Entre a Capa e a Poesia

Publicado: 2 de dezembro de 2013 por Bill em Tudo Mais

Acordo sem saber o porquê

Minha cabeça dói

Sinto um vazio

Um vazio imenso

Tremendo

olá?

Lanço minhas mãos sobre lápis e papéis

Não sei porquê

É isso que escrevo

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Não sei porquê

Agora minha mão também dói

Estou cansado

Choro

Aquele choro feio

Com baba e soluços

Fico assim

um tempo

um bom tempo

Me pego mirando uma foto

É uma foto de felicidade

dessas que as pessoas estão abraçadas e sorrindo

Não me vejo na foto

mas estou lá

Eu sinto

Uma daquelas pessoas felizes, era eu

Procuro por outras fotos

Não encontro

O vazio

Imenso

Tremendo

Gemendo

Não se lembra de mim?

Alguma coisa parece roçar minha nuca

Isso me assusta

Não há nada neste lugar além de mim

Ainda assim

Esse vazio é alguma coisa

Socorro!

Ouço risos, estáticos, como vindo de uma transmissão de rádio falha

Estou com medo

Não sei porquê

As pessoas continuam rindo

Alguém solta um peido

As risadas explodem

Vejo uma luz

E a luz rasga corpos e mentes

Alguém me segura

– Socorro!

Não posso

Não posso

Há cheiro de gasolina e fumaça

Sinto medo

Pânico

Socorro!

O lugar está escuro e frio quando o carro começa a queimar

Ouço gritos

Soc

Corro deles

Corro

Sinto que acabou de acontecer

Foi como um sonho que se perde no instante em que se acorda

Sim, como um sonho

mas terrível

Meu corpo dói, amassado

O mundo está maluco

Lá fora,

as pessoas andam de um lado pro outro apressadas por causa de um ponteiro que gira e gira mas sem nunca sair do lugar,

essas pessoas, andam em coisas velozes onde outro ponteiro, mais um! Gira e gira sem sair do lugar, assim como a própria coisa veloz que vê uma lesma lhe dar língua ao passar do seu lado

Só coisas malucas

Não sei porque estou escrevendo isso.

Talvez eu seja um escritor

De que?

De terror

Que terror?

De onde vem essa terrividade?

E o sujeito se lembra do carro pegando fogo, dos gritos de.

Um pesadelo

Um pesadelo que roubei, o primeiro

de muitos

outros, dezenas, milhares, milhões

Minha cabeça dói

Preciso aguentar as marteladas

Não posso devolver os pesadelos a humanidade

Eu sonhei com a liberdade uma vez

e ela não era bonita, muito pelo contrário

era terrível

terrível como só um pesadelo sabe ser

Não sei porque nós buscamos algo tão horrível.

Liberdade

passa a ideia de potência

Mas Ícaro caiu ao se aproximar da luz

E Édipo cumpriu seu destino quando o negou

E é assim

uma palavra

um sonho

um pesadelo

Se houvesse um ladrão de pesadelos, ele poderia tornar as pessoas livres

porque só assim elas não sonhariam com a liberdade e fariam dela um pesadelo.

De repente, viro para a janela, corro até ela e abro a cortina

A claridade do sol me acerta como se tivesse tomado um cruzado de direita na testa, vou à lona

Acordo diante do velho

Ele diz que sou um ladrão de pesadelos

Ele me pede para parar

Não posso, digo

Por favor, ele insiste

Se tenho o poder, se posso fazer com que as pessoas esqueçam o horror, por que me pede para parar? Por quê?

Porque essa capa que cobre seus ombros só é verdade quando os pesadelos das outras pessoas fazem com que você esqueça os seus.

Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Pare de fugir, o velho me pede.

A capa a minhas costa esvoaça sem um pingo de vento.

Recordo o pesadelo do velho. É terrível. Realmente assustador.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

Como se pudesse ler minha mente, o velho sorri daquele jeito lacrimoso detestável.

Sinto como se o mundo todo, todo ele, com suas desgraças sem fim, estivesse sobre suas costas e não pesasse nada.

Estamos numa casa de recuperação, são duas e vinte e cinco da tarde.

Estou olhando pela janela gradeada. A luz me invade.

Sou o ladrão de pesadelos, esta é minha capa, minha poesia.

Não sei porquê

Mas é hora de parar de fugir

A capa é pura poesia quando cai no chão gradeado pelo sol

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