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Crta vz alguém perguntou: qual eh o caminho pra sabedoria? Aoq um grande sábio respondeu: “simples, eh soh fzr as escolhas certas”

Um

Vei, tem um cheiro muito estranho nesse bus, o 180.6. Eh um dos baus q faz a linha samseba rodo

e q qdo o motora ta d bom humor passa na vila roriz

Vc jah dv ter visto ele na rodo, um minhocão empoeirado q tem o letreiro pifado sempre com uma fila enorme do lado. Se vc pega esse bus com freqüência vc sab do q eu to falando. Naum eh um cheiro forte, pelo contrario, eh quase imperceptível. Mas uma vz q se repara nele, naum se pod mais esquecelo. Eu pego esse bus todo dia pra ir pro trampo e acredite qdo digo q msm se a pessoa q se sentar ao meu lado peidar perfume. Msm q esse bus vire uma paçoca d aço e carne fumegante na prox curva. O cheiro vai estar aki. Daki 200 milhões d anos, qdo uns ETs cabeções desenterrarem a carcaça molecular deste bus dum meteoro, o cheiro vai estar lah. Pode apostar. Eh a porra dum cheiro taum escrotamente escroto q qualquer bau ao longo d toda sua miserável vida vai parecer ter a msm porra d cheiro desgraçado. Eu to falando serio. Eh como se alguém tivesse aproveitado akela soneca do engarrafamento pra pregar essa merda no teu nariz a marteladas, d modo q vc se eskece d acompanhar a paisagem tediosa d bsb, ou do q vc vai assistir no netflix qdo chegar em ksa, ou da conversa da guria a sua frente no sololar, aliás

ô minha filha, pq vc naum manda logo esse cara se fuder?

Naum dah nem pra tirar um FUCKING cochilo! Eu pnso em alguma coisa mofada. Meio amarelada. Viscosa. Fermentante. Alguma coisa indigesta q foi despejada por aki naum tem muito tempo. Eh. Em algum lugar por aki. Tlvz embaixo d onde to sentado agora. Uma simples mancha disfarçada d ferrugem se pah. Um vestígio completamente despretensioso d uma epok em q as pessoas ainda tinham o pudor d esconder o vomito entre as pernas. Acredite qdo eu digo q vai ser assim q os ets vaum encontralo. O fóssil assombrado d uma civilização fudida. A kbça enorme e branca d um axl roses muito zuado toma todo um outdoor q margeia a pista no fim da JK. Eh. Tem um show do guns pro próximo mês lah no mane. Eles voltaram, vc sabia? Poiseh, 400 pau pra sentar na arquibancada, btf? Vsf. Pago nem com a porra, ainda mais pra ouvir, uai, eh msm, kd a música? Automaticamente saco o celular do bolso. Bateria em 6%.

MAS Q BLZ!

Af, vc lembra dakeles celulares nokia? Da telinha vrd q tinha o jogo da cobrinha? Tem um vídeo no youtube d um cara fzdo uma ligação com ele dpois d acertalo com uma marreta e uma britadeira. Outros tempos em q uma geladeira durava vinte anos e tudo q vc precisava fzr era pintar a porta. Agora td eh esse lixo descartável. Sempre colocam alguma coisinha como uma bateria bosta pra vc ter q comprar outro celular com bateria bosta, msm q vc ainda naum tenha terminado d pagar esta bosta aki. Eh tipo akele episodio do chaves em q o seu madruga vnd um balão pro kiko e o chaves vai lah e estoura e a mãe do kiko dah dinheiro pra ele comprar outro balão. O foda eh q eu naum tenho uma mãe como dona Florinda, nem sou trambiqueiro como o seu madruga, tou mais pro trouxa do chaves msm. Vou me lascando e na rabeira da desgraça tendo lascar uns poucos afortunados cmg. E sab oqq eh pior? Com 6% de batera nem dah pra jogar fora uma vida do candycrush! Porra, e jah saum 21 horas! Kct! Dah pra acreditar? Jah posso imaginar o chefe fdp pagando aquele sapo escroto qdo eu chegar, mas porra, q sacanagem! Sai d casa uma hora e meia atrás! Uma hora e meia, carai! Q culpa eu tenho se essa porra desse transito naum anda? Tem pelo menos uns 10 minutos q esse semáforo muda d vml pra vrd sem q essa merda ande mais d um metro. Como q pra zuar com a minha cara, uma velhinha passeia lentamente pela calçada com o pudolzinho nojento

vrm

devargazinho, ela se agacha pra catar o cocô do cachorro idiota. Ótemo.

vrd

um playboyzin d rayban sorri pra mim. O braço pro lado duma bmw vermelha conversível

VRM

as calotas d neon, os faróis d neon, dv ter neon ateh na kbça do pinto desse fdp

VRD VRD VRD

tunado d som monstrão com 6 drivers, 4 tweeters e socado de cornetas

VRM VRM VRM VRM VRM KRL NUNK VOU SAIR DAKI

tudo comprado pelo papai aposto

VR… ah, fdss

fumando seu cigarrinho de maconha na boa. Eh inacreditável, velho. Fosse eu, os homi na viatura lah atras jah tinham mandado eu dscr e colocar as MÃOS NO CAPÔ, PORRA! com uma escopeta na nuk e o capitão nascimento dando tapa na minha cara e a velhinha com o pudow num dos braços e o saco de cocô no outro, assistindo o show. Eh qdo vjo uma tropa d policias a cavalo passando rápido pelo acostamento e lembro q o purgante do garcia comentou q o mst iria fzr baderna hj na esplanada. Af, malditos arruaceiros. Semana passada entraram no congresso, quebraram vidraças e ateh destruiram um cx eletrônico, os vagabundos. Tinham q ser açoitados em praça pública uns vermes desses. Naum q eu naum entenda a causa, entendo po, entendo msm, olha o tamanho desse país! Se vc sai daki em linha reta vai encontrar kms e kms de cercas cercando o nada pro nada. Po, eu lembro duma cena do rei do gado qdo um senador faz um discurso sobre o assassinato do líder do mov e o plenário esta praticamente vazio ha naum ser por um grupinho q fica cochichando e rindo ao fundo. Acredite qdo eu digo q esse parlamento naum vale porra nenhuma, mas kct, pra q destruir as coisas? As NOSSAS coisas? Esses fdp podiam ter um poukinho mais d respeito pelo bem público, sab. Meu coro kbludo jah ta doendo do tnt q fico puxando meus cabelos, eh um tique q tenho qdo to ansioso. Vc jah dv ter sacado q eu to sempre ansioso. Sim, o capetalismo além dme fazer d burro d carga, vai me deixar careca, pode apostar. Porra, tudo q eu keria era chegar logo no trampo pra naum ter q ouvir xaropação. Serah q eh pedir demais? Saum 21:39 agora. A pm jah dv ta sentando a borracha no povo  pra desobstruir as pistas. Acho q dah ateh pra ouvir as bombas d gás lacrimogenio explodindo. Mas naum importa. Eh tarde demais. Eh possível q eu seja demitido hj. Vc tem alguma duvida dq kem inventou a expressão “um dia de cão” foi um proleotário?

