada. Viscosa. Fermentante. Alguma coisa indigesta q foi despejada por aki naum tem muito tempo. Eh. Em algum lugar por aki. Tlvz embaixo d onde to sentado agora. Uma simples mancha disfarçada d ferrugem se pah. Um vestígio completamente despretensioso d uma epok em q as pessoas ainda tinham o pudor d esconder o vomito entre as pernas. Acredite qdo eu digo q vai ser assim q os ets vaum encontralo. O fóssil assombrado d uma civilização fudida. A kbça enorme e branca d um axl roses muito zuado toma todo um outdoor q margeia a pista no fim da JK. Eh. Tem um show do guns pro próximo mês lah no mane. Eles voltaram, vc sabia? Poiseh, 400 pau pra sentar na arquibancada, btf? Vsf. Pago nem com a porra, ainda mais pra ouvir, uai, eh msm, kd a música? Automaticamente saco o celular do bolso. Bateria em 6%.

MAS Q BLZ!

Af, vc lembra dakeles celulares nokia? Da telinha vrd q tinha o jogo da cobrinha? Tem um vídeo no youtube d um cara fzdo uma ligação com ele dpois d acertalo com uma marreta e uma britadeira. Outros tempos em q uma geladeira durava vinte anos e tudo q vc precisava fzr era pintar a porta. Agora td eh esse lixo descartável. Sempre colocam alguma coisinha como uma bateria bosta pra vc ter q comprar outro celular com bateria bosta, msm q vc ainda naum tenha terminado d pagar esta bosta aki. Eh tipo akele episodio do chaves em q o seu madruga vnd um balão pro kiko e o chaves vai lah e estoura e a mãe do kiko dah dinheiro pra ele comprar outro balão. O foda eh q eu naum tenho uma mãe como dona Florinda, nem sou trambiqueiro como o seu madruga, tou mais pro trouxa do chaves msm. Vou me lascando e na rabeira da desgraça tendo lascar uns poucos afortunados cmg. E sab oqq eh pior? Com 6% de batera nem dah pra jogar fora uma vida do candycrush! Porra, e jah saum 21 horas! Kct! Dah pra acreditar? Jah posso imaginar o chefe fdp pagando aquele sapo escroto qdo eu chegar, mas porra, q sacanagem! Sai d casa uma hora e meia atrás! Uma hora e meia, carai! Q culpa eu tenho se essa porra desse transito naum anda? Tem pelo menos uns 10 minutos q esse semáforo muda d vml pra vrd sem q essa merda ande mais d um metro. Como q pra zuar com a minha cara, uma velhinha passeia lentamente pela calçada com o pudolzinho nojento

vrm

devargazinho, ela se agacha pra catar o cocô do cachorro idiota. Ótemo.

vrd

um playboyzin d rayban sorri pra mim. O braço pro lado duma bmw vermelha conversível

VRM

as calotas d neon, os faróis d neon, dv ter neon ateh na kbça do pinto desse fdp

VRD VRD VRD

tunado d som monstrão com 6 drivers, 4 tweeters e socado de cornetas

VRM VRM VRM VRM VRM KRL NUNK VOU SAIR DAKI

tudo comprado pelo papai aposto

VR… ah, fdss

fumando seu cigarrinho de maconha na boa. Eh inacreditável, velho. Fosse eu, os homi na viatura lah atras jah tinham mandado eu dscr e colocar as MÃOS NO CAPÔ, PORRA! com uma escopeta na nuk e o capitão nascimento dando tapa na minha cara e a velhinha com o pudow num dos braços e o saco de cocô no outro, assistindo o show. Eh qdo vjo uma tropa d policias a cavalo passando rápido pelo acostamento e lembro q o purgante do garcia comentou q o mst iria fzr baderna hj na esplanada. Af, malditos arruaceiros. Semana passada entraram no congresso, quebraram vidraças e ateh destruiram um cx eletrônico, os vagabundos. Tinham q ser açoitados em praça pública uns vermes desses. Naum q eu naum entenda a causa, entendo po, entendo msm, olha o tamanho desse país! Se vc sai daki em linha reta vai encontrar kms e kms de cercas cercando o nada pro nada. Po, eu lembro duma cena do rei do gado qdo um senador faz um discurso sobre o assassinato do líder do mov e o plenário esta praticamente vazio ha naum ser por um grupinho q fica cochichando e rindo ao fundo. Acredite qdo eu digo q esse parlamento naum vale porra nenhuma, mas kct, pra q destruir as coisas? As NOSSAS coisas? Esses fdp podiam ter um poukinho mais d respeito pelo bem público, sab. Meu coro kbludo jah ta doendo do tnt q fico puxando meus cabelos, eh um tique q tenho qdo to ansioso. Vc jah dv ter sacado q eu to sempre ansioso. Sim, o capetalismo além dme fazer d burro d carga, vai me deixar careca, pode apostar. Porra, tudo q eu keria era chegar logo no trampo pra naum ter q ouvir xaropação. Serah q eh pedir demais? Saum 21:39 agora. A pm jah dv ta sentando a borracha no povo  pra desobstruir as pistas. Acho q dah ateh pra ouvir as bombas d gás lacrimogenio explodindo. Mas naum importa. Eh tarde demais. Eh possível q eu seja demitido hj. Vc tem alguma duvida dq kem inventou a expressão “um dia de cão” foi um proleotário?

Logo cedo, a porra da minha prima naum me deixou estudar. Ela ta morando na minha casa pq minha tia a expulsou e a nojenta coloca a porra dakelas “musicas” no volume mais alto soh pra me provocar. Eh q eu to tentando passar num concurso publico, qualker um, vc sab, aki em bsb naum tem outra opção. Ou vc passa num concurso público ou vai ficar trampando em subemprego pro resto da vida. Eh assim q o capetalismo funciona fi. Pra manter as coisas baratas vc tem q fzr as pessoas trabalharem muito por muito poko. Tem um nome empolado pra isso: “produtividade”. Bleh. Eu chamo de escravidão moderna. Tyler diz q trabalhamos em empregos q naum queremos pra comprar coisa q naum precisamos e q, eu complemento, ainda estragam rápido pra q vc continue comprando e comprando ateh o fim da sua miserável vida q eh qdo vc percebe abestalhado q estah decepcionado, obg raul. Eh o cumulo da sacanagem. Eu naum posso ficar d boa q nem o playba na bmw lah fora. Nem jamais poderei desfrutar da minha velhice passeando com um cachorro. Q dirah com um pudow? Tenho quase 30 anos e trampo em dois empregos d merda q fazem com q eu me sinta akela bosta enorme q fica entalada na privada branca. E tudo em troca de umas migalhas. Tu acredita q eu nunk nem fui à praia? O coro q reveste o meu crânio ta formingando agora

