Crônicas D’O Escolhido D’Eus. Parte Um. Episódio 13: Dia de cão

Publicado: 18 de julho de 2014 por Bill em A Vida, o Universo, Tudo Mais
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São quase 18 horas e os carros se amontoam como formigas em um dia de chuva. O anjo está aconchegado aos pés do velho, protegendo-se da garoa. Ele boceja esticando a língua o máximo que pode, tentando demonstrar todo o seu tédio. Lá em cima, ele vê a cabeça do velho irradiar uma luz vermelha. É o sinal, o anjo se levanta e acompanha o velho até aqueles grandes animais de ferro que resmungam parados. Ele escuta, um por um, os nós dos dedos dele baterem contra as janelas fechadas. Às vezes uma pequena fresta se abre e o velho diz: Não preciso do seu dinheiro nem pra limpar meu cu. E segue para outro carro. Vez ou outra alguém deixa a segurança metálica para empurrar o velho ou cuspir-lhe na cara. Tudo bem. O velho não se incomoda com isso. Pelo contrário. Enquanto limpa a saliva azeda do rosto, ele sorri. Para o anjo não existe uma palavra para descrever aquilo, mas é assim que podemos reconhecer. Faça o teste: tente insultá-lo. Você vai vê-lo sorrir, balançar o rabo e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder a sua agressão. Só vai continuar sorrindo daquele jeito estúpido.

Foi numa sexta-feira. Chuviscava serenamente. Os automóveis pareciam estar ainda mais bravos do que de costume. E aquele velho rabugento continuava a bater irritantemente com os nós dos dedos nas janelas fechadas e abafadas. Na maioria das vezes, o brilho vermelho acima da cabeça do velho se tornava verde antes de alguém ouvi-lo, mas aquele cara nem esperou a troca dos sinais. Por acaso, esse cara estava tendo o que as pessoas costumam chamar de “dia de cão”. O nome desse sujeito é Carlos.

Meniera, por favor. Ok. O senhor Meniera tinha muito orgulho do seu sobrenome, tinha uma sonoridade legal, era quase, digamos, imponente. Ele dizia para todo mundo que o sobrenome era de uma nobre família espanhola, muito embora quando criança tivesse escutado da avó que o sobrenome Meniera era de uma família de pé-rapados que ficaram conhecidos após saquear um navio da nobreza portuguesa que naufragara perto da costa brasileira. Isso lá na época das invasões napoleônicas. Mas esse Meniera fizera questão de não se lembrar disso. Até que sua filha fora presa roubando a casa de um vizinho. O senhor Meniera não podia conceber aquilo. Ele não era rico, é verdade, mas também não era pobre, de jeito nenhum. Era capitão de polícia na capital do país, local de melhor remuneração da corporação. Tinha uma casa de dois andares, com três quartos e uma suíte. Quatro banheiros. Quatro. Um deles com hidromassagem. Tinha um carro grande e dois outros populares. Estava financiando nesse momento uma casa de praia em segredo. Talvez até com um Jet-ski. Estava planejando fazer uma surpresa para a família. Estava.

O senhor Meniera se agarra ao volante observando as gotículas d’água escorregarem pelo pára-brisa. Só pode estar no sangue, pensava. Quando menor também dera de entrar na casa do vizinho, mas o senhor Meniera morava numa favela do Recife e o filho do vizinho vivia se gabando daquele supernitendo. Pensou nos irmãos, primos e tios presos. Isso. Só pode estar no sangue, repetia agarrado ao volante. É uma fase. Mas que dia!

Parecia que deus escolhera esse dia para castigá-lo, puni-lo com um único e fulminante golpe por todos os seus pecados. E eram muitos é claro. A começar pela mulher. Havia quatro anos que o senhor Meniera a traia. O senhor Meniera presenciara durante anos e anos os colegas comentando – e vangloriando-se, das diversas aventuras extraconjugais que mantinham. Sempre os julgou em silêncio. Sua devoção aos votos matrimoniais refletia-se no crucifixo pendurado no retrovisor. A pálida figura do senhor Meniera espiava do espelhinho aqueles olhos azuis avermelhados. O capitão estava chorando. Há quanto tempo não chorava? Desde a morte dele, diz sem titubear. Sim, outro pecado. Talvez o maior de todos. O senhor Meniera então pega o envelope branco em cima do painel e o amassa, com as duas mãos, amassa bem forte.

