A Pessoa Certa

Publicado: 31 de outubro de 2010 por Bill em A Vida, Tudo Mais
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“O sucesso do casamento é muito mais do que encontrar a pessoa certa; é uma questão de ser a pessoa certa.” – B. R. Bricker

 

O elemento mais comum no imaginário amoroso das pessoas do séc. XXI
é, talvez, o da “pessoa certa” ou “the one”. Estou cansado de ouvir
frases assim: “Ainda não encontrei a pessoa certa” ou
“Será ele o cara certo para mim?”. A “pessoa certa” para quem, para o
quê? Para o grande “eu”, foco de nossas atenções. Para a
importantíssima “minha felicidade”, claro.

 

Quase lá…

A pessoa certa é aquela cujos atributos se acoplam perfeitamente com
todos os nossos desejos, hábitos, vícios e peculiaridades. Se sou
carente, quero um superprotetor traumatizado (traído da última vez que
ficou ausente). Se gosto de vinho, adoraria um homem que seja quase um sommelier. Se sou fascinado por peitos, uma mulher tábua não me serviria.

Se vc pensar assim meu amigo, o seu horizonte será assim…

 

Vai chorar agora?

Tal lógica seria perfeita em um mundo intocado pela impermanência. O
problema é que nossas preferências, hábitos e desejos mudam a todo
instante. Já tivemos nossas fases gastronômica, carente, acadêmica,
cultural, caseira… E assim fomos trocando de parceiros. A situação a
que chegamos hoje é simples de resumir: além das relações líquidas, as
que tentam ser duradouras dificilmente escapam de situações de traição,
adultério e muita, muita dor.

O que aconteceria se invertêssemos essa lógica? Se, em vez de procurarmos pela pessoa certa, tratássemos de ser a pessoa certa?

A lógica do oferecer

Uma boa metáfora para contrastar as duas abordagens: se estiver em
dúvida entre duas pessoas, não escolha a mais engraçada, mas a que ri
de suas piadas. Ou seja, não escolha a que tem mais a lhe proporcionar,
e sim aquela que mais pode se beneficiar com o que você tem a oferecer.

Não tenha medo de amar

Jogue-se.

Em vez de focar suas energias em encontrar alguém belo, contemple
seu próprio corpo e faça surgir beleza dele. Em vez de ficar esperando
por alguém inteligente, apenas distribua sua inteligência para qualquer
um. Seja a pessoa certa, sem esperar resultados ou retribuições de
qualquer tipo.

Se você é mulher, não busque olhares. Irradie aquilo que você não
precisa de espelhos para ter a existência confirmada. Se é homem, não pense que o amor é aquilo que você recebe. Seu amor é aquilo que você oferece. Isso ninguém tira, isso você leva junto para onde for, essa eu aprendi da maneira mais escrota de todas: se apaixonando.

Reconhecendo a impermanência (sem fugir ou ignorá-la), podemos amar
com liberdade. Renunciamos a realização de nossos impulsos neuróticos,
largamos os ganchos e oferecemos nossas habilidades para o deleite de
nosso parceiro. Na verdade, é isso que sempre desejamos, sem saber como
realizar.

Após um fim de namoro dolorido, nossa felicidade não surge quando
descobrimos que podemos ser amados novamente. Sentimos a vida pulsar
apenas quando descobrimos que podemos amar outra pessoa. É a capacidade
para o amor que nos alegra. Nossa felicidade não vem do outro tanto
quanto vem de nossa própria potência inata de amar e produzir
felicidade em todas as direções.

O amor livre como um antídoto ao adultério

Algumas pessoas que já me ouviram falar em “desvincular o amor do amado”, ao propor algo que às vezes o que chamo de amor livre,
reagem com um desconforto e defendem a fidelidade monogâmica – como se
“amor livre” significasse poligamia ou justificasse o adultério. Acusam-me de contradição. Oras… pelo
contrário, uma pessoa só trai porque se sente incapaz de reconstruir o
amor, curar a relação, sentir-se viva novamente diante do outro e,
assim, fazê-lo renascer diferente. Já comentei antes: traição é antes uma ofensa a si mesmo do que ao seu parceiro.

 

Eu só quero suas mãos… nada mais

 

Na verdade, o amor é livre de fixações, livre de personagens, livre
até mesmo dos parceiros que os manifestam. Se depender dos
condicionamentos que o trazem à tona, ele terminará quando o casal
afundar. Mas o amor oferecido não cessa, não é mesmo? Ele é amplo,
vasto, todo abrangente. O amor recebido, este sim cessa.