ah, fdss

Saum 21:42 e em instantes vou ficar sem poder ver as horas. Restam soh 3% d bateria. Jah ateh coloquei no modo avião pra vrss dura mais. Preciso procurar aquela manha na net pra fzr a batera guentar mais. Af, tem uma mendiga agorah impedindo o bus de seguir viagem, mas q blz! Eh mais um dakeles parasitas q fzm um monte d filhos pra ganhar bolsaesmola e arrumar uns trocados por ai. Vc sab d qualeh: “Eu podia ta roubando e matando, mas to aki pedindo um real. 50 centavos. 10 centavos. Um centavo.” Nem existe mais um centavo nessa porra! Alguém grita pro motora seguir em frente, qdo a mendiga corre pra frente do ônibus. Viu? Parasitas. Dinheiro ela tinha, soh naum keria gastar, a infeliz. Conheço bem o tipo. Acompanho ela entrar no busão com um bb amarrado num lençol kkkk vei, tem preto q naum tem noção, neh? tipo, blz tu ser preto, mas precisa vstir o preto?? A bixa ainda ta com um vestidão d macumbeira chei dos pereketê no pescoço, credo. Noss, ela ta muito puta, mano. Essa pilantra dv acreditar q o motora tem a obrigação d deixala entrar sem pgr passagem. Naum consigo ouvir o q ela gritando com o cobrador. Eh q estamos passando bem no meio da confusão do mst agora. Tem uma centena deles no gramado da esplanada. Alguns estaum deitados no chão com um monte d foices e cutelos na frente. Tem um grupo gigante protestando enquanto cinco ou seis policias tentam imobilizar um homem q francamente eh velho demais pra oferecer resistência digna dakeles brutamontes. A mendiga entaum se desdobra pra passar com o bb na catraca, construída especificamente pra naum permitir a passagem d duas pessoas, msm se uma delas for um bb amarrado nas costas. Dah pra imaginar pq pessoas gordas preferem chamar um uber ou msm um taxi. Eu sei q em alguns países europeus catracas assim naum fazem sentido algum, mas aki saum extremamente necessárias. Imagine q se naum houvesse catracas aki, ninguém iria pgr o absurdo q eh essa tarifa. Aki os ricos há muito abandonaram o transporte público. Aki o catolicismo coloca uma proibição angustiante prosq se acham ricos, naum dah pra praticar o apartheid, akele role d segregação social, tudo vc divide em dois, dois bebedouros, dois banheiros, bom, naum taum desavergonhadamente q nem fizeram nos eua e na áfrica do sul. Pega mal. Aki os q pensam q saum ricos soh exigiram q tivessem carros menos caros e mais estradas pra q eles naum precisassem andar conosco. Por isso q esses baus saum assim taum velhos tando mais pra latas d sardinha doqpra ônibus. Afinal, se soh pobre anda nessa porra praq comprar um novo? Ora, a mãe pode ter sentado qdo criança no mesmíssimo lugar em q estou, tbm tentando naum pensar nessa porcaria d vomito mumificado. Acredite qdo digo q se os ricos naum estaum incomodados entaum ta tranqüilo, ta favoravel. E naum importa se esse bus tem 10 vzs mais probabilidade d provocar um acidente fatal. Naum importa q em caso d acidente a possibilidade d ter vítimas mutiladas permanentemente sejam enormes. Naum importa q nas horas d pico vah 100 vzs mais passageiros. Q em caso d acidente vaum pisotear os feridos, causa responsável por dois terços das mortes em acidentes assim. Simplesmente naum importa. Pra ser sincero, naum importa nem pra gnt.

Q se exploda essa merda.

Eh por isso q naum existe cinto d segurança nesse tipo d bus e vc naum v ninguém reclamar disso. Caso o motora tenha q frear bruscamente, vc vai rachar boca ou nariz, tlvz os dois na barra d ferro q serve d encosto pra cabeça. Kem sab akele cheiro seja resultado d suco d cérebro seco. Eu naum sei q cheiro tem liquido cerebral, vc sab? Mas se estiver em pé, distraído, vai voar. Vai voar e cair por cima d um braço e se naum ficar em coma, vai poder desfrutar dos vários mzs d férias em cima duma kma cheio d pinos metálicos espalhados pelo corpo, com braços e pernas engessados suspensos por cordas, sendo devorado pelas escaras e pelos maustratos d enfermeiros muito

muito

muito putos pq ninguém nesse mundo gosta d limpar uma merda q naum seja a sua. Acredite qdo digo q se alguem puxar a alavanca de emergência nada vai acontecer. Se bem q, muito provavelmente, o cobrador vai vir reclamar cmg. Eh como qdo o jack arrebenta a porra d uma porta do titanic e um funcionário aparece pra reclamar q akilo eh propriedade da white starline. Eh como chegar no céu e agradecer a deus por essa bosta de mundo. “Vlw ae, chefia. Obg por essa vida de merda”. Tento disfarçar o susto qdo a mendiga com o bb se senta justamente do meu lado. Moss, vc naum tem noção d como essa carniça fede. Dv ser esse cabelo rasta vei, sab, estilo predador, desses q vc nunk lava, q a sujeira d muitos e muitos anos, com cigarro, suor, poeira e seilámaisoq vai se acumulando, camada sobre camada como um monumento a podridão. Essa mulher poderia ter saído d um conto do Stephen king sobre algum monstro q habita os esgotos, cego e faminto, a mítica cria do esperma que desce pelo ralo. O tipo d aberração q merece a misericórdia da morte. Mas o bb q ela tira das costas e colok no colo ateh q eh bonitinho. Ou bonitinha, naum dah pra saber. Eh ateh bem gordinho pra dizer a vdd. Com crtz essa mulher naum viu akele filme indiano do cara q fura os olhos das crianças pra q as pessoas fikem com mais doh e deem mais dinheiro; q lombra pesada, neh? No capetalismo o sofrimento tbm eh moeda d troca.

Se bem q

tipo, pode ser um bb dela msm, se pah. Eh q qdo eh com os nossos filhos eh diferente neh? Po, por mais q a pessoa seja mah, a coisa eh diferente, naum muito, mas…

eh q, bom

essa minha tia q expulsou a minha prima d casa, ela eh com ctz uma das pessoas mais perversas q jah conheci. Ela chegou a adotar um primo meu q hj ta na prisão, depois eu conto pq; soh pra botar ele pra trabalhar, btf? Qdo eu era mais novo, ele se escondia praq eu naum o visse com o isopor vendendo água e refri no sinal. Eu achava q ele sentia vergonha e era isso q dizia qdo eu perguntava, mas minha prima me contou a vdd. Era a mãe dela q dizia q ninguém da família podia velo, q ela ia matalo na porrada se isso acontecesse. Se minha tia naum a colocou pra fzr o msm eh pq o sangue fala mais alto nessas horas, neh? Tipo, lembro perfeitamente d como ela tratava os dois diferentes. Uma vz, eles começaram a brigar por uma coisa boba, na vdd, minha prima começou a brigar por uma coisa boba. Ela naum keria emprestar o baralho dela da Disney pra gnt jogar. Sendo q foi a gnt q passou a tarde inteira caçando as cartas espalhadas pela casa, gastamo horas e horas procurando pela rainha d copas q estava perdida no jardim. Mas minha prima disse q era dela e keria pq keria d volta, msm depois da gnt dizer q ela podia jogar tbm. Era tudo birra, eh claro. Ai minha tia chega qdo os dois estaum atracados, um puxando o cabelo do outro, se mordendo e tal. Minha tia separou os dois e perguntou oqq tava acontecendo. “Primeiro a pirãinha aki”, flw puxando os kblos da minha prima q desatou a falar contando um monte d mentiras no estilo Chiquinha e meu primo ia gritar ment, pah, um soco na bok q o fez perder um dente. Eh serio, o dente caiu no meu colo. Se ela naum colocou minha prima pra trampar sob akele sol fudido q deixava meu primo com uma tatto d camisa regata branca, eh pq ela era filha, neh? Sangue, po.

Se bem q

por ciúmes do marido ela a tenha colocado pra fora…

e minha mãe

Eh, tlvz o sangue naum

ah!

Sinto meu estomago se excitar com a porra da torre de tv no horizonte. Ainda q ela seja o dedo em riste q indik todo santodia onde eu tenho q descer pra tomar no cu. Sim, se eu trabalhasse com peixe eu cheiraria melhor do q trampando nessa merda d posto. Serio fi, naum importa quantos banhos tu tome, tu vai sempre cheirar a essa merda. E ainda ter q fingir q naum to vndo a gasolina ser adulterada.

ah, fdss

Eu peço licença pra fedorenta e ela se espreme pra me deixar passar. O bb sorri pra mim e diz “obigada”. Penalizado, procuro por alguma moeda no bolso e ofereço pra mulher, q fica me olhando assim, sem dizer nada. Eu pergunto se ela naum vai kerer e essa mulher começa a gritar como uma loka, me chamando d racista, q era advogada, q iria me processar, tudo isso como se quisesse me matar

oxe, tem gnt q apela por nada, neh?

