Crônicas D’O Escolhido D’Eus. Parte Um. Episódio 12. O anjo vira-lata

Publicado: 11 de julho de 2014 por Bill em A Vida, o Universo, Tudo Mais
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Você escuta risadas em algum lugar. Você pode esticar o nariz e sentir o aroma quente do chá que queima a língua. Você pode sentir o calor confortável de dentro da casa, com aquela gostosa brisa noturna correndo pela janela aberta. Mais risadas. Você imagina de que tipo de frivolidade aquelas pessoas estão rindo. Provavelmente estão vendo TV. E você imagina a trilha sonora daqueles vídeos engraçados em que as pessoas se machucam pra valer fazendo coisas estúpidas, como a de um cara tentando se equilibrar em uma escada com um pé só. A música estúpida sugere a forma como você deve encarar o desastre anunciado. Assim, quando ele escorregar, quando as pernas dele estiverem abertas bem no meio da escada, você deve uivar euforicamente com um tremendo UHHH! Você deve rir. Ria. Como toda piada sarcástica, essa piada é sobre você. Preste atenção. Eles estão dizendo que você é estúpido, que vão te machucar, que vão te machucar pra valer. Agora ria, seu idiota. Eles adoram brincar conosco.

Aos poucos, a rua se enche de silêncio. Aquelas pessoas risonhas foram dormir. E em seus sonhos elas irão cair de uma escada. Algumas acordarão assustadas, quem sabe levantem e tomem um pouco d’água. Ou fiquem em suas camas, no escuro, esperando. Outras ainda podem continuar caindo. Amanhã o pesadelo terá desvanecido. Mas quando elas encontrarem uma escada, irresistivelmente, irão dar-lhe a volta. Ah sim, como aquele jovem de cabelos maltratados que corria pela praia com uma pequena trouxa amarrada as costas. Dentro dela havia alguns pertences. Nove, ao todo. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. A trouxa balançava a suas costas febrilmente. Ninguém repara nele. Mas a quem por acaso batesse os olhos no rapaz, veria seu semblante intensamente contraído e a corredeira que se fazia abaixo do queixo. E pensaria: o que há com os jovens de hoje? Não sabem aproveitar a vida! Não importa quão suave seja a brisa que lhe massageia os cabelos, ou a alegria desse sol estupendo enchendo as coisas de vida, ou o doce prazer de sentir a areia quente ficar fria e quente e fria de novo. Não sabem! Será que não conseguem escutar o mar cantando sobre tudo isso??? Quiçá este jovem pode até sorrir, mas se alguém desse a sorte de vê-lo nesse momento, de imediato se ressentiria, como se encontrasse lixo espalhado em um lugar bonito. Desagradável. E extremamente irresponsável. E esse jovem corre, mergulhando cada vez mais fundo na escuridão. Posso ouvir os passos a suas costas. Sombras que se movimentam sozinhas. Pesadelos. Noites terrivelmente barulhentas, que ficam sussurrando um horror qualquer seu, que seja, um único medo indizível, irracional, tão profundamente enraizado no seu espírito que, um dia, você se dá conta das manchas escuras envolta dos olhos e, por mais que tente, não consegue lembrar qual foi a última vez que dormiu.

Ah! vida miserável essa! que se compraz com as sombras, com a sujeira, com a indiferença por que dela não lhe vem censura. Mas de que adianta? conquanto a consciência posta olhares neste corpo moribundo mesmo na escuridão! Sim! Esse jovem sabe. Sabe que a fuga é uma ilusão, mas é a ilusão que lhe permite continuar. Assim nos embriagamos até o raiar da morte. Todos os dias, repito. Porque você insiste em não me dar ouvidos. Todos os dias flertamos com a morte para, quem sabe, acidentalmente, possa ela um dia nos levar. Afinal, todo sobrevivente é um inocente.

