Boa noite GM!

Publicado: 8 de junho de 2009 por Bill em o Universo

Por Michael Moore

Escrevo na manhã que marca o fim da toda-poderosa General Motors.

Quando chegar a noite, o Presidente dos Estados Unidos terá
oficializado o ato: a General Motors, como conhecemos, terá chegado ao
fim.

Estou sentado aqui na cidade natal da GM, em Flint,
Michigan, rodeado por amigos e familiares cheios de ansiedade a
respeito do futuro da GM e da cidade. 40% das casas e estabelecimentos
comerciais estão abandonados por aqui. Imagine o que seria se você
vivesse em uma cidade onde uma a cada duas casas estão vazias. Como
você se sentiria?

É com triste ironia que a empresa que
inventou a “obsolescência programada” – a decisão de construir carros
que se destroem em poucos anos, assim o consumidor tem que comprar
outro – tenha se tornado ela mesma obsoleta. Ela se recusou a construir
os carros que o público queria, com baixo consumo de combustível,
confortáveis e seguros. Ah, e que não caíssem aos pedaços depois de
dois anos. A GM lutou aguerridamente contra todas as formas de
regulação ambiental e de segurança. Seus executivos arrogantemente
ignoraram os “inferiores” carros japoneses e alemães, carros que
poderiam se tornar um padrão para os compradores de automóveis. A GM
ainda lutou contra o trabalho sindicalizado, demitindo milhares de
empregados apenas para “melhorar” sua produtividade a curto prazo.

No
começo da década de 80, quando a GM estava obtendo lucros recordes,
milhares de postos de trabalho foram movidos para o México e outros
países, destruindo as vidas de dezenas de milhares de trabalhadores
americanos. A estupidez dessa política foi que, ao eliminar a renda de
tantas famílias americanas, eles eliminaram também uma parte dos
compradores de carros. A História irá registrar esse momento da mesma
maneira que registrou a Linha Maginot francesa, ou o envenenamento do
sistema de abastecimento de água dos antigos romanos, que colocaram
chumbo em seus aquedutos.

Pois estamos aqui no leito de morte
da General Motors. O corpo ainda não está frio e eu (ouso dizer) estou
adorando. Não se trata do prazer da vingança contra uma corporação que
destruiu a minha cidade natal, trazendo miséria, desestruturação
familiar, debilitação física e mental, alcoolismo e dependência por
drogas para as pessoas que cresceram junto comigo. Também não sinto
prazer sabendo que mais de 21 mil trabalhadores da GM serão informados
que eles também perderam o emprego.

Mas você, eu e o resto
dos EUA somos donos de uma montadora de carros! Eu sei, eu sei – quem
no planeta Terra quer ser dono de uma empresa de carros? Quem entre nós
quer ver 50 bilhões de dólares de impostos jogados no ralo para tentar
salvar a GM? Vamos ser claros a respeito disso: a única forma de salvar
a GM é matar a GM. Salvar a preciosa infra-estrutura industrial, no
entanto, é outra conversa e deve ser prioridade máxima.

Se
permitirmos o fechamento das fábricas, perceberemos que elas poderiam
ter sido responsáveis pela construção dos sistemas de energia
alternativos que hoje tanto precisamos. E quando nos dermos conta que a
melhor forma de nos transportarmos é sobre bondes, trens-bala e ônibus
limpos, como faremos para reconstruir essa infra-estrutura se deixamos
morrer toda a nossa capacidade industrial e a mão-de-obra
especializada?

 


que a GM será “reorganizada” pelo governo federal e pela corte de
falências, aqui vai uma sugestão ao Presidente Obama, para o bem dos
trabalhadores, da GM, das comunidades e da nação. 20 anos atrás eu fiz
o filme “Roger & Eu”, onde tentava alertar as pessoas sobre o
futuro da GM. Se as estruturas de poder e os comentaristas políticos
tivessem ouvido, talvez boa parte do que está acontecendo agora pudesse
ter sido evitada. Baseado nesse histórico, solicito que a seguinte
ideia seja considerada:

1. Assim como o Presidente Roosevelt
fez depois do ataque a Pearl Harbor, o Presidente (Obama) deve dizer à
nação que estamos em guerra e que devemos imediatamente converter
nossas fábricas de carros em indústrias de transporte coletivo e
veículos que usem energia alternativa. Em 1942, depois de alguns meses,
a GM interrompeu sua produção de automóveis e adaptou suas linhas de
montagem para construir aviões, tanques e metralhadoras. Esta conversão
não levou muito tempo. Todos apoiaram. E os nazistas foram derrotados.

