Gil Santos, a galinha

Publicado: 15 de dezembro de 2011 por Bill em A Vida
Tags:, , ,

É irônico que a última coisa que eu me lembre antes de dormir foi que exagerei na galinhada. Parece que foi nessa manhã mesmo, quando acordei e era uma galinha. Escutei minha mãe chamar meu nome ao longe, mas com uma força descomunal, parecia um trovão. Ela chamou umas três vezes. Assustador. Minha mãe sabe que acordo tarde, então devia ser bem tarde pra ela tentar me acordar. Mas não conseguia me mover, a sensação de ser uma galinha tinha me paralisado completamente. Abri e fechei os olhos umas vinte vezes, o quarto já estava meio iluminado pelo sol que vazava das beiras da janela, eu podia dar uma olhada no meu corpo de galinha se quisesse, mas não o fiz. Sei lá, ver o corpo de galinha tornaria o corpo de galinha real. Então, esperei. Esperei pacientemente por um bom tempo. Respirava fundo. Era tudo um sonho, eu dizia. Sonhos são assim mesmo. Mas o trovão da minha mãe me despertou para a irreverssibilidade catastrófica de que eu ainda era uma galinha. Então ouço um estrondo sacudir a porta do meu quarto. Minha primeira reação é me esconder, não sei porque. Minha mãe chama meu nome, com aquele timbre de trovoada. Aí, sinto o edredon saltar sobre mim. Estou envergonhado por ser uma galinha, mas tenho cá minhas esperanças de que isso seja só um sonho. Daí, eu e minha mãe ficamos em silêncio um encarando o outro. Digo:

É mãe, não sei como aconteceu, mas eu virei uma galinha.

Ela não diz nada por um tempo e aí se atira sobre mim num rompante. Quase morro de susto. Nem deu tempo de correr. Minha mãe me iça pelos pés e me leva junto a ela até a cozinha. Lá, ela me amarra os pés firmemente com uma sacola de supermercado e, sem cerimônias, atira-me sobre a mesa. Então, acompanho deitado o espetáculo macabro da preparação da minha execução. A mãe corta cenouras, cebolas e tomates com uma destreza assassina. Ela enche uma panela com água e põe em fogo brando, coloca sal, azeite, cebolinha verde, tomilho, e uma pastilha de caldo Knorr. Enquanto isso, grito desesperadamente:

Mãe! Mãe! Ei! Sua desgraçada!!! Você vai comer seu filho porra! Você vai me comer merda!!!

Tomado pelo desespero, nem uma lágrima sequer derrubei, mas nunca chorei tanto na vida. Tudo bem, calma calma. Se isso é um sonho, eu vou acordar quando ela passar a faca no meu pescoço, mas se não for um sonho, eu vou morrer. É. Certo. Isso. Mas, então, e se não for um sonho? Será que eu quero viver assim? Como uma galinha?

A sobrevivência foi mais rápida que meu raciocínio. Quando vi a faca se aproximar, eu me sacudi todo e cai estatelado no chão. A queda soltou meu pés e com uma agilidade surpreendente, eu não estava só de pé, mas correndo alucinadamente para longe da cozinha e da minha mãe. Fromhell, meu cachorro, olhou curioso quando eu passei por ele a toda. O infeliz se pôs a correr atrás de mim no mesmo instante, e no segundo seguinte já tinha se atirado sobre mim, rosnando. Gritei pra ele:

Hell sou eu sou eu sou eu Hell!

Milagrosamente, Fromhell parou, intrigado. Tinha me escutado? Perguntei a ele se conseguia me ouvir, mas Hell pulou ganindo como se eu tivesse espetado seu olho. Como eu sou estupido… o que eu esperava? Que ele dissesse: Sim Gil, eu posso te ouvir – ?? Seja lá o que eu fiz a ele, não durou muito, pois ele já estava vindo outra vez, agora latindo com tanta força que achei que meus ouvidos iam estourar. Então eu pulei, pulei tão alto, tão alto, que comecei a voar e voei. Voei sobre FromHell, sobre minha casa, sobre as casas vizinhas. Fui alto, além das nuvens negras, lá em cima, onde tudo é muito frio e azul. Fechei os olhos e saboreei a sensação maravilhosa de voar. Aí lembrei que galinhas não voam e imediatamente comecei a despencar. Bati as asas freneticamente até me esborrachar no chão. Acho que quebrei minha perna ou foi uma asa, estava doendo demais, demais. Chorei outra vez e ali fiquei, chorando. Só então reparei onde eu tinha caído. Numa granja. E o que eu ouvi ali às vezes me pega desprevenido em um sonho qualquer e acordo em pânico com a sensação de ser uma galinha outra vez. Na granja, esperando pelo Juízo Final, milhares e milhares de vozes humanas gritavam enlouquecidas por socorro.

Você sente o terror, o desespero?

Uma granja

E agora?

Campo de concentração de Dachau

Certa vez um homem sonhou que era uma borboleta, voando alegremente aqui e ali. No sonho ele não tinha mais a mínima consciência de sua individualidade como pessoa. Ele era realmente uma borboleta. Repentinamente, ele acordou e descobriu-se deitado ali, um pessoa novamente. Mas então ele pensou para si mesmo:

Fui antes um homem que sonhava ser uma borboleta, ou sou agora uma borboleta que sonha em ser um homem?

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

Anúncios

Comente! Quebre as leis!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s