Expectador ou Agente? Eis a questão

Publicado: 10 de junho de 2011 por Bill em o Universo
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Pela autogestão, Bill e sua experiência como diretor do CAHIS.

Os pequenos atos, gestos por mais insignificantes que possam parecer, contém a essência das relações humanas e, se você reparar, pode dizer muito sobre você e sua interação com o mundo.

by Wikipédia: Autogestão é quando um organismo é administrado pelos seus participantes em regime de democracia direta. Na autogestão, não há a figura de um líder (pelo menos não um com poder de minerva), todos participam das decisões em igualdade de condições. Os conceitos de autogestão costumam variar de acordo com a posição política ou social de determinado grupo. O conceito anarquista de autogestão se caracteriza por eliminar a hierarquia e os mecanismos capitalistas de organização envolvidos. Já os conceitos de autogestão empresarial, mantém os mecanismos tradicionais de organização capitalistas. 

Erroneamente, muitas pessoas compreendem autogestão como uma forma totalmente desorganizada de gestão, uma verdadeira bagunça, onde todos falam, poucos ouvem e nada se decide. Em primeiro lugar é preciso encarar este preconceito seriamente. Ainda muito pequenos, aprendemos que não devemos nos meter na conversa dos mais velhos, depois que devemos pedir a palavra antes de falar. Crescemos com a constante hierarquizante dos pais e passamos a naturalizar a autoridade. Esse preconceito tem uma raiz tão profunda, tão profunda, que até mesmo anarquistas dos mais ortodoxos admitem serem utópicos. Esse preâmbulo serve para identificar nossas crenças. Antes de prosseguirmos, pediria que refletíssemos um pouco sobre o assunto.

Será mesmo uma bagunça? Ou são as amarras invisíveis do comodismo?

O CAHIS teve uma experiência de autogestão um tanto quanto trágica. O CA ficou absolutamente abandonado e até vítima de um incêndio criminoso? foi. Deixa eu ver. Hmm. Nesse semestre, o CA também esteve absolutamente abandonado e até vítima de alagamento criminoso? foi. Ora, dessa vez tivemos uma diretoria não? Pois é Bill, uma gestão incompetente da qual você fez parte. Bom, e você? Você viu seu CA ser abandonado, viu uma gestão incompetente e não fez nada? Entrei nessa discussão, para demonstrar quão infrutíferas são essas brigas, ah sim, brigas, porque aqui não há argumentação sobre o que é melhor, mas sobre quem foi o pior.

Essas brigas, na minha humilde opinião, são, sobretudo, resultado desse sistema de gestão, no qual elegemos algumas pessoas para quem, outra vez na minha singela opinião, pôr a culpa. Ora Bill, para que colocar nesses termos? Porque só assim poderemos encarar a autogestão com seriedade, como uma aposta concreta, pensada e não como delírio de uma mente inquieta, dada a desvarios boêmios, comunistas, ou a merda que você quiser chamar para deslegitimar o discurso pró-autogestão. Vamos a um exemplo: CALOURADA.

Convocamos uma assembléia e os estudantes decidiram que o CA devia participar do evento. Bem, acontece que a Calourada precisou de mais dinheiro para a festa acontecer. E em uma reunião urgente de alguns membros da gestão, decidimos que seria melhor tentar salvar o investimento inicial feito pelo CAHIS. A história todos sabemos, a Calourada amargou tanto prejuízo que talvez nem o dinheiro emergencial vejamos novamente.

Alguns dirão: incompetência. Não se tenta remendar barco furado. Outros ainda: e quem deu o direito de tomar uma decisão como essa? Aos meus ouvidos, ambos dizem a mesma coisa. Seja por incompetência ou autoridade, é a legitimidade que está em jogo. Na última assembléia, lembro da Maíra exaltada com o absurdo do caixa do CA ir de 4.000 para 500 reais. Sua indignação obviamente parte da incompetência. Mas quem nos elegeu? Muitos argumentariam exaltados: só havia uma ÚNICA chapa. Não tínhamos escolha! Outros ainda romperiam aos gritos: eu não! Eu anulei meu voto. Vejam como esse sistema sempre impõe o jogo do empurra-empurra. Brigas assim trarão o dinheiro de volta? Então qual é o por quê disso? Acho que nesse ponto devemos refletir mais uma vez antes de continuar.

Peço a reflexão, porque sem um exame cuidadoso dos próprios pensamentos, só ficaremos na retórica e é preciso se chegar as nossas paixões. Acredito piamente que embora nossas palavras sejam puramente racionais, são fachadas ricas e complexas tradutoras dessas paixões. A minha vocês já conhecem, é a autogestão.

Podemos nos embriagar e agir. Podemos também só beber e reclamar no outro dia

Sei que tal principio se fia pela confiança que tenho na capacidade de cada um de vocês. Tento então, demonstrar com essas reflexões, como a argumentação pela eleição de uma diretoria é também ela, uma paixão irrigada pelos pais, pelos professores, pelos colegas maiores ou mais inteligentes ou melhores articulados. Se pudermos identificar essa paixão e refletir sobre ela, aí sim, poderemos discutir francamente e não apaixonadamente.