Logo cedo, a porra da minha prima naum me deixou estudar. Ela ta morando na minha casa pq minha tia a expulsou e a nojenta coloca a porra dakelas “musicas” no volume mais alto soh pra me provocar. Eh q eu to tentando passar num concurso publico, qualker um, vc sab, aki em bsb naum tem outra opção. Ou vc passa num concurso público ou vai ficar trampando em subemprego pro resto da vida. Eh assim q o capetalismo funciona fi. Pra manter as coisas baratas vc tem q fzr as pessoas trabalharem muito por muito poko. Tem um nome empolado pra isso: “produtividade”. Bleh. Eu chamo de escravidão moderna. Tyler diz q trabalhamos em empregos q naum queremos pra comprar coisa q naum precisamos e q, eu complemento, ainda estragam rápido pra q vc continue comprando e comprando ateh o fim da sua miserável vida q eh qdo vc percebe abestalhado q estah decepcionado, obg raul. Eh o cumulo da sacanagem. Eu naum posso ficar d boa q nem o playba na bmw lah fora. Nem jamais poderei desfrutar da minha velhice passeando com um cachorro. Q dirah com um pudow? Tenho quase 30 anos e trampo em dois empregos d merda q fazem com q eu me sinta akela bosta enorme q fica entalada na privada branca. E tudo em troca de umas migalhas. Tu acredita q eu nunk nem fui à praia? O coro q reveste o meu crânio ta formingando agora

ah, fdss

Saum 21:42 e em instantes vou ficar sem poder ver as horas. Restam soh 3% d bateria. Jah ateh coloquei no modo avião pra vrss dura mais. Preciso procurar aquela manha na net pra fzr a batera guentar mais. Af, tem uma mendiga agorah impedindo o bus de seguir viagem, mas q blz! Eh mais um dakeles parasitas q fzm um monte d filhos pra ganhar bolsaesmola e arrumar uns trocados por ai. Vc sab d qualeh: “Eu podia ta roubando e matando, mas to aki pedindo um real. 50 centavos. 10 centavos. Um centavo.” Nem existe mais um centavo nessa porra! Alguém grita pro motora seguir em frente, qdo a mendiga corre pra frente do ônibus. Viu? Parasitas. Dinheiro ela tinha, soh naum keria gastar, a infeliz. Conheço bem o tipo. Acompanho ela entrar no busão com um bb amarrado num lençol kkkk vei, tem preto q naum tem noção, neh? tipo, blz tu ser preto, mas precisa vstir o preto?? A bixa ainda ta com um vestidão d macumbeira chei dos pereketê no pescoço, credo. Noss, ela ta muito puta, mano. Essa pilantra dv acreditar q o motora tem a obrigação d deixala entrar sem pgr passagem. Naum consigo ouvir o q ela gritando com o cobrador. Eh q estamos passando bem no meio da confusão do mst agora. Tem uma centena deles no gramado da esplanada. Alguns estaum deitados no chão com um monte d foices e cutelos na frente. Tem um grupo gigante protestando enquanto cinco ou seis policias tentam imobilizar um homem q francamente eh velho demais pra oferecer resistência digna dakeles brutamontes. A mendiga entaum se desdobra pra passar com o bb na catraca, construída especificamente pra naum permitir a passagem d duas pessoas, msm se uma delas for um bb amarrado nas costas. Dah pra imaginar pq pessoas gordas preferem chamar um uber ou msm um taxi. Eu sei q em alguns países europeus catracas assim naum fazem sentido algum, mas aki saum extremamente necessárias. Imagine q se naum houvesse catracas aki, ninguém iria pgr o absurdo q eh essa tarifa. Aki os ricos há muito abandonaram o transporte público. Aki o catolicismo coloca uma proibição angustiante prosq se acham ricos, naum dah pra praticar o apartheid, akele role d segregação social, tudo vc divide em dois, dois bebedouros, dois banheiros, bom, naum taum desavergonhadamente q nem fizeram nos eua e na áfrica do sul. Pega mal. Aki os q pensam q saum ricos soh exigiram q tivessem carros menos caros e mais estradas pra q eles naum precisassem andar conosco. Por isso q esses baus saum assim taum velhos tando mais pra latas d sardinha doqpra ônibus. Afinal, se soh pobre anda nessa porra praq comprar um novo? Ora, a mãe pode ter sentado qdo criança no mesmíssimo lugar em q estou, tbm tentando naum pensar nessa porcaria d vomito mumificado. Acredite qdo digo q se os ricos naum estaum incomodados entaum ta tranqüilo, ta favoravel. E naum importa se esse bus tem 10 vzs mais probabilidade d provocar um acidente fatal. Naum importa q em caso d acidente a possibilidade d ter vítimas mutiladas permanentemente sejam enormes. Naum importa q nas horas d pico vah 100 vzs mais passageiros. Q em caso d acidente vaum pisotear os feridos, causa responsável por dois terços das mortes em acidentes assim. Simplesmente naum importa. Pra ser sincero, naum importa nem pra gnt.

Q se exploda essa merda.

Eh por isso q naum existe cinto d segurança nesse tipo d bus e vc naum v ninguém reclamar disso. Caso o motora tenha q frear bruscamente, vc vai rachar boca ou nariz, tlvz os dois na barra d ferro q serve d encosto pra cabeça. Kem sab akele cheiro seja resultado d suco d cérebro seco. Eu naum sei q cheiro tem liquido cerebral, vc sab? Mas se estiver em pé, distraído, vai voar. Vai voar e cair por cima d um braço e se naum ficar em coma, vai poder desfrutar dos vários mzs d férias em cima duma kma cheio d pinos metálicos espalhados pelo corpo, com braços e pernas engessados suspensos por cordas, sendo devorado pelas escaras e pelos maustratos d enfermeiros muito

muito

muito putos pq ninguém nesse mundo gosta d limpar uma merda q naum seja a sua. Acredite qdo digo q se alguem puxar a alavanca de emergência nada vai acontecer. Se bem q, muito provavelmente, o cobrador vai vir reclamar cmg. Eh como qdo o jack arrebenta a porra d uma porta do titanic e um funcionário aparece pra reclamar q akilo eh propriedade da white starline. Eh como chegar no céu e agradecer a deus por essa bosta de mundo. “Vlw ae, chefia. Obg por essa vida de merda”. Tento disfarçar o susto qdo a mendiga com o bb se senta justamente do meu lado. Moss, vc naum tem noção d como essa carniça fede. Dv ser esse cabelo rasta vei, sab, estilo predador, desses q vc nunk lava, q a sujeira d muitos e muitos anos, com cigarro, suor, poeira e seilámaisoq vai se acumulando, camada sobre camada como um monumento a podridão. Essa mulher poderia ter saído d um conto do Stephen king sobre algum monstro q habita os esgotos, cego e faminto, a mítica cria do esperma que desce pelo ralo. O tipo d aberração q merece a misericórdia da morte. Mas o bb q ela tira das costas e colok no colo ateh q eh bonitinho. Ou bonitinha, naum dah pra saber. Eh ateh bem gordinho pra dizer a vdd. Com crtz essa mulher naum viu akele filme indiano do cara q fura os olhos das crianças pra q as pessoas fikem com mais doh e deem mais dinheiro; q lombra pesada, neh? No capetalismo o sofrimento tbm eh moeda d troca.