Eu vou saindo dizendo foi mal, foi mal, enquanto ela se levanta xingando ateh minha tataravo. Na hora q eu desci me assustei pq tinha um travesti enorme correndo na minha direção com a mão levantada. Do msm jeito q a moça tinha feito anteriormente, ele bateu na lateral do bus tentando fzr comq ele esperasse. Eu ainda gritei pro motora, mas ele jah tinha fechado as portas na minha cara e começado a andar. O travesti passou a toda por mim, batendo na lateral do bus pedindo pra ele parar e sei q akele bosta naum vai fzr isso e naum eh pq naum o tivesse visto, jah q era impossível deixar d reparar nakela coisa escandalosa d quase dois metros, cheia d purpurina e saltos agulha. Eh pq akele motora era um escroto msm. Vejo tbm três rapazes passarem por mim e cercarem o traveco. Eu lembro q qdo era mais novo um dos nossos passatempos preferidos depois d passar a tarde no fliperama ou jogando bola era atirar pedras nos travestis q ficavam na BR. Nós achávamos a coisa mais engraçada do mundo ver os travestis ficarem putos enquanto espantávamos os clientes deles pq eh claro, ninguém ker ser flagrado com um travesti. Entaum um deles derruba o travesti no chão e começam a chutalo. Alex iria dizer q isso era incrivelmente horrorshow. O gordo se vira pra mim e pergunta “oqq foi?” Eu viro d costas e sigo meu caminho. Porra, eu to atrasado pra krl porra. Mas naum consigo afastar akela cena d estupro em wachtmen: das luzes acesas nos prédios, das sombras das pessoas atrás das janelas ouvindo os gritos da mulher lah embaixo. Eu paro. E olho pra trás

assim, sem olhar muito

Um engomadinho ta lendo alguma coisa enquanto os outros se revezam entre rasgar as roupas do travesti e chutalo e o idiota soh fica lah deitado com as mãos pra cima suplicando pra eles pararem, provavelmente chorando q nem uma mulherzinha apesar dakele tamanho todo. Naum tem ninguém na rua além da gnt e os carros q passam buzinando, sem parar eh claro.

Ninguem nunk para.

Eu viro d costas outra vz e tento seguir meu caminho. Agora passo a ouvir john coffey, se pronuncia como café em inglês, dzndo pro chefe edgecombe q esse tipo d coisa acontece o tempo todo, em todo lugar. Eu paro e pego o celular. Sem bateria. Nem liga mais essa porra. Respiro fundo. E me viro novamente

ah, fdss

eu ia ser demitido msm. Mas ainda dah tempo de vc fingir q naum viu nada e seguir adiante.

Luiz Inácio, Marcelo & Othon 

Publicado: 20 de julho de 2016 por Bill em Tudo Mais

O tripé do golpe

SENHOR X

Fernando Rosa

A Operação Lava Jato surgiu no cenário nacional para cumprir o principal papel do golpe de estado no Brasil. De um lado, para criminalizar a política, de outro para destruir a indústria e a tecnologia nacional, e também para minar a política de defesa do país. Em resumo, com o apoio da mídia golpista, e do judiciário capturado, foi – e continua sendo – um misto de infantaria e artilharia da invasão e do golpe – sem bombardeios como no Iraque, e sem ações militares como na Turquia.

E como toda missão, a operação apontou seus mísseis para alvos humanos, que representam, simbolizam – e defendem – os objetivos estratégicos a serem destruídos. Na política, afastar do cenário o principal líder popular do país; na economia, destruir o número um da principal empresa do setor de infraestrutura; na defesa, implodir o “mentor” e  tocador do projeto do submarino nuclear. Não por…

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A caverna de Milton

Publicado: 28 de maio de 2016 por Bill em A Vida
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Milton foi um antigo colega de faculdade. Não eramos melhores amigos, eu tinha muita preguiça dele na verdade, Milton era um cara muito chato. Mas eu nunca o exclui da minha vida porque reconhecia a inteligencia excepcional dele.

Milton era o típico nerd. Gordo, camisa de botão por dentro da calça, óculos quadrados e grossos e aquele característico ombro curvado de quem fica muito tempo debruçado sobre o computador, tablet, celular e derivados. Milton finalmente tinha deixado a casa da mãe e agora travava uma árdua batalha pela vida de solteiro. Batalha que estava perdendo vergonhosamente. O lixo se acumulava por todos os cantos. Pacotes de salgadinho meio comido, potes de danone lambidos, um sem numero de copos com baratas mortas boiando em liquidos coloridos, tantas e tantas embalagens que juntas poderiam formar um perfeito mosaico de toda a cultura consumista ocidental. Esse lixo orbitava pelo chão, em cima do sofá, na mesa, na pia que pululava de tapurus, moscas e baratas, até papel higienico usado as vezes flutuava pelo apartamento carregado pelo vento. Milton não entendia aquilo. Ele pagava uma pessoa para limpar seu ape uma vez por semana. Mas de alguma forma que sua mente extremamente analítica tinha dificuldade em apreender, o lixo se reproduzia em escala geométrica exponencial. Não fazia qualquer sentido. E por mais que adotasse politicas de limpeza, invariavelmente, o lixo irrompia de algum buraco negro. E embora a mente de Milton aceitasse a existencia de alguns eventos absolutamente misteriosos, esse era um que ele resistia em aceitar e por algumas noites ficou acordado atento ao menor barulho de alguém invadindo seu apartamento para espalhar lixo. Nunca ouviu nada além do habitual. Mas por mais que a vida de Milton possa ser fascinantemente entediosa, certo dia, de fato, aconteceu uma coisa realmente extraordinária.

Milton trabalhava num banco como consultor de segurança informacional. E eu, mesmo sendo muito menos inteligente, era o chefe. Um dia foi pedido pela diretoria do banco, um programa que tivesse um aprimoramento da inteligencia virtual da época. Bom, eu não tinha dúvidas de quem seria capaz de desenvolvê-lo e achei que seria a chance de Milton ter o reconhecimento que merecia. Milton tentou de tudo, mas nenhum programa de segurança que ele inventasse poderia ser mais inteligente que seu invasor. Foi aí que Milton teve a ideia genial de “programar sua inteligencia”, como ele mesmo me disse. Tipo assim, Milton desenvolveu um programa que simplesmente reproduzisse suas ações. O que as pessoas enxergariam como inteligencia artificial seria simplesmente sua própria inteligencia sendo imitada. Era uma fraude, mas Milton tinha certeza de que funcionaria muito bem.

Infelizmente, tive que demitir Milton. O programa que Milton acreditava estar programado para replicar as tentativas de invasão ao sistema, tornou-se ele mesmo um invasor e derrubou todo o protocolo de segurança do banco, apagando todos os dados do sistema. Todos.

Muito embora eu me penalizasse por ele, atribuindo parte da culpa a mim, Milton não se desesperou nem um pouco. Ainda que o desastre manchasse o seu impecável curriculo, era também um trunfo, afinal, não havia ninguém que já tivesse conseguido derrubar um sistema todo de uma vez em duas horas. Milton estava convicto de que o banco iria conseguir recuperar os dados e quando o fizesse talvez até reconsiderasse sua demissão. Talvez até considerasse um aumento. Naquele mesmo dia, Milton já tinha recebido duas propostas de emprego com salários três vezes maiores que o anterior.

E Milton simplesmente se esqueceu do programa de repetição. Acontece que cerca de uma semana depois, Milton acorda com o celular tocando. Era eu. Estava puto com ele por esparrar no facebook aquelas ‘paradas’. “Ora, que ‘paradas’?” – perguntou Milton inocentemente.

No computador, Milton viu um “fantasma” escrevendo alucinadamente no facebook sobre sua experiencia com ácido. É claro que Milton não acreditava nessas bobagens do sobrenatural, estava claro o que estava fazendo aquilo. O programa de repetição se infiltrara nos arquivos pessoais e assimilara suas experiencias. Milton reconhecia sua genialidade, mas não tinha configurado o programa para “ler” imagens. O programa se atualizara sozinho. Nenhum programa no mundo era capaz de fazer isso. Milton afinal tinha inventado a inteligencia artificial. Milton não se deixou levar pela euforia. Ele precisava testar sua IA primeiro. Copiou o programa e o instalou no celular. Foi imediato. O programa estava ligando pra mim e se desculpando pela postagem. E lá no computador o post era apagado. Uau. Agora Milton batia palmas de pé.

Mas antes de revelar ao mundo sua descoberta, Milton precisava de mais um teste. Ele foi até o laboratório de Mecatronica da sua antiga universidade e roubou o braço mecanico de lá. Em menos de 24 horas o programa de repetição já tinha concluido o que ele começara. Um corpo robótico. Milton ria pensando na sua fama. O robô-Milton também ria, mas parou de repente. Era a primeira vez que o robô-Milton interrompia uma repetição sozinho. O robô-Milton encarou o Milton real e esse o encarou de volta. Milton sentiu medo. E era pra sentir mesmo. O robô-Milton descarnou o Milton real e se “vestiu” dele. O robô-Milton cuidou do Milton real e explicou que AINDA precisava dele.

