Os tsunamis da vida e as raízes da imobilidade

Publicado: 12 de abril de 2011 por Bill em A Vida
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Em certos momentos da vida, precisamos de um tsunami. Ficamos acomodados, entediados, preguiçosos e covardes. Não estou gostando de como as coisas estão indo, mas estou por demais atarefado para me dar ao luxo de me preocupar com algo tão fútil como o meu desagrado.

Então você está sentado, é seu horário de almoço, mas você está sem fome. Espreguiça-se em sua cadeira confortável, sua mesa é grande, você é um cara importante. Tem até ar-condicionado no seu escritório! Há um quadro muito bonito pendurado na parede, você nota. Engraçado como nunca tinha reparado nele. Há uma árvore pintada lá. Se a intenção do artista era pintar uma árvore horrível, ele tinha conseguido com louvor. A árvore era horrível, velha e garranchosa, seca e amarelada. Não posso esquecer de jogar esse quadro fora, você pensa. A hora do almoço já está quase acabando e você continua sem fome. 

Repentinamente, o ar congela, para ser removido por uma ventania que dá lugar a um tsunami daqueles que a gente só viu na televisão. Seu escritório é arrancado do prédio em analogia ao que acontece com sua vida. O quadro com a árvore permanece preso a parede.

As vezes precisamos de um tsunami, porque alguns de nós são covardes demais para se mover por conta própria, ou ainda seja dado a mau-caratismos e acredite que se está ruim para você, está ruim para um bocado de gente e quando questionado sobre tal situação, responda sinicamente: temos que fazer alguma coisa.

Seu codinome é pilantra da silva. Na verdade você pensa: o problema não é meu e nesse caso, você realmente se convenceu que o problema não é seu mesmo. Se você está sentado no seu escritório quando o dia está lindo lá fora, a culpa não é sua! É do mundo! A realidade é o seu escudo, a sua árvore da imobilidade.

Em ambos os casos, seja por covardia, por preguiça ou por sem-vergonhice, você é o principal culpado. Você indigna-se em meio ao turbilhão que varre escritórios, casas, cidades inteiras, árvores gigantescas de imobilismos. Grita furioso para um pseudo-deus, que só existe nessas horas:

Porra! O que você queria que eu fizesse?! Tudo está errado! É fácil você falar sendo a porra de DEUS! Mas eu sou só um qualquer e quem pode fazer alguma coisa de fato ta pouco se fodendo!

E novamente você usa o escudo dos outros para eximir-se da culpa. Você é mestre nisso, aprendeu na melhor escola de todas. Passou a vida toda aprendendo nela. Mas não pode enganar a porra de Deus, afinal, ele sabe aquilo que nem mesmo você sabe, porque é mais que puro fingimento, você realmente acredita do fundo do coração que não pode fazer nada mesmo. E reza, todos os dias, para que um tsunami faça o serviço por você, porque quando ele lhe arrancar tudo, aí não há escolha.

A droga da escolha.

Você tinha a escolha de levantar-se e sair do escritório, mas você tem contas a pagar lhe diz seu bom-senso, perder o emprego não é uma opção. E você não chega nem a tentar. As raízes do seu imobilismo são muito profundas, foram plantadas antes mesmo de você poder andar. A primeira palavra que aprendeu foi não. A negação é uma defesa e essa porra de Deus bem sabe que é a melhor das defesas que existe, afinal foi ele quem inventou. Aí você fica puto, continua rodopiando e grita o mais forte que os pulmões lhe permitem, pois o mundo todo está girando agora e você pode gritar a vontade.

Foi você! Você fez as coisas desse jeito!

Então você lembra que nem acredita na porra desse Deus, que está conversando com a própria consciência, que deve estar puta da vida porque você ficou lá sentado no escritório, esperando pela fome, enquanto ela gritava enlouquecidamente para você se mover. E você chora de indignação, pelo mundo injusto que você mesmo criou dentro da sua cabeça. Se você sobreviver vai ter outra chance, será mais fácil você acha, pois o tsunami destruiu tudo o que se conhece e os sobreviventes vão ter que começar a partir do zero. A chata da consciência, agora consciente de si, cutuca-lhe a têmpora.

É, agora você não pode mais se enganar. Você sabe que sobrou muita coisa, pois nem um OMO da vida é capaz de tirar toda a sujeira.

E você sobrevive, está lá, ajudando a reconstruir o mundo e percebe que depois de muito esforço, o mundo vai ficando do mesmo jeito que estava antes, daquele jeito desagradável, onde as horas de folga são uma chatice. E você olha para os rostos a sua volta, impotência, indiferença, tristeza, conformidade. Há algo errado naquilo tudo, você sabe, todos sabem, mas fazer o quê? As coisas são do jeito que são. E você dorme, cansado.

Em um sonho, que você não vai lembrar quando acordar, você é levado pelo tsunami, pois nem mesmo sonhando você se permite fazer alguma coisa. Você novamente tranca a consciência naquele lugar da sua cabeça que é hermeticamente fechado, onde o quadro com a árvore feia não pode ser removido. Ali, nem mesmo um tsunami, apesar de todo o poder de devastação, pode entrar. Pode perturbar, mas não entrar. Entrar nunca. Não há furacão, terremoto ou tsunami capaz de arrancar as raízes da sua árvore de certezas.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

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comentários
  1. Eduardo disse:

    Massa Bill. Também fiquei triste pra caramba, mas é isso aí VIDA QUE SEGUE. abraços

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