A MORTE PODE ESPERAR 2

Publicado: 5 de novembro de 2013 por Bill em A Vida, o Universo, Tudo Mais
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Vejo um velho descer com uma pequena e suja trocha amarrada as costas. Dentro dela há 14 pertences. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só dá pra usar mais uma vez, uma toalha mofada com o número 42 bordado em vermelho que ele roubara ainda molhada de um varal, uma camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção com folhas da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma velha calça jeans, um caderno, um lápis, uma faca, pouco mais da metade de um sanduíche de presunto enrolado em guardanapos, uma pequena garrafa de cachaça de caju, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. Esse velho caminha pela praia. Não se sente feliz. Não importa quão lindo seja o quadro pintado pelo sol. Não importa que carinhos a brisa lhe faça. Esse velho pode até sorrir, mas quem vê seu sorriso se ressente de imediato, é como encontrar lixo espalhado pela praia. Desagradável. Desnecessário. O velho logo vai embora, sabe que não é bem-vindo. Deus, em que lugar ele é? Oh, DEUS DE MIL OLHOS que tudo vê, tudo sabe, deixe-me em paz! 

Posso ouvir os passos a suas costas, sombras que se movimentam sozinhas, noites terrivelmente barulhentas, que ficam sussurrando um horror qualquer seu, que seja, um único medo indizível, irracional, tão profundamente enraizado no seu espírito que chega a consumi-lo, devagar, mas inexoravelmente, retorcendo sua medula espinhal, até quando você se dá conta das manchas escuras envolta dos olhos e se pergunta qual foi a última vez que dormiu…

E você continua fugindo.

Ah! vida miserável essa! que se compraz com as sombras, com a sujeira, com a indiferença por que dela não lhe vem censura. Mas de que adianta? conquanto a consciência posta olhares neste corpo moribundo mesmo na escuridão! Sim! A consciência! Seja lá o que diabo for isso! É o que nos separa deles, por isso torturamo-nos em fuga ainda que seja simplesmente impossível fugir de si mesmo. É a fuga uma ilusão, mas a ilusão que nos permite continuar. Assim nos embriagamos até o raiar da morte. Todos os dias. Flertamos com a morte para, quem sabe, possa ela um dia nos levar por acidente, é uma forma de derrotar o deus de mil olhos, ilusória é verdade, mas o que não é? Sobreviver é ter a morte por sombra, o fugitivo é aquele louco que corre da própria sombra. Uma sombra fundi-se com outra. Esse velho não tem lugar. Enquanto caminha sonha com uma vida passada. Escute com atenção agora. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

E estou na minha velha casa. Meu pai está no chão em uma poça de sangue, minha mãe está embaixo de mim, a boca escancarada, os olhos vazios. Não vejo minha irmã. Sinto uma dor e um movimento de sobe e desce. Ah, é o doutorzinho. Ele está em cima de mim, está comendo a porra do meu cu. O cano frio do revolver está grudado no meu rosto. Sinto medo, um medo terrível. Um medo sem nome. Estou cagado. Cagado de medo, literalmente. Ele come meu cu cagado. Louco de merda. Sinto o calor do esperma irradiar-se pelas minhas pregas. O filha da puta geme, satisfeito.

– Cara, você tem um cu melhor que o dá tua irmã, falo sério. Porra!

Uma parte de mim, uma parte antiga de mim, está espantada, absurdamente espantada com a violência, com o terror, com o sadismo, não consigo me mover, todo o corpo dói, retesado. E ele fica sorrindo. O desgraçado sorri diante do meu medo, está feliz! O cara acabou de matar toda minha família e está sorrindo! Que tipo de pessoa pode fazer isso? Sinto um frio e ao mesmo tempo um calor escorrer pelas pernas, estou mijando. Além de cagão, eu sou a porra dum mijão!