Estamos
agora em um tipo diferente de guerra – uma guerra que nós travamos
contra o ecossistema, conduzida pelos nossos líderes corporativos. Essa
guerra tem duas frentes. Uma está em Detroit. Os produtos das fábricas
da GM, Ford e Chrysler constituem hoje verdadeiras armas de destruição
em massa, responsáveis pelas mudanças climáticas e pelo derretimento da
calota polar.

As coisas que chamamos de “carros” podem ser
divertidas de dirigir, mas se assemelham a adagas espetadas no coração
da Mãe Natureza. Continuar a construir essas “coisas” irá levar à ruína
a nossa espécie e boa parte do planeta.

A outra frente desta
guerra está sendo bancada pela indústria do petróleo contra você e eu.
Eles estão comprometidos a extrair todo o petróleo localizado debaixo
da terra. Eles sabem que estão “chupando até o caroço”. E como os
madeireiros que ficaram milionários no começo do século 20, eles não
estão nem aí para as futuras gerações.

Os barões do petróleo
não estão contando ao público o que sabem ser verdade: que temos apenas
mais algumas décadas de petróleo no planeta. À medida que esse dia se
aproxima, é bom estar preparado para o surgimento de pessoas dispostas
a matar e serem mortas por um litro de gasolina.

 

Agora que o Presidente Obama tem o controle da GM, deve imediatamente converter suas fábricas para novos e necessários usos.

2.
Não coloque mais US$30 bilhões nos cofres da GM para que ela continue a
fabricar carros. Em vez disso, use este dinheiro para manter a força de
trabalho empregada, assim eles poderão começar a construir os meios de
transporte do século XXI.

3. Anuncie que teremos trens-bala
cruzando o país em cinco anos. O Japão está celebrando o 45o
aniversário do seu primeiro trem bala este ano. Agora eles já têm
dezenas. A velocidade média: 265km/h. Média de atrasos nos trens: 30
segundos. Eles já têm esses trens há quase 5 décadas e nós não temos
sequer um! O fato de já existir tecnologia capaz de nos transportar de
Nova Iorque até Los Angeles em 17 horas de trem e que esta tecnologia
não tenha sido usada é algo criminoso. Vamos contratar os desempregados
para construir linhas de trem por todo o país. De Chicago até Detroit
em menos de 2 horas. De Miami a Washington em menos de 7 horas. Denver
a Dallas em 5h30. Isso pode ser feito agora.

4. Comece um
programa para instalar linhas de bondes (veículos leves sobre trilhos)
em todas as nossas cidades de tamanho médio. Construa esses trens nas
fábricas da GM. E contrate mão-de-obra local para instalar e manter
esse sistema funcionando.

5. Para as pessoas nas áreas rurais
não servidas pelas linhas de bonde, faça com que as fábricas da GM
construam ônibus energeticamente eficientes e limpos.

6. Por
enquanto, algumas destas fábricas podem produzir carros híbridos ou
elétricos (e suas baterias). Levará algum tempo para que as pessoas se
acostumem às novas formas de se transportar, então se ainda teremos
automóveis, que eles sejam melhores do que os atuais. Podemos começar a
construir tudo isso nos próximos meses (não acredite em quem lhe disser
que a adaptação das fábricas levará alguns anos – isso não é verdade)

7.
Transforme algumas das fábricas abandonadas da GM em espaços para
moinhos de vento, painéis solares e outras formas de energia
alternativa. Precisamos de milhares de painéis solares imediatamente. E
temos mão-de-obra capacitada a construí-los.

8. Dê incentivos
fiscais àqueles que usem carros híbridos, ônibus ou trens. Também
incentive os que convertem suas casas para usar energia alternativa.

9.
Para ajudar a financiar este projeto, coloque US$ 2,00 de imposto em
cada galão de gasolina. Isso irá fazer com que mais e mais pessoas
convertam seus carros para modelos mais econômicos ou passem a usar as
novas linhas de bondes que os antigos fabricantes de automóveis irão
construir.