Logo pela manhã, nesse dia maldito, o chefe do seu pelotão dera pessoalmente o recado. A corregedoria irá investigar as denúncias de abuso de autoridade contra o capitão Meniera. Até a conclusão do inquérito disciplinar você está dispensado das suas funções. O senhor Meniera sabia que uma hora iria pagar pelos seus pecados, mas precisava ser tudo no mesmo dia? Hein, seu porra? O barulho longínquo de uma sirene o faz pensar naquela farda cinza. Estava matando aula para fumar um baseado com os amigos quando três policiais se aproximaram sorrateiramente e deram inicio ao festival de torturas. Jamais se esqueceria do cano frio do revólver encostado a nuca enquanto era estuprado. O senhor Meniera decidira que seria policial para impedir aquele tipo de atrocidade. E deus é testemunha de que nem um só dia deixou de tentar cumprir seu juramento secreto. Mas a vida é muito mais complicada do que um adolescente pode supor. As violências que o capitão sofreu nos seus primeiros anos de academia não se comparam com todo seu período de rebeldia civil. Com exceção do estupro, é claro, que era por si só uma exceção. Mas o senhor Meniera pensava nos pequenos delitos cotidianos e dizia para si: eles se sentem bem com isso, enquanto eu me sentir mal estarei salvo. O senhor Meniera se enxergava como um paladino da justiça. De verdade. Não estava ali para prender bandidos e traficantes, ou proteger os ricos e afortunados da violência social. O senhor Meniera vestira aquela farda para combater o mal. Lembra? Quando foi que ele parou de refletir sobre isso? Nem se lembra mais. Fora a tanto tempo aquilo. Agora o senhor Meniera é um policial barrigudo, de careca pronunciada, sem bigode ou ideais. Não era desiludido, não senhor. O senhor Meniera era um homem de fé. Só estava velho e cansado. Pare de chorar, capitão, diz enxugando as lágrimas. O estomago ruge faminto a espera do jantar. O senhor Meniera exaspera-se pela milésima vez com a lentidão do trânsito. Espreguiça-se. Tenta relaxar. Pensar em alguma coisa agradável. Repara num cartaz pintado a mão preso numa placa de sinalização. É uma pintura grotesca de uma árvore. Talvez a chuva tenha deformado o desenho, conforta-se o senhor Meniera. Mas se a intenção do autor fora pintar uma árvore horrível, ele tinha conseguido com louvor. Nunca houve árvore mais feia que aquela. Velha e garranchosa, seca e amarelada. O estomago torna a roncar. E o transito continua irremediavelmente atravancado. Tenta sintonizar uma rádio, mas só ouve estática. Amaldiçoa os céus e procura no porta-luvas algum cd. Nenhum. Aos poucos, o pensamento torna a concentrar-se na filha. Aquele monte de piercings, tatuagens e cortes e cores de cabelo malucos. Mas ele dizia que isso era uma fase. Seus colegas tinham enfrentado problemas parecidos. Logo ela iria criar juízo, ia perceber que se desfigurar daquela forma só chamava atenção para sua imaturidade e insegurança. A mulher protestava, mas o senhor Meniera respondia convicto: só existe aprendizado de verdade sozinho. Era