– Ah merda! Mas que merda! – ele grita pulando às gargalhadas

Eu me odeio. Como eu me odeio. Que espécie de homem eu sou? Por que eu não paro de tremer, levanto e arranco o sorriso desse bosta mesmo que antes ele me acerte um tiro no peito? Por quê? Ele sobe as calças, afivela o cinto com cuidado. Se aproxima de mim e me beija na testa. Deve ter me acertado a cabeça com o revolver também porque apago instantaneamente. Acordo. Estão todos mortos! Mortos! Subo aos tropeços até meu quarto, apanho algumas coisas, 14 coisas na verdade, e fujo, corro dali pra nunca mais voltar. Em algum momento, os vizinhos vão desconfiar, suspeito que a primeira a notar seja Dona Silvana, incherida e fofoqueira como é, não deve demorar a estranhar o sumiço da gente, logo o fedor vai se espalhar pela rua, o telefone vai ficar tocando e tocando, tocando até cair, os cachorros vão latir de fome. Aí, alguém, dona Silvana provavelmente, liga pra polícia. Queria ter deixado uma carta colada por um imã na geladeira para quem descobrisse os corpos:

Minha mãe e irmã e o pai estão mortos. Foram torturados e assassinados pelo doutor que namorava minha irmã. Não sei porque ele me deixou viver. Acho que é uma brincadeira. Seja como for, volto quando o encontrar.