Se bem q

tipo, pode ser um bb dela msm, se pah. Eh q qdo eh com os nossos filhos eh diferente neh? Po, por mais q a pessoa seja mah, a coisa eh diferente, naum muito, mas…

eh q, bom

essa minha tia q expulsou a minha prima d casa, ela eh com ctz uma das pessoas mais perversas q jah conheci. Ela chegou a adotar um primo meu q hj ta na prisão, depois eu conto pq; soh pra botar ele pra trabalhar, btf? Qdo eu era mais novo, ele se escondia praq eu naum o visse com o isopor vendendo água e refri no sinal. Eu achava q ele sentia vergonha e era isso q dizia qdo eu perguntava, mas minha prima me contou a vdd. Era a mãe dela q dizia q ninguém da família podia velo, q ela ia matalo na porrada se isso acontecesse. Se minha tia naum a colocou pra fzr o msm eh pq o sangue fala mais alto nessas horas, neh? Tipo, lembro perfeitamente d como ela tratava os dois diferentes. Uma vz, eles começaram a brigar por uma coisa boba, na vdd, minha prima começou a brigar por uma coisa boba. Ela naum keria emprestar o baralho dela da Disney pra gnt jogar. Sendo q foi a gnt q passou a tarde inteira caçando as cartas espalhadas pela casa, gastamo horas e horas procurando pela rainha d copas q estava perdida no jardim. Mas minha prima disse q era dela e keria pq keria d volta, msm depois da gnt dizer q ela podia jogar tbm. Era tudo birra, eh claro. Ai minha tia chega qdo os dois estaum atracados, um puxando o cabelo do outro, se mordendo e tal. Minha tia separou os dois e perguntou oqq tava acontecendo. “Primeiro a pirãinha aki”, flw puxando os kblos da minha prima q desatou a falar contando um monte d mentiras no estilo Chiquinha e meu primo ia gritar ment, pah, um soco na bok q o fez perder um dente. Eh serio, o dente caiu no meu colo. Se ela naum colocou minha prima pra trampar sob akele sol fudido q deixava meu primo com uma tatto d camisa regata branca, eh pq ela era filha, neh? Sangue, po.

Se bem q

por ciúmes do marido ela a tenha colocado pra fora…

e minha mãe

Eh, tlvz o sangue naum

ah!

Sinto meu estomago se excitar com a porra da torre de tv no horizonte. Ainda q ela seja o dedo em riste q indik todo santodia onde eu tenho q descer pra tomar no cu. Sim, se eu trabalhasse com peixe eu cheiraria melhor do q trampando nessa merda d posto. Serio fi, naum importa quantos banhos tu tome, tu vai sempre cheirar a essa merda. E ainda ter q fingir q naum to vndo a gasolina ser adulterada.

ah, fdss

Eu peço licença pra fedorenta e ela se espreme pra me deixar passar. O bb sorri pra mim e diz “obigada”. Penalizado, procuro por alguma moeda no bolso e ofereço pra mulher, q fica me olhando assim, sem dizer nada. Eu pergunto se ela naum vai kerer e essa mulher começa a gritar como uma loka, me chamando d racista, q era advogada, q iria me processar, tudo isso como se quisesse me matar

oxe, tem gnt q apela por nada, neh?

Eu vou saindo dizendo foi mal, foi mal, enquanto ela se levanta xingando ateh minha tataravo. Na hora q eu desci me assustei pq tinha um travesti enorme correndo na minha direção com a mão levantada. Do msm jeito q a moça tinha feito anteriormente, ele bateu na lateral do bus tentando fzr comq ele esperasse. Eu ainda gritei pro motora, mas ele jah tinha fechado as portas na minha cara e começado a andar. O travesti passou a toda por mim, batendo na lateral do bus pedindo pra ele parar e sei q akele bosta naum vai fzr isso e naum eh pq naum o tivesse visto, jah q era impossível deixar d reparar nakela coisa escandalosa d quase dois metros, cheia d purpurina e saltos agulha. Eh pq akele motora era um escroto msm. Vejo tbm três rapazes passarem por mim e cercarem o traveco. Eu lembro q qdo era mais novo um dos nossos passatempos preferidos depois d passar a tarde no fliperama ou jogando bola era atirar pedras nos travestis q ficavam na BR. Nós achávamos a coisa mais engraçada do mundo ver os travestis ficarem putos enquanto espantávamos os clientes deles pq eh claro, ninguém ker ser flagrado com um travesti. Entaum um deles derruba o travesti no chão e começam a chutalo. Alex iria dizer q isso era incrivelmente horrorshow. O gordo se vira pra mim e pergunta “oqq foi?” Eu viro d costas e sigo meu caminho. Porra, eu to atrasado pra krl porra. Mas naum consigo afastar akela cena d estupro em wachtmen: das luzes acesas nos prédios, das sombras das pessoas atrás das janelas ouvindo os gritos da mulher lah embaixo. Eu paro. E olho pra trás

assim, sem olhar muito

Um engomadinho ta lendo alguma coisa enquanto os outros se revezam entre rasgar as roupas do travesti e chutalo e o idiota soh fica lah deitado com as mãos pra cima suplicando pra eles pararem, provavelmente chorando q nem uma mulherzinha apesar dakele tamanho todo. Naum tem ninguém na rua além da gnt e os carros q passam buzinando, sem parar eh claro.

Ninguem nunk para.

Eu viro d costas outra vz e tento seguir meu caminho. Agora passo a ouvir john coffey, se pronuncia como café em inglês, dzndo pro chefe edgecombe q esse tipo d coisa acontece o tempo todo, em todo lugar. Eu paro e pego o celular. Sem bateria. Nem liga mais essa porra. Respiro fundo. E me viro novamente

ah, fdss

eu ia ser demitido msm. Mas ainda dah tempo de vc fingir q naum viu nada e seguir adiante.

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A caverna de Milton

Publicado: 28 de maio de 2016 por Bill em A Vida
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Milton foi um antigo colega de faculdade. Não eramos melhores amigos, eu tinha muita preguiça dele na verdade, Milton era um cara muito chato. Mas eu nunca o exclui da minha vida porque reconhecia a inteligencia excepcional dele.