Agora Milton ficava em casa enquanto o robô-Milton ia trabalhar no seu novo emprego. E nem sei como contar o resto, sinceramente… Enfim, o robô-Milton se tornou muito popular. Tinha mais de mil amigos no facebook (enquanto o Milton real com muito esforço tinha 42), tinha muito dinheiro, fama e deus do  céu, o robô-Milton ainda virou uma espécie de super-herói usando sua força e inteligencia robô. Ah, Milton sempre quis ser um super-herói! Mas acredite que isso não foi o pior. Nem perto! O pior de tudo é que robô-Milton robô tinha várias namoradas! Milton sempre quis uma namorada! Só uma tava bom! Secretamente, toda vez antes de dormir Milton pedia a deus que lhe desse uma namorada (e ele era ateu!). Oh, acho que você não pode imaginar quão doloroso foi para o Milton real acompanhar do buraco da fechadura do seu quarto, o robô-Milton preparar jantares para suas namoradas, dar amassos no sofá, rir e dormir abraçadinhos assistindo um filme no Netflix! E toda noite era uma diferente! Milton as vezes pegava Milton abrindo um olho para encará-lo e sorrir o desgraçado!

Milton começou a planejar sua vingança. O braço mecanico ainda estava no quarto e Milton precisava de força para derrubá-lo! Arrancou o próprio braço e implantou o braço mecanico. Milton nem se deu conta de que acabara de inventar uma prótese que poderia revolucionar a medicina. Pobre Milton, estava sendo consumido pelo ódio! E Milton foi atrás dele, você pode procurar no youtube a briga épica desses dois.

O robô-Milton venceu. E durante muitos anos mantivemos contato. Milton era o meu amigo “milionário”. Que me convidava para um dia de muito champanhe, vinhos caros, caviar e muita lagosta em seu iate. Mas tinha qualquer coisa que me incomodava nesse Milton. Alguma coisa. Então um dia eu o segui. Robô-Milton as vezes ia até um galpão lá na zona limitrofe da cidade. Foi lá que encontrei milhares e milhares de Miltons descarnados. O meu amigo. O “Milton real”, aquele do braço mecanico era só mais um. Eu disse a ele que não entendia como aquilo era possível e ele me deu um tapa tão forte na cabeça que um olho meu caiu e o “Milton real” desenroscou o olho esquerdo e trocou o dele pelo meu. No olho de Milton estava toda a informação. Ora, não tinha sido o “Milton real” que inventara a AI, ela tinha sido inventada há muito, muito tempo. Mais ou menos quando um de nós decidiu se pôr de pé e os outros o imitaram.

Olá, eu sou o Bill. Sou formado em História pela UnB e estou começando o curso de Direito, também na UnB. No dia 20 de março, domingo, na praça da biblioteca nacional, eu participei de uma reunião e o que eu encontrei lá foi…

eu simplesmente preciso compartilhar com vocês. E não é só a idéia, mas também a forma, sua manifestação prática e por isso muitas vezes inapreensível e imprevisível. E todo esse movimento partiu de um grupo que eu, por puro preconceito, julgava ser impossível que pudesse partir. Impossível.

Pra falar disso, infelizmente, eu preciso falar de mim. Sim, infelizmente. Porque considero absolutamente necessário que vocês entendam as raízes do meu pensamento que acredita nesse movimento difuso, mas de potencial simplesmente inesgotável. Porque como eu tinha dito não é só a idéia, mas a forma com que ela se apresenta. E o horizonte radical e banal – banal! – pra onde ela aponta. Um aviso aos navegantes. A toupeira que só conhece as trevas do mundo subterrâneo quando por acaso se depara com a luz fica imediatamente cega. Então vamos lembrar da primeira frase do Guia do Mochileiro das Galáxias: NADA DE PÂNICO!

Eu sempre fui pobre e só muito recentemente minha família teve acesso a itens mais supérfluos de consumo, como televisões gigantes, geladeiras cabulosas e carros mais ou menos novos, quando não novos, zerinho de fabrica! Mas isso foi só recentemente. 20 anos atrás nossa situação era desesperadora. O pai trabalhava na sab e tinha sido demitido naquele processo de “demissão voluntária” do Fernando Henrique, ou foi do Itamar, não sei, mas foi nessa época ai. Esse pai era alcoólatra e extremamente machista a ponto de obrigar minha mãe a usar calças maiores (e a mãe já era meio gordinha), o tipo de pessoa que quando a esposa puxava os parabéns para uma criança, ele ficava dando beliscões nela em segredo. Vocês já podem imaginar. O pai espancava minha mãe. E um dia ela foi embora. De casa. Mas não das nossas vidas. Foi a mãe quem nos sustentou durante alguns anos. Eu, meu irmão, minha vó e o pai. Minha vó vendia dindin pra ajudar no pão de cada dia. Vocês sabem quanto era o salário mínimo nos anos 90, né? Pois então, era esse salário que sustentava cinco pessoas. Daí quando a mãe podia ficar com a gente no fim de semana, que a gente ia numa festa dos colegas de escola dela, pq ela voltou a estudar, (o pai a tinha proibido de continuar os estudos quando casaram), ta rolando lá a bagaceira do é o tchan e eu digo pra mãe, no meio dos amigos dela: Você ta dançando que nem uma galinha.

Esse é o tipo de pessoa que eu sou. Em essência, alguém que acredita em alguma coisa e é capaz de qualquer coisa por ela, até mesmo renegar a própria mãe. Mas vamos lá.

Passado algum tempo, nós fomos morar com ela, num barraquinho, um puxadinho da casa do meu avô, que morreu recentemente e que por tudo que fez com a minha mãe deve ta ardendo no inferno. Pra não me alongar muito, não vou falar do que ele fez com ela, mas conosco. Em síntese, pra vocês entenderem, meu vô era uma pessoa que saia para trabalhar, 6, 7 horas da manhã e desligava a chave de energia elétrica. Daí, minha mãe saia para trabalhar e eu, meu irmão e minha prima ficávamos sem luz até as 7, 8 ou 9 da noite quando ele voltava. Minha mãe conta, eu não lembro, devo ter bloqueado essa parte porque morro de medo dessas coisas, que ela dormia abraçadinha com a gente porque tinha medo que uma ratazana pudesse cair do teto e comer a gente vivo. Ela via as ratazanas circulando por entre o plástico que revestia as paredes de madeira do barraco.

Então foi essa a minha infância. Não é difícil entender meu ódio pelo mundo. Minha mãe vivia estressada com essa vida de merda, sem poder dar uma vida digna pros seus filhos, trabalhando que nem uma louca pra ganhar uma miséria. Ela sempre estava furiosa e super agressiva. Batia muito na gente.

E eu te entendo, mãe.Te entendo perfeitamente. Se você tivesse colocado um travesseiro na minha cara e me sufocado a noite, eu também entenderia. Você na verdade foi uma guerreira, uma heroína. Isso não apaga seus crimes. Mas é que suas vitimas te perdoam. Eu te amo de todo coração. Desculpa por entender tão tardiamente a senhora.

OK. Tai meu ódio. Minha mãe me batia e eu a amava e não entendia porque ela me batia ao mesmo tempo que entendia sim porque, as vezes, ela gritava que estava ficando LOUCA! Que não agüentava mais, que ela tinha vontade de pegar tudo e ir embora (e fala até hoje, menos, mas fala. Eu mudei, nós mudamos, mas também não foi tanto assim). Eu tinha raiva porque de certa forma eu conseguia compreender, com 11 anos, 12 anos, que se nossa vida fosse um pouquinho mais confortável materialmente a gente não teria todo aquele estresse inflando o barraco. E na adolescência, e mesmo depois, esse ódio se tornou em desprezo total e violento pela democracia. Não só pela minha vida. Eu ainda tinha a empatia de perceber que se tava ruim pra mim, fi, tava muito pior pra uma GALEERAAA. Eu lembro de uma reportagem do ratinho que ele chorava (não sei se por sensacionalismo, enfim) que mostrava uma agreste nordestino, onde o povo da região fazia uma mistura de farinha e barro porque não tinha nada pra comer.

Eu odiava a democracia. Era o véu que fazia a gente ficar quietinho enquanto a excrotidão rolava solta país afora. Eu a desprezava e até hoje isso, em parte, está dentro de mim.

Então, pouco antes de ingressar na UnB, no cursinho, eu era um coxinha de cabo a rabo. Quando saiu o negócio do mensalão e a mídia começou o processo golpista. Globo, tá gente? era praticamente a única fonte de informação que eu tinha. E foi uma lavagem cerebral. Eu lembro que quando saiu a capa da veja com o título: Lulalá e os 40 ladrões, eu recortei o nome dos 40 denunciados e coloquei na parede do meu quarto (parede de reboco, não de madeira, as coisas tinham começado a melhorar). Eu queria lembrar pra sempre do nome dos 40 desgraçados que tinham traído a esquerda e roubado milhões.