Quisera estar calmo para deixar um bilhete. Minhas mãos mal conseguiam parar de tremer para assoar o nariz. Não… Tudo que fiz foi fugir. Estou correndo agora. Meu peito dói pelo esforço. E meu cu dói pra porra também! Mal consigo continuar a corrida. Estou chorando, não, estou rindo, e chorando. Sou um covarde. Não pude proteger minha família, muito pelo contrário, eu o ajudei a matá-los. Tudo pela sobrevivência. Talvez a evolução possa explicar isso, mas não é suficiente para aplacar a revolução em minha alma. Ainda que a covardia seja um instinto de sobrevivência, isso não me faz menos covarde. Faz-me mais covarde ainda. Animais fogem do seu predador. Animais. Eu entreguei meus pais e minha irmã para me salvar. Eu os matei. Sinto o gosto salgado das lágrimas misturada ao suor que escorre da minha tez. Corro, tento fugir do passado, dessas memórias, da dor, da culpa, do ódio, da humilhação, da impotência. Sinto nojo. Repulsa. Lembro de quando criança. Um menino tomou a bicicleta da minha irmã e tivemos que voltar a pé para casa. Lembro do meu vizinho que apanhou na escola, lembro dele me pedir ajuda chorando e eu fingir que não ouvi. Era meu melhor amigo, eu ia a sua casa todo dia jogar supernintendo. Lembro do pai colocando a minha irmã de castigo por me bater. Ela me bateu porque eu a espiava no banho. Ela não contou pra ele, nunca contou para ninguém. Lembro do meu chefe passando um esporro em uma colega de trabalho, lembro dele olhar para mim e piscar. Lembro da minha noiva trepando com meu chefe. Lembro da minha mãe dizendo que estava tudo bem, que ia ficar tudo bem enquanto eu a violentava. Lembro de um negão dizer que isso acontece no mundo todo, o tempo todo. Somos um bando de covardes. Uma legião enorme de bunda-moles. Lembro de um amigo que foi aleijado por uma bala perdida. Posso ver sua cadeira de rodas desenhada nas nunvens esparsas da manhã. Não pensamos nessas coisas, fingimos que não é conosco. Você abre um jornal pela manhã enquanto bebe um café bem quente e lê sobre um casal de velhinhos, espancados até a morte pela neta, uma mocinha de 13 anos. Na mesma página há uma foto grande de um acidente de carro. A legenda diz: motorista bêbado se irrita com batida e espanca até a morte responsável pelo acidente. Você lê mais abaixo que uma criança saiu para comprar pão, você vê fotos das imagens feitas pela câmera da padaria, na foto você vê um homem se aproximar. Eles saem juntos. A menina é estuprada tão violentamente que seu hímen é rompido, ela também é espancada até a morte. No final dessa página, o jornalista constata a falta de investimentos em segurança pública. E é assim que acaba. Entre o café e uma enxurrada de noticias está você, alguém que não tem nada a ver com aquilo. Não foi você que fez o café, não foi você que moeu os grãos, não foi a pessoa que os colheu, nem quem plantou. Você dobra o jornal e sorve um último gole do café, você reclama que está muito forte. E o mundo segue adiante entre cafés, assassinatos e imobilidade. Mas a morte nunca para nesse mundo, sua sede de sangue é inesgotável. É um monstro gigante, o deus deles, está aí, por todo o canto. Pra onde quer que se olhe lá está aquela boca escura, infinita e minúscula, com tantos olhos quanto estrelas. Sedento. Eu sei que ele está lá, mesmo de dia, sei que o sol é só um disfarce, um botão de ouro numa lapela negra. Você pode ouvi-lo se parar para escutar. Ouça-o, chupando, sugando, tragando tudo por uma fenda tão pequena que nem a luz é capaz de atravessar. Sinto sua fome. Insaciável. Terrível. O apetite macabro que devora amor, compaixão, empatia. Que nos torna essas coisas duras, vazias. Eu vejo agora. Sou aquele cara acorrentado que se liberta e vai para além das sombras. Oh, luz das trevas! Antes fosse cego! Vejo a obediência cega das formigas operárias ao DEUS DE MIL OLHOS, seus mais crédulos fiéis. Essas formigas fazem de conta que o Shopping não é uma Igreja, que as Compras não são Dízimos, que o Consumo não é uma Fé, que o Trabalho não é um Sacerdócio, que o Dinheiro não leva o nome de Deus. Esse monstro não rasteja pelos esgotos, não esconde-se em becos escuros ou espreita agachado no mato alto. Ele está aí, ao seu lado, esperando, eles gostam de brincar antes da refeição. Eles não querem seu dinheiro, não querem seus sapatos bonitos, nem sua roupa cara, o deus deles não liga para essas coisas. Esse monstro quer seu desespero, sua dor, sua felicidade. Esse monstro pode ser um casal de velhinhos, um simpático doutor ou uma garotinha. É tudo uma grande piada macabra. Não existe felicidade, mas eles a inventaram para que o sofrimento pudesse existir. O café é despejado na pia e um grito se escuta. Um avental cai manchado de sangue na cozinha impecavelmente branca. Em seguida você desdobra o jornal novamente. É assim no mundo todo. Um grito a noite. São seus vizinhos brigando novamente. Eles gritam o tempo todo. Amanhã a policia irá recolher os corpos e você pode chorar suas mortes. Aponte um revólver para suas cabeças e vai vê-los implorarem pela vida de joelhos. São pessoas boas, pode consultar seus parentes e amigos e conhecidos. Provoque o medo e você vai ver um espetáculo de horror. Você escuta sobre o desastre de um avião que caiu na Patagônia, lê que os sobreviventes comeram os corpos dos mortos. O que você não lê e você não quer ler, é que nem todos que foram comidos tinham morrido em decorrência da queda. Carne congelada não é agradável. Esse monstro gosta de se divertir antes das refeições. Você pode ver seus tentáculos passeando, sossegados. Pessoas honestas, maridos e mulheres fiéis, adolescentes cristãos. Eles irão se despedaçar, comer-lhe as entranhas, farão de tudo para perpetuar o que chamam de vidas, porque Pandora fechou o último dos terrores em sua caixa. Nós não nascemos, não crescemos. Só comemos e comemos a espera da morte. Nossos corpos jazem quentes em residências de janelas blindadas, muros altos com cercas elétricas e câmeras de segurança. Acreditamos em um deus justo num mundo de injustiça. Uma ilusão, para viver, para continuar, para justificar o sofrimento, suportá-lo e, principalmente, negligenciar a dor. Vamos à igreja cultuar a morte de um homem pregado na cruz. Não foi deus que espancou, cuspiu e zombou dele até a morte. Foi você, você tem o poder de matar. Por que não usar esse poder? Por que devemos oferecer o outro lado da face? Esse é o caminho dos devotos. Devotos são aqueles que sobrevivem até se tornar um olho de deus, um anjo.