Continuando. E já estou terminando, juro. Por que o Bill, a Maíra, a Leila, a Isadora, o Sei Lá Mais Quem, por que nenhum de nós pediu que o dinheiro de CA fosse usado para isso ou aquilo? Alguém dirá: mas eu pedi para comprar um sofá. Outro: um som. E mais outro: uma geladeira. E porque não se comprou? Porque foi assim e não daquele jeito? Porque não é você que toma as decisões. Mas calma, não se apresse apontando o dedo para um culpado. A diretoria não toma todas as decisões. Questões de compras para o CAHIS foram levantadas em assembléia. Se você está reclamando porque seu desejo não foi atendido é porque não esteve presente nas assembléias, onde, finalmente, chegamos ao cerne da questão que este texto se propõe defender.

Já falei das decisões circunstancias na parte que mencionei se devíamos ou não salvar a Calourada. Mas as decisões importantes, como aquisições para o espaço físico, posições acadêmicas e estudantis (a ocupação do CAGEA, por exemplo), todas essas decisões são tomadas em assembléias, mas poucos vão e nisso, esses poucos tomam as decisões importantes.

Aí você dirá: Mas Bill, de qualquer forma, na autogestão você também vai sofrer com o baixo quorum. De fato, mas se você não foi a assembléia, qual é o seu direito de reclamar da decisão tomada? Bill, eu trabalho, não tenho tempo de ir a todas as assembléias. Então, digo eu, se pudesse você iria a todas as assembléias? Claro! Você responderá entusiasticamente. Você concorda então que a diretoria parte do principio de que uma vez que não temos tempo para participar de todas as questões pertinentes ao Centro Acadêmico, a diretoria eleita faria esse papel por nós? Se não temos tempo para participar de todas assembléias, como podemos fazer uma autogestão? O caso, é que tendo uma diretoria você também não terá tempo. É a sua paixão por um organismo funcional falando por você ou um disfarce cômodo para mascarar sua responsabilidade?

Dito isto, podemos discutir um modelo de autogestão que atenda nossas necessidades.

OU

 

Só mais uma coisa

Para esclarecer um possível equívoco quanto a minha postura: como alguém pode defender a autogestão e ao mesmo tempo fazer parte da diretoria?

Não é ao mesmo tempo. Primeiro eu defendo a autogestão, depois dela ser derrotada (tenho cá minhas esperanças que dessa vez não será) eu entro em alguma chapa que esteja mais de acordo com meus ideais. Não é uma contradição a meu ver. Acima de tudo eu não quero responsabilizar ninguém, seja pela minha preguiça, falta de tempo ou opção ideológica. Eu podia ficar calado também, mas vocês me conhecem.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, petista, boêmio, metaleiro, tonto, divertido y dulce… um comunista pero no mucho. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!

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comentários
  1. Arnaldo Rocha disse:

    Bill, no plano ideal, eu concordo com você. Não consigo ver um ser humano que idealmente não seja anarquista. Nem o mais conservador consegue negar veementemente a força que anarquia tem, porém, precisamos lidar com o ser humano. Não confio no ser humano. Nossa capacidade de nos organizarmos é muito mais sensata que a nossa capacidade de agir pelo bem comum. Isso fica cada dia mais claro para mim. Gostaria realmente de poder confiar em uma auto gestão para o CAHIS, porém, é um sonho tão distante que nem cogito ver acontecer enquanto eu estiver na universidade. Temos exemplos de auto gestão que causam muito mais temor que esperança à utopia. No modelo de auto gestão proposto, em tese, não precisamos sequer de CA! O que você está propondo é um ponta pé inicial ao que gosto de pensar como “comunidade organizada”.

    Não sou a favor da auto gestão por que é uma maneira de ninguém se comprometer. Em alguns movimentos sociais isto é válido, como ONGs, associações de bairro, pequenos grupos de resistência ou frentes religiosas com finalidades sociais. Agora, quando tratamos de um setor institucionalizado, com direitos e deveres previstos em estatuto, auto gestão, na sua mais plena forma, é completamente inviável. O CA é um movimento social pequeno, sim, concordo, porém, é totalmente institucionalizado. A diretoria tem que responder por cada ato seu, ao mesmo tempo, é ela que participa e tem voz no colegiado, é ela que tem direito de controlar o acesso a algumas verbas do departamento, é ela que tem o poder de decisão sobre o uso do Centro Comunitário, e por aí vai…

    Você vai retrucar dizendo que não é a gestão e sim o aluno que tem todos esses direitos. Eu retruco, em tese sim, na prática não. Institucionalmente estamos diretamente ligados à necessidade de uma gestão.

    Essa é basicamente minha visão sobre a auto gestão. Eu concordo que seria o melhor sistema de todos, mas exige uma consciência tal que é penosa para as pessoas. A burocracia e a institucionalização são dois mecanismos de entrega de poder do indivíduo a um centro de poder e infelizmente, a maioria das pessoas não querem exercer o seu poder.

    A minha proposta é: fazer uma gestão legitimamente democrática, exercer as funções com dignidade, promover a integração acadêmica, trazer para dentro do CA o discente de história, transformar o CA em um ambiente democrático de debate e diversão. Aproveitar os benefícios institucionais de uma gestão e coordenar os interesses coletivos discutidos exaustivamente em assembléia.

    Auto gestão, a meu ver, hoje, só é possível nos termos como a revolução zapatista e os ideais do EZLN:

    “Esta usted en territorio zapatista en rebeldia. aqui manda el pueblo y el gobierno obedece.”

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