Sem Eira Nem Beira – Prólogo

Publicado: 27 de agosto de 2011 por Bill em A Vida, o Universo, Tudo Mais
Tags:

Sou o espirro do peito desprevenido, a frieira que devora a carne sem gosto. Vago, vadio, sem rumo. Em minha companhia, as lembranças. Do meu avô que dizia toda hora pica-mula muleque. Do papagaio Ernesto que me chamava por Guri! Guri! Do laço vermelho do meu primeiro sapato. Do vigário safado.

Morava eu num ranchinho que a gente chamava de ranchão, lá no coração da boa e saudosa Minas, onde as águas dos rios capivari e teimoso se encontram. Nas segundas e terças-feiras, a gente acordava às cinco e ia depenar galinha no barracão para vender no mercado da cidade. Depois do almoço, a tarde era livre para tomar conta da horta (e banhar no riacho). No resto da semana a gente trabalhava pro Seu Manolo. Dividíamos a tarefa de levar as vacas do homem para pastar, era a feira preferida dos meus irmãos, já que os danados iam embora e me deixavam sozinho tomando conta da boiada. Normalmente eu ficava encarregado de cuidar dos bichos da fazenda do homem. Aí era trabalho pesado, limpar chiqueiro, galinheiro, todos esses eiro da vida. O mais difícil era quando eu ficava lá no carniceiro, quando a gente tinha que passar os bixo na faca. Inté hoje sinto arrepio quando lembro dos berro dos animar se estribuchando todo até morrer. Tinha época que a gente só fazia colheita lá na fazenda, isso quando tinha colheita pra ser feita, porque as chuvas quase sempre levavam tudo. O único dia de descanso era no domingo. De longe era o dia que eu mais detestava.

Logo pela manhã, nossa mãe nos arrumava todo, pondo aquelas roupas quentes que iam dos tornozelos ao pescoço. Enchia de perfume e nos chamava de gracinha. E lá ia se nós pra missa. Era um sofrimento só. E eu nem falo do calor que já to acostumado, a desgraçeira dos inferno era ficar parado o tempo todo. Quando vortava minha bunda ficava toda dormente, de tanto tempo colada na porcaria do banco da igreja. O padre Cantuário sempre lia os mesmos troços e as pessoas sempre repetiam as mesmas coisas tamém. Só tinha uma parte que eu costumava prestar atenção que era quando o padre danava a falar pelos cotovelos. Contou uma vez que os fiéis não sabiam o que responder quando diziam que os milagres de Deus eram impossíveis. Daí ele se saiu com essa: mas é claro, se não fossem impossíveis não seriam milagres. Ié mesmo? Não diga! Ria que chorava, a mãe ficava me beliscando o tempo todo. Teve até um dia que o padre falou das ciências, que Deus usava delas para fazer os milagre, que era só perguntar pros cientistas que eles sabiam explicar tudinho. Ora essa, vou virar cientólico então. Sei que era um bocado implicância minha, mas desde então eu não engolia aquelas conversas. Verdade mesmo, nunca consegui entender porque que um monte de gente ia todo domingo para o mesmo lugar, na mesma hora, ouvir as mesmas coisas, comer a mesma besteira de sempre, ouvir um monte de bobagem e ainda voltar no outro domingo! E o pior é que inda tinha que levar os filhos para um negócio desses. Pode? Num preciso mais do perdão de Deus, pois que se o inferno existe mesmo, eu já to é todo lascado, então posso falar sem medo que essas coisas de igreja, de padre, coroinha, de ficar de joelho e tudo mais, não passa de picaretagem dá maior, ié mesmo. Acha que eu to dizendo mentira? Então espie só.

Acontece que um dia apareceu lá no ranchão o tal do vigário. Todo empoado, falando latim e não sei mais o quê. Nunca vi trambiqueiro maior na vida, era capaz de roubar a dentadura da mãe enquanto ela tava dormindo. E num é que o povo lá de casa tudo acreditou na ladainha dele? É, logo se via que era homem santo. Mandava abrir a bíblia em qualquer página que sabia recitar todos os versículos. O vigário sabia das coisas do mundo. Sabia sim, sabia era tapear os otários, isso que ele sabia muito bem. Eu mesmo decorei que a raiz quadrada de 81 é 9. Agora me pergunte o que isso significa. Juro por Jesus Cristo que não sei porque carga d’águas 81 só tem nove raízes, quanto mais quadrada!

Depois de se aproveitar da hospitalidade nossa, o sem-vergonha foi-se embora com duas das vaca mais leitera do ranchão e uma cesta carregada dos quitute da mãe. Aí foi demais. A mãe nunca fazia os quitute dela nem no versário da gente. Arre. Nunca tinha ficado tão enfezado na vida. Sabe o que fiz? Fui atrás do infeliz recuperar as vacas e enfiar-lhe os trem pela guela. Ia mesmo. Por azar era o mais mirrado dos filhos do Dona Joana e burro o bastante para achar que dava conta dum homem com o triplo do meu tamanho. Quando achei o golias não consegui derrubá-lo com meu estilingue. O vigário me fez de escravo e nunca mais na vida vi meu laço vermelho ou o jegue Cantuário.