Lembro de vê-lo caminhar num passo bêbado, cantando uma música do Raul:

Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
Ele disse: Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado
Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado!

Provavelmente foi o cansaço que o fez ditar num banco de parada. Às vezes, um sobrevivente joga a sobrevivência pelos ares. O sono o abraçou assim que se esticou no banco, de onde estava pude ouvir seu ronco leonino, e por isso não escutei, e nem ele, o carro derrapando ali perto. Ou pior, ouviu, ouviu e ficou lá, fraco demais, cansado demais, esperançoso talvez, quem sabe a morte veio me buscar? Nessas ocasiões um fugitivo confunde-se com um inocente. Deve ter escutado vozes masculinas em timbres tiquetaqueados, alguns risos. Deve ter pensado: Merda, fudeu. Escuta alguma coisa ininteligível. Mais risos. Sente um líquido escorrer pelo rosto. É vodca, provavelmente. Odeio vodca. Ouço um deles reclamar que estão desperdiçando bebida e, logo após, gargalhadas e soluços, no instante em que um líquido quente e fedorento jorra-lhe na cara. Depois outro e mais outro. Os filhas da puta mijam às gargalhadas. Então, ele abre os olhos, sente-os arder por causa da urina. Lentamente, formas escuras dão lugar a três rostos jovens e bonitos. São só garotos, penso, com seus dezesseis, dezessete anos, fumando seus cigarros, andando de skate, enchendo a cara, matando aula, assistindo TV, namorando… como eu até… e lá estava ele, o desgraçado, sorrindo seu sorriso de merda. Os cabelos meio grisalhos, óculos grandes fora de moda. Estão se divertindo. Todos eles. Ouço o som de sucção, sutil, brutal em sua invisibilidade.

Lembro. Estou em casa outra vez, agora na cozinha, estou rindo. Por quê? Ah sim, a mãe. A mãe e a irmã gritam enquanto faço chacota da situação, era fim de mês e sem dinheiro, a mãe tinha decidido matar uma galinha nossa. Era assim, quando pequenos, ganhávamos um pintinho para cuidar, cuidávamos com carinho e depois de crescidos, em algum momento, faca na goela. Eu já tinha me acostumado com isso, mas minha irmã não. Era a Miudinha dela que ia ser passada na faca aquele dia. E ela chorava. Como sempre. Minha irmã chorava por tudo, era incrível isso. Então, a graça da coisa era minha mãe, velha e gorda correndo atrás da galinha e minha irmã soltando gritinhos de “não! Por favor! Deixa ela em paz, mãe!” E ás vezes para mim: “Seu escroto! Você acha é graça não é?” Eu sempre ficava espantado com a capacidade da minha irmã de dizer obviedades. É claro que eu achava graça. Muito embora não veja graça alguma na cena agora. Eu lembro dela. Da galinha. A Miudinha. Fui eu que lhe dei esse nome. Posso vê-la agora, acuada, os olhos pequenos, molhados, medrosos. Fui eu que a capturei depois da mãe me passar uma sova. Fui eu que a entreguei a mãe. Eu. Eu vi seu pescoço ser riscado a faca, vi asas e pés balançarem em desespero. Vi a vida afogar-se em sangue. Lembro das risadas se cansarem aos dentes, dos lábios secos, da língua dura. Sonhei com Miudinha depois. Os olhinhos molhados como jabuticabas maduras presas a boca do pai, as órbitas sendo chupadas com gosto, da cabeça dela esticando a pele da barriga do pai por dentro do estomago, dela abrir o bico e cacarejar qualquer coisa em galinhez, depois se rir, um riso horrível, de morte. Lembro de ter passado aquela noite mais tempo debruçado sobre o vaso sanitário do que na cama.

