O cemitério de mim

Publicado: 24 de janeiro de 2013 por Bill em A Vida
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Ontem visitei o cemitério de mim. Uma visão assustadora. Um céu preto meio chumbado, com estrelas parecendo pequenos olhinhos furtivos e zombeteiros, com corvos empoleirados aqui e ali, gritando coisas que não ouso reproduzir, um mato cinza, ralo, meio morto e os túmulos, milhares e milhares, correndo a esquerda e a direita até encherem o horizonte e sumirem para além. Nunca imaginei que houvesse tantos de mim. Comecei a correr, correr alucinadamente. Não sei porque corri, pois já sabia que não sairia dali, mas por-me em movimento foi a coisa mais natural que achei fazer, tão natural que quando dei por mim já corria. Por vezes eu vislumbrava um nome à lápide e um arrepio macabro corria pela minha espinha e agitava-me as orelhas. AQUI JAZ WILLIAN, TORTURADO, VIOLENTADO, ASSASSINADO. As vezes havia flores, flores vermelhas e brancas e algumas amarelas, mas todas num tom esmaecido, como se ali o tempo pudesse lhes sugar a cor a ponto de rosas deixarem de ser rosas. Um gato preto cruzou meu caminho, no susto desequilibrei-me e xinguei, o gato enrijeceu o rabo e virou sua careta para mim, os olhos relampejaram na escuridão. O gato tinha um rosto humano, um rosto borrachudo, eu, eu quando mais novo, ele disse: meou, mas o que ouvi foi: tenha mais respeito pelos mortos. O desequilíbrio levou-me a tropeçar na raiz de uma árvore e essa árvore… essa árvore tinha braços, braços enormes, onde cotovelos se perdiam na noite funda, todos voltados para cima como a pedir clemencia a um deus indiferente e perverso. Havia um rosto a meio tronco e era eu outra vez, a olhar-me triste, os olhos vidrados, congelados, azuis. Caí. Terra mordeu meus olhos e encheu boca e ouvidos, uma terra fria, gelada, o gosto, um gosto de merda e azeitona. E então eu o vi, sim, eu, eu mesmo, lá em cima, com uma pá na mão e um sorriso no rosto. Digo a ele: Olha, não faça isso, por favor. Ele me diz: Queria não fazer, mas eu não posso fazer nada. E começa a despejar terra sobre mim, o céu acima dele enche-se de um roxo febril e um ramo verde sobre seu ombro lhe dá ares divinos. Eu quase brilho além-túmulo, pensei. A terra sufoca-me e sinto pena de mim. Que tipo de homem mata a si mesmo tantas vezes? Quando a terra começa a pesar sobre meu peito, resisto a tentação de engolir a terra. Mas não será por muito tempo, só me resta um último pensamento. Minha lápide.

lapide bill

AQUI JAZ BILL, UM DE MUITOS, ENTERRADO VIVO, POR UM

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