Uma breve conversa com deus

Publicado: 25 de janeiro de 2013 por Bill em Tudo Mais

– Por um momento eu achei que estava louco – foram as primeiras palavras do Cristo ressuscitado, ou refeito, ou recriado, ou criado somente, ou outra coisa qualquer que sua filosofia, ou sua descrença possam acolher a fato tão inédito na história da humanidade.  Faço tais ressalvas pois não há vocabulário antigo ou novo que dê conta disso. Assim sendo, como quem escreve sou eu, digo pois que Cristo foi recriado. O ocaso da recriação de Cristo foi alvo de acalorados debates durante séculos desde que se especulou a reconfiguração do MICROSOFT TRANSPASUB42D para átomos de carbono ulcerados. E somente agora, como chefe de pesquisa do Projeto Santo Sudário, posso relatar os acontecimentos desse evento “fantástico” como dizem as crianças. Antes de tudo, peço aos fanáticos mais tento na língua, já que suas ações estão a causar vários atos de vandalismo pelo mundo. Isto não é o fim do mundo. Cristo já morreu novamente devido ao processo de envelhecimento precoce das células e se escrevo agora é porque o mundo não chegou ao fim como alardearam vários profetas durante as últimas décadas. Também não posso imiscuir da questão aqueles que fizeram desse projeto  prova inconteste da ligação entre ciência e milagre. Nada é mais absurdo que isso e a meu ver e constitui ofensa maior do que anunciar o Juízo Final, fato que consta no Tratado Geral Nº 27 das Possibilidades de Fluxo Temporal de Supernovas, embora sublinhado como muito remoto. Dadas as devidas explicações passo a descrever as pouquíssimas horas (horas que para vocês, na Terra, não passam de ínfimos minutos) em que Cristo esteve vivo outra vez.

As perguntas foram todas sorteadas e áudio e vídeo estão registrados no Instituto Internacional de Atividades Atomicósmicas de Bruxelas. As respostas, bem como as perguntas, foram traduzidas pelo Goggle 8.4 Plus, licenciado pela Disney, pois mesmo uma busca cotidiana tem que ser feita com magia.

Após dizer que achava estar louco, Jesus desfaleceu e instantaneamente aplicamos o procedimento de recuperação terminal dos Antigos Marines, foi preciso tratar urgentemente dos ferimentos causados pela crucificação. A quem ainda não conhece o iscopelamento, faço alguns esclarecimentos. O iscopelamento é uma técnica milenar desenvolvida por John Ford quando criou os primeiros veículos automotores em série, muito embora, inicialmente o objetivo fosse o mero deslocamento, lá estavam, no automóvel, na velocidade e no destemor de seus viajantes, os princípios básicos da desintegração e recriação de átomos. Aperfeiçoada durante séculos, a técnica ultramoderna de iscopelamento de espécies extintas cria a forma carbônica a partir da qual seus vestígios de DNA foram encontrados, no caso de Cristo, o Santo Sudário, portanto, sua constituição física e mental segue-se instantaneamente após falecer na cruz. Vale lembrar, as experiências de iscopelamento feita com dinossauros até hoje não lograrem êxito dada a extrema agonia das circunstancias mortíferas dessas cadeias carboníferas, das quais podemos concluir que Cristo não sofreu tanto como aquele filme do séc. XXI, atribuído a Mel Gibson, o profeta, faz crer.

– Onde estou? – foi a primeira pergunta de Cristo após a consciência tornar a superfície.

– Você está na Estação Espacial Nº 263, batizada como Jerusálem em sua homenagem – disse eu, meio nervoso.

Ao seu olhar deslocado completei.

– Estamos fora da Terra.

Ao persistir o olhar deslocado, vi-me sem palavras e meu auxiliar, o doutor M. veio em meu socorro.

– Estamos no céu, senhor.

– Assim, entendo. O pai me salvou.

Seguiu-se um entreolhar constrangido de nossa parte, infelizmente dado o tempo ínfimo do iscopelamento, não podíamos esclarecê-lo das circunstancias cientificas de sua recriação.

– Senhor, gostaríamos de fazer algumas perguntas – disse conforme o protocolo.

– Por que me chamas de senhor? Quem és tu?

Outro entreolhar desconfortável.

– Senhor, infelizmente, não dispomos de tempo para responder suas perguntas – disse com pesar seguindo o protocolo.

– Entendo. O pai só me manda rezar, mas nunca responde as minhas preces – disse Cristo olhando para os antebraços costurados.

– O senhor foi carpinteiro? – foi a primeira pergunta sorteada.

– É outro teste? – perguntou desconfiado.

