Um trago e uma lata de cerveja quase vazia

Publicado: 24 de abril de 2013 por Bill em A Vida
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Volto para casa fumando. Dou uma tossida e me pergunto: por que fumo? Não sei. Gosto do jeito como minha mão segura o cigarro, gosto também de soprar a fumaça para cima e acompanhá-la se dissolver no ar, gosto disso, gosto até do nojo estampado na cara de uma mulher que passa por mim com a mão no nariz, é disso que mais gosto, mas só gosto não explica por que fumo, é caro, deixa dentes e unhas amarelados, dizem que faz mal à saúde e afasta as pessoas. Não me aproximo de uma criança quando estou fumando e gosto muito de crianças. Não tenho filhos. Trago o cigarro com força quando passo pelo morro que dá para minha casa, estou perto, preciso terminar o cigarro, não gosto de entrar em casa fumando embora fume dentro de casa. Seguro a fumaça no peito por 10 segundos, alguém me disse certa vez que o bom fumante fala até 10 palavras sem soltar fumaça. Não sou um bom fumante. Tento outra vez. Sou um péssimo fumante. Sinto o gosto do cigarro azedar próximo ao filtro. Bem a tempo, lá está a lixeira. Dois passos fora do caminho e apago o cigarro a lataria da lixeira, jogo-o e erro a boca da lixeira, a bituca vai parar a outros três passos de mim e cinco fora do meu caminho de volta para casa, sigo meu rumo, mas sete passos e meio depois penso no planeta e penso nos milhares de fumantes que jogam bitucas na rua e naquelas pessoas que recolhem algumas dessas bitucas sob sol quente ganhando um salário de fome. Retorno para recolher a bituca do chão, vejo se alguém observa minhas esquisitices e sem ninguém a vista, volto a jogar o resto de cigarro na boca da lixeira, dessa vez acerto. Sigo meu rumo. Penso que sou doido ou muito estúpido. É quando passo pela ponte que fica a nove passos de casa. Lá, duas pessoas conversam, uma delas toma um gole de cerveja e atira a lata quase vazia, quase, pois vejo um restinho de cerveja escapulir na queda até o córrego que está cheio e marrom por causa das chuvas. Penso na imensurável quantidade de pessoas que não possuem consciência ambiental e que por isso o planeta não poderia suportar mais um século de seres humanos. Mas é esse homem só ignorante ou dotado de uma superinteligência hipócrita? Poderá ele saber, consciente ou não, de que jogar a lata no lixo não adiantaria absolutamente nada de nada? As pessoas não vão deixar de jogar latas por aí. Não vão. Até serem enterradas por elas. Acendo outro cigarro a porta de casa, trago e apago-o nas costas da mão direita. É, eu sou muito louco mesmo.

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