Bom, esse é um começo. Mas por favor, não salve a
General Motors, já que uma versão reduzida da companhia não fará nada a
não ser construir mais Chevys ou Cadillacs. Isso não é uma solução de
longo prazo.

 

Cem
anos atrás, os fundadores da General Motors convenceram o mundo a
desistir dos cavalos e carroças por uma nova forma de locomoção. Agora
é hora de dizermos adeus ao motor a combustão. Parece que ele nos
serviu bem durante algum tempo. Nós aproveitamos restaurantes
drive-thru. Nós fizemos sexo no banco da frente – e no de trás também.
Nós assistimos filmes em cinemas drive-in, fomos à corridas de Nascar
ao redor do país e vimos o Oceano Pacífico pela primeira vez através da
janela de um carro na Highway 1. E agora isso chegou ao fim. É um novo
dia e um novo século. O Presidente – e os sindicatos dos trabalhadores
da indústria automobilística – devem aproveitar esse momento para fazer
uma bela limonada com este limão amargo e triste.

Ontem, a último sobrevivente do Titanic morreu. Ela escapou da morte certa naquela noite e viveu por mais 97 anos.
Nós
podemos sobreviver ao nosso Titanic em todas as “Flint – Michigans”
deste país. 60% da General Motors é nossa. E eu acho que nós podemos
fazer um trabalho melhor.

Enfim

Taí o desabafo de um cara que é o sinônimo da contradição humana: estadunidense e comunista??
O
barbudão fez o melhor documentário que eu já vi: Sicko. É um crítico
sagaz do capitalismo, e principalmente de suas idiossincrasias sociais
em sua face mais nefasta, o texa(c)o Bush.

Mas, entaum, o fim da
GM. A General Motors Inco. reprensenta o ideal estadunidense, de que
aquilo feito por eles é sempre o melhor. A GM propiciou aos EUA o posto
de maior fabricante de carros do mundo. Ícone absoluto da
individualidade íntrinseca ao capitalismo. O automóvel, como força
motora do capitalismo industrial do aço, havia surgido para suprir uma
demanda do comércio que explodia e precisava de velocidade para se
expandir. Inicialmente, a locomotiva. Mas a genialidade viria com a
criação da locomotiva pessoal: o carro. Ao mesmo tempo em que puxava a
industria do aço, alimentava os governos, incutia o sentimento de
status mesmo sem as faraônicas propagandas de hoje. O carro, fruto de
um ventre que atendia uma demanda, nasce para encurtar as distancias
humanas, conferindo liberdade a locomoção. O carro era  o produto
capital que garantia o direito de ir e vir. A História não deixa de ser
irônica. A máquina que servia o homem, hoje o tem por escravo. A
falência da GM fez o governo estadunidense dispensar bilhões para
garantir a sobrevida da empresa. Valendo da máxima de privatizar os
lucros e socializar as perdas. E que perda é a GM. A gigante
automobílistica já estava inchada pelo seu nome.  Bônus salariais
conferidos a executivos inversamente proporcionais as taxas de vendas
nas concessionárias, talvez exauridas em sua quantidade. Enquanto as
ações da GM iam a lona no Dow Jones, seus executivos estavam de férias
no Hawai.

Tornando ao carro. Em metrópoles como São Paulo, nos
horários de pico chega-se ao absurdo de ir mais rápido a pé que a
quatro rodas. Não, vc não leu errado. A PÉ MESMO. A cada mês é batido
um novo recorde de congestionamento, que nem os rodízios dão conta de
diminuir, 120 km foi o último. A lógica é objetiva e implacável. Com
cinco mil novos carros nas ruas todos os dias não há outro resultado
nessa equação. E aqui, estamos falando até agora da praxis. Nem
chegamos  às dicurssões a respeito do aquecimento global, políticas de
alargamento de estradas de encontro ao transporte público (num círculo
vicioso de mais e mais carros), poluição sonora e visual, doenças
respiratórias (sinônimo do mal urbano) que lotam hospitais públicos.
“Acidentes”. O carro mata mais do que qualquer arma de fogo já criada
pelo homem. Walker Colt sentiria inveja.

