O Abismo do Apanhador

Publicado: 10 de setembro de 2011 por Bill em A Vida
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Depois do encontro do Clube da Luta [Grupo aberto (http://www.facebook.com/groups/248280985211118/)], prometi que falaria das minhas impressões do livro The Catcher In The Rye porque algumas pessoas do clube não entenderam o porquê do meu fascínio pelo livro.

A história do Apanhador no Campo de Centeio é a história do jovem Holden Caulfield, um rapaz que tendo reprovado em quase todas as matérias da escola, dá um tempo por aí antes de voltar pra casa com receio de ouvir mais um sermão dos pais. É isso, essa é a história. Mas ao longo do livro vamos descobrir um bocado de coisas sobre Holden, o que ele pensa, como ele pensa, por que ele pensa dessa forma. Alguns terminarão a leitura do Apanhador e dirão que Holden é o típico adolescente. Perguntador, chato, desagradável, em suma, uma pessoa irritante.

Como encarar com seriedade alguém que é capaz de perguntar para onde vão os patos no inverno?

O personagem principal do livro escapa de todos os estereótipos possíveis que a literatura tradicional tanto adora. Holden Caulfield é um pé no saco. Cínico, mentiroso e, muitas vezes, insuportável, como todo bom adolescente tem que ser.

O “bom adolescente” não é aquele menino todo certinho, obediente, que tira as melhores notas na escola. O “bom” de Jerome David Salinger é um adolescente em crise. A crise é um sinal de que o adolescente está estressado com a passagem entre o mundo infantil e o mundo adulto. Mesmo que inconsciente, o “bom adolescente” é capaz de ‘sentir’ a diferença entre os mundos. Por isso quando vemos Holden emburrado, desgostoso de tudo e de todos, achamo-o infantil porque é justamente isso que Jerome quer passar. Que outra forma tem uma criança de protestar contra algo que a desagrada?

Holden tem 17 anos, não pode mais chorar, então amarra a cara, o que é bem mais maduro do que irromper em prantos esperando que alguém faça a sua vontade. Essa transição de espírito, a adolescência, ainda que seja muito comentada cotidianamente, pouco é compreendida em sua intensa amplitude para a formação do caráter.

O universo adolescente é repleto de contradições. Não se pode chorar porque não é mais criança, no entanto também não pode responder aos pais. Não deve ficar brincando por aí porque não é mais criança, mas não pode largar os estudos para trabalhar. É uma linha tênue que ora coloca o jovem entre as crianças, ora entre os adultos. E daí se você gosta de comprar balinhas? Você não é mais criança, devia saber que isso estraga os dentes.

O adolescente ainda gosta de jogar vídeo-game como muitos adultos também gostam. Mas o adolescente vai ser muito mais cobrado se passar o dia todo jogando PS3. Aí você pergunta: Oxe, como assim? um adulto jogando vídeo-game o dia todo não vai ser cobrado? OK. Ele pode até ser cobrado, mas ele já é um adulto, sabe o que faz da vida. E embora você saiba que ele está fazendo errado, você irá se calar porque de fato, ele sabe mesmo. Mas e o adolescente? Há, aí não, você dirá logo. O adolescente não sabe o que faz, não tem a devida noção de que se passar o dia todo jogando vídeo-game vai jogar a vida fora. Vamos pegar o adolescente de Jerome por exemplo. Holden toda hora quer fugir, ir pra algum lugar qualquer, de preferencia o campo, longe da hipocrisia e da cretinice (das cidades). Olha só o que ele queria fazer da vida dele, você dirá.

Bom, então Holden deve ser obrigado a fazer algo que não quer. Se seu desejo fosse ficar jogando video-game o dia todo, o certo a se fazer, como pais responsáveis, seria obrigá-lo a ir a escola. Claro, aonde você já viu um pai permitir que o filho passe o dia todo jogando video-game?

Certo, agora responda-me com sinceridade: Você acha que um adolescente vai aproveitar alguma coisa da escola sendo obrigado a fazê-lo? Você realmente acredita que só o fato de IR a escola fará com que ele aprenda? Como se fosse assim: Você entra na sala, senta e aprende.

Holden Caulfield não gostava de ir a escola e por mais que todos dissessem que era importante, Holden só iria dar a devida importância quando ele achasse que é importante. O momento que temos mais próximo disto é quando ele está no apartamento de um antigo professor e quase podemos vislumbrar um Holden indo pra escola mais disposto. Mas isso com uma conversa franca, sem imposições. O professor tenta mostrar a Holden as consequências de suas atitudes e fazer com ele reflita. Podemos ver que Holden realmente quer um motivo pra ter que ir a escola. Mas se um pai primeiro obriga o filho a alguma coisa e depois tenta demonstrar sua importância, o diálogo já ficará comprometido.

O que está por trás dessa postura, é a noção dita mais acima de que “o adolescente não sabe o que faz”. Alguns educadores dirão que isso é negar humanidade aos adolescentes. Não preciso ir tão longe, prefiro perguntar se você faria bem um trabalho compulsório. Veja bem, estou perguntado se você faria bem e não simplesmente fazer. Porque o adolescente ‘faz’ na maioria das vezes, para agradar os pais ou para não ser perturbado pelos mesmos. O adolescente quando obrigado a fazer algo que não quer, irá se tornar um adulto com uma lição de vida muito importante: você pode driblar o sistema. No entanto, seu caráter estará propenso ao de uma pessoa acostumada a disfarçar seus verdadeiros interesses e o pior, pode vir a se tornar uma pessoa infeliz e cretina por sempre viver escondendo o que realmente quer.