um de seus lemas. Tinha nove ao todo. Todos dignos de serem tatuados. Mas agora o senhor Meniera se questionava. Será que deveria ter dito alguma coisa? Não. Ela jamais me escutaria. Sou a representação tirana do mundo adulto. Mas, e se o vizinho prestasse queixa? Valia a pena foder com seu futuro para aprender sobre a vida? Ele já vira centenas de jovens de classe média se perderem assim, sem mais nem menos. OS familiares ficavam perdidos, sem saber o que fazer. O senhor Meniera também os julgava. Imaginava que jamais passaria por uma situação como aquela. Mas aí estava… a forma como a filha o encarava, era nojo. Puro nojo. Também nesse dia a mulher soltara os cachorros. Usou maquiavelicamente os problemas da filha para despejar, bem, tudo. A depressão, a rotina, o sexo, o amor, as traições e eles… ah, o senhor Meniera descontou suas frustrações no carro, rasgando pela cidade afora. Por pouco não matou um ciclista desatento. O senhor Meniera esfrega as têmporas. Fome costuma dar-lhe uma dor de cabeça terrível. Ele respira fundo e se imagina deitado confortavelmente numa cadeira de praia, com uma sombrinha protegendo-o do sol forte e uma água de coco ao alcance da mão. Mas, repentinamente, o ar congela, para ser removido por uma ventania que dá lugar a um tsunami daqueles que a gente só viu na televisão. A cadeira é arrancada da bunda como um prego em analogia ao que aconteceu nesse dia. O senhor Meniera afunda, com toneladas de água esmagando seus pulmões. Vê, aturdido, aquele cartaz da árvore borrada passar por ele e mergulhar na escuridão. O senhor Meniera olha para o relógio e se surpreende com o horário. São quase seis. Agora é que essa porra não anda mesmo, xinga alto. E foi assim que aquele brilho vermelho dava lugar ao verde e o carro permanecia imóvel. Vermelho e verde e a porra do carro não andava mais de um metro. Vermelho e verde. Vermelho e verde. De novo. E de novo outra vez. TOC-TOC. Para completar a porra dum mendigo tinha aparecido e batia na janela do carro sem parar. O capitão foi surpreendentemente calmo ao agitar a mão num gesto de “estou sem troco, amigo”. Mas. TOC-TOC. A porra do mendigo não parava de bater. TOC-TOC. VERMELHO e VERDE. TOC-TOC. VERDE e VERMELHO. TOC VERMELHO. TOC VERDE. E nada. Nada. Até o estomago evitava incomodá-lo temendo sua fúria. Quando o mendigo bateu outra vez o capitão abriu a porta e sabe-se lá o que teria acontecido se o motoqueiro não tivesse reagido primeiro. A treta com o motoqueiro era coisa antiga. O velho e o motoqueiro se estranhavam a tempos e o motoqueiro prometera que se visse o velho por ali outra vez iria lhe dar uma surra pra ele nunca mais esquecer. O velho só sorriu mostrando-lhe o dedo do meio. Mas o motoqueiro falava serio. Esse era outro que também passava pelo seu dia de cão, mas por ora fiquemos com a causa do senhor Meniera, fôssemos retratar cada dia de cão presentes neste engarrafamento a humanidade não viveria o suficiente para ler este relato. Enfim, o motoqueiro avançou sobre o mendigo tirão.

