Divagações divinas sobre a amizade oculta

Publicado: 27 de novembro de 2015 por Bill em Tudo Mais

Eu possuo uma verdade absoluta: não existe verdade. Sob esta sentença eu me torno deus, e sim, eu posso criar tudo, inclusive paradoxos que me destroem. Daí que independente da existência do mundo à minha volta, sem mim, esse mundo não é nada. É pela minha existência que ele se revela e não o contrário.

E esse mundo revela-se repleto de uma infinidade de violências. Violências que me incomodam, que me assustam, que me machucam, que me entristecem, que me deixam maluco, que me enchem de melancolia e angustia, que me provocam o desejo pela violência e aí existe uma condição que governa minha existência: Eu odeio a violência. Mesmo quando sou eu que a pratico não me sinto bem. Entretanto, a forma como eu experimento a violência está condicionada por esta materialização corpórea, seu lugar, sua língua, sua posição social, pelo meu conhecimento acerca da violência e, em última instância, pela minha disposição de meditar.

Meditar é tentar transcender os condicionamentos que nossa existência nos impõe e como todos estão, alguns mais outros menos, presos pela materialidade da vida e seus meios, meditar é o fogo da sabedoria que Prometeu roubou.¹

O mantra de que “não existe verdade” assume em mim uma postura filosófica que foi muito bem interpretada na ignorância socratiana. É a tentativa de fazer com que a humanidade conheça suas mentiras, sobretudo, do porquê mentir.

Nesta semana a hashtag #MeuAmigoSecreto me fez meditar como há muito eu não meditava. A partir dos inúmeros relatos de mulheres vítimas da violência patriarcal, eu finalmente pude me enxergar como engrenagem do sistema e não só porque pude recapitular meu passado agressor e questionar que tipo de perversidade eu possa estar perpetrando agora, mas mais que isso.

Eu pensei no mal.

Eu sempre expliquei meu passado pela ignorância, afinal, como eu poderia agir de outra forma senão sabia que violento era? Mas conhecendo o terror cotidiano das mulheres pude pensar em mais do que só a hegemonia do discurso machista.

Pensei no mal que nós enquanto sociedade somos ensinados a praticar: o que significa a violência contra a mulher numa sociedade que respira uma infinidade de violências? Como podemos praticar a alteridade quando somos educados para não fazer isso? Nós não partilhamos nossos cobertores com quem tem frio. Não partilhamos nossa comida com quem tem fome. Não partilhamos o conceito de humanidade. Pelo contrário, crescemos para possuir, para ganhar. Logo crianças descobrimos o eu e com ele o meu, que é, a  vontade de possuir, o desejo de ter, o medo de perder e o ódio pelo outro que se projeta como ser cobiçante.

A sociedade patriarcal só endossa na figura do homem cis parte das assimetrias culturais construídas acerca do que é ser humano.

Foi aí que pensei no horror.²

O mal como o conhecemos hoje se manifesta na dor, dor esta construída a partir do ego que sofre. Entretanto, nossa sociedade vive um espantoso escárnio da dor de outrem, o horror. E por que? Se estamos vivendo uma hiperconecção social? Como podemos explicar que parte da sociedade pode ridicularizar a dor mesmo que de parcela significativa de sua população?

A ideia de que a estrutura patriarcal por si só impede que o outro possa sentir compaixão por um testemunho de violência não encontra eco no meu espirito. É como um amigo que acusa o capitalismo pela fome no mundo. Digo que sim, mas só na medida em que a estrutura existe por causa do suporte ideológico que a legitima. Daí que é impossível uma mudança de paradigmas sem abraçar o todo que a contempla. Não é desmerecer o movimento feminista ou qualquer outro como segregador da luta revolucionária, muito pelo contrário, esta reflexão só foi possível por meio dessa manifestação em particular. Assim, na conjuntura de uma análise muito pessoal, que guarda estreita relação com uma vivência apaixonadamente cristã², os movimentos que pregam a empatia precisam compreender o sentido global das suas reivindicações, sem a qual, podaremos uma árvore que continuará a produzir horrores.

Toda vez que lutarmos sem enxergar o horizonte das fronteiras que esta humanidade cria, estaremos libertando um passarinho da gaiola e sobrecarregando os outros cem que lá ficam.³

To cagando regra, eu sei… mas é a lógica divina dos atos: se não existe verdade, você precisa mentir com convicção, senão, quem vai acreditar em você?

PS: Creio que a maioria dos que por acaso lerem estas divagações já terão isso em mente, mas não custa nada reforçar.

¹  E que nunca o possuiu porque meditar é arder.

² O fenômeno da maldade no livro Coração das Trevas de Joseph Conrad

³ Numa postura dostoiévskiana

 

 

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