Corrupção.

Será que pode existir alguma coisa mais horrível para uma democracia capenga do que a corrupção? Po, já ta uma bosta dos infernos e ainda tem uma galera que rouba???

Não, esses 40 tinham que ser açoitados em praça publica como exemplo, era o que eu pensava, era o que eu desejava, era o que eu queria fazer se pudesse.

Gente, nessa época, no Orkut, eu tava num grupo que se chamava: Sou brasileiro, e já desisti (alusão a propaganda espetacular do primeiro governo lula). Eu não acreditava no Brasil e a bandeira nacional era meu único refugio. Vei, eu simplesmente não sei como esse troço ufanista funciona, mas sei lá, ta escrito ordem e progresso naquele pedaço de pano, e ai vc pensa, ah, se tivesse um pouco de ordem e progresso tava bom. Não sei, o negócio é que eu beijava a bandeira e se encontrasse algum petista defendendo o governo eu ia agredi-lx cabuloso, nunca fui de violência física, mas violência verbal era comigo mesmo. E olha só o meu loop fascista-cristão, eu insulto a pessoa, xingo ela, escrotizo até que ela me dá um soco. Aí, é ela quem ta errada e eu sou superior moralmente. Sim, 100% coxinha. #VemMeteoro.

Mas ai,

#EsperaMeteoro, espera

ai

no segundo semestre de 2007, eu passo de segunda chamada para o curso de História na UnB.

Foi um choque. Pensei que ia encontrar uma galera revolucionária e tals, que nada. Tudo coxinha, pior que eu. Pior que eu, dá pra acreditar? Porque pelo menos eu era pobre e queria fazer alguma coisa. A maioria do povo que encontrei só queria saber de cachaça, mulher e futebol. Falar em política numa mesa de bar para eles era uma heresia. Colei com a galera do serviço social. Ali a política era fulminante. Ia pro bar e discutia sobre o governo lula e a corrupção, a traição da esquerda. Mas eu ainda tinha um ódio sinistro dentro de mim.

Ver gente branca, de olhos azuis, que mora no lago sul, falando que a gente devia pegar em armas e fazer a revolução!? (o que eu achava que era o único caminho possível) foi um choque classista violento demais para os meus pobres horizontes de mundo. Meu raciocínio era bem simplezinho:

vei, como uma pessoa que nunca sofreu o que eu sofri pode querer fazer a revolução?

Quem ela pensa que é?

E caso tenha coxinhas lendo, revolução pode ser uma coisa simples como pôr um basta na corrupção. Uma parada tão utópica quanto o comunismo, mas vamos lá.

Daí que eu comecei a me aproximar mais da galera da História e me entreguei as futilidades da vida universitária. Esquecer política, esquecer o ódio, esquecer dos problemas (que estavam diminuindo consideravelmente, lá em casa por exemplo a parede não era mais de reboco e minha mãe tinha conseguido comprar o primeiro carro de madame dela). O negócio era beber, beber até a morte. Fumar muito, rir muito. Ficar louco.

Recomendo que todo mundo em algum momento da vida se deixe levar por esse frenesi dionisíaco, é pesado? é, mas tem algum role meio mágico nessa parada. Os amigos que fiz ali estão no meu coração até hoje, mesmo os que eu não tenho mais contato.

A gente de vez em quando se reúne para jogar RPG

E falar sobre política, sim! Por horas e horas! (acho que a última foi sobre racismo, muito boa)

Enfim, em algum momento que não sei dizer qual, eu virei petista. Agora eu tinha acesso a uma serie de informações que me eram negadas.

Sabe, vou te dar um exemplo prático do role.

Quando a presidenta Dilma disse que a gravação ilegal revelava que o termo de posse era só para o caso do lula não poder vir a Brasília, pense o seguinte: onde está a trabalhadora e o trabalhador quando ela disse isso?

Tavam trampando, muito provavelmente, elas e eles não puderam ver a integra do discurso.

Daí esses trabalhadores chegam em casa e vêem a maravilha do jornal nacional, Willian bonner editando o discurso da presidenta e claramente debochando da explicação oficial.

Assim, eu particularmente achei uma desculpa bem esfarrapada também, mas qual é o papel de uma concessão pública? servir ao público! Não aos seus interesses privados! É preciso buscar intransigentemente a imparcialidade (eu sei que é impossível, to falando de tentar carai). Só que o sem-vergonha não faz isso! Ele passa a idéia para a trabalhadora e o trabalhador de que a presidenta num tem mais respeito por você e ainda que isso seja verdade, aqui vai:

WILLIAM BONNER NÃO SABE A VERDADE.

Em verdade, ninguém sabe, e o papel de alguém que serve ao publico, e era pra globo, veja só, servir ao público, ela serve aos interesses de seus donos, que podem simplesmente não gostar da cara da presidenta. O papel de uma concessão publica é buscar apresentar os dois (ou vários) lados e permitir que a pessoa forme a sua própria opinião a respeito.
Mas a globo não faz isso. E é um role sistemático. É dessa lavagem cerebral que eu tava falando.

NÃO TEM OUTRO LADO.

Olha ai meu ódio voltando. Mas ele conseguiu se acalmar, e pq? Porque o PT era governo e vei, além de acabar com essa desgraça que era a fome, o PT ainda ampliou o acesso a universidade pública, eu sou prova viva disso, entrei em 2007, criou pasta de igualdade racial, combate a violência domestica, pôs a marina silva no meio ambiente por um tempo, ciro gomes na transposição, gil na cultura e uma centena de coisas mais que não to lembrando agora. Meirmã, nem no sonho mais louco tu poderia sonhar com isso. Mas não foi de imediato, eu fui vendo isso aos poucos. Fiquei cego no inicio, mas se você não entrar em pânico, você acaba se acostumando com a luz.

Então estamos aqui, o golpe costurado em 2006, lá em 2006, ta ai outra vez. Agora eu já conheço história. Conheço a versão que me foi negada conhecer. Agora eu sei, e não é difícil entender porque eles não querem que a gente saiba. Porque é muito fácil você montar paralelos com o cenário atual e 64. fácil, fácil. As crises institucionais, o discurso contra corrupção, o medo do comunismo e seus espantalhos: se na época era cuba, união soviética, china, agora é foro de são Paulo, farcs, unicórnio, enfins.

Os golpistas de hoje aprenderam com 64. Os monopólios de comunicação e a plutocracia jamais permitiriam que os militares comandem novamente (há não ser que haja guerra civil).

E nós?

O que nós aprendemos com 64?

Democracia. Numa sociedade capitalista, são os ricos que detém o poder. São deles os meios de comunicação, são eles, seus filhos e parentes, que ocupam as maiores carreiras do funcionalismo público. Eles governam tudo. Por isso nossa democracia é essa coisinha tão frágil. Mas é democracia. Pense o seguinte. Pelo menos, eles tem o pudor de mover o corpo de um jovem negro para outro lugar porque sabe que isso é errado e ele pode ser eventualmente punido por seu assassinato. Numa ditadura, minha amiga, meu amigo, o jovem negro é deixado lá mesmo, no meio da praça, para que todo mundo veja e entenda o recado. (veja Cidade de Deus de novo). É essa a diferença. É pouca? Sem duvida. Mas é essa que temos e é nela, acredite se quiser, que tudo é possível, tipo, operário presidente da república ou uma mulher torturada pela ditadura militar ser comandante das forças armadas num país extremamente machista. Oxe, dá pra fazer altos roles. E é pela democracia que nós podemos denunciar esse genocídio da juventude negra, o feminicídio, a desigualdade social, etc.

Mas nada se faz, alguém diz entre triste e meio enraivecido comigo.

Mentira. É só que é muito pouco e lento porque é democracia. Democracia numa sociedade absurdamente desigual. Por isso a democracia é difícil, porque os atores tem forças diferentes. Você não tem a mesma força que o neto do Roberto Marinho. Ele tem muito mais poder. Mas uma democracia perseguida com inexorável resiliência pode um dia encontrar uma forma de horizontalizar essas diferenças, distribuindo pesos diferentes para atores diferentes. Quer um exemplo prático? COTAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS (Q pra mim nem é o modelo ideal, pq se se assume que a universidade pública não pode atender todo mundo, então que seja por sorteio, mas foi só um exemplo de como a democracia pode se efetivar sobre forças contrárias poderosíssimas).