Imagino eles jogarem a gasolina sobre aquele sobrevivente. Penso no que ele fará: caso seja um inocente, vai se ajoelhar e suplicar pela vida? Ou é um fugitivo clássico e tentará correr? Ou, simplesmente, vai deixar-se ficar e queimar? Porra, era uma maneira muito triste de morrer. Você sente o calor escaldante derreter sua pele em um segundo, um segundo apenas da mais pura dor e então não sente mais nada. Você ainda está queimando, queimando mesmo, e é antes afogar-se que queimar, você rola pelo chão e vê pedaços seus espalhados pelo asfalto, fumegando. Se você tentar levantar, vai ver a massa gordurosa de pele e músculos escorrerem pelo seu braço como se fosse uma vela gigante derretendo. Vai sentir o rosto se liquefazer, as pálpebras escorregarem, as narinas fecharem momentaneamente, os lábios incharem e explodirem. As orelhas caírem com um ploc. Reze para morrer ali mesmo, reze, reze para não sobreviver a isso. Tudo o que restará de você então será um retrato da dor.

Não sei como aconteceu ao certo, quando dei por mim, já estava agarrado à perna de um deles, com os dentes cravados nela. A força da mandíbula era tão grande, que os dentes tinham rasgado os jeans do garoto sem esforço e arrancado um generoso naco de carne. Enquanto uivava de dor, um outro chutou-lhe o estomago, a costela quebrada deve ter girado dentro dele quando agarrou outra perna e avançou sobre a virilha. Ali também mordeu. Os dentes passaram fácil pelo short de surfista e arrancou com gosto parte do seu pênis e uma das suas bolas. O sangue jorrou quente sobre o rosto e esse sobrevivente sorriu. Que estava fazendo? Que olhar era aquele? O sorriso… Lembro de Tom e Jerry, o meu desenho favorito. Vejo nitidamente o rato marrom sorver com gosto a sopa da morte preparada pelo gato para logo em seguida engasgar. O gato às gargalhadas. Talvez aqueles garotos tivessem acordado cedo para ir à escola, tomado banho quente, escovado os dentes depressa e combinado no intervalo das aulas de tomar uma e depois, quem sabe, espancar um mendigo. Ou ainda não tivessem combinado nada, mas quando o viram ali, deitado no meio da rua, sei lá, era uma afronta a felicidade. Depois da última ceia, todos sentem o seu cheiro, o cheiro do vômito do DEUS DE MIL OLHOS. O devoto é aquele que aprende a ruminar.

Um gritou: Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos
Eu disse: Claro, pois não, mas o que é que eu fiz?
Se é documento eu tenho aqui…
Outro disse: Não interessa, pouco importa, fique aí
Eu quero é saber o que você estava pensando
Eu avalio o preço me baseando no nível mental

O último deles pega um pedaço de ferro, mas quando vê esse sobrevivente levantar com a cara coberta de sangue e cuspir um dos ovos do amigo, sai correndo. O veneno também corre nas veias dele, Jerry. Ao longe você escuta uma sirene. Eu fujo, não sei o que procuro, mas não está ali, não naquele sorriso, eu preciso encontrar um outro motivo. Porque dia menos dia, um sobrevivente cansa de fugir.

Cuidado brother, cuidado sábio senhor
É um conselho sério pra vocês
Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês
Ah! Metrô linha 743

E desde então esse velho tem procurado. Encontrou um grupo de estudantes que brigavam por causa de uma treta qualquer. O velho largou sua trouxinha suja no chão e correu para eles. Disse:

– Poxa, vamos conversar pessoal?

Um jovem o encarou com desconfiança e deboche:

– E o que você tem com isso, velho?