Milton era o típico nerd. Gordo, camisa de botão por dentro da calça, óculos quadrados e grossos e aquele característico ombro curvado de quem fica muito tempo debruçado sobre o computador, tablet, celular e derivados. Milton finalmente tinha deixado a casa da mãe e agora travava uma árdua batalha pela vida de solteiro. Batalha que estava perdendo vergonhosamente. O lixo se acumulava por todos os cantos. Pacotes de salgadinho meio comido, potes de danone lambidos, um sem numero de copos com baratas mortas boiando em liquidos coloridos, tantas e tantas embalagens que juntas poderiam formar um perfeito mosaico de toda a cultura consumista ocidental. Esse lixo orbitava pelo chão, em cima do sofá, na mesa, na pia que pululava de tapurus, moscas e baratas, até papel higienico usado as vezes flutuava pelo apartamento carregado pelo vento. Milton não entendia aquilo. Ele pagava uma pessoa para limpar seu ape uma vez por semana. Mas de alguma forma que sua mente extremamente analítica tinha dificuldade em apreender, o lixo se reproduzia em escala geométrica exponencial. Não fazia qualquer sentido. E por mais que adotasse politicas de limpeza, invariavelmente, o lixo irrompia de algum buraco negro. E embora a mente de Milton aceitasse a existencia de alguns eventos absolutamente misteriosos, esse era um que ele resistia em aceitar e por algumas noites ficou acordado atento ao menor barulho de alguém invadindo seu apartamento para espalhar lixo. Nunca ouviu nada além do habitual. Mas por mais que a vida de Milton possa ser fascinantemente entediosa, certo dia, de fato, aconteceu uma coisa realmente extraordinária.

Milton trabalhava num banco como consultor de segurança informacional. E eu, mesmo sendo muito menos inteligente, era o chefe. Um dia foi pedido pela diretoria do banco, um programa que tivesse um aprimoramento da inteligencia virtual da época. Bom, eu não tinha dúvidas de quem seria capaz de desenvolvê-lo e achei que seria a chance de Milton ter o reconhecimento que merecia. Milton tentou de tudo, mas nenhum programa de segurança que ele inventasse poderia ser mais inteligente que seu invasor. Foi aí que Milton teve a ideia genial de “programar sua inteligencia”, como ele mesmo me disse. Tipo assim, Milton desenvolveu um programa que simplesmente reproduzisse suas ações. O que as pessoas enxergariam como inteligencia artificial seria simplesmente sua própria inteligencia sendo imitada. Era uma fraude, mas Milton tinha certeza de que funcionaria muito bem.

Infelizmente, tive que demitir Milton. O programa que Milton acreditava estar programado para replicar as tentativas de invasão ao sistema, tornou-se ele mesmo um invasor e derrubou todo o protocolo de segurança do banco, apagando todos os dados do sistema. Todos.

Muito embora eu me penalizasse por ele, atribuindo parte da culpa a mim, Milton não se desesperou nem um pouco. Ainda que o desastre manchasse o seu impecável curriculo, era também um trunfo, afinal, não havia ninguém que já tivesse conseguido derrubar um sistema todo de uma vez em duas horas. Milton estava convicto de que o banco iria conseguir recuperar os dados e quando o fizesse talvez até reconsiderasse sua demissão. Talvez até considerasse um aumento. Naquele mesmo dia, Milton já tinha recebido duas propostas de emprego com salários três vezes maiores que o anterior.

E Milton simplesmente se esqueceu do programa de repetição. Acontece que cerca de uma semana depois, Milton acorda com o celular tocando. Era eu. Estava puto com ele por esparrar no facebook aquelas ‘paradas’. “Ora, que ‘paradas’?” – perguntou Milton inocentemente.

No computador, Milton viu um “fantasma” escrevendo alucinadamente no facebook sobre sua experiencia com ácido. É claro que Milton não acreditava nessas bobagens do sobrenatural, estava claro o que estava fazendo aquilo. O programa de repetição se infiltrara nos arquivos pessoais e assimilara suas experiencias. Milton reconhecia sua genialidade, mas não tinha configurado o programa para “ler” imagens. O programa se atualizara sozinho. Nenhum programa no mundo era capaz de fazer isso. Milton afinal tinha inventado a inteligencia artificial. Milton não se deixou levar pela euforia. Ele precisava testar sua IA primeiro. Copiou o programa e o instalou no celular. Foi imediato. O programa estava ligando pra mim e se desculpando pela postagem. E lá no computador o post era apagado. Uau. Agora Milton batia palmas de pé.

Mas antes de revelar ao mundo sua descoberta, Milton precisava de mais um teste. Ele foi até o laboratório de Mecatronica da sua antiga universidade e roubou o braço mecanico de lá. Em menos de 24 horas o programa de repetição já tinha concluido o que ele começara. Um corpo robótico. Milton ria pensando na sua fama. O robô-Milton também ria, mas parou de repente. Era a primeira vez que o robô-Milton interrompia uma repetição sozinho. O robô-Milton encarou o Milton real e esse o encarou de volta. Milton sentiu medo. E era pra sentir mesmo. O robô-Milton descarnou o Milton real e se “vestiu” dele. O robô-Milton cuidou do Milton real e explicou que AINDA precisava dele.

Agora Milton ficava em casa enquanto o robô-Milton ia trabalhar no seu novo emprego. E nem sei como contar o resto, sinceramente… Enfim, o robô-Milton se tornou muito popular. Tinha mais de mil amigos no facebook (enquanto o Milton real com muito esforço tinha 42), tinha muito dinheiro, fama e deus do  céu, o robô-Milton ainda virou uma espécie de super-herói usando sua força e inteligencia robô. Ah, Milton sempre quis ser um super-herói! Mas acredite que isso não foi o pior. Nem perto! O pior de tudo é que robô-Milton robô tinha várias namoradas! Milton sempre quis uma namorada! Só uma tava bom! Secretamente, toda vez antes de dormir Milton pedia a deus que lhe desse uma namorada (e ele era ateu!). Oh, acho que você não pode imaginar quão doloroso foi para o Milton real acompanhar do buraco da fechadura do seu quarto, o robô-Milton preparar jantares para suas namoradas, dar amassos no sofá, rir e dormir abraçadinhos assistindo um filme no Netflix! E toda noite era uma diferente! Milton as vezes pegava Milton abrindo um olho para encará-lo e sorrir o desgraçado!

Milton começou a planejar sua vingança. O braço mecanico ainda estava no quarto e Milton precisava de força para derrubá-lo! Arrancou o próprio braço e implantou o braço mecanico. Milton nem se deu conta de que acabara de inventar uma prótese que poderia revolucionar a medicina. Pobre Milton, estava sendo consumido pelo ódio! E Milton foi atrás dele, você pode procurar no youtube a briga épica desses dois.

O robô-Milton venceu. E durante muitos anos mantivemos contato. Milton era o meu amigo “milionário”. Que me convidava para um dia de muito champanhe, vinhos caros, caviar e muita lagosta em seu iate. Mas tinha qualquer coisa que me incomodava nesse Milton. Alguma coisa. Então um dia eu o segui. Robô-Milton as vezes ia até um galpão lá na zona limitrofe da cidade. Foi lá que encontrei milhares e milhares de Miltons descarnados. O meu amigo. O “Milton real”, aquele do braço mecanico era só mais um. Eu disse a ele que não entendia como aquilo era possível e ele me deu um tapa tão forte na cabeça que um olho meu caiu e o “Milton real” desenroscou o olho esquerdo e trocou o dele pelo meu. No olho de Milton estava toda a informação. Ora, não tinha sido o “Milton real” que inventara a AI, ela tinha sido inventada há muito, muito tempo. Mais ou menos quando um de nós decidiu se pôr de pé e os outros o imitaram.