– Senhor, responda a pergunta.

– Bem, não me lembro de ter sido carpintado…

– Senhor, carpintaria é… – o que era carpintaria? Meus auxiliares jogaram-se sobre seus rings a vasculhar toda a Wiki. Foi o doutor T. quem encontrou o verbete – carpintaria vem do latim construtor de carruagens, é…

– Trabalhar a madeira – cochichou-me ao ouvido a doutora S.

– … trabalhar a madeira. O senhor já trabalhou a madeira?

O homem se pôs a rir a ponto do estomago apontar acidez de 7.8

– Senhor? Senhor? Por que dos risos?

– Haha… ai, ai, não, não, nada, desculpe. Só me lembrei de uma piada muito boa.

– Senhor, agora que entende o que é a carpintaria, pode responder a pergunta? O senhor foi carpinteiro?

– Sim – disse com as lágrimas ainda a rolar pelo rosto – mas não me orgulho disso.

– Senhor? A carpintaria é um dos três grandes ofícios antigos.

– Tanto melhor para os outros dois. Não há orgulho em deitar uma árvore, mutilá-la, e para quê, pergunto, unicamente para deixar o egoísta confortável. Bem aventurado aquele que se senta ao chão, que quando cai o frio prefere a morte a ter que acender uma fogueira e tenho dito.

Poderíamos ter aberto a champanha se despossemos de tempo para tal.

– O senhor andou sobre as águas?

– Era meu hobbie preferido.

– Como o senhor explica sua capacidade de andar sobre as águas?

– O pai nos fez da água, assim como nos fez da terra, podemos andar sobre a água tal qual podemos andar sobre a terra.

– Então, o senhor está a dizer que qualquer homem poderia andar sobre as águas.

– É.

– E por que a maioria não tem como hobbie andar sobre as águas?

– Pelo mesmo motivo que os peixes não nadam na terra.

– E que motivo seria esse?

– Fé.

A equipe projetava pela cabine fogos de artifício do sec. XXV.

– O senhor acredita em deus?

Cristo se calou e por um momento, para nosso desespero, achamos que permaneceria assim, mas ele falou de súbito, com um sorriso.

– Agora acredito.

– Só agora?

– Alguns pensam em ir e vão toda a vida, mas morrem como todos os homens. Outros vivem a voltar e voltam durante toda a vida, mas também morrem como todos os homens. Em verdade vos digo, é aqueles que ficam, a estes, e somente a estes, que a morte não incomoda.

– Senhor? – o homem delirava a olhos vistos.

– Aqueles que vivem a olhar para a frente ou para trás e deixam o agora correr já estão todos mortos.

– Senhor, nosso tempo, há outras perguntas. O senhor tinha irmãos?

– Vários.

– O sen…

Minha auxiliar sênior, a doutora R. interrompeu-me.

– O doutor quis dizer irmãos de sangue.

– Vários.

– Filhos de mesmo pai e mãe? – não pude resistir, faço minhas honras.

– Somos todos filhos do mesmo pai e da mesma mãe.

Fosse biólogo antrodarwinista, ele poderia estar certo.

– Certo. O senhor transformou água em vinho?

– Sempre, é fácil, faço isso quando já estão todos bêbados.

Aquilo fez a nós um momento de silencio, quase não pude prosseguir.

– Então você credita a transformação de água para vinho a embriaguez das pessoas?

– Claro! Todo bêbado torna-se o mais crente dos homens.

– Ahhn. O senhor se chama Jesus Cristo?

– Não.

Acho que se não caímos todos para trás, foi porque a cabine de entrevista não o permitia.

– Senhor, o senhor não se chama Jesus Cristo?

– Sim.

– Então seu nome é Jesus Cristo?

– Não.

– Ora essa, então, quem és tu?

– Sou o filho do homem.

Depois dessa não pude continuar, tive que recuperar o fôlego, a doutora R. continuou a entrevista em minha ausência.

– Você confiou a Pedro sua igreja?

– Nunca confiei em Pedro, nem em Igreja.

Do meu canto, só pude cuspir as aspirinas que tinha a goela.

– Mas Pedro! – disse eu ao microfone – Pedro, teu apóstolo!

– Não conheço meu apóstolo, o que seria isso?

Larguei o microfone e só presenciei o resto da entrevista porque a cabine é lacrada após o iscopelamento.

– Seus seguidores, as pessoas que te acompanhavam, não entregou a nenhum deles teus ensinamentos?

– A todos.

– E Pedro?

– Também.

– Mas disseste…

– Disse que não confiava nele, isso muito certamente. Pedro não era louco como os outros.