E é isso que Holden odeia acima de tudo. Essa facilidade que os adultos tem de mentir. Holden percebe que a medida que vai crescendo tem que esconder cada vez mais o que lhe passa no íntimo. Não pode sair por aí com um chapéu de caça vermelho “ridiculo”. Nem dizer que quer se casar e fugir pro campo que nem um “maluco”.

Holden está amargurado por ter que fingir o tempo todo, porque ele sabe que está se tornando um dos cretinos que tanto odeia. Que um dia vai terminar a escola e trabalhar com o pai. E não é isso que Holden quer.

Mas o que Holden quer? A unica passagem que Holden diz o que quer fazer da vida está carregada de metáforas. Ele diz:

Sabe o que eu queria fazer de verdade? No duro? Fico imaginando uma porção de crianças brincando num campo de centeio. Milhares de crianças e ninguém por perto. Eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê eu tenho que fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo

Sem dúvida é o momento mais impactante do livro, como se tudo convergisse para isso. Imagino se Jerome pensou primeiro nisso e depois pensou na história, já que é esse trecho que dá nome ao livro.

Salinger faz de Holden um adolescente em crise, que ciente do sinistro mundo que está prestes a fazer parte, quer salvar o máximo de crianças que puder do abismo horrível que é o mundo dos adultos. É como quando Holden chora tentando apagar um palavrão na escada da escola que a irmã estuda. Holden tenta proteger a todo custo a inocência dessas crianças, mas chora porque sabe que é inevitável, que não pode salva-las do abismo. Do mesmo modo, parece que Holden tenta bloquear a lembrança de um ex-colega que morre depois de “cair” de uma janela em sua antiga escola.

O abismo de Holden às vezes é mencionado, acredito, como metáforas de mal-estar em que o garoto sente um vazio enorme “como se estivesse a beira de um precipício e tudo é escuridão”. Essa metáfora patológica do abismo é apresentada algumas vezes ao longo da história e imaginamos se Holden está doente. Ele está doente sim, infectado pelo vírus de um mundo pestilento, que pouco a pouco devora a ingenuidade da alma e o transforma num zumbi de terno e gravata que se importa com o valor da mala dos outros.

Nesse abismo, a crueldade do mundo adulto representada por Nova York é o lugar da desfaçatez como o colega mais velho que posa de intelectual, dos aproveitadores na pele da prostituta e do cafetão, das mulheres feias, estúpidas e interesseiras. Não que não existam essas coisas no Pencey, mas ali, em Nova York, tudo é uma cusparada. Quando Holden toma café com as freiras da Cruz Vermelha fica condoído por um mundo que devia ser mais justo com as pessoas boas e no entanto, as pobres freiras… Holden então revela sua surpresa com o comportamento de um ex-colega que Holden tinha percebido, sentia vergonha de suas malas baratas. Holden confessa, bastante amargurado por se sentir insultado com uma coisa tão boba, que o garoto tinha usado suas malas como se fossem dele. Holden não dava a mínima para a qualidade de suas malas. Mas isso o tinha machucado de uma maneira pertubadora. Porque era o mundo dos adultos com suas cretinices egoístas se infiltrando no seu mundo.

Esse mundo também me perturba como podem ver nesse post https://boanoitebill.wordpress.com/2011/06/23/o-que-me-levou-a-historia/. De uma perspectiva oposta a de Holden (os Caulfield são da classe média), eu também entrei em crise diante do mundo. O meu fascínio pelo Apanhador certamente bebe um pouco nesse descontentamento do garoto com a realidade adulta. Quando foi que começamos a mentir? Quando foi que passamos a esconder o que sentimos? Pra que fingir? Pra passar a impressão de normalidade? Pra não ferir o ego de alguém? Ou temos vergonha de quem nós somos? Ou seria medo?

Talvez não seja tão prazeroso viajar com Holden, para alguém que tenha passado pela adolescência sem uma “crise”. Não sei. Gosto de pensar que todos passamos por uma crise independente da idade e um pouco mais, um pouco menos, vão entender o que se passa com ele. Acontece que quando a “crise” vem na adolescência, você ainda não é um adulto e não pode fazer o que quiser. A diferença é que quando adulto, as pessoas conversam com você como um adulto, mas quando adolescente, tratam-o como uma criança que devia agir como um adulto.

No final do livro, Holden contempla sob uma chuva rala  a irmãzinha Phoebe girar num carrossel, pensando em se despedir dela. Fugir de uma vez por todas. É nesse instante que decide ficar. Ficar para proteger a irmã. Ficar para ajudá-la, para apoiá-la como ela o apoiou, não seria justo deixá-la. Não é desse jeito que Holden faz as coisas. Holden então conserva sua integridade e, ao mesmo tempo, encontra a luz que precisava para quando chegar no fundo do abismo, ainda poder vislumbrar o que realmente importa.

O Apanhador no Campo de Centeio pode ser entendido como uma metáfora para o próprio livro, que “salva” almas de caírem na escuridão do abismo. No entanto, prefiro imaginar que o Apanhador é um professor de História.

 bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

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