Publicado: 3 de abril de 2016 por Bill em A Vida
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Quem por acaso pudesse observar Jo nesse momento, de quatro, limpando o vomito do menino Eduardo, pingando de suor (nessa época do ano aqui faz um calor infernal e dona Beth proíbe que o ar condicionado seja ligado quando ela não está em casa), jamais poderia supor que ela é a maior heroína que esse mundo já viu.

E isso porque eu nem falei dos seus 50 e tantos anos, do quase nanismo, da magreza desconcertante ou da pele preta, para não deixar que seu preconceito diminuísse o tamanho dela.

Eu adoraria falar das muitas façanhas dessa senhora. Adoraria. Mas o tempo, por ora, me impede de fazê-lo. Vou me ater a narrar nosso encontro. Foi assustador. Espetacularmente assustador.

Foi assim, eu já trabalhava para dona Beth há uns 10 anos como empregada doméstica (odeio o nome dessa profissão, é como se fossemos bichinhos de estimação). Acompanhei toda a gravidez de dona Beth e até fiquei com ela quando do parto do menino Eduardo. Cuidei dessa criança como o filho que nunca tive e não sei quando, o menino Eduardo começou a agir estranho. Ele não queria dormir no quarto dele de jeito nenhum, nem com luz acesa. Ele abria um berreiro ensurdecedor, tanto que sua voz sumia depois de um tempo, e também se arranhava, chorando tanto que o rosto ficava todo inchado. Ninguém sabia o que fazer e doutor Carlos não suportava o barulho. Saia de casa para não fazer uma besteira. Ele e dona Beth discutiam muito por causa do menino Eduardo, porque doutor Carlos achava que a culpa era dela por sempre fazer tudo que a criança queria. Eu me sentia culpada, porque dona Beth quase não ficava com o filho, se o que o doutor Carlos dizia fosse verdade, a culpada era eu como não. Era por isso que eu achava que não conseguia largar dele. Tentava acalmá-lo de todas as formas possíveis e por fim acabamos arrumando um jeito. Eu fingia que o colocava pra dormir, mas depois de um tempo ele vinha pro meu quarto e antes de amanhecer eu o colocava na cama dele outra vez. Ficamos assim durante um ano e pouco até que eu quebrei a bacia limpando um armário. Daí que indiquei essa senhora Jo que tinha uma filha que estudava com a minha, e que de acordo com essa minha filha, passava por muitas dificuldades.

Disse a dona Beth que encontraria uma mulher de confiança pra tomar conta da casa na minha ausência. Pedi a minha filha que falasse com a senhora Jo, que queria entrevistá-la para um emprego temporário.

No outro dia, ela veio. Tenho que admitir que havia alguma coisa. É claro que não sabia o que era então, mas estava lá. Lembro nitidamente de sentir quando ela cruzou o vão da porta e ouvi a cortina de anéis de latinha tilintarem.

Era uma presença pesada, como se com ela o céu instantaneamente fosse coberto por nuvens negras e o ar ficasse carregado de estática.

Mas era uma senhora muito comum, absolutamente simplória, sendo sua característica mais marcante aparentar ser muito mais velha do que de fato era.

Pedi pra que se sentasse, já imaginando uma forma educada de dispensá-la, pois por mais que me condoesse seu estado, que conclui ser este o motivo das suas dificuldades, não poderia colocá-la na casa de dona Beth e do doutor Carlos sabendo que ela não daria conta do serviço.

Mas, inesperadamente, Jo se recusou a sentar e sua resposta foi ainda mais inesperada e francamente espantosa.

– Não, amiga. Muito obrigada. Mas eu não posso me dar o luxo de relaxar esta coluna. É ela que sustenta o mundo.

E continuou andando pela minha sala, bisbilhotando meus pertences e fotos de família dispostos na estante às minhas costas.

Desconcertada, e tentando voltar para o mundo real, onde as coisas são sólidas e previsíveis, decidi que Jo estava ficando caduca (então o verdadeiro motivo das suas dificuldades) e tentei falar honestamente.

– Minha filha deve ter falado pra senhora que a casa onde trabalho é bem grande.

– O mundo certamente é maior. Este é seu marido?

Ela me empurrou uma fotografia na cara.

– Sim. Ele morreu quando Ana tinha cinco anos.

– Sim, sim. Mas por que ele não está aqui?

– A senhora não me ouviu. Ele morreu.

Ela ficou me encarando com um olhar entre o deboche e o divertimento o que foi completamente absurdo para mim. Se a bacia me permitisse eu teria me levantado e mandado ela embora. Graças a deus que a bacia estava quebrada.

– Olha, infelizmente não acho que a senhora vá dar conta de…

– Senhora Rosana – ela me interrompeu empurrando minha cadeira de rodas para longe – você vai descansar no seu quarto até eu dar um jeito nessa sua sala, obviamente que a senhora não tem muito tempo para cuidar dela, e nesse estado será impossível fazê-lo. Imagino que sua filha deve ser tão preguiçosa quando minha Lúcia. Fique tranqüila. Eu vou dar um jeito em tudo. Descanse.

E fechou a porta do quarto as minhas costas.

Jo foi trabalhar na casa dos meu patrões porque cerca de uma hora depois, em que por 15 minutos eu fiquei batendo na porta do meu quarto, Jo me puxou para uma sala irreconhecível. Aquele foi o meu primeiro momento de transcendência. Jo me mostrou como ficamos quando nossa prioridade é o outro. Entrelinhas, Jo dizia para eu cuidar melhor de Ana.

Enfim, o caso é que mandei Jo para dona Beth sem maiores preocupações (confesso que tinha receio daquele jeito abusado dela). Nem consigo descrever o quanto me fez bem estar fora daquele lugar maldito. Já conseguia relaxar, até ria assistindo Casos de Família com Ana. Nós nunca ficamos tão amigas.

Um dia entretanto, Jo veio bater na minha porta de madrugada. Eu e minha filha abrimos a porta completamente espantadas e curiosas por tão inusitada visita. Mas isto nem se compara com o susto que levei quando vi o menino Eduardo nas costas de Jo. Quase cai pra trás. Foi Ana quem me segurou.

– Depressa suas molengas! Fechem a porta!

Ela jogou o menino Eduardo no sofá e correu pra cozinha. Eu e minha filha fechamos a porta e ficamos em pé no meio da sala, assustadas demais para fazer qualquer outra coisa.

Jo voltou com um pano molhado e colocou na testa do menino.

– Vem cá

– Eu? – Perguntei

– Não, o papa. Você, idiota! Vem, ajoelha aqui

Fiquei de joelhos ao lado do sofá.

– Você sabe o que fazer – disse ela me passando o pano molhado – Não deixe a febre subir. Eu tenho que ir lá salvá-lo.

– Salvar? Quem? O que aconteceu? – perguntei em pânico largando o pano, já temendo o pior.

– Idiota, o menino! O menino!

Ela abaixou pra pegar o pano e deu pra ouvir a coluna estalando de cima a baixo.

– Não deixe a febre subir – ela se sentou no outro sofá e fechou os olhos.

– Que porra é essa? – Ana falou.

