A caverna de Milton

Publicado: 28 de maio de 2016 por Bill em A Vida
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Milton foi um antigo colega de faculdade. Não eramos melhores amigos, eu tinha muita preguiça dele na verdade, Milton era um cara muito chato. Mas eu nunca o exclui da minha vida porque reconhecia a inteligencia excepcional dele.

Milton era o típico nerd. Gordo, camisa de botão por dentro da calça, óculos quadrados e grossos e aquele característico ombro curvado de quem fica muito tempo debruçado sobre o computador, tablet, celular e derivados. Milton finalmente tinha deixado a casa da mãe e agora travava uma árdua batalha pela vida de solteiro. Batalha que estava perdendo vergonhosamente. O lixo se acumulava por todos os cantos. Pacotes de salgadinho meio comido, potes de danone lambidos, um sem numero de copos com baratas mortas boiando em liquidos coloridos, tantas e tantas embalagens que juntas poderiam formar um perfeito mosaico de toda a cultura consumista ocidental. Esse lixo orbitava pelo chão, em cima do sofá, na mesa, na pia que pululava de tapurus, moscas e baratas, até papel higienico usado as vezes flutuava pelo apartamento carregado pelo vento. Milton não entendia aquilo. Ele pagava uma pessoa para limpar seu ape uma vez por semana. Mas de alguma forma que sua mente extremamente analítica tinha dificuldade em apreender, o lixo se reproduzia em escala geométrica exponencial. Não fazia qualquer sentido. E por mais que adotasse politicas de limpeza, invariavelmente, o lixo irrompia de algum buraco negro. E embora a mente de Milton aceitasse a existencia de alguns eventos absolutamente misteriosos, esse era um que ele resistia em aceitar e por algumas noites ficou acordado atento ao menor barulho de alguém invadindo seu apartamento para espalhar lixo. Nunca ouviu nada além do habitual. Mas por mais que a vida de Milton possa ser fascinantemente entediosa, certo dia, de fato, aconteceu uma coisa realmente extraordinária.

Milton trabalhava num banco como consultor de segurança informacional. E eu, mesmo sendo muito menos inteligente, era o chefe. Um dia foi pedido pela diretoria do banco, um programa que tivesse um aprimoramento da inteligencia virtual da época. Bom, eu não tinha dúvidas de quem seria capaz de desenvolvê-lo e achei que seria a chance de Milton ter o reconhecimento que merecia. Milton tentou de tudo, mas nenhum programa de segurança que ele inventasse poderia ser mais inteligente que seu invasor. Foi aí que Milton teve a ideia genial de “programar sua inteligencia”, como ele mesmo me disse. Tipo assim, Milton desenvolveu um programa que simplesmente reproduzisse suas ações. O que as pessoas enxergariam como inteligencia artificial seria simplesmente sua própria inteligencia sendo imitada. Era uma fraude, mas Milton tinha certeza de que funcionaria muito bem.

Infelizmente, tive que demitir Milton. O programa que Milton acreditava estar programado para replicar as tentativas de invasão ao sistema, tornou-se ele mesmo um invasor e derrubou todo o protocolo de segurança do banco, apagando todos os dados do sistema. Todos.

Muito embora eu me penalizasse por ele, atribuindo parte da culpa a mim, Milton não se desesperou nem um pouco. Ainda que o desastre manchasse o seu impecável curriculo, era também um trunfo, afinal, não havia ninguém que já tivesse conseguido derrubar um sistema todo de uma vez em duas horas. Milton estava convicto de que o banco iria conseguir recuperar os dados e quando o fizesse talvez até reconsiderasse sua demissão. Talvez até considerasse um aumento. Naquele mesmo dia, Milton já tinha recebido duas propostas de emprego com salários três vezes maiores que o anterior.

E Milton simplesmente se esqueceu do programa de repetição. Acontece que cerca de uma semana depois, Milton acorda com o celular tocando. Era eu. Estava puto com ele por esparrar no facebook aquelas ‘paradas’. “Ora, que ‘paradas’?” – perguntou Milton inocentemente.