O fim da GM é um marco
do capitalismo insustentável. Marco de um produto que não atendia mais
há um fim. Mas pela própria existência. O meio pelo meio. De um
capitalismo negro, que antes era fantasmagórico em suas fábricas a
carvão e que depois foi pintado em cores alegres por Ford. Um
capitalismo que satirizado por Chaplin criara a linha de produção. Sem
intervalos. O carro não pode parar, mesmo que não haja mais estradas
para rodar.

O engraçado disso tudo é que não foi só o colapso
desse capitalismo industrial desregulado. A GM é só mais uma a cair
diante da crise especulativa do capitalismo financeiro. Há muito que a
GM não cresce em produtividade. Seu crescimento nos anos 2000, uma
grande escalada na bolsa, se deu pelas recentes aquisições como a FIAT,
no entanto, numa escala real pouco se fez. As fábricas passaram a ser
usadas como plataformas para venderem ações quando matinham o mesmo
patamar de produtividade antes da venda para a GM, na verdade fábricas
no México por exemplo foram sucateadas em 4 anos pela falta de
investimentos. A crise financeira que tanto se alardeou ter seu sintoma
mais grave na bolha imobiliária, mostrou sua face mais assutadora não
com os créditos podres mas em seu alcance universal. O capital
especulativo não era só papel do Lehman Brothers, mas de toda uma
conjuntura de mercado, que pulava de ação em ação, numa troca louca em
que o lucro se perdia, imaterial, etéreo. Que em segundos se apagou com
o estouro da crise.

Hoje a GM é uma sombra pálida e sem graça do
colosso dos anos 50, 60, 70. Seu fim é o fim também de uma geração que
viveu o auge do capitalismo globalizado. Uma geração que acreditava ser
possível unir todos os povos pela força de mercado. Independente de
culturas, seja indiano ou brasileiro, todos teriam uma garagem para
colocar seus carros. A GM levou empregos, exportou capital, enriqueceu
e mudou o mundo. Agora que percebemos que nem todos os seres-humanos
poderão ter um carro, pelo simples motivo de que não há espaço para
todo mundo, a GM se dispede e com ela se vai um futuro onde cada um
poderia cultivar o sonho de ser estadunidense.

O American Dream se mostra um pesadelo

Moore
nesse sentido é um sonhador por acreditar que uma grande corporação (e
aqui falo de toda uma conjuntura corporativista que consegue até mesmo
eleger uma cadeira como presidente da maior economia do planeta,
leia-se bush) vá se render aos interresses públicos quando o proprio
Estados Unidos é a maior mostra dos interesses privativistas de uma
pequena parcela da população. Uma parcela muito bem-sucedida diga-se de
passagem. Simples assim. O Lehman falido até o pescoço é salvo pelo
Federal Reserve quando milhares de estadunidenses perdem suas casas.
Mas tal coisa é amparada pela lei. Um banco falido que não pode cumprir
seus contratos tem o direito de exigir o mesmo de você. A diferença é
que o Estado está do lado de lá. E veja, faz sentido. Se o Estado não
assegurar a vida do banco ele não poderá pagar suas dívidas, não poderá
pagar seus acionistas, e obviamente não poderá conceder crédito. Ou
seja, todo o sistema irá a falência. (Observem que foi o que quase
aconteceu quando se descobriu a abrangência dos subprimes, uma cadeia
sem fim de créditos podres). É por isso que o sonho de Mike é pueril.
Parar de produzir carros é como parar de produzir cigarros. Todos sabem
que mata, mais cedo ou mais tarde. No entanto é impossível parar porque
o sistema de saúde privado precisa do cancêr para existir, pois tratar
algo como a aids por exemplo, dá prejuízo.

 


bill,
o que ele faz? Faz História na Universidade de Brasília, é além de
historiador, professor marxista, entusiasta da vida, doutor em
ciências ocultas, mestre em astrologia satânica, missionário de Nosso
Senhor Nosso, frequentador do HPAP, flamenguista, cinéfilo,
sagitariano, quase-gay (não fosse sua tão reconhecida virilidade
masculina), otaku, amante fervoroso, adepto de todo tipo de filia, alcóolatra assumido e
apaixonado pela arte do questionamento, um comunista. Tonto, divertido y dulce.
Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!


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