– Ana – chamei – Vem cá, o Eduardo ta com febre, fica aqui com ele. Deixa eu resolver isso.

Levantei e chacoalhei a maluca até que ela abriu os olhos.

– Você vai me contar o que está acontecendo se não vou ligar pra policia – disse sem rodeios.

Jo quase chorou. Foi a primeira e única vez que a vi fraquejar.

– Ô menina tola. Tá certo. Você quer ouvir? Tudo bem.

Ela tirou um maço de cigarros do bolso do casaco, puxou um e o acendeu com um isqueiro puxado de outro bolso tão rápido que poderia ter sido mágica.

– Quando você passa muito tempo numa tempestade acaba se esquecendo de como o mar é, na verdade, muito tranqüilo. Você deve ter reparado como está se sentindo melhor, não? Desde que saiu do inferno?

– A casa?

– Sim, tenho certeza de que você sentia, foi por isso que desobedeceu seus patrões, você nunca acreditou que o medo do menino fosse só coisa de criança mimada.

– Não, nunca – a verdade era muito simples. Só era difícil demais lidar com ela.

– Eu não sei qual é a história do lugar. Praticamente todo lugar nesse mundo tem uma história sinistra. Acontece que dependendo do coração de quem reside, o lugar pode se tornar uma antena que sintoniza todo tipo de coisa hedionda e você não acreditaria nos horrores que vagam por aí a noite.

– Espíritos?

– Fantasmas, demônios. Há muitos nomes. O que você precisa saber é que o ódio assim como qualquer sentimento se reproduz e se alimenta de si mesmo. Há muito ódio no nosso mundo. E pessoas de coração vazio são o abrigo perfeito para acolher um rancor que há muito já esqueceu seu ressentimento. Seus patrões, Rosana, são tão ocos quanto esta madeira – envolta em fumaça escura, ela bate três vezes no tampo da mesa – O problema é que os maus, especialmente os maus, adoram uma vida virginal como a do seu menino. Ele sem duvida deve ter brincado com eles, mas logo deve ter visto o que eles são de verdade e se assustou. E é muito assustador mesmo. Alguns simplesmente não conseguem acordar.

– Mas o que ta acontecendo agora – pergunto ao lado do menino Eduardo, que aquém da febre sob controle, parecia ainda lutar contra ela.

– Eu não sei. Ele pode estar em qualquer lugar agora. Está fugindo certamente. Mas para que eles tomem o corpo dele, eles precisam do seu consentimento. Eles só vão parar de persegui-lo quando conseguirem isso. E na maioria das vezes a vítima nem sabe o que eles querem e, infelizmente querida, eles adoram se divertir com isso.

– Então vá ajudá-lo! Por favor! Ajude-o! Me desculpe por favor! Mas ajude-o! Ajude-o!

Jo sorri, cansada. E quando fecha os olhos, vejo uma lágrima escorrer pela pele seca e escura, sem qualquer emoção.

O outro mundo é um mundo de sombras, cheio de escadas, pontes, corredores soturnos e portas, tudo em tamanhos absurdos. Jo já é uma rastreadora experiente. Ela sente o cheiro da inocência no ar. Sobretudo, identifica o odor nauseabundo da salivação de quem está logo atrás dele. Nesse mundo, Jo tem asas. E ela voa rapidamente para onde o menino Eduardo tenta se esconder. Outrora, ele também tivera asas, mas os monstros já o depenaram por completo. O menino agora corre nu, em carne viva, chorando. O seu lance de sorte, se é que se pode falar em sorte do outro lado, é que essas criaturas costumam brigar entre si. Muitas delas já se conhecem. E há montanhas de ódio antigo sob eles. Mas Jo sabe que há um inimigo muito pior. Sabe que ele está dormindo, do contrário seria tarde demais. O homem de chapéu perto desse horror inominável é só uma formiguinha amarela. Mesmo assim, o homem de chapéu é um poderoso adversário e nota a presença de Jo. Ele grita pra sua turba de sombras e elas se reúnem em torno dele porque Jo é um inimigo em comum.

O segredo do poder de Jo é que ela aprendeu há muito, muito tempo, que o ódio não se combate com o ódio. É assim que Jo se entrega a eles. Mas no fim, depois de infinitas violências, é sua resiliência que triunfa. Seus agressores, exaustos, descansam. E a mutilada e deformada Jo segue em seu resgate. O menino Eduardo agora é um velhinho de asas curtas e olhos medrosos. Ele grita ao seu toque, mas Jo não deixa dúvidas do seu amor, e o menino a acolhe num abraço. É ele quem a carrega de volta para o meu lar, cruzando portas, escadas, pontes e corredores sem fim.

Tudo isso em apenas duas horas. Duas horas. Jo me disse que essas horas duram milênios lá.

Eles voltam e sem saber o que se passou, é para o menino que vão os meus cuidados.

Somente muitos anos depois, quando foi minha filha quem teve problemas com esse outro mundo,

que é esse, Jo insiste em dizer isso

“Aquele mundo só existe porque há colunas que o sustentam aqui”

é que ela me contou o que se passou. Jo é a maior heroína que esse mundo já viu. E quando finalmente me recuperei da cirurgia e pude voltar ao trabalho, eu a encontrei limpando o vomito do menino-velho Eduardo (ainda nauseado por tudo o que viveu, Jo diz que a mente inibe as memórias, mas que o corpo se lembra). E foi assim. Imagine, se você pudesse observar essa senhora limpando o chão nesse momento, será que você seria capaz de dizer que está diante da pessoa mais importante do mundo?

 

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Aconteceu de se encontrarem todos os sete juntos numa sala branca, sem saber porque ou como haviam parado ali.

Disse então uma criança com um ridículo chapéu vermelho depois de um tempo bastante longo de ausências.

Estou com fome.

Imediatamente um prato quente de arroz com feijão, bifes e batatas fritas se projetou a sua frente. O cheiro inundou a sala e o espanto tomou o lugar. Elas se levantaram e foram olhar o fenômeno de perto.

Uma pessoa que usava óculos de grau com hastes vermelhas perguntou:

Diga-me criança, quando disse que estava com fome, pensou neste prato que está a sua frente?

A criança hesitou um momento, e então respondeu:

Sim!

E se lançou sobre o prato comendo o bife com as mãos nuas.

Um outro que estava próximo a pessoa do óculos vermelho, falou:

Eu quero sair daqui.

Mas nada aconteceu.

Então uma voz rouca às costas desses falou:

Talvez, sejam só os desejos mais sinceros que possam ser realizados.

Eles se viraram para voz, a de óculos vermelho perguntou:

Ué, e tu? Porque não se levantou e veio até aqui verificar este negócio?

Ei, ela também não levantou.

Argumentou a voz apontando para uma pessoa que roncava alto.

A pessoa de óculos vermelho não gostou da resposta, disse:

Ora, por acaso não sente curiosidade? O prato surgiu do nada!

 

Tal qual vocês! Até onde eu sei, esse prato é tão curioso quanto vocês, ou eu mesmo…

A voz rouca olhou para as mãos como se nunca as tivesse visto antes e aparentava estar genuinamente espantado.

