A invenção da arma mais terrível de todos os tempos

Publicado: 16 de outubro de 2011 por Bill em o Universo
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No dia 15 de janeiro, Rogério foi trabalhar como fazia todas as segundas-feiras desde os 9 anos. Mas aquele era um dia diferente pra Rogério. Não que algo no mundo estivesse diferente, não, o galo cantara naquela manhã normalmente e sua mulher tinha preparado o café como sempre fizera. Era Rogério que estava diferente. Sua cabeça voava pelas calçadas estreitas, divagando a velocidade da luz. Milhões e milhões de pensamentos chocando-se uns nos outros, cada um provocando uma supernova de puro espanto e terror. Não que Rogério não gostasse de sonhar. Sonhava sempre, sempre que podia e quando não podia. A cabeça de Rogério era seu paraíso secreto. Lá, ele podia ser quem ele quisesse ser. Um ator famoso, um bom cantor, até um super-herói. Rogério não gostava de ser encaixotador. Não existia grandes encaixotadores no mundo. Encaixotar nunca será como compor uma bela música, nem escrever um best-seller. Para encaixotar não é preciso pensar. É só colocar, dobrar e lacrar. Colocar, dobrar e lacrar. Colocar, dobrar e lacrar. É como andar, uma vez em movimento, pode-se andar de olhos fechados. Rogério pensava em quão tola era sua vida. Acordar, trabalhar, comer, dormir, ir a Igreja aos domingos. A vida de Rogério era um verdadeiro processo de encaixotamento. Rogério estava sendo dobrado constantemente, e fechado, fechado para ser aberto e jogado no lixo. Rogério era uma caixa descartável. Todos os encaixotadores eram. Menos ainda, pois na caixa de Rogério não havia a frase “cuidado, frágil”. E Rogério era frágil. Sentia fragilidade todos os dias, antes mesmo dos 9 anos.  Por que alguns homens tinham que ser mais fortes que outros? Rogério fora criado rente ao cabresto. Homem não chora, homem não reclama. Ordem é pra ser cumprida, dizia o pai. Só de pensar na desgraça do pai, Rogério cerrava os dentes. O que aquele abestado sabia da vida afinal? Um covarde que se dobrou a vontade dos outros e fez o mesmo com os filhos e a mulher.

Bestando de novo Zézinho?? Assim não dá meu filho!

Rogério olhou a procura do pai, mas só viu o gerente da fábrica com sua camisa social branca bem passada de mangas dobradas. Tinha uma mão na cintura e um olhar impaciente e contrito, com raiva e pena de Rogério ao mesmo tempo.

Olha só Rogério, você é um ótimo funcionário, talvez o melhor dessa fábrica, juro. Mas encaixotar exige uma certa atenção, você opera uma máquina que pode cortar sua mão fora, entende? E se você corta um dedo hein meu filho? Como vai ser? Vai ficar encostado que nem aquele presidente safado?

Foi naquele instante que tudo aconteceu, todo o universo correu pelos sulcos de Rogério, penetrando e destruindo cada caudilho de certeza que construira até ali. Encaixotar era uma terapia, como num passeio ao zoológico, deixava Rogério livre para imaginar ser quem ele não era. E quem era Rogério? Pai? Marido? Um encaixotador? Rogério imaginava-se como um astro as vezes, formas diferentes de caixotes, mas caixas enfim. Tudo era uma grande caixa que encerrava outra caixa que encerrava outra caixa. Mas era uma caixa que se lacrava por dentro. Nós lacramos nossa existência.

Rogério pôs a mão embaixo da máquina de dobrar papelão e puxou a alavanca de prensar. A violência da dor da mão sendo destroçada deixou as pernas de Rogério bambas e por um instante sua consciência assobiou querendo desmaiar. Rogério ficou surpreso por se manter de pé, mais surpreso ainda por permanecer consciente de si, do que tinha feito e de quem era. A dor não o enlouquecera, mas Rogério não era mais normal tampouco. Rogério tinha rompido um lacre. Arrancou o que tinha sobrado da mão, matando um grito de dor do peito e mais um vacilo das pernas. Admirou a pasta de sangue e osso que tinha se formando onde antes tinha uma mão calombada por 29 anos de trabalho ininterrupto. Podia ter esmagado a esquerda em vez da direita, pensou Rogério.

Respirou fundo, sentia-se fraco, mas muito bem consigo, como numa manhã de domingo. Segurou o cotoco da mão e olhou em volta, surpreendendo-se com o chefe desmaiado ali perto. A camisa social branca amarrotada pela queda.

Rogério debruçou-se sobre o chefe e beijou-lhe a testa. Sentou-se a seu lado e ficou observando o sangue criar uma pequena poça a seu lado. Tinha que parar o sangramento, morrer depois da ressurgir seria uma ironia trágica na vida desse Zézinho. Mas antes de ir ao hospital, escreveu no chão da fábrica com seu sangue a seguinte frase:

Não fosse amanhã, que dia agitado hoje seria?

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

PS: A inspiração para esse texto veio deste post aqui: http://linguaepistolar.blogspot.com/search?q=rato

PSS: E a frase é uma homenagem a pessoa que faz meus dias mais agitados

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