O inferno são os outros

Publicado: 1 de outubro de 2011 por Bill em o Universo
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Quantas vezes já ouvimos isso? Dezenas, centenas? Quando li Entre Quatro Paredes do Jean Paul Sartre foi como ler A Vida do Espírito de Hanna Arendt quando ela fala de Sócrates. Somente ali, naquele instante, por mais que eu soubesse que Sócrates tinha dito que sei que nada sei, eu percebi que nunca tinha pensado nisso. Conhecer alguma coisa é diferente de pensar sobre ela. É como comparar o tamanho da cabeça de alfinete que deu origem ao universo com o universo. Estava tudo ali, bem na sua cara, naquele micro-ponto cósmico, todo o universo, intangível. Uma explosão, uma reflexão e boom, o universo em sua infinita amplitude devora o conceito de grandeza. O que Sócrates quis dizer com sei que nada sei é que sei que nada sei. Trocando em miúdos: o deus do fogo procura o fogo. A resposta encerra-se na pergunta.

E o que Sartre quis dizer com o inferno são os outros? Bem, não foi ele que disse, foi Garcin, seu personagem

– isso explode a frase e dá inicio a esse texto.

Lá, não há espelhos...

Garcin, Inês e Estelle. Papel, pedra e tesoura. Os três são confinados em um quarto, quente, como o inferno deve ser. Não há janelas, não há espelhos, não há um charuto. Não há distrações alem da sua cabeça e a dos outros. Mas como Garcin irrita Inês e Inês irrita Estelle, que por sua vez irrita Garcin, a convivência é insuportável. Quando isso fica evidente, eles decidem se calar, apartando-se. Se ficarem reclusos, presos em si, completamente entregues aos seus pensamentos, então não precisarão da companhia um do outro e, consequentemente, não vão passar a eternidade brigando. Mas por mais que tentem, é impossível. Ainda que não sejam mais humanos, que estejam naquele lugar infernal, distante do mundo, distante de todos, nem assim, conseguem se livrar da condição humana.

Por mais que enterrasse os dedos nos ouvidos, as senhoras falavam dentro de minha cabeça. Quer me deixar em paz, agora?

(…)

Que infantilidade! Eu o sinto até nos meus olhos. Seu silêncio grita em minhas orelhas. Pode soldar a boca, pode cortar a língua. Será que por isso o sr. deixaria de existir? Faria parar esse seu pensamento que estou ouvindo, que faz tic-tac como um despertador?

Garcin se desespera:

Abram! Vamos, abram! Aceitarei tudo: as tenazes, o chumbo derretido, as pinças, os garrotes, tudo que queima, tudo o que dilacera. Quero sofrer de verdade! Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata a esse sofrimento cerebral, esse fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia, e que nunca dói o bastante.

A porta se abre.

Que está esperando? Vá, vá depressa!

Não, não vou.

E você, Estelle?

Estelle não se move. Inês dá uma gargalhada

Então, qual de nós? Qual de nós três? O caminho está livre, quem é que nos prende? É de morrer de rir! Nós somos inseparáveis!

Garcin prefere sofrer as piores torturas a esse terror psicológico. Mas quando a porta se abre, ele decide ficar. Na nossa discussão do livro, a Leila sugeriu que seria o medo do desconhecido que o fez ficar. Discordo. Você está no inferno, uma porta se abre. Você não vai embora por que está com medo? Você está no inferno, lembra? Se existisse alguma coisa pior, seria isso não? O desconhecido é assustador, mas não a ponto de me fazer ficar voluntariamente no inferno.

Uma vez a porta fechada, Garcin interroga Inês

Não ficará escuro nunca?

Nunca.

Você me verá sempre?

Sempre!

Garcin conclui

Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei… Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… O inferno são os outros!

Mas por que Garcin não foi embora? Acredito que pior tormento do que o convívio eterno com os outros é a eternidade na solidão, estar só em si, resumir-se ao eu e nada mais, ser como uma caneta bic é. Não há inferno pior que esse. E quem disse que onde estão é o inferno? O criado, ente que representa a “instituição”, não diz nada a respeito. Já Garcin, Inês e Estelle acreditam que estão no inferno. Garcin se acha um covarde, Estelle uma assassina e Inês se culpa pela morte da sua companheira. Os três se consideram culpados. Afinal, se você acredita que é merecedor do céu, por que aceitar ir para o inferno? Já diria minha velha vózinha: Quem tem a consciência tranqüila, nada teme.

Não há espelhos no quarto. O outro é o seu espelho. Um espelho que pode ser terrível, mas melhor que nenhum. Quem é você afinal de contas? Você é? Ou você se tornou o que é? Se o que você encara diante do espelho do outro não lhe agrada é porque nunca pensou a respeito. Lembra quando eu disse no inicio do texto que conhecer algo é diferente de pensar sobre algo? viu? você somente leu, não pensou Uma inscrição na entrada do Oráculo de Delfos dizia “Conhece-te a ti mesmo”. Ora, se você se conhece, por que consultar um oráculo sobre o seu futuro? Independente do que você descobrir, não vai deixar de ser você quem vai tomar as decisões (o que pode explicar porque das tragédias gregas terminarem todas confirmando as profecias, porque conhecer o futuro não muda quem você é). Esse movimento reflexivo do ser, de não estar só, não é voluntário, você ocupa um lugar no mundo como ser pensante e pensa sobre esse lugar naturalmente. Mas você não se resume ao eu, você só existe na medida em que se enxerga na consciência do outro.

Mas e se Garcin saísse do quarto e passasse a vagar eternamente pelo corredor? Poderia alcançar a salvação ali?