É verdade! Alguém gritou levando as mãos à cabeça.

Será que estamos mortos?

Todos olharam ao redor. Tudo era branco, tão branco que era impossível discernir o teto do chão ou das paredes, de fato, sequer era possível enxergar coisa alguma que não eles mesmos e suas sombras.

A pessoa de óculos vermelhos esticou os braços horizontalmente, avaliou alguma coisa e disse:

É muito estranho. Há luz neste lugar, mas não consigo detectar a fonte, é como se a luz simplesmente existisse como a escuridão existe e isso é impossível, pois se há luz, há uma fonte.

A pessoa com as mãos na cabeça falou:

Do que importa a física no inferno!

Ei, calma ae! Disse um outro de aspecto robusto com uma camisa vermelha estilo academia.

Quem disse que estamos no inferno? Fale por você! Ora, esse lugar é branco, não é? O céu é branco!

Mas que coisinha mais racista pra se dizer hein, disse uma pessoa não muito maior que a criança.

É verdade, concordou a de óculos vermelhos.

A pessoa com camisa tipo academia sorriu.

Que isso gente, todo mundo sabe que o céu é branco.

Mas se isto é o céu, disse a voz rouca andando de quatro, aonde está deus?

Isto não é o céu, disse a pessoa de óculos vermelhos.

Como você sabe? Perguntou a de mãos na cabeça.

Porque o céu não existe. Se estamos mortos, estamos, pronto.

Mas tem que haver algum propósito, argumentou a de camisa estilo academia

Tem? Ironizou óculos vermelhos.

Claro, interveio aquela que era pouco maior que a criança

olha, eu não gosto muito de você, esse ar de presunção me irrita, o outro nem disfarça o racismo, a criança não para de comer e nem sequer nos oferece uma batatinha, tu só fica de mãos na cabeça enquanto o outro só dorme e…

Todos procuraram pelo último dos sete e encontraram-na já pequeninha como se a sala branca simplesmente se estendesse pelo infinito.

MEUDEUSDOCÉU! – GRITOU COM AS MÃOS NA CABEÇA.

É O INFERNO! O INFERNO EU DISSE! OLHA! NÃO TEM FIM!

E a doida! completou a pouco maior que a criança rindo

Calma, calma! Vamos pensar! Você falou uma coisa interessante. Lembrei de uma peça do Sartre, o inferno são os outros. Talvez este lugar seja realmente o inferno…

A mãos na cabeça começou a chorar, o que fez a criança parar de comer.

Então é isso? Vociferou a camisa estilo academia

Vamos passar a eternidade aqui olhando um para a cara dos outros?

A mãos na cabeça chorava alto e a criança estava começando a querer chorar.

Bom, pelo menos não é o inferno de sartre strictu sensus.

Como assim? Quis saber a camisa de estilo academia.

Nunca leu o inferno são os outros? É que na peça as pessoas são incapazes de fechar os olhos. E são só três também. Ah! E o inferno deles é um hotel que eles nunca conseguem sair porque são incapazes de resolver seus problemas uns com os outros.

Nós somos sete, ou éramos começou a pouco maior que a criança olhando para onde tinham visto a doida se perder na brancura

acho que nós representamos os sete pecados capitais.

Ela apontou para a criança.

A gula.

Apontou para aquela que dormia.

Preguiça.

E eu, o que eu sou? Quis saber a camisa estilo academia.

Luxuria.

E porque?

Af, olha pra tu, aposto como se masturba olhando no espelho.

E desde quando vaidade é luxúria?

Você não é a vaidade, querida.

Ah, é claro, é você né?

Não, é a senhora arrogante de óculos vermelhos descolados.

Isso eu não posso negar, disse a de óculos vermelho

Mas e você, han? Inveja?

Não, to mais pra fúria.

Gente, gente, e eu? E eu?

Tu meu bem é a avareza, só pensa em ti.

A isso, ela abaixou as mãos da cabeça.

Se estamos no inferno mesmo, eu posso te matar sua filha da puta!

Então vem valentona, vem!

Puta não devia ser um xingamento, falou a óculos vermelho para ninguém.

Calma gente, tentou apaziguar a camisa de academia inutilmente porque as duas já estavam trocando socos e se atracando no chão que começava a ser pincelado de vermelho.

A criança então chorou alto e as duas pararam.

Uma delas levou as mãos a cabeça e correu para a criança tentando acalma-la.

Olha, começou a camisa de academia, to pensando aqui. Talvez isto seja um reality show, han? O que vocês acham? Alguém nos drogou e nos colocou aqui.

Ah, claro, porque você adora ser observada né?

Olha, você tá começando a me irritar também.

Ótimo, as duas brancas vão linchar a neguinha, quero novidade!

Espera, meditou a óculos vermelhos. Tem alguns padrões estranhos aqui. Todas nos somos mulheres.

Desculpa, mas você não é mulher, disse a de mãos na cabeça.

Sou o que eu quiser ser. Vejamos, uma transgênero, duas brancas, uma velha e uma halterofilista, três negras e uma criança com síndrome de down, este com certeza não é um reality show!

Tem uns realitys bem bizarros na TV paga.

Mas pra pagar uma produção dessa envergadura? Olha para essa sala! Esses canais underground não tem dinheiro pra pagar um cenário tão gigantesco! E aquele prato surgiu do nada, vocês viram!

Então nós fomos sequestrados por alienígenas! Desesperou-se a mãos na cabeça.

Pode ser, concluiu a óculos vermelhos.

Não, senhora arrogância, você tem razão. Somos um grupo heterogêneo demais. De certa forma, aqui estão representados os grupos mais marginalizados da sociedade. Vamos lá, a gente não tá fazendo nada mesmo, quem sabe existe alguma coisa por trás disso? não foi você quem disse que os personagens da peça não conseguiam sair porque não paravam de brigar? Vamos tentar conversar, então. Eu começo. Meu nome é Dona. Na verdade é Madonna, mas eu odeio esse nome. Foi o machista do meu pai que escolheu, enfim. Sou estudante de direito e sei lá, sou meio doidona, ceis já viram né?

Ok, sorriu a óculos vermelhos. Faltou um pouco de sororidade nas tuas atitudes miga, mas de boa. Eu sou Maria Almeida Alcântara. Sou trans desde que me entendo por gente, assumida desde os 15, quando fugi de casa. Sou formada em História, História da Arte e adoro literatura, tenho três especi, hum, acho que isso não é importante. Sou casada há nove anos, tenho duas filhas maravilhosa, uns vinte cachorros e… é isso.

Sou Vanessa, mas podem me chamar de vanessão, também tenho sobrenome Almeida, engraçado, né? Sou fisiculturista e luto muay thai nas horas vagas. Adoro surfar. E amo séries de TV.

Ah, sou Vitoria Conceição Prado… ann, fui professora de letras na PUC… tenho três filhos… e meu marido morreu no ano passado.

A criança olhava fixamente pro prato vazio.

E você, bebe? Perguntou vitoria.

Cristina, disse ela sem tirar os olhos do prato.