Não. Não diga que sou louco. A loucura é uma desculpa fácil para se desfazer do meu problema. Não. Eles estão aí. Vigilantes. Sorridentes. São seus vizinhos. Colegas de trabalho. Aquele velho amigo da faculdade. Eles estão o tempo todo agarrando suas pálpebras para cima. Olhe, desgraçado, olhe! Veja os porcos que charfundam a lama. Felizes, entupidos de ração. Veja as galinhas amontoadas umas sobre as outras. Iluminadas artificialmente para que não parem de comer. De botar ovos. De viver. Olhe para isso. Eles seguem um padrão de propósito para se divertir conosco. Venha comigo agora. É noite profunda. Não há lua. Ou estrelas. Nem risadas. Agora, e somente agora, posso contar. Então, escute com atenção. O tempo é curto. Mas essa é sua chance. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

Meu pai está no chão em uma poça de sangue, minha mãe está embaixo de mim, a boca escancarada, os olhos vazios. Não vejo minha irmã. Sinto uma dor e um movimento de sobe e desce. Ah, é o doutorzinho. Ele está em cima de mim, está comendo a porra do meu cu. O cano frio do revolver está grudado no meu rosto. Sinto medo, um medo terrível. Um medo sem nome. Estou cagado. Cagado de medo, literalmente. Ele come meu cu cagado. Louco de merda. Sinto o calor do esperma irradiar-se pelas minhas pregas. O filha da puta geme, satisfeito.

– Cara, você tem um cu melhor que o dá tua irmã, falo sério. Porra!

Uma parte de mim, uma parte antiga de mim, está espantada, absurdamente espantada com a violência, com o terror, com o sadismo, não consigo me mover, todo o corpo dói, retesado. E ele fica sorrindo. O desgraçado sorri diante do meu medo, está feliz! O cara acabou de violentar e matar toda minha família e está sorrindo! Que tipo de pessoa pode fazer isso? Sinto um frio e ao mesmo tempo um calor escorrer pelas pernas, estou mijando.

– Ah merda! Mas que merda! – ele grita pulando às gargalhadas

Eu me odeio. Como eu me odeio. Que espécie de homem eu sou? Por que eu não paro de tremer, levanto e arranco o sorriso desse bosta mesmo que antes ele me acerte um tiro no peito? Por quê? Ele sobe as calças, afivela o cinto com cuidado. Se aproxima de mim e me beija na testa. Sinto o suor de sabonete dele escorrer pelo meu rosto. Em seguida deve ter me acertado a cabeça com o revolver também porque apago instantaneamente. E acordo. Estão todos mortos! Mortos! Subo aos tropeços até meu quarto, apanho algumas coisas. Nove coisas na verdade. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. E fujo, corro dali pra nunca mais voltar. Em algum momento, os vizinhos vão desconfiar, suspeito que a primeira a notar seja Dona Silvana, enxerida e fofoqueira como é, não deve demorar a estranhar o sumiço da gente, logo o fedor vai se espalhar pela rua, o telefone vai ficar tocando e tocando, tocando até cair, os cachorros vão latir de fome. Aí, alguém, dona Silvana, liga pra polícia. Queria ter deixado uma carta colada por um imã na geladeira para quem descobrisse os corpos:

Minha família está morta. Foram torturados e assassinados pelo doutor que namorava minha irmã. Eu sei porque ele me deixou viver. Ele quer brincar. Quer ver até onde eu posso ir. Fique olhando seu desgraçado. Eu vou frustrar todos os seus planos de merda.