– Os outros? Os outros eram loucos?

– Malucos, pirados, lelés da cuca.

– Mas, então, confias mais na insanidade que na razão?

– A razão construiu a Torre de Babel e Deus a derrubou. Deus não fala pela razão, Deus não é racional.

Cristo riu-se todo.

– Senhor? E agora, por que ri?

– Diz-se que um homem a porta dos céus se põe a rir.

Foi quando o doutor M quebrou o protocolo, fato que acarretou seu afastamento temporário e processo administrativo gravíssimo.

– E Madalena? Conheceu alguma Madalena?

Mesmo louco de fúria pelo atrevimento de meu assistente, não pude deixar de ouvir a resposta, mas Jesus limitou-se a sorrir, um tanto vermelho.

Peguei o microfone outra vez, de certa forma o incidente foi minha culpa, não devia ausentar-me da função, por mais dispendiosa que fosse, motivo pelo qual apresentei voluntariamente uma petição contra mim por processo administrativo leve. Jesus já envelhecia rapidamente e faltavam apenas alguns minutos para o completo aniquilamento molecular.

– Senhor. O senhor sabia que guerras seriam feitas em teu nome?

– Fala das cruzadas?

Um minuto de assombro calou a todos.

– o Senhor sabe que os cristãos e os árabes brigaram por Jerusalém?

– Sei – disse simplesmente.

– Como sabes disso?

– Ora, tu acabaste de dizê-lo.

– Mas o senhor disse cruzadas, a que se referia?

– Ao além.

A doutora R. revirou os olhos.

– O senhor se chama Deus?

– Você é quem o diz.

Imaginei que alguém faria essa pergunta e não pude deixar de soltar um assobio pela perda de tempo.

– O senhor por acaso disse que os últimos seriam os primeiros?

– Sim.

– O senhor entende que essas palavras ferem a constituição de Justiça?

– Justiça… Lembro-me dos homens de César, com suas armaduras e fala macia, eles usavam a Justiça da Espada. As pessoas choravam e juravam justiça, mas justiça de quem? A justiça Divina, mas daí já chegava um fariseu a dizer que toda nossa desgraça já era a Justiça de Deus. Justiça é só uma palavra, como posso ferir aquilo que nada tem? Os últimos serão os primeiros, simplesmente porque são os primeiros que fazem justiça.

– Senhor, poderia fazer algum milagre agora? Pode ser qualquer um.

– Só posso fazer milagres por meio de ti, acaso quem me devolvestes a vida? Não fui eu.

– O senhor falou com deus?

– Falo com ele agora. Por acaso não és tu?

E essa foi a última frase dita por Jesus. Putrefou-se num milissegundo, como todos sabem, o tempo de iscopelamento é impreciso e dada média imaginávamos que o fim estava próximo, mas soubesse que aquela seria a última pergunta teria feito-a primeiro. Uma pena, o iscopelamento não pode ser refeito.

Ao que tudo indica a teoria apresentada no séc. XIX por Fiódor Dostoiéviski quanto a idiotia de Jesus foi comprovada. Não há registro de qualquer iscopelamento em que o recriado tenha se comportado tão docilmente, ainda mais tendo a mente fresca dos eventos de uma morte tão horrorosa. Imagino que muitos que comparam na RingMarket 2.2.0 a personalidade cristã de Dostoiévski e deram queixa ao Departamento de Defesa do Consumidão devem estar a ajoelhar-se agora. Tolos, quem que não fosse louco iria voluntariamente querer a estupidez? Também ficou evidente a presença da esquizonóia megalomaníaca auto-explicativa defendida por Jekils e Hides. Certamente os vencedores do Nobel de Psicologia nesse biênio. Entre os membros da nossa equipe, estamos a discutir a última expressão de Cristo. O doutor M. já escreve uma tese a respeito, ouvi dizer intitular-se “O sorriso de Jesus – De Monalisa às maravilhas do iscopelamento”, diz ele que Jesus morreu a beira de uma gargalhada, como aquela da carpintaria. Haja originalidade. Os doutores A; A.G; E; L; P; S e T dizem que o aniquilamento foi muito rápido de modo que não se pode fazer, a principio, qualquer inferência. A doutora R. que se desligou do serviço após a entrevista não quis comentar o assunto e não atende as minhas chamadas. Quanto a mim. Bem, estou a ver precisamente agora a imagem congelada do rosto de Jesus milissegundos antes do aniquilamento e… sinceramente, acho que é a mesma expressão de quando o recriamos.

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comentários
  1. […] “Deus, por que me abandonastes?“ […]

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