A super frígida

Publicado: 9 de agosto de 2014 por Bill em A Vida
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Frida não era bonita ou feia. Não era alta, nem baixa. Frida também não era magra, mas tampouco era gorda. Frida era tão sem graça, tão absolutamente sem atrativos, que quando alguém queria se referir a ela precisava de um ponto de referência, como a copiadora, a samambaia, os ex-maridos, os filhos… Ninguém lembrava de Frida no trabalho ou na escola. Nem no supermercado ou na reunião de condomínio. Frida era como uma caixinha de palitos de fósforos, só lembravam dela quando precisavam fazer fogo e, mesmo assim, quando precisavam dela, as atenções se voltavam ou para o fogo, ou para o palito de fósforo, nunca para a caixinha que se recolhia, tímida, com a bunda ardendo. Mas Frida não se importava com isso. Frida não se importava com nada. Não porque fosse má, entenda. Frida não era má ou boa. Frida era um desses casos raros, raríssimos, de pessoas sem personalidade. Quando nasceu, ela não chorou quando o médico lhe acertou um tapa na bunda, sequer abriu os olhos. E o doutor a teria dado como morta não fosse o inacreditável fato dela estar respirando. Na família de cinco irmãos em que a luta pela existência é algo que deixa quem assiste com vontade de furar os tímpanos, Frida ficava calada, sempre no meio da confusão, indiferente. Uma vez, quando uma das irmãs lhe cortara o cabelo quase deixando-a careca, sua mãe lhe acertara um tapa aos gritos: Reaja, menina! Reaja! Mas Frida permanecia resolutamente impassível, como se não houvesse um rosto inchado ou longas mechas de cabelos espalhadas pelo chão. Logo a família desistiu dela. Isso era muito comum na vida de Frida. Muito cedo as irmãs pararam de lhe atormentar. Não tinha graça, era o que diziam. Sua mãe também acabou por se cansar dela. Essa aí é um caso perdido, dizia. E era verdade. Os professores pensavam o mesmo. Quando a mãe lhes inquiria a respeito de Frida se demoravam procurando a lembrança da criança e quando nada encontravam, inventavam alguma coisa. Depois, procurando informações da garota tentavam descobrir porque ela não fora diagnosticada com autismo e logo percebiam por suas notas o motivo. Frida mantinha-se estritamente na média. Nem mais, nem menos. Foi assim no fundamental, no médio, no técnico, e agora na faculdade. Foi assim nos trabalhos, nas amizades, nos namoros, nos casamentos… Foi assim durante toda a vida dela. Mas esse era o superpoder de Frida. Secretamente ela se chamava super frígida e ria intimamente. Desde criança Frida percebera os grandes poderes da invisibilidade. Enquanto todos só falavam aos berros na sua casa, Frida se mantinha calada com a boca cheia dos bifes e batatas das irmãs. As vezes em que percebiam o prato menos cheio, brigavam umas com as outras. Nunca suspeitavam de Frida. Só uma das irmãs viu a verdadeira Frida. Possivelmente, foi a única pessoa no mundo a fazê-lo. Ela derrubara Frida da bicicleta uma vez e no dia seguinte, enquanto se arrumava para ir a escola, Frida entrou no quarto, jogou cabelo no chão e esperou. A mãe entrou, viu a cena e cobriu de porrada a menina que gritava desesperadamente: Mãe! Eu juro, mãe! Foi ela! Foi ela! O cabelo nem é dela, mãe! Desde esse dia, sempre que alguma coisa dava errado, a irmã olhava pra Frida. A garota permanecia estritamente quieta e ela passou a indagar muitos anos depois se não teria sonhado aquilo. Jamais imaginou que aquela mulher que frequentemente aparecia no noticiário era sua irmã. Frida sempre viveu as mais perigosas aventuras. Como mudar suas notas no diário dos professores. Frida se regojizava quando a mãe ia saber dela na escola. Os professores não sabiam o que dizer porque não se lembravam dela, claro! ela nunca ia as aulas! O mais inacreditável é que tendo mudado uma vez as notas, os professores passavam a fazer isso sozinhos, porque achavam que eles é que esqueciam de anotar. Sozinha, Frida morria de rir disto. Também uma vez sabotara os planos das amigas que planejavam ridicularizar Carmelita, uma menina que se não fosse pelo peso seria tão absolutamente banal quanto Frida. Frida puniu as colegas severamente, entregando-as a diretora com uma carta anônima dizendo que ao meio dia se dirigisse ao pátio da escola e observasse Ana e suas colegas. Nesse dia, especialmente, Frida sumira. Pouco depois disso, o grupo se desfez. Sucumbiu diante das intrigas. Mas ninguém nunca suspeitou dela. E Frida se divertia com isso. Muito. Horrores. Talvez, o caso mais engraçado, embora trágico no inicio, foi quando Frida, entediada com o primeiro casamento, decidiu fazer uma surpresa ao marido marcando um encontro num motel. A coisa era tão absurdamente fora do feitio de Frida, que o marido achou que estava traindo a esposa com ela mesma! E o engraçado é que Frida só foi se dar conta disso depois quando viu o marido desconversar todas vez que ela mencionava aquelas horas de amor fogoso que passavam juntos a tarde. Ah, foi essa “amante” que se tornou a ladra de batom vermelho berrante. Frida ia aos locais, olhava tudo e depois, bam! Mãos para cima, isso é um assalto! Chegou a roubar o próprio banco em que trabalhava! E o mais difícil era segurar o riso quando as pessoas viam sua imagem na TV e diziam que ela era a mulher mais sensacional que já tinham visto! Ah, mas nem tudo são flores na vida de Frida. Num desses assaltos, um jovem negro, um garçom, foi preso acusado de ser cúmplice dela, foi condenado e se matou. Frida que finalmente decidira se entregar e confessar tudo, vira pela TV a noticia. Foi a única vez que seus filhos a viram triste. Desde então Frida tem usado a ladra de batom vermelho berrante para fazer justiça. Como entregar o dinheiro dos seus roubos para aquela gente mais necessitada. Ela nunca fez aquilo pelo dinheiro mesmo. E todo santo dia, procurava no jornal noticias de abuso policial, patronal e patriarcal. Obviamente que era humanamente impossível intervir em todos os casos, mas ela fazia seu melhor, algo inédito em sua vida. À noite, a mulher de batom vermelho berrante entrava na casa das vítimas, apontava uma arma para sua cabeça, amarrava-a na cama e tatuava seu crime no peito – vira isso em um filme sueco. Não que isso a redimisse de seus erros. Frida jamais se perdoaria pelo que fez. Mas, sabe, era bom sorrir de vez em quando.

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