Quisera estar calmo para deixar um bilhete. Minhas mãos mal conseguiam parar de tremer para assoar o nariz. Não… Tudo que fiz foi fugir. E esse jovem corre enlouquecido. O peito e o cu doloridos pelo esforço. Está chorando quando chega à praia. Ele jura que todos o observam. Que todos se afastam dele porque sabem quem ele é. Um fugitivo. Um egoísta desgraçado que luta covardemente pela sobrevivência. Esse jovem sente o gosto salgado das lágrimas misturado ao suor que escorre da testa. E ele corre, tentando fugir do passado, das memórias, da dor, da culpa, do ódio, da humilhação, da impotência. Vomita sem parar. O hálito de esperma ainda enche-lhe a boca. Ele lembra que quando criança fez um coleguinha chupá-lo. Ele lembra de obrigá-lo a engolir sua porra. Lembra sim. Lembra-se nitidamente disto. Lembra também de um menino que tomou a bicicleta da minha irmã e os dois tiveram que voltar a pé pra casa. Do vizinho que apanhou na escola, dele pedir ajuda chorando e o jovem-criança fingir não ouvir, e depois ainda se rir dele para os outros. Que covarde! Teria dito. E era seu melhor amigo, ele ia a sua casa todo dia jogar supernintendo. Lembra do pai colocando a minha irmã de castigo por dar um soco no nariz dele. A irmã ficara zangada porque descobrira que ele a espiava no banho. E ela não contou pro pai, nunca contou para ninguém. O jovem lembra do chefe passando um esporro em uma colega de trabalho. O jovem lembra que ele fora encarregado de ensinar o novato. O jovem lembra, lembra muito bem, de ensinar-lhe tudo errado. Ah, o jovem também lembra daquele dia horrível quando ficou preso no moedor e aquele mesmo colega salvara sua mão de ser mutilada. Talvez o jovem mereça a lembrança da mãe dizendo que estava tudo bem, que ia ficar tudo bem enquanto a violentava. E o jovem continua correndo pela praia. Ele passa por um senhor de 40, 50 anos, chapéu, e bastante protetor solar no rosto e no peito, sentado numa barraquinha, tomando água de coco, com um jornal estendido entre as mãos. Esse senhor lê sobre um casal de velhinhos, espancados até a morte pela neta, uma mocinha de 13 anos. Na mesma página há uma foto grande de um acidente de carro. A legenda diz: BEBIDA AO VOLANTE CAUSA MORTE. Ele lê que um motorista se irritou com a batida e espancou até a morte o responsável pelo acidente, que estava embriagado. O senhor lê a respeito de uma criança que saiu para comprar pão. Há imagens feitas pela câmera da padaria, em uma das fotos você vê um homem se aproximar. Eles saem juntos. A menina é estuprada tão violentamente que seu hímen é rompido, ela também é espancada até a morte. No final dessa página, o jornalista constata a total incapacidade do Estado em nos proteger, e deixa entrelinhas que uma redução de impostos seria muito bem-vinda. É. Eles se divertem conosco. Entre uma água de coco, violência e jornais está você. Você se enraivece. Gira o punho em minha direção dizendo que não foi você que fez aquelas coisas. Sim, como o coco. Não foi você quem plantou o coqueiro, ou a pessoa que derrubou o coco da árvore, não foi a pessoa que o transportou até a barraquinha, nem aquela que abriu o coco ou mesmo quem colocou o canudinho, a única coisa que você fez foi beber. Você dobra o jornal e sorve o último gole do cocô. E o mundo segue adiante. A violência é a roldana mestra de um deus sem nome, gênero ou propósito. Eles estão aí, divertindo-se. Deixam nossos corpos jazerem quentes em residências de janelas blindadas, muros altos com cercas elétricas, câmeras de segurança e cachorros grandes e raivosos. Tudo precisa inspirar confiança para que a roldana mestra possa funcionar. Porque o terror não existe sem esperança. Uma ilusão, para viver, para continuar, para justificar o sofrimento, suportá-lo e, principalmente, negligenciar o destino.

Daquele jovem de cabelos maltrados, só resta um velhinho de cabelos podres, desdentado, de queixo pontudo, vestido num jeans muito surrado, com metade do que fora uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma trouxa aparentemente muito pesada às costas, um sério problema de audição e olhinhos bem apertados para a noite. Ele se levanta, o que era dificílimo de fazer com o cocô feito concreto colado nas magras pernas. Ao se mexer o cheiro desprende-se, fá-lo lacrimejar e quase o derrubar. Acostumado está esse velho a merda. Tem por merda o travesseiro, as conta-roupas, a cabeça. Assim é um sobrevivente de verdade. A merda é um lembrete do que caminha por aí. O velhinho então se arrasta pela rua escura, vai charfundar as lixeiras em busca de comida e, com sorte, alguma bebida. O lixo era mais generoso do que qualquer esmola. Na lixeira mais próxima, no entanto, o velho se depara com um rival, um vira-lata moído, meio desconfiado. Um sobrevivente reconhece outro. Eles se encaram. O velho vê seu rabo quebrado balançar. Espera comida? Algum osso que sobrou da janta talvez? Estico a mão amistosamente. O cão se aproxima e lambe-a. E choro. Tenho chorado muito ultimamente. Não sei porquê. Há algo naquele toque que me faz pensar nos sonhos distantes de uma humanidade esfacelada, alguns farelos que reluzem ao sol, cheios, não, transbordantes de esperança, é lindo, e trágico, ridiculamente cômico em sua construção piegas, é o velho discurso do amor, das mãos enrugadas e trepidantes à língua áspera, cansada e ferida. Neste toque barbaramente simplório, vejo o coração deste mundo bater mais alto.

Um anjo é um sobrevivente que encontra outro sobrevivente.

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