Em nossas discussões do livro, muito se falou que uma vez sozinho, seria possível alcançar a redenção por meio da paz interior, da iluminação, do nirvana, do que você quiser chamar. Não posso concordar com isso. Não posso. Porque uma vez só, privado do contato humano, do mundo, eu deixaria minha condição humana, eu deixaria de ser o que sou. Isso não é morrer? Talvez por isso tanta gente tenha acreditado que a morte seria mais reconfortante do que a sensação de solidão. E concordo com elas. Estar só eternamente é como definhar sem morrer nunca. Por outro lado, chegar a esse estado acima das necessidades humanas é a morte, pois eu só sou eu enquanto sinto essas necessidades desprezíveis da humanidade. Eu não quero deixar de ser quem eu sou, somente assim o farei quando for inevitável.

O que está em jogo aqui é um elemento extremamente delicado porque se pressupõe a necessidade de estar só. Hipoteticamente, se alguém se encontrasse sozinho no mundo, ele conseguiria existir porque poderia se encontrar dentro de si mesmo e isso bastaria.

Acredito que Sartre partilhava do mesmo pressuposto que eu: o ser humano é um ser social. Se Garcin não se enxergasse como covarde, precisaria que Estelle lhe dissesse que não era? Se forçarmos o argumento e imaginarmos que o quarto, o criado, as mulheres, tudo é uma criação da cabeça de Garcin, isso não excluiria o fato de que há gente nesse mundo. Nós precisamos de companhia, nem que para isso tenhamos que criar uma. Ninguém pode existir só, viver sim, mas existir não. Quando Descartes diz que penso logo existo, ele alcança um axioma da existência, tudo o mais pode ser mentira, a única certeza é a minha existência. Mas de que valeria esse pensamento se não fosse dito? Por que publicá-lo? Por que a aprovação dos outros se tudo pode ser mentira como as sombras na caverna de Platão? Porque ainda que tudo não passe de uma grande farsa, essa é a sua verdade, esse é o seu mundo, esse é você.

Quem você acha que é em frente a essa pessoa?

É engraçado pensar que o inferno são os outros, porque isso me faz lembrar de outro grande filósofo que disse aparentemente o contrário: amai-vos uns aos outros como a ti mesmo. No fundo, os dois dizem a mesma coisa. E o deus do fogo procura o fogo.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

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comentários
  1. Daniel Faria disse:

    oi Bill, muito legal seu texto. sobre a solidão como “liberdade” penso como você – é um engodo. só não sei até que ponto era assim pro Sartre também. o texto não tem só um sentido, mas eu leio aquela frase assim: os outros são o inferno porque determinam minha existência e minha existência está sempre em aberto. P. ex.: eu não consigo parar de me lembrar que sou teu professor, só que isso é uma escolha que já está feita, um dado da realidade, não da liberdade. Minha existência não se confunde com essa escolha, porque já estou em outro momento e em novas escolhas e indeterminações. não deixo de ver uma certa lucidez nisso, mas acredito que se a leitura for como a minha, o Sartre ainda é, nesse momento, parte de um tipo de dualismo: ou eu ou o Outro. Penso que existem múltiplas relações eu/outro até aquela frase que já está meio banalizada do Rimbaud eu é um outro etc. No fundo, acho que o Sartre pensava que ser livre é estar no controle da situação. Com os mestres zen, o deus do fogo está à procura do fogo, é um pouco diferente. Os outros não são nem ignorados nem controlados, você trafega entre os outros e mesmo é outros quando age sem agir, não comanda e nem se submete, saindo da dialética senhor/escravo que domina boa parte do pensamento chamado ocidental. quanto ao Sócrates, a aproximação é muito legal mesmo. só acho que um mestre zen falaria alguma coisa ligeiramente diferente: não o “sei que nada sei”, mas o “não sei o que sei”, ou perguntaria “sei o que sei?” e até mesmo “eu só sei aquilo que não sei, porque eu só sei enquanto não estou sabendo etc”, acho que assim fica mais próximo da linda história contada por Eihei Dogen. tentei evitar mas acho acabei falando num tom professoral, é foda isso.
    Abraço

    Daniel.

    • Bill disse:

      Po, isso que vc falou não contradiz o que eu coloquei. Veja só: você diz “os outros são o inferno porque determinam minha existência e minha existência está sempre em aberto”. Ok, eu digo no post: “Mas você não se resume ao eu, você só existe na medida em que se enxerga na consciência do outro”. O que pode ter te deixado confuso é que eu digo também, nas palavras da minha avó: “Quem tem a consciência tranqüila, nada teme”. Isso não significa que você é. Isso é uma disposição de espírito que, na minha visão, facilita a construção do ser. Ou seja, quando você diz “No fundo, acho que o Sartre pensava que ser livre é estar no controle da situação.” É exatamente o que quis dizer. Por isso digo também: “estar só em si, resumir-se ao eu e nada mais, [é] ser como uma caneta bic é”. Quanto a Sócrates e a frase zen, o ponto de convergência com a frase do Sartre/personagem é que são orações que contem as respostas e as perguntas em si mesmas, como a metáfora da expansão do universo. Mas achei maneiro sua idéia, pena que não pensei nisso… hahahahahaha

  2. Bill disse:

    hmmm, quanto a esses determinismos como eu ser seu aluno e vc meu professor, bem, isso é um pressuposto meu. “Se forçarmos o argumento e imaginarmos que o quarto, o criado, as mulheres, tudo é uma criação da cabeça de Garcin, isso não excluiria o fato de que há gente nesse mundo” Mesmo flexibilizando a realidade como produto do pensamento, ainda assim seria a realidade com q teríamos q lidar.

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