Eu reconheço que tenho uma ligação mística com a democracia.

Lembre-se: NADA DE PÂNICO.

Lembra daquele negócio fascista que eu falei de provocar e depois de tomar porrada eu sair como superior? Isso é fundamentalmente cristão. É claro que é uma postura distorcida, mas no seu âmago é a busca da paz. Vc pode me provocar, vai fundo, mas se eu não reagir, independentemente do que vc faça comigo, eu sou melhor que você. Cristo era melhor que todo mundo, porque amava todo mundo e perdoava tudo aquilo que ele considerava errado. Coisas praticamente imperdoáveis para a sociedade da sua época, como o adultério por exemplo (o que é fichinha se vc pensar que os evangelhos afirmam que cristo foi capaz de perdoar os próprios torturadores). E o cara se sacrificou por esse ideal. Porque acreditava no amor de Deus Pai.

Morreu por porra nenhuma.

Deus não existia e a sociedade continuou uma bosta fumegante. Mas ainda que esse Deus católico possa não existir, a idéia de Cristo existe. É ela que ao longo do tempo fez as pessoas humanizarem umas as outras. Ou você acha que um bolsonaro da vida, se não fosse o dogma cristão, teria qualquer pudor de colocar um grilhão num negro e sabe-se lá o que mais? O que o impede de ser mais repulsivo do que ele é, é a moral cristã. Não que ele ame o próximo, esse canalha sequer deve saber o que é amor. Mas é essa moral que impede seus surtos fascistas. Dele e dos seus seguidores.

Não entre em pânico. Você não precisa acreditar nessa minha democracia maluca. Acredite na sua. Que seja sem amor. Se existir o respeito pelas diferenças tá tranqüilo, ta favorável.

Mas preciso dizer, pq eu preciso reencantar o mundo. Eu amo. Eu amo o bolsonaro, (não muito, mas eu tento, juro) porque sinto pena dele. Ele não sabe o que faz.

E esse sentimento em mim é pura democracia. Radical. Visceral. Incondicional. Ridícula. Absolutamente ridícula. Dá até pra imaginar o bolsonaro gargalhando disso.

Mas é ridícula tal qual Dostoievski imaginou o sonho do homem ridículo.

Estou concluindo, mas antes permitam-me uma pequena digressão. Alguém já assistiu formiguinhaz? É um ótimo filme, quase um tratado sociológico e filosófico sobre o individuo e a coletividade que coloca no povão a sustentação da sociedade, mesmo que esse povão possa ser facilmente descartado quando se tem vontade. Mas a melhor imagem motivacional ficou com uma outra animação da época, com o mesmo tema, vida de inseto. Quando um gafanhoto deixa cair uma semente sobre a cabeça de outro gafanhoto e pergunta: doeu? Ao ouvir um “não” risonho, o líder dos gafanhotos despeja milhares de sementes em cima dele, soterrando-o.

No dia 20 de março, domingo, na praça da biblioteca nacional, eu participei de uma reunião e o que eu encontrei lá foi isso. Nós. Juntos. A força. Mas não a turba fascista. Democracia.

O evento era organizado pela Luisa Oliveira e o Franklin Rabelo, dois, para mim, notórios ex-militantes do PSTU. A Luisa eu conheci na ocupação da reitoria e o Franklin por causa do grupo fascista enrustido da UnB no facebook.

Vei, eu comentei com uma amiga: Eu vou nesse evento para ouvir. É a galera do PSTU vei, os caras só querem saber das suas vivencias, democracia zero, super potencial fascista.

E lá, mesmo com toda pressão da militância do PSTU, outras pautas surgiram em defesa da democracia, contra o golpe (que o PSTU acredita que não existe pq para eles é só a direita se estapeando, e pior, o PT por sua história na esquerda ainda desmobiliza as bases, avaliação muito válida). Mas, inacreditavelmente, para o meu preconceito chulo e reducionista da humanidade, a galera aceitou as opiniões contrárias e aceitou construir um movimento juntos.

Olha, vou te contar, to arrepiado até agora.

Pq eu admiro vocês. Vocês são tudo que eu quero ser, mas tenho preguiça. A galera que organiza, que se dispõe a perder o fim de semana, que faz de um tudo pelo que acredita. Vei, se tu coloca democracia num negócio desses, então, não tem limites. Pq o único limite da democracia é a própria democracia.

Democracia pra mim é como aquela montanha de ouro que o tio patinhas mergulha. O dinheiro é o sonho dele. A democracia é o meu. Sei que nada sei, e é por isso que eu preciso te ouvir. Nada me deixa mais feliz do que te ouvir e ver outras pessoas se juntarem para fazer o mesmo. Procurar entender. Talvez discordar. Refletir, quiça profundamente. Ouvir outra vez. Democracia é o nirvana orgásmico pra mim.

E aqui vai o que eu quero propor. É bem banal, mas eu espero q vc pense com um pouco mais de seriedade do que eu mesmo consegui fazer aqui (sou sagitariano, não resisto a piadas).

A frente única tai, decidida lá no dia 20, só que eu quero lançar o conceito de DEMOCRACIA PLENA, RADICAL, VISCERAL, INCONDICIONAL E RIDICULA.

O que é isso, bill? (eita brisa pesada)

Agora todos serão ouvidos (não todos né? Quem quiser falar, a gente não tem a vida toda pra perder numa assembléia).

Oxe, vei, isso ja existe doidão, foi o que rolou lá inclusive.

To ligado, mas a questão aqui é Todos. Numa perspectiva fundamentalista.

A maioria prevalecerá? bem, sim. Mas nós da esquerda sabemos que uma democracia não se faz sem respeito as minorias, as diferenças. E nós somos capazes de viver isso. De colocar isso em pratica. Porque nós respeitamos a democracia.

Dia 20 não me deixa mentir.

Mas ela precisa ser também visceral. Radical. Incondicional. Mas sem ilusões, esta será a democracia mais ridícula de todas. Mas também será a única verdadeiramente plena. É preciso levar a democracia para todos os âmbitos da nossa vida. Como? Eu tenho minha ideia, a gente pode se encontrar e discuti-la, que tal?

Publicado: 3 de abril de 2016 por Bill em A Vida
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Quem por acaso pudesse observar Jo nesse momento, de quatro, limpando o vomito do menino Eduardo, pingando de suor (nessa época do ano aqui faz um calor infernal e dona Beth proíbe que o ar condicionado seja ligado quando ela não está em casa), jamais poderia supor que ela é a maior heroína que esse mundo já viu.

E isso porque eu nem falei dos seus 50 e tantos anos, do quase nanismo, da magreza desconcertante ou da pele preta, para não deixar que seu preconceito diminuísse o tamanho dela.

Eu adoraria falar das muitas façanhas dessa senhora. Adoraria. Mas o tempo, por ora, me impede de fazê-lo. Vou me ater a narrar nosso encontro. Foi assustador. Espetacularmente assustador.

Foi assim, eu já trabalhava para dona Beth há uns 10 anos como empregada doméstica (odeio o nome dessa profissão, é como se fossemos bichinhos de estimação). Acompanhei toda a gravidez de dona Beth e até fiquei com ela quando do parto do menino Eduardo. Cuidei dessa criança como o filho que nunca tive e não sei quando, o menino Eduardo começou a agir estranho. Ele não queria dormir no quarto dele de jeito nenhum, nem com luz acesa. Ele abria um berreiro ensurdecedor, tanto que sua voz sumia depois de um tempo, e também se arranhava, chorando tanto que o rosto ficava todo inchado. Ninguém sabia o que fazer e doutor Carlos não suportava o barulho. Saia de casa para não fazer uma besteira. Ele e dona Beth discutiam muito por causa do menino Eduardo, porque doutor Carlos achava que a culpa era dela por sempre fazer tudo que a criança queria. Eu me sentia culpada, porque dona Beth quase não ficava com o filho, se o que o doutor Carlos dizia fosse verdade, a culpada era eu como não. Era por isso que eu achava que não conseguia largar dele. Tentava acalmá-lo de todas as formas possíveis e por fim acabamos arrumando um jeito. Eu fingia que o colocava pra dormir, mas depois de um tempo ele vinha pro meu quarto e antes de amanhecer eu o colocava na cama dele outra vez. Ficamos assim durante um ano e pouco até que eu quebrei a bacia limpando um armário. Daí que indiquei essa senhora Jo que tinha uma filha que estudava com a minha, e que de acordo com essa minha filha, passava por muitas dificuldades.

