A Troca de Papéis

Publicado: 21 de setembro de 2009 por Bill em A Vida
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A Troca de Papéis: As mulheres estão se
masculinizando enquanto os homens fazem as unhas.

Enquanto você
ergue o seu coração eu tento esconder o meu…

Nas últimas
décadas deste século, assim como nas últimas décadas do século passado –
períodos de grande mudança socio-econômica no país, o fenômeno da
desestabilização das fronteiras simbólicas entre os sexos pode ser facilmente
percebido. São inúmeras as referências ao “fim dos tempos”, ao caos
que se aproxima com homens se afeminando e mulheres se masculinizando, com a
maior visibilidade do homossexualismo e da prostituição, com a liberação
sexual, com a AIDS, etc. Há insegurança quanto ao futuro, medo de uma possível
androginia generalizada, de uma bissexualização de toda humanidade. O que dizer
a respeito das manifestações de inquietação e até indignação frente a Fernando
Gabeira em tanga de crochê, ou diante de Leila Diniz grávida, de
biquíni, num completo desrespeito à “instituição da maternidade”?

As reações da
época, no geral, eram manifestas através de expressões do tipo “Aonde nós
vamos parar?!” ou mesmo “É o fim do mundo!!”. E a imprensa neste
período, principalmente os jornais feministas e as revistas femininas são
especialmente sensíveis a estas transformações nos papéis sexuais.

Este medo é
causado pela desestabilização das fronteiras simbólicas entre os sexos, ou
seja, pela alteração nos padrões de masculinidade e feminilidade vigentes. Essa
desestabilização ocorre quando os papéis socialmente construídos para o homem e
para a mulher em uma determinada sociedade se modificam e chegam até a se
confundir, tornando os limites entre o tipicamente masculino e o tipicamente
feminino quase que imperceptíveis. Ora, se já não se pode mais diferenciar o homem
da mulher e vice-versa, qual será o futuro da humanidade?

Vale ressaltar que
quando me refiro a papéis ou padrões de comportamento masculino e feminino,
estou falando de imagens, de discursos normativos, de estereótipos socialmente
construídos sobre o que é ser homem e o que é ser mulher em um determinado
contexto, e não sobre a mulher ou o homem como categorias universais, OU SEJA
BRUNA, falo do 4º personagem da professora do Hiury: a sociedade.

E de como esses
papéis são imagens de uma dada sociedade em um período específico, são também
passíveis de transformações conforme esta sociedade se altera.

Seria
inimaginável, há cem anos, pensar em uma mulher de cabelos curtos, de calças
jeans (unissex), trabalhando e se expressando livremente no espaço público como
faz o homem, tal como é a imagem feminina largamente difundida a partir dos anos
70 pela imprensa brasileira, principalmente pelas revistas femininas como
Cláudia, Mais, Nova e Desfile; seria também impensável um homem com cabelos
longos, roupas coloridas, brincos, cuidando de uma criança ou cozinhando.

Socorro Maria da
Penha!!!

Mas, e o
feminismo? Em que as reivindicações feministas e o movimento de emancipação da
mulher desestabilizaram as fronteiras simbólicas construídas entre os sexos?
Vários autores que abordam o tema da alteração nos padrões de identidade sexual
concordam que o feminismo com suas reivindicações de igualdade entre homens e
mulheres e com sua crítica à sociedade patriarcal burguesa contribuiu, e muito,
para as crises das identidades sexuais.

Na medida em que o
movimento feminista colocou em questão a ordem social-patriarcal vigente e
buscou a igualdade das mulheres frente aos homens, ele acabou por questionar
também as noções de masculinidade e feminilidade. Seria o homem, como até então
se achava, superior à mulher, mais inteligente, mais racional, mais prático?
Seria a mulher só beleza, maternidade, submissão, docilidade e afeto? Tudo isso
a partir das primeiras reivindicações feministas no início do século e
posteriormente com o “movimento feminista organizado” nos anos 70, passou
a ser questionado, e a mulher (em especial a feminista) não mais se enquadrou
nesta antiga imagem de feminilidade, passando a procurar então uma nova
identidade para si.

O próprio homem,
na medida em que vê a emancipação feminina e sua entrada no espaço público, que
antes do feminismo era por excelência masculino, passa então a se questionar e buscar,
ele também, redefinir-se, tendo em vista a nova imagem feminina que surge – o
“Marlboro Man” dá lugar ao “soft man” – um sacrilégio,
claro.

Alguns trabalhos
recentes vêm discutindo este tema mostrando como as alterações sociais e
culturais causadas pela modernidade, pelo feminismo, pelo homossexualismo em
evidência e por muitos outros fatores abalam as identidades sexuais, fazendo
com que a sociedade revele seu medo diante da quebra das demarcações entre os
sexos.

Eu não posso amar.
Não posso amar. Não posso…

O feminismo,
ainda, além de colocar em xeque a masculinidade, acaba por (voluntária ou
involuntariamente) desorganizar as referências da feminilidade. Na busca de uma
nova identidade feminina que fuja dos estereótipos de inferioridade frente ao
homem, as feministas acabam por serem vistas (e até mesmo incorporar tal
imagem) como não-femininas, como não-mulheres, ou a ‘mulher-macho’.