No computador, Milton viu um “fantasma” escrevendo alucinadamente no facebook sobre sua experiencia com ácido. É claro que Milton não acreditava nessas bobagens do sobrenatural, estava claro o que estava fazendo aquilo. O programa de repetição se infiltrara nos arquivos pessoais e assimilara suas experiencias. Milton reconhecia sua genialidade, mas não tinha configurado o programa para “ler” imagens. O programa se atualizara sozinho. Nenhum programa no mundo era capaz de fazer isso. Milton afinal tinha inventado a inteligencia artificial. Milton não se deixou levar pela euforia. Ele precisava testar sua IA primeiro. Copiou o programa e o instalou no celular. Foi imediato. O programa estava ligando pra mim e se desculpando pela postagem. E lá no computador o post era apagado. Uau. Agora Milton batia palmas de pé.

Mas antes de revelar ao mundo sua descoberta, Milton precisava de mais um teste. Ele foi até o laboratório de Mecatronica da sua antiga universidade e roubou o braço mecanico de lá. Em menos de 24 horas o programa de repetição já tinha concluido o que ele começara. Um corpo robótico. Milton ria pensando na sua fama. O robô-Milton também ria, mas parou de repente. Era a primeira vez que o robô-Milton interrompia uma repetição sozinho. O robô-Milton encarou o Milton real e esse o encarou de volta. Milton sentiu medo. E era pra sentir mesmo. O robô-Milton descarnou o Milton real e se “vestiu” dele. O robô-Milton cuidou do Milton real e explicou que AINDA precisava dele.

Agora Milton ficava em casa enquanto o robô-Milton ia trabalhar no seu novo emprego. E nem sei como contar o resto, sinceramente… Enfim, o robô-Milton se tornou muito popular. Tinha mais de mil amigos no facebook (enquanto o Milton real com muito esforço tinha 42), tinha muito dinheiro, fama e deus do  céu, o robô-Milton ainda virou uma espécie de super-herói usando sua força e inteligencia robô. Ah, Milton sempre quis ser um super-herói! Mas acredite que isso não foi o pior. Nem perto! O pior de tudo é que robô-Milton robô tinha várias namoradas! Milton sempre quis uma namorada! Só uma tava bom! Secretamente, toda vez antes de dormir Milton pedia a deus que lhe desse uma namorada (e ele era ateu!). Oh, acho que você não pode imaginar quão doloroso foi para o Milton real acompanhar do buraco da fechadura do seu quarto, o robô-Milton preparar jantares para suas namoradas, dar amassos no sofá, rir e dormir abraçadinhos assistindo um filme no Netflix! E toda noite era uma diferente! Milton as vezes pegava Milton abrindo um olho para encará-lo e sorrir o desgraçado!

Milton começou a planejar sua vingança. O braço mecanico ainda estava no quarto e Milton precisava de força para derrubá-lo! Arrancou o próprio braço e implantou o braço mecanico. Milton nem se deu conta de que acabara de inventar uma prótese que poderia revolucionar a medicina. Pobre Milton, estava sendo consumido pelo ódio! E Milton foi atrás dele, você pode procurar no youtube a briga épica desses dois.

O robô-Milton venceu. E durante muitos anos mantivemos contato. Milton era o meu amigo “milionário”. Que me convidava para um dia de muito champanhe, vinhos caros, caviar e muita lagosta em seu iate. Mas tinha qualquer coisa que me incomodava nesse Milton. Alguma coisa. Então um dia eu o segui. Robô-Milton as vezes ia até um galpão lá na zona limitrofe da cidade. Foi lá que encontrei milhares e milhares de Miltons descarnados. O meu amigo. O “Milton real”, aquele do braço mecanico era só mais um. Eu disse a ele que não entendia como aquilo era possível e ele me deu um tapa tão forte na cabeça que um olho meu caiu e o “Milton real” desenroscou o olho esquerdo e trocou o dele pelo meu. No olho de Milton estava toda a informação. Ora, não tinha sido o “Milton real” que inventara a AI, ela tinha sido inventada há muito, muito tempo. Mais ou menos quando um de nós decidiu se pôr de pé e os outros o imitaram.

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