– E ae, seu folgado do caralho?!! Te avisei pra não aparecer aqui, não avisei? Tira onda agora, vagabundo!

E acertou um soco bem no meio da garganta do velho que caiu, de joelhos. Ao que o motoqueiro emputecido respondeu com uma joelhada na cara. Nosso velho foi atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, sorria, é claro que sorria. Desse mundo cheio de ódio, de rancor, mágoa e desespero o velho queria levar tudo para o túmulo. E o capitão a tudo assistia, espantado demais para agir. Não com a violência do motoqueiro. Já vira aquilo centena, milhares de vezes. Ele mesmo teria feito algo parecido segundos atrás. Não. Era aquele sorriso maluco.

Há algo errado naquilo, você sabe, todos sabem. Quem nunca ouviu falar de Jesus Cristo? Mas presenciar aquilo acontecer era qualquer coisa demoníaca demais. Afinal, que tipo de espírito subjuga-se voluntariamente daquela forma? Ah, triste é a figura que sorri da ingratidão, da violência, do abandono, do escárnio, da tirania. O senhor Meniera contempla o estado deplorável daquele pobre homem como se espiasse um segredo proibido, uma indecência, algum ato de extrema vilania. Ele pensa no ímpeto revolucionário daquele coração… que triste é amar assim. Não existe tortura pior que essa, pois a mão que empurra o punhal contra suas costelas é sua, e você sabe disso. Talvez por isso doa tanto. Não há como conciliar amor e orgulho. Basta que o momento surja e, por mais insignificante que seja o confronto, você descartará seu orgulho com tanta facilidade que nem se dará conta da magnitude do ato perverso que atenta contra ti. Sim, pobre criatura que ama, teu corpo já não mais lhe pertence, você não pode mais controlar seu estado de espírito, não se engane, isso faz de tu um escravo. Escravo. Do mais vergonhoso tipo de escravidão. Daquele tipo que faz você se ajoelhar e rezar, deitar lágrimas, crente que um sinal, apenas um sinal, dissipará todos os males! Este é o mais ridículo dos escravos. Venera e amaldiçoa seu dono, porque o ama, não pode livrar-se dele. É um escravo sem correntes. Um cachorro que se deita a porta ansioso pela chegada do dono, cujo único deleite é lamber-lhe os sapatos. És uma figura tão deplorável esta que não se intimida com os chutes que lhe são desferidos a boca do estomago, não se importa com os olhares que fogem dos seus, nem tampouco com as palavras que voam como pedras a troçar do seu amor, e tudo porque ama! Tua única felicidade reside no reconhecimento do outro, daí o sofrimento, a angústia sem fim, claro, a realidade logo irá penetrar tão fundo que até os poucos dentes que lhe restam na boca serão sacudidos. Oh, tolo sonhador, engana-te, ludibria-se, reveste tua infelicidade de melancolia para lhe dar ares poéticos! Que mentira quixotesca dirá para si em seguida para suportar essa dor que lhe devassa o peito? Qualquer uma, simplesmente não importa. Esta triste figura é o tripulante desavisado daquele barco que está indo a pique. Agarrar-se-á a qualquer coisa.Que triste! Muito triste. E o capitão segura a arma. É preciso acordar. Então você tranca essa coisa naquele lugar da sua cabeça que é hermeticamente fechado, onde a árvore feia não pode ser vista. Ali, nem mesmo um tsunami, apesar de todo o poder de devastação, pode entrar. Pode perturbar, mas não entrar. Entrar nunca. Pois a única chave está bem segura na mão direita do capitão. Essa chave tem a forma de uma Colt .45 de uso restrito.

O motoqueiro chutava o estomago do velho. Duas. Três vezes. Só parou quando o anjo mordeu-lhe a perna. O motoqueiro caiu e o anjo instintivamente voou sobre a jugular. Provavelmente o capacete e a jaqueta de couro seriam suficientes para lhe preservar a integridade física, mas o capitão Meniera decidiu não arriscar e atirou contra o animal. O anjo soltou um frêmito ganido quando a bala alojou-se entre suas costelas. Foi aí que o velho parou de sorrir. Quão perigoso pode ser o amor? E o velho chora. Tem chorado muito ultimamente. O vira-lata ferido se aproxima e lhe lambe o sangue e as lágrimas da bochecha.

Enquanto isso o motoqueiro tenta se explicar ao policial. As pessoas na rua dividem-se quanto a questão. Alguns defendem o velho, outros o motoqueiro. Uns poucos questionam o tiro dado no cachorro. A discussão cresce entre buzinas e destemperos. Mas aos ouvidos do senhor Meniera jaz um silêncio absoluto. Tudo o que vê é aquele gesto de carinho na calçada enlameada. É tudo tão simplório e banal. As pessoas não vêem, mas nós vemos. O senhor Meniera chora. Ele tem chorado muito ultimamente. Não sabe porquê. Há algo naquele gesto que faz o senhor Meniera se arrepender profundamente de não ter estado ali antes, a descoberto, sob a chuva e o amor incondicional daqueles dois idiotas.

É tudo tão calmo aqui, murmura. E o senhor Meniera está calmo, em paz. Sem precisar imaginar uma casa de praia ou estar atrás de um volante a 200 por hora. Ele recolhe o revólver e pega o cachorro no colo, colocando-o no carro. Faz o mesmo com o velho. O senhor Meniera gira o volante e passa por cima do meio-fio pegando a estrada paralela, quase atropelando o motoqueiro e a multidão que se juntava no local.

Um anjo costuma ter uma aparência muito desagradável, tão desagradável que te faz ficar sob a chuva, admirando-a.

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