Quais as imagens
tipicamente femininas do nosso tempo? Que mulher é essa, que
compõe, estuda, trabalha, cuida da família, educa os filhos, quer votar, faz greve
dos ventres, prostitui-se, torna-se musa modernista, é anarquista e
melindrosa? Ou melhor, que mulheres são estas? Qual a identidade da
mulher brasileira?

Difícil delimitar.

Ei cuidado aí
mulher… vai com calma pô…

Em 1994, a cantora Rita Lee
lança a música “Todas as Mulheres do Mundo”, que se inicia com a
frase “Elas querem é poder” e tem o sugestivo refrão:

“Toda mulher
quer ser amada

Toda mulher quer
ser feliz

Toda mulher se faz
de coitada

Toda mulher é meio
Leila Diniz.”

De lá para cá, o
que aconteceu com a mulher brasileira? Será que elas querem mesmo é poder, que
são todas “meio Leila Diniz”? Difícil dizer…

Os homens, agora,
querem ser vistos enquanto um dos gêneros e não mais como o Homem – ser
universal. Esta crise de masculinidade, aqui no Brasil, deixa-se transparecer
em artigos de revistas femininas e de jornais feministas. O artigo do
economista Aloízio Mercadante demonstra essa perda da identidade sexual
masculina e a conseqüente crise de masculinidade pela qual os homens passaram
pós-feminismo:

Ei, Lenny, essa é
pra vc:

“(…) E nós
homens? A identidade de ‘ser homem’ nos estreitos limites que o machismo nos
impõe não nos transforma em opressores e oprimidos? Tem sido difícil amar
nesses tempos, e impossível crescer afetivamente na camisa de força do machismo.

(…) Ser macho é
pobre, é triste, é cinza. Quando nossa imagem de macho se vê ameaçada é um
pavor tão incrível que só podemos virar ‘lobisomem’ – meio homem, meio bicho.
Então somos capazes de bater, espancar e com uma certa freqüência até matar ‘a
mulher que amamos’.

Na Torre de Babel
da intelectualidade, os instrumentos de poder e de dominação já se sofisticaram.
Como não conseguimos admitir o desejo de nossas companheiras por outro, matamos
afetivamente e o desprezo dá

lugar à violência
física. A alternativa? Tem sido a falsa segurança das gaiolas de ouro que
asseguram nossos casamentos, e que em regra tem transformado a possibilidade de
uma relação a dois em um marasmo afetivo sem qualquer poesia. (…) Que
privilégios são esses que nos fazem estrangeiros no mundo feminino? Não dá mais
para responder com piadinhas e gracejos às tentativas de reconstruirmos nossas
identidades – homens e mulheres. E assumirmos a afetividade, carinho, sensibilidade,
não creio que seja assumirmos nosso lado mulher, não creio que ternura tenha
que ser monopólio de ‘ser mulher’.

O feminismo tem
apontado esses problemas, mas muitas vezes nos ameaça e não nos transforma.
Temos estado paralisados, atônitos diante da vontade de crescer e se libertar
das mulheres. Mas também temos algo a dizer, há que assegurá-lo.”

MERCADANTE,
Aloízio. “Ser macho é cinza”, in Mulherio, n. 07. São Paulo,
jul.-ago. 1982.


Será que há algo
de mais inquietante à masculinidade do que Fernando Gabeira desfilando
em tanga de crochê, ou mesmo a atitude irreverente e liminar (entre o
homossexual e o heterossexual) de Caetano Veloso? Por que o homem que se mostra
sensível é gay?

Por que temos que
provar a todo instante nossa masculinidade?

 

E aê? Tá afim?

O Homem que não
pode ser homem. Que paradoxo é esse? Que novo homem é esse que se ergue no
horizonte do séc. XXI?

Ao longo das eras
temos nos escondido sob suas saias. São elas nossas mestras, é do seu seio
nosso primeiro alimento. É a ela que dirigimos nossas primeiras palavras. Do
seu apoio damos os primeiros passos e seguimos sós. Nós as escravizamos porque
temos consciência de seu poder. O feminismo veio destruir séculos de opressão à
identidade feminina. Mostrar que independente de gêneros, somos todos humanos. A pergunta que se faz agora é:


Nós, homens, podemos chorar agora?

bill, o que ele faz? Faz História na Universidade de Brasília, é além de historiador, professor marxista, entusiasta da vida, doutor em ciências ocultas, mestre em astrologia satânica, missionário de Nosso Senhor Nosso, frequentador do HPAP, flamenguista, cinéfilo, sagitariano, quase-gay (não fosse sua tão vexada essencialidade heterossexual), otaku, amante fervoroso, adepto de todo tipo de filia, alcóolatra assumido e apaixonado pela arte do questionamento, um comunista. Tonto, divertido y dulce. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!

 

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