– Eu? Eu não sou ninguém. Só vi muitas brigas na minha vida, muitas, e todas essas brigas são porque nos tornamos reféns do eu. Achamos que estamos em primeiro lugar e por isso brigamos. Brigamos porque queremos provar nosso valor. Ah! O orgulho! Como deixar de lado o eu, quando o outro joga seu eu sobre você? Podemos aceitar a injustiça de uma alteridade interferir sobre nossa vontade? Sabem o que fiz? Fugi. Não poderia enfrentar o eu. Tive que deixá-lo, ele e a todos que me lembravam dele.

– Velho, tu tá é doido…

– Sim. Corro pelo mundo fugindo de mim. Pois eu fui a causa de todas as desgraças do mundo. Ah, se eu pelo menos conseguisse deixar o orgulho de lado. Não posso! Não com eles que são parte de mim… Espere, deixe-me fazer entender. Ouça. Por que estão brigando? Não, não. Não importa o motivo. A questão é que vocês se colocam um acima do outro, como se nesse mundo houvesse verdade quando a única verdade que existe é aquela proferida. Deixe que ele vença, deixe! Ajoelhe-se! Beije seus pés!

E o velho se atira aos pés do menor dos rapazes, agarrando-se a suas pernas, tentando beijá-las. O rapaz se assusta e instintivamente lhe acerta o joelho na cara. Nosso velho é atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, agora ele via o sol, o mar, podia sentir a brisa lhe massagear o corpo. O velho chora de felicidade. Ele se atirou mais uma vez sobre o jovem. Os outros jovens começaram a rir e o rapaz se sentiu humilhado e ridicularizado por aquele mendigo e partiu pra cima dele. Pelo menos três socos conseguiu desferir antes de ser segurado pelos outros jovens. Alguns minutos depois o lugar estava vazio, há não ser pelo velho que ficou deitado na calçada, olhando pro céu. Pode existir coisa mais perigosa que o amor? Veja o estado desse pobre homem. Nada possui no mundo. Nem mesmo orgulho próprio. Nem mesmo um eu, porque eu não posso mais o sê-lo, tudo que posso fazer é observá-lo, torcer por ele, rir e chorar. Vejo que logo a tristeza lhe irá penetrar a carne, com tanta força que até os dentes serão sacudidos. Um vira-lata se aproxima e lhe lambe o sangue na bochecha. O velho então chora, mais uma vez, não a última. Levanta-se, mesmo querendo ficar deitado, deitado pra nunca mais se levantar. Mas levanta. Pega sua trouxinha e retira o sanduíche de presunto enrolado em guardanapos. Joga o presunto pro cachorro e come o pão com salada e tomate azedos. Depois de comer, o cachorro segue seu caminho. Ninguém se interrompe pelo nosso velho. Ele retira o maço de cigarros e a caixinha de fósforos da mochila, pega um cigarro e um fósforo. Tenta acendê-lo, mas o vento apaga a chama antes que ele consiga tragar. O velho se enfurece. Atira maço e fósforo para longe e grita. Grita com toda a força. O orgulho ainda está lá, junto a sombra do eu, remoendo-se, gemendo, envenenando, agonizando, sofrendo, implorando…

Pare de me machucar. Pare. Pare.

– E é onde estou agora.

– O senhor foi recolhido no dia 24 de junho do ano passado, correto?

– Sim, acho que sim. Tanto faz.

– O que tem achado das instalações e do atendimento desse instituto psicossocial?

– Você ouviu o que eu disse? Eu disse para você prestar a atenção porque você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia, e ele só conta essa história uma única vez.

– Senhor, por favor. Sem divagações. Tente responder as questões.

– Ok. O que eu acho desse lugar? É branco demais. Querem disfarçar o terror, mas os olhos de DEUS são brancos! e estão aqui, estão olhando para mim agora!

O velho se assusta, pois os olhos da assistente social são muito parecidos com os que sua irmã tinha. Levanta aos gritos e  a deixa, ali, sentada e aturdida. Outro doido de pedra, pensa.

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