Tragédia de um homem gordo.

Publicado: 11 de junho de 2013 por Bill em A Vida
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Joss não sabia porque tinha esse nome. Ele nunca perguntou. Joss era assim, irritado com tudo. Com todos. Joss era emburrado, vivia de cara azeda pra cima e pra baixo, você perguntava o que ele tinha e ele respondia aos berros:

NADA, PORRA! NADA!

A maioria das pessoas achava que Joss se comportava daquela forma por ser gordo. Não pela gordura em si, mas pelas constantes humilhações que a gordura fazia o pobre coitado passar. Quando Joss ouvia isso dizia:

Quando criança ser gordo é bonito, te incentivam a comer o tempo todo, a cada colherada engolida bate-se palmas, bochechas são apertadas e beijos melados são dados. Você come e come para ser amado! Um dia então, subitamente, a colher é guardada junto dos garfos, a palma vira um punho, as bochechas param de doer e os beijos tornam-se lembranças melosas de um tempo outro.

Joss era um rapaz muito revoltado com o mundo que se expressava por meio de metáforas infantis.

Sim, sou um gordo vestido de azul com um grande pirulito na mão. Quer chupar?

Joss não sabia brincar. Joss era muito inteligente para brincar. Desde criança se recusava a brincar com as outras crianças e se lhe davam qualquer tipo de brinquedo no aniversário, ele arremessava o presente na parede. Foi por isso que a família de Joss o internou. Era impossível viver com Joss. Diziam que Joss podia fazer qualquer coisa com qualquer um.. Quando Joss ouvia isso ele começava a rir, rir descontroladamente, rir tanto que sua barriga começava a doer e precisavam desmaiá-lo para que ele não sufocasse de tanto rir. Joss sabia a verdade. Era evidente. Descobrira assim que se viu consciente do mundo. Ainda criança apercebeu-se da cegueira dos outros. Esta foi sua desgraça. Ao afastar-se da iniquidade, Joss fechou-se em si mesmo, criando uma camada sobre a outra, camadas que soldaram o homem gordo. Joss deixou de existir, a gordura era seu escudo contra o mundo. Joss era um tolo. Por se achar forçado a algo, Joss fazia o contrário. Não deste mundo, para este mundo. As mensagens que vinha de lá ele fingia não ouvir, no banho, costumava tapar os ouvidos e cantar e cantar alto e forte o mais alto e o mais forte que pudesse até que a garganta começasse a sangrar e os pulmões fossem torcidos. Quando alguém entrava no banheiro e encontrava Joss assim perguntava: Ficou louco de vez, gordo? E Joss respondia:

Estou tentando não ficar!

Joss descobriu que comer faziam as vozes se calarem. Foi assim que Joss se tornou o homem gordo. Por tentar esquecer-se da verdade, Joss engordou. E perdido, lá no meio de tudo, Joss foi feliz. Só isso. Mas um dia, no internato, Joss encontrou Erica, uma maluquinha que achava que falava com os pássaros. Erica chamava Joss de “O Grande Pássaro da Verdade”. Joss iluminou-se, pela primeira vez na vida encontrou alguém que também via, com quem podia falar sobre a coisa. E Joss há muito se torturava por isso, somente com muito esforço controlava-se para não gritar ao acordar:

SEUS IDIOTAS! VOCÊS NÃO VÊEM COMO TUDO ISSO É INÚTIL!!??

Pobre Joss. Um tolo. Está escrito que a tragédia se abaterá sobre todos os homens gordos. Joss sabia disso. Joss era um tolo. Erica não acreditava em Joss. Pelo contrário. Erica zombava de Joss. Erica odiava homens gordos. Erica tinha nojo de homens gordos. Erica realmente detestava homens gordos e não fazia ideia do porquê. Mas Joss demorou para perceber as verdadeiras intenções de Erica. Joss amava Erica, não queria, mas amava. Eu dizia a ele.

DEIXE-A! ELA SÓ VAI TE TRAZER SOFRIMENTO SEU IDIOTA!

E Joss me respondia baixinho:

Foda-se.

Foi somente naquele dia, naquela tarde, quando o sol pinta as coisas de vermelho sangue que Joss viu quem Erica era. Erica tinha desenhado no quadro negro um circulo. Todos riram daquilo. Todos acharam que se tratava de uma figura geométrica que imitava a condição de Joss e, embora não estivessem muito longe da verdade, o que afligia Joss era que aquilo simplesmente não significava nada.

ABSOLUTAMENTE NADA.

NADINHA DE NADA.

Imagem

A soberba de Joss foi sua ruína. Ele contou a Erica a verdade e está escrito que todo aquele que contar a verdade será tido como um idiota, UM IDIOTA!, pior do que louco. Joss sabia disso. Joss desafiou isso. Joss se fudeu.

Naquela tarde de sangue, Joss se jogou sobre o quadro, chorando que nem uma criancinha enquanto tentava apagar o circulo da verdade. E então, Joss tomou sua decisão. Antes da última gota de sangue cair dos céus, Joss pegou uma faca de cozinha e cortou suas banhas, da barriga, das costas, dos braços, das bundas, das coxas, das bochechas. Cortou tudo. Vestiu um casaco, pôs o capuz e correu para o refeitório para contar a Érica. Chegou lá gritando e esse foi seu único outro momento de felicidade durante toda a vida:

EU CONSEGUI ERICA! CONSEGUI!!

E quando seus olhos se encontraram, ele abriu o casaco e seus órgãos pularam para o chão. Joss morre sorrindo. Joss sabia a verdade. Joss sabia o que Eu queria. Tudo o que Eu queria era Joss vivo. Mas esta história se anuncia por tragédia e esta é nossa tragédia. A trágica vida desse homem gordo cruza com a nossa, e então? Será que simplesmente comemos e comemos para nos calar?

Joss contava que este mundo é uma criação toscamente inspirada em Dostoiévski por uma alma atormentada pelas mais bizarras tolices que o outro mundo já viu. Que a vida de Joss na verdade é uma tentativa de expiação das desgraças que atormentam a condição humana ao mesmo tempo em que há a crença mal formulada de que se pode  passar qualquer lição valiosa para as pessoas do outro lado desta tela. Ah! Nosso Deus é um tolo, sentenciaria Joss. Diga que vamos viver e imediatamente nos projetamos para a morte de peito nu. Joss sabia a verdade. Está escrito. Aqui.

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