Às vezes bate uma dor no peito quando me deito. Choro que nem menino quando lembro do vô tentando me acertar um dos seus chutes. Dos irmãos laçando o boi brabo. Até do Seu Manolo sinto saudade. Peraí, deixa eu limpar as lagrimas aqui. Pronto. Descurpa, é que tem vez que me dá umas coisa. Andei por todo canto ajudando o vigário safado nas suas falcatruas. Descobri que o infeliz era tarado numa menina nova. Tinha lugar que comia três ou quatro. Mas esqueci ó. Você deve ta se perguntando se nunca tive oportunidade de fugir. Tive sim, várias. Mas sou um cretino também, isso que sou. No dia em que o vigário me capturou ele disse que um trapaceiro sabia reconhecer outro quando via um. Aposto como pegava as moedinhas da igreja quando a cesta passava por você não é? Perguntou certa vez. Isso me deixou encabulado pra caramba. Tinha pego uma vez, sim. Mas nunca gastei aquelas moedinhas. Tenho certeza que estão enterradas até hoje perto da raiz mais longa da Figueira lá do ranchão. Não sei se as pessoas nascem com a safadeza no corpo, mas se o mundo é safado, safado-se-á não é? Penso que sim. Seu Manolo por exemplo. O pilantra fazia a gente trabalhar que nem cachorro pra ele e todo trocado que nóis ganhava era pra gastar na mercearia dele. Só conheço um nome pra uma coisa dessas. Pilantragem. Mas quando se tem mil cabeça de gado, aí é esperteza. Quando se anda por aí que nem eu andei, a gente vê que sempre tem um para se aproveitar da ingenuidade alheia. Ieu ia ficar do lado dos trouxa? Eu que não! Safado eu me tornei, mas burro eu nunca fui.

Reconheço que num valho nem um tustão furado. Sou menos que a cera velha dum ouvido esquecido, sou mesmo. Desaprendi a ser honesto. O pior é que eu nem fazia esforço. Depois que se começa a trapacear a gente toma gosto pela coisa. É que nem cachaça de alambique, ah se é. Mentira boa é jurar de pé junto pela morte da mãe e rezar pra coitada não cair durinha. Mas eu to enrolando, não é sobre minhas vergonhas que tive com o vigário que quero contar. Até é, mas é só sobre uma delas. Começou com um dia bem ruim pro vigário salafrário.

Amanhecemos na casa de um barão, ele não estava em casa e quem nos abrigou foi sua mulher desavergonhada. Pois que assim que nos anunciamos, ela já foi logo se oferecendo pro vigário. E o pior era que para a senhora o pilantra era vigário mesmo. Eu ainda tava garrado no sono quando ele me puxou todo apressado. Simbora! Meio que gritou baixinho. Que eu já conhecia a peça era de có. Num deu outra, assim que levantei ouvi barulho no andar de cima da casa. Ele enfiou a camisa de qualquer jeito em cima de mim e ralamos peito, nem tive tempo de pôr as calças. Saímos pior do que chegamos. Era um dia danado de ruim pro vigário. Pior que nesses dias quem pagava o pato era eu. Ficava me aporrinhando o tempo todo, a peste. Num dava trégua não. Se tava com sede, mandava eu buscar, se fome sentia queria que eu trouxesse algo. O diabo é que meu equipamento de caça tinha ficado na casa da mulher do barão.

Na água eu cuspi com gosto, da caça eu fui caçar. Sem nada mesmo, gostava de caçar, num era porque ele tinha mandado não. Não nasci preto pra ficar sendo capacho dos outros. É verdade que eu também tava numa fome danada. Já passava do meio dia e nem uma frutazinha eu tinha comido com a correria da manhã. Eu bem que achei um cacho carregado de bananas, mas quem disse que o vigário deixou que eu fosse lá pegar? Disse-me que tinha visto os retratos do barão e que se o homem o pegasse ia fazer couro da pele dele.

Não ria seu abestalhado – era assim que me chamava, abestalhado – fique sabendo que se ele me pega você vai pro buraco também. É verdade. Sou cúmplice do cretino, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Só que se no casamento a morte separa, há, ia era nós dois pro inferno jogar dominó com o capeta. Acabei num caçando coisa nenhuma, os único bicho que aquela mata tinha era eu e o vigário. Mas sou persistente que nem beuzebu, e eu era doido pra ver uma onça. Vai que os bicho tinha sumido por causa da pintada? Nem me lembrava que num tinha mais meu estilingue. Inda bem que num encontrei onça nenhuma. Fiz foi achar um casebre de madeira abandonado. Quando entrei jamais tinha imaginado que ia encontrar alguém lá dentro. Deus o livre, preferia ter entrado na cova do meu tio Assis e abraçado o defunto.

É, inda bem que dessa vez a curiosidade só espantou o gato. Saí correndo desembestado pela mata, gritando pelo vigário. Não sou medroso nem nada disso. Sou é muito do valente. Mas todo valente é meio tapado. Lembra deu tentando dar uma coça no vigário? Pois então. Acontece que meu vô tinha umas histórias que me deixava tonto de medo. Vixi, quando ele danava a contar os causos dele, eu nem conseguia dormir. A mãe logo vinha esquentar minha orelha. Pica-mula menino! Dos vivos eu dou conta, duro é encarar assombração.

Nem vi quando o vigário já tava em cima de mim me dando tapa em tudo quanto era lugar da cara. Dexa de ser abestalhado! Ô minino burro! Foi-me arrastando pra casa mal-assombrada, queria provar que a coisa dos fantasmas era coisa da minha imaginação. Dói-me a barriga de rir do pulo que o vigário deu quando viu a alma penada que morava lá dentro. O safado ia me deixar só só com a coisa-ruim, mas aí uma coisa surpreendente aconteceu. O fantasma jogou um colar de ouro pra mim. Acham que peguei? Que nada, o vigário sente o cheiro do ouro. Se pacto com o capeta enriquecesse, o vigarista teria muito mais do que a roupa do corpo. O que você quer? O vigário perguntou com a cara mais lisa. Tremia que nem vara verde, mas o olho era maior que o medo. A história da viúva do Conde é nossa história também e é por ela que vamos começar.

Anúncios

Comente! Quebre as leis!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s