Qual não é nossa surpresa quando percebemos que, logo após o fim,
seguimos com a potência de trazer felicidade ao outro? O amor não cessa
pois ele é essa abertura ao outro, essa capacidade de oferecer,
oferecer, oferecer. Se podemos sempre oferecer, é sinal que sempre
temos amor, mesmo quando parece que ele nos foi arrancado de dentro do
peito.

 

Recado para os homens

Faça-me um favor. Descubra logo que você pode conquistar e amar
qualquer uma. Porque eu sei que embaixo dessa crosta de mal incontida brucutez há um ser incrivelmente sensível, sendo a única diferença para os gays a escolha sexual. Seja você rico ou pobre, feio ou bonito, você tem tudo o
que é necessário para fazer qualquer mulher feliz. Basta liberar seu
amor, sem fixações, hesitações ou dúvidas. Enquanto não perceber que
seu amor é livre, você continuará testando-o com várias. Enquanto
sentir seu amor acabar, você terá de dormir com outras garotas para
resgatar sua potência vital.

Pare de chorar por um colo. Ofereça um colo à alguém. Doe-se.

Esse é um conselho que eu demorei para entender…

Uma
vez solto, canalize tudo em apenas uma mulher (a menos que você
realmente consiga fazer duas felizes sem causar complicações, o que
hoje duvido ser possível em nossa sociedade). Depois, tome cuidado para
não confundir foco com fixaçãoSeu amor nunca será dela para que sempre seja dela, momento a momento, em um processo incessante de escolha e liberdade.

Assim que você vincular seu amor a ela, ele parecerá surgir de fora
e você o sentirá como vindo dela para você. É nesse momento que você
pára de oferecer, ou seja, pára de amar. Quando a relação acabar, você
terá a certeza de que ela levou seu coração, apagou o Sol e deixou a
sala vazia, sem amor algum. É esse o outro lado da “pessoa certa”.

 

Sugestão para as mulheres

De uma vez por todas, sinta-se inteira como sendo o amor que você busca nos olhares e espelhos do mundo. Você já é aquilo que espera ouvir de um homem. Você
já está na ilha paradisíaca de seus sonhos, abraçada e acariciada com
declarações de amor. No momento em que você sente que precisa de amor,
a carência inunda seu corpo até o ponto em que você precisará de outro
olhar para voltar a ser bela.

Para você também: seu amor nunca será dele para que seja sempre
dele. Enquanto você transpirar amor por todo lado, terá o que oferecer
e portanto poderá ser totalmente dele. No instante, porém, que você
precisar dele para respirar, você não mais conseguirá oferecer e terá
de exigir o amor dele.

Você se lembra dos momentos em que mais foi feliz e aberta? Na
maioria deles, havia um outro em cena? Sem querer, vinculamos todas
essas sensações a uma ou outra pessoa. Se elas deixarem de proporcionar
essas sensações, você será obrigada a buscar um outro que resgate todas
as alegrias e toda a beleza que você já vivenciou. Um outro homem que
veja beleza em você e movimente tudo aquilo que você desconfia da
existência mas não sabe bem como encontrar.

Durante essa busca por amor, você fará muitos homens sofrer. O
primeiro vai olhar e revelar beleza. O segundo revelará ainda mais. O
terceiro a levará para locais que os dois primeiros nunca sequer
vislumbraram. O quarto finalmente a fará mulher. O quinto ensinará
todos os prazeres do sexo. O sexto…

Até quando? Quando chegará o “The
One”?

 

Permita-se um abraço. Às vezes o amor está mais perto do que se imagina…

 

Sinta agora seu corpo, inspire sua beleza, deite-se sobre a
certeza de que você já é mulher. Totalmente, inteiramente,
deliciosamente mulher. Como a face feminina do amor, ofereça-se ao
mundo de corpo e alma.

Já mencionei que acredito no casamento aqui. Casamento como algo sério (SÉRIO), para se construir um amor e não encontrar a pessoa certa. Viva e deixe que ela/ele chegue até você. Permita-se. É esse meu desejo para todos os casais. Homens e mulheres completos,
um oferecendo ao outro aquilo que nenhum precisa, aquilo que ninguém
nunca quis ou pediu. Amor necessário é horrível. Amor bom é igual arte: inútil, completamente descartável… e belo.

 

Uhhhhmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!

 

 

 

bill, o que ele faz? Faz História na Universidade de Brasília, é além de historiador, professor marxista, entusiasta da vida, doutor em ciências ocultas, mestre em astrologia satânica, missionário de Nosso Senhor Nosso, frequentador do HPAP, flamenguista, cinéfilo, sagitariano, quase-gay (não fosse sua tão vexada essencialidade heterossexual), otaku, amante fervoroso, adepto de todo tipo de filia, alcóolatra assumido e apaixonado pela arte do questionamento, um comunista. Tonto, divertido y dulce. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!

 

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