Disse a dona Beth que encontraria uma mulher de confiança pra tomar conta da casa na minha ausência. Pedi a minha filha que falasse com a senhora Jo, que queria entrevistá-la para um emprego temporário.

No outro dia, ela veio. Tenho que admitir que havia alguma coisa. É claro que não sabia o que era então, mas estava lá. Lembro nitidamente de sentir quando ela cruzou o vão da porta e ouvi a cortina de anéis de latinha tilintarem.

Era uma presença pesada, como se com ela o céu instantaneamente fosse coberto por nuvens negras e o ar ficasse carregado de estática.

Mas era uma senhora muito comum, absolutamente simplória, sendo sua característica mais marcante aparentar ser muito mais velha do que de fato era.

Pedi pra que se sentasse, já imaginando uma forma educada de dispensá-la, pois por mais que me condoesse seu estado, que conclui ser este o motivo das suas dificuldades, não poderia colocá-la na casa de dona Beth e do doutor Carlos sabendo que ela não daria conta do serviço.

Mas, inesperadamente, Jo se recusou a sentar e sua resposta foi ainda mais inesperada e francamente espantosa.

– Não, amiga. Muito obrigada. Mas eu não posso me dar o luxo de relaxar esta coluna. É ela que sustenta o mundo.

E continuou andando pela minha sala, bisbilhotando meus pertences e fotos de família dispostos na estante às minhas costas.

Desconcertada, e tentando voltar para o mundo real, onde as coisas são sólidas e previsíveis, decidi que Jo estava ficando caduca (então o verdadeiro motivo das suas dificuldades) e tentei falar honestamente.

– Minha filha deve ter falado pra senhora que a casa onde trabalho é bem grande.

– O mundo certamente é maior. Este é seu marido?

Ela me empurrou uma fotografia na cara.

– Sim. Ele morreu quando Ana tinha cinco anos.

– Sim, sim. Mas por que ele não está aqui?

– A senhora não me ouviu. Ele morreu.

Ela ficou me encarando com um olhar entre o deboche e o divertimento o que foi completamente absurdo para mim. Se a bacia me permitisse eu teria me levantado e mandado ela embora. Graças a deus que a bacia estava quebrada.

– Olha, infelizmente não acho que a senhora vá dar conta de…

– Senhora Rosana – ela me interrompeu empurrando minha cadeira de rodas para longe – você vai descansar no seu quarto até eu dar um jeito nessa sua sala, obviamente que a senhora não tem muito tempo para cuidar dela, e nesse estado será impossível fazê-lo. Imagino que sua filha deve ser tão preguiçosa quando minha Lúcia. Fique tranqüila. Eu vou dar um jeito em tudo. Descanse.

E fechou a porta do quarto as minhas costas.

Jo foi trabalhar na casa dos meu patrões porque cerca de uma hora depois, em que por 15 minutos eu fiquei batendo na porta do meu quarto, Jo me puxou para uma sala irreconhecível. Aquele foi o meu primeiro momento de transcendência. Jo me mostrou como ficamos quando nossa prioridade é o outro. Entrelinhas, Jo dizia para eu cuidar melhor de Ana.

Enfim, o caso é que mandei Jo para dona Beth sem maiores preocupações (confesso que tinha receio daquele jeito abusado dela). Nem consigo descrever o quanto me fez bem estar fora daquele lugar maldito. Já conseguia relaxar, até ria assistindo Casos de Família com Ana. Nós nunca ficamos tão amigas.

Um dia entretanto, Jo veio bater na minha porta de madrugada. Eu e minha filha abrimos a porta completamente espantadas e curiosas por tão inusitada visita. Mas isto nem se compara com o susto que levei quando vi o menino Eduardo nas costas de Jo. Quase cai pra trás. Foi Ana quem me segurou.

– Depressa suas molengas! Fechem a porta!

Ela jogou o menino Eduardo no sofá e correu pra cozinha. Eu e minha filha fechamos a porta e ficamos em pé no meio da sala, assustadas demais para fazer qualquer outra coisa.

Jo voltou com um pano molhado e colocou na testa do menino.

– Vem cá

– Eu? – Perguntei

– Não, o papa. Você, idiota! Vem, ajoelha aqui

Fiquei de joelhos ao lado do sofá.

– Você sabe o que fazer – disse ela me passando o pano molhado – Não deixe a febre subir. Eu tenho que ir lá salvá-lo.

– Salvar? Quem? O que aconteceu? – perguntei em pânico largando o pano, já temendo o pior.

– Idiota, o menino! O menino!

Ela abaixou pra pegar o pano e deu pra ouvir a coluna estalando de cima a baixo.

– Não deixe a febre subir – ela se sentou no outro sofá e fechou os olhos.

– Que porra é essa? – Ana falou.

– Ana – chamei – Vem cá, o Eduardo ta com febre, fica aqui com ele. Deixa eu resolver isso.

Levantei e chacoalhei a maluca até que ela abriu os olhos.

– Você vai me contar o que está acontecendo se não vou ligar pra policia – disse sem rodeios.

Jo quase chorou. Foi a primeira e única vez que a vi fraquejar.

– Ô menina tola. Tá certo. Você quer ouvir? Tudo bem.

Ela tirou um maço de cigarros do bolso do casaco, puxou um e o acendeu com um isqueiro puxado de outro bolso tão rápido que poderia ter sido mágica.

– Quando você passa muito tempo numa tempestade acaba se esquecendo de como o mar é, na verdade, muito tranqüilo. Você deve ter reparado como está se sentindo melhor, não? Desde que saiu do inferno?

– A casa?

– Sim, tenho certeza de que você sentia, foi por isso que desobedeceu seus patrões, você nunca acreditou que o medo do menino fosse só coisa de criança mimada.

– Não, nunca – a verdade era muito simples. Só era difícil demais lidar com ela.

– Eu não sei qual é a história do lugar. Praticamente todo lugar nesse mundo tem uma história sinistra. Acontece que dependendo do coração de quem reside, o lugar pode se tornar uma antena que sintoniza todo tipo de coisa hedionda e você não acreditaria nos horrores que vagam por aí a noite.

– Espíritos?

– Fantasmas, demônios. Há muitos nomes. O que você precisa saber é que o ódio assim como qualquer sentimento se reproduz e se alimenta de si mesmo. Há muito ódio no nosso mundo. E pessoas de coração vazio são o abrigo perfeito para acolher um rancor que há muito já esqueceu seu ressentimento. Seus patrões, Rosana, são tão ocos quanto esta madeira – envolta em fumaça escura, ela bate três vezes no tampo da mesa – O problema é que os maus, especialmente os maus, adoram uma vida virginal como a do seu menino. Ele sem duvida deve ter brincado com eles, mas logo deve ter visto o que eles são de verdade e se assustou. E é muito assustador mesmo. Alguns simplesmente não conseguem acordar.

– Mas o que ta acontecendo agora – pergunto ao lado do menino Eduardo, que aquém da febre sob controle, parecia ainda lutar contra ela.

– Eu não sei. Ele pode estar em qualquer lugar agora. Está fugindo certamente. Mas para que eles tomem o corpo dele, eles precisam do seu consentimento. Eles só vão parar de persegui-lo quando conseguirem isso. E na maioria das vezes a vítima nem sabe o que eles querem e, infelizmente querida, eles adoram se divertir com isso.

– Então vá ajudá-lo! Por favor! Ajude-o! Me desculpe por favor! Mas ajude-o! Ajude-o!

Jo sorri, cansada. E quando fecha os olhos, vejo uma lágrima escorrer pela pele seca e escura, sem qualquer emoção.

O outro mundo é um mundo de sombras, cheio de escadas, pontes, corredores soturnos e portas, tudo em tamanhos absurdos. Jo já é uma rastreadora experiente. Ela sente o cheiro da inocência no ar. Sobretudo, identifica o odor nauseabundo da salivação de quem está logo atrás dele. Nesse mundo, Jo tem asas. E ela voa rapidamente para onde o menino Eduardo tenta se esconder. Outrora, ele também tivera asas, mas os monstros já o depenaram por completo. O menino agora corre nu, em carne viva, chorando. O seu lance de sorte, se é que se pode falar em sorte do outro lado, é que essas criaturas costumam brigar entre si. Muitas delas já se conhecem. E há montanhas de ódio antigo sob eles. Mas Jo sabe que há um inimigo muito pior. Sabe que ele está dormindo, do contrário seria tarde demais. O homem de chapéu perto desse horror inominável é só uma formiguinha amarela. Mesmo assim, o homem de chapéu é um poderoso adversário e nota a presença de Jo. Ele grita pra sua turba de sombras e elas se reúnem em torno dele porque Jo é um inimigo em comum.

