Foice o tempo

Publicado: 29 de julho de 2013 por Bill em A Vida
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Tudo começou com esse spotted:

Hoje eu fui procurar uns documentos pro meu pai e acabei achando umas cartinhas dele pra minha mãe, de 1981!!! Eu precisava dividir esse achado com alguém e ngm melhor que pessoas desconhecidas. Meu pai era de um romantismo tão lindo!! Era só amor, daqueles de quando a gente namora e está completamente apaixonado. Eu, no papel de filha, de fruto daquele amor, não soube o sentimento que tomou conta de mim enquanto lia as cartas. Chorei… Chorei pq hoje, com 29 anos de casados, vejo que meu pai mudou muito em relação à demonstração desse amor. Mal consegui acreditar que foi realmente ele quem escreveu aquelas lindas e fofas palavras! Me deu uma coisa ruim… Pq as pessoas mudam? Pq deixam de demonstrar o que sentem? Pq o tempo muda as atitudes das pessoas?? O tempo muda tanto as coisas… Casais, aproveitem essa fase tão linda que é o começo de namoro e quando casarem, por favor, tentem ao máximo permanecer nesse clima tão lindo!!!Ps.: sei que seria bonitinho se eu transcrevesse um pedaço das cartas aqui, ou ao menos tirasse uma foto, mas já invadi demais a privacidade deles lendo sem eles saberem… Melhor deixar sem!

A narrativa pode ser uma mentira, mas as perguntas feitas são verdadeiras:

Pq as pessoas mudam?

Para a efemeridade, no fim, vemos mudança, transformação, fortalecimento, experiência. Mas para a posteridade fica o rancor, a estranheza, a nostalgia, a dor, o sentimento de impotência diante do tempo

Pq deixam de demonstrar o que sentem? Pq o tempo muda as atitudes das pessoas??

O tempo não transforma, ele destrói. Na mitologia grega o tempo devorava todos os seus filhos. Destruir para ser. Esta é a condição humana. A experiencia não se acumula, ela se devora. O sentimento é a marca da mortalidade, o choro, a angustia, as paixões, o ódio… No fim, os sentimentos são devorados pela sabedoria. Não devemos expor nossos sentimentos sob o risco de ficarmos vulneráveis.

 O tempo muda tanto as coisas…

Deixemos o tempo falar e escutaremos o vento balançar as folhas de uma árvore. A buzina de um carro distante. Um ranger de dentes baixinho. Uma porta batida com intrépido. Silêncio. Morte. O tempo é antes de tudo fim, pois não existe começo sem fim. Na mitologia judaica, vemos que aquilo que separa Deus dos homens é a eternidade simbolizada pelo fruto da árvore da Vida Eterna. Esta alegoria também se apresenta na mitologia grega sob o signo de Zeus, aquele que conseguiu escapar a voracidade do tempo. É a morte que escutamos quando paramos para perceber o tempo. É esta nossa sina. A eternidade nos tornaria deuses. Mas a mortalidade nos torna homens. E tudo aquilo que está a mercê do tempo é implacavelmente destruído. O tempo não muda as coisas. São as pessoas que se mutilam diante do tempo, No fim, os mutilados são incompreensíveis. Tantas e tantas cicatrizes lhe recobrem o corpo  que fica quase impossível reconhecê-los e aí, a posteridade chama a isso de mudança. É morte. Pois cada vez que o sol deita sobre a terra, morremos e morremos novamente quando ele se levanta. Cada passo te deixa mais perto da morte. Cada suspiro é uma facada dada no peito. Cada lágrima é um sentimento assassinado. Cada sorriso uma lápide. Os mutilados tampouco poderiam se reconhecer, embora possam compreender melhor sua trajetória no tempo. Na procura pela eternidade, matamos para viver e vivemos para morrer.

O homem tanto tenta subverter o tempo que as coisas deixadas por ele são como um filme de fotografia a espera da revelação pela morte.

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