O segredo do poder de Jo é que ela aprendeu há muito, muito tempo, que o ódio não se combate com o ódio. É assim que Jo se entrega a eles. Mas no fim, depois de infinitas violências, é sua resiliência que triunfa. Seus agressores, exaustos, descansam. E a mutilada e deformada Jo segue em seu resgate. O menino Eduardo agora é um velhinho de asas curtas e olhos medrosos. Ele grita ao seu toque, mas Jo não deixa dúvidas do seu amor, e o menino a acolhe num abraço. É ele quem a carrega de volta para o meu lar, cruzando portas, escadas, pontes e corredores sem fim.

Tudo isso em apenas duas horas. Duas horas. Jo me disse que essas horas duram milênios lá.

Eles voltam e sem saber o que se passou, é para o menino que vão os meus cuidados.

Somente muitos anos depois, quando foi minha filha quem teve problemas com esse outro mundo,

que é esse, Jo insiste em dizer isso

“Aquele mundo só existe porque há colunas que o sustentam aqui”

é que ela me contou o que se passou. Jo é a maior heroína que esse mundo já viu. E quando finalmente me recuperei da cirurgia e pude voltar ao trabalho, eu a encontrei limpando o vomito do menino-velho Eduardo (ainda nauseado por tudo o que viveu, Jo diz que a mente inibe as memórias, mas que o corpo se lembra). E foi assim. Imagine, se você pudesse observar essa senhora limpando o chão nesse momento, será que você seria capaz de dizer que está diante da pessoa mais importante do mundo?

Divagações divinas sobre a amizade oculta

Publicado: 27 de novembro de 2015 por Bill em Tudo Mais

Eu possuo uma verdade absoluta: não existe verdade. Sob esta sentença eu me torno deus, e sim, eu posso criar tudo, inclusive paradoxos que me destroem. Daí que independente da existência do mundo à minha volta, sem mim, esse mundo não é nada. É pela minha existência que ele se revela e não o contrário.

E esse mundo revela-se repleto de uma infinidade de violências. Violências que me incomodam, que me assustam, que me machucam, que me entristecem, que me deixam maluco, que me enchem de melancolia e angustia, que me provocam o desejo pela violência e aí existe uma condição que governa minha existência: Eu odeio a violência. Mesmo quando sou eu que a pratico não me sinto bem. Entretanto, a forma como eu experimento a violência está condicionada por esta materialização corpórea, seu lugar, sua língua, sua posição social, pelo meu conhecimento acerca da violência e, em última instância, pela minha disposição de meditar.

Meditar é tentar transcender os condicionamentos que nossa existência nos impõe e como todos estão, alguns mais outros menos, presos pela materialidade da vida e seus meios, meditar é o fogo da sabedoria que Prometeu roubou.¹

O mantra de que “não existe verdade” assume em mim uma postura filosófica que foi muito bem interpretada na ignorância socratiana. É a tentativa de fazer com que a humanidade conheça suas mentiras, sobretudo, do porquê mentir.

Nesta semana a hashtag #MeuAmigoSecreto me fez meditar como há muito eu não meditava. A partir dos inúmeros relatos de mulheres vítimas da violência patriarcal, eu finalmente pude me enxergar como engrenagem do sistema e não só porque pude recapitular meu passado agressor e questionar que tipo de perversidade eu possa estar perpetrando agora, mas mais que isso.

Eu pensei no mal.

Eu sempre expliquei meu passado pela ignorância, afinal, como eu poderia agir de outra forma senão sabia que violento era? Mas conhecendo o terror cotidiano das mulheres pude pensar em mais do que só a hegemonia do discurso machista.

Pensei no mal que nós enquanto sociedade somos ensinados a praticar: o que significa a violência contra a mulher numa sociedade que respira uma infinidade de violências? Como podemos praticar a alteridade quando somos educados para não fazer isso? Nós não partilhamos nossos cobertores com quem tem frio. Não partilhamos nossa comida com quem tem fome. Não partilhamos o conceito de humanidade. Pelo contrário, crescemos para possuir, para ganhar. Logo crianças descobrimos o eu e com ele o meu, que é, a  vontade de possuir, o desejo de ter, o medo de perder e o ódio pelo outro que se projeta como ser cobiçante.

A sociedade patriarcal só endossa na figura do homem cis parte das assimetrias culturais construídas acerca do que é ser humano.

Foi aí que pensei no horror.²

O mal como o conhecemos hoje se manifesta na dor, dor esta construída a partir do ego que sofre. Entretanto, nossa sociedade vive um espantoso escárnio da dor de outrem, o horror. E por que? Se estamos vivendo uma hiperconecção social? Como podemos explicar que parte da sociedade pode ridicularizar a dor mesmo que de parcela significativa de sua população?

A ideia de que a estrutura patriarcal por si só impede que o outro possa sentir compaixão por um testemunho de violência não encontra eco no meu espirito. É como um amigo que acusa o capitalismo pela fome no mundo. Digo que sim, mas só na medida em que a estrutura existe por causa do suporte ideológico que a legitima. Daí que é impossível uma mudança de paradigmas sem abraçar o todo que a contempla. Não é desmerecer o movimento feminista ou qualquer outro como segregador da luta revolucionária, muito pelo contrário, esta reflexão só foi possível por meio dessa manifestação em particular. Assim, na conjuntura de uma análise muito pessoal, que guarda estreita relação com uma vivência apaixonadamente cristã², os movimentos que pregam a empatia precisam compreender o sentido global das suas reivindicações, sem a qual, podaremos uma árvore que continuará a produzir horrores.

Toda vez que lutarmos sem enxergar o horizonte das fronteiras que esta humanidade cria, estaremos libertando um passarinho da gaiola e sobrecarregando os outros cem que lá ficam.³

To cagando regra, eu sei… mas é a lógica divina dos atos: se não existe verdade, você precisa mentir com convicção, senão, quem vai acreditar em você?

PS: Creio que a maioria dos que por acaso lerem estas divagações já terão isso em mente, mas não custa nada reforçar.

¹  E que nunca o possuiu porque meditar é arder.

² O fenômeno da maldade no livro Coração das Trevas de Joseph Conrad

³ Numa postura dostoiévskiana

 

 

Carta aberta à ministra Carmen Lúcia, do STF

Publicado: 26 de novembro de 2015 por Bill em Tudo Mais

“A senhora quer nos envolver em todos os possíveis crimes de Delcídio? A senhora falou pensando em investigação e condenação do ex-presidente Lula, o candidato a respeito de quem se usou o slogan “a esperança venceu o medo”? A senhora já sabe, mesmo sem julgamento, que o Senador Delcídio do Amaral é criminoso, até mesmo antes da manifestação da casa onde ele é parlamentar?

Na fundamentação de seu voto a favor da prisão do aludido senador a senhora asseverou que “ agora o escárnio venceu o cinismo”.

Pergunto se o seu voto não se referia a um senador? Se se referia ao Senador Delcídio do Amaral qual a relação da ironia com os votos de milhões de brasileiros que tiveram esperança de mudar aquela realidade triste de desemprego, de miséria e de pobreza em 2002?”

CartaS e ReflexõeS ProféticaS

Prezada Ministra Carmem Lúcia
Nosso País acordou estupefato com a prisão de um senador da República. Por outro lado, alivio-me com a prisão de um banqueiro, um dos mais ricos do Brasil.
Não guardo intimidade com o pensamento do Senador Delcídio do Amaral em virtude de suas origens políticas, ligadas à privatizações e ao nefasto neoliberalismo. Porém, sua prisão nos coloca sob espanto pelo colorido de arbitrariedade em face da imunidade parlamentar de que gozam os eleitos pelo povo para ocupar cadeira na mais alta casa legislativa.
Perdoe-me, ministra Carmem, por me dirigir a senhora sem o traquejo jurídico próprio dos advogados, já que não sou um e sem a formalidade de um tribunal, já que não pertenço a nenhum.
Aqui tenho o objetivo de questioná-la pelo que disse na 2ª turma do STF ao justificar seu voto na decisão do ministro Teori Zavascki ao ordenar a prisão do Senador…

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