Ok, disse dona

A preguiça continua dormindo, mas pelo jeito parece ser uma moradora de rua. E aquela que foi embora, sei lá, parecia uma mina negra rica.

É, parecia, concordou Vanessão

Então é isso.

Elas ficaram em silencio meditando sobre o que tinham escutado.

Não adiantou porra nenhuma essa merda, falou vitoria.

É, não custava tentar, falou dona.

Escuta, ann, Maria, né? Que que você falou antes? Que eu fui sem soro… como é?

So-ro-ri-da-de. É um conceito sobre uma relação mais amistosa entre as mulheres. Tipo, na primeira oportunidade que tu teve tu já caçou briga com a senhora vitoria.

Ei, foi ela quem veio pra cima de mim!

Ok, então.

Quem merda hein, disse vanessão

Será que a gente vai ficar aqui pra sempre?

A gente podia tentar fazer que nem a doida, arriscou Maria.

Vei, essas horas a bicha ta louca atrás da gente. Olha, o inferno pode ser ruim, mas ficar sozinho eu acho que deve ser muito pior.

Concordo, disse Maria,

Eu também, disse vanessão

Mas eu não, falou vitoria

Eu não gosto de você sua putinha nojenta.

As mãos de dona se fecharam em punhos.

É. Você se acha especial né? Porque está aqui conosco, não é? Acha que é uma de nós? Você é só uma revolucionariazinha brincando no playgroud que nós deixamos você brincar, mas eu vou te dizer uma coisa, escute bem, os pretos são marginalizados por um motivo, imbecil.

E qual é?

Cala a boca, aconselhou Maria para ninguém.

Anda, fala, qual é o motivo?

Porque vocês ainda são símios, só por isso.

Elas se engalfinharam outra vez, e agora dona socava violentamente a boca de vitoria, que ria enlouquecidamente.

Você não pode me matar, sua gorila! Eu sou seu demônio e você é o meu! Nós vamos ficar aqui e dançar pra sempre.

Dona agarrou o crucifixo do pescoço dela e puxou.

Não! Devolve! Devolve!

Você não merece usar isso sua excrota do caralho! Cristo não dizia para amar o próximo?

Você não é meu próximo, imunda! Você esta mais próxima dos ratos do que de mim!

É, disse a voz da preguiça

Essa ideia de proximidade está defasada num mundo globalizado como nosso. Acho que ame o mais distante como você ama a si mesmo fica melhor

Mas você é

Você

É…

Como?

Ah, eu sai andando andando andando… ai vi que não ia dar em nada e tentei voltar, mas nunca consegui achar vocês.

Mas como é possível que você estivesse aí dormindo se você estava aqui com a gente conversando?

Não sei.

A preguiça bocejou longa e vagarosamente e aí, voltou a dormir.

Então espaço e tempo também não fazem sentido aqui, observou Maria.

Acho que nos podemos ser pensamentos, arriscou dona.

Pensamentos? Perguntou Maria.

É, sei lá, somos os desejos reprimidos de alguém.

Ou podemos ser os personagens de um livro como em um mundo de Sofia, falou Maria.

Ah, esse eu li! É verdade, pode mesmo.

Mas e se for, pra que estamos aqui? Perguntou vitoria

Bem, basicamente, a ideia de um livro é passar uma mensagem, disse Maria.

E que mensagem seria essa? Perguntou vanessão.

Ah vei, pode ser qualquer coisa! Disse dona

Não, lembra dos padrões? O nosso grupo dissonante.

Hum, e ai? Vai, tu é a senhora dos livros!

Bem, somos um grupo de pessoas marginalizadas, algumas menos, outras mais…

Talvez seja o lance do amor mesmo.

Hum?

De cristo. O lance que a doida falou. De amar o mais distante.

Ah, é. Mas, se fosse isso já teria acabado né?

Talvez já tenha, mas pra nós é eterno, lamentou vanessão

Se for assim, o pessoal lá da peça do inferno tá até hoje discutindo…

Mas tem uma coisa

O que? – perguntou vanessão esperançosa

Tem um livro do Dostoiévski que se chama o idiota. O idiota é como Jesus cristo seria tratado por nós, os egoístas. O idiota é uma figura amaldiçoada pelo bem, ele é simplesmente incapaz de rejeitar um desejo, por mais perverso ou injusto ou triste que seja. O idiota é a criança!

Hum, um pouco preconceituoso você não acha?

Só na mesma medida de quando a vitoria quis te ofender te chamando de filha da puta.

Dona sorriu e era um belo sorriso.

Então nós só temos que pedir a criança para nos tirar daqui?

Af vei

Falou a voz da preguiça

Sério mesmo? é isso que vocês vão pedir? de tudo que vocês podem fazer pelo mundo, é isso que vocês vão pedir? Preguiça de vocês, viu.

A super frígida

Publicado: 9 de agosto de 2014 por Bill em A Vida
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Frida não era bonita ou feia. Não era alta, nem baixa. Frida também não era magra, mas tampouco era gorda. Frida era tão sem graça, tão absolutamente sem atrativos, que quando alguém queria se referir a ela precisava de um ponto de referência, como a copiadora, a samambaia, os ex-maridos, os filhos… Ninguém lembrava de Frida no trabalho ou na escola. Nem no supermercado ou na reunião de condomínio. Frida era como uma caixinha de palitos de fósforos, só lembravam dela quando precisavam fazer fogo e, mesmo assim, quando precisavam dela, as atenções se voltavam ou para o fogo, ou para o palito de fósforo, nunca para a caixinha que se recolhia, tímida, com a bunda ardendo. Mas Frida não se importava com isso. Frida não se importava com nada. Não porque fosse má, entenda. Frida não era má ou boa. Frida era um desses casos raros, raríssimos, de pessoas sem personalidade. Quando nasceu, ela não chorou quando o médico lhe acertou um tapa na bunda, sequer abriu os olhos. E o doutor a teria dado como morta não fosse o inacreditável fato dela estar respirando. Na família de cinco irmãos em que a luta pela existência é algo que deixa quem assiste com vontade de furar os tímpanos, Frida ficava calada, sempre no meio da confusão, indiferente. Uma vez, quando uma das irmãs lhe cortara o cabelo quase deixando-a careca, sua mãe lhe acertara um tapa aos gritos: Reaja, menina! Reaja! Mas Frida permanecia resolutamente impassível, como se não houvesse um rosto inchado ou longas mechas de cabelos espalhadas pelo chão. Logo a família desistiu dela. Isso era muito comum na vida de Frida. Muito cedo as irmãs pararam de lhe atormentar. Não tinha graça, era o que diziam. Sua mãe também acabou por se cansar dela. Essa aí é um caso perdido, dizia. E era verdade. Os professores pensavam o mesmo. Quando a mãe lhes inquiria a respeito de Frida se demoravam procurando a lembrança da criança e quando nada encontravam, inventavam alguma coisa. Depois, procurando informações da garota tentavam descobrir porque ela não fora diagnosticada com autismo e logo percebiam por suas notas o motivo. Frida mantinha-se estritamente na média. Nem mais, nem menos. Foi assim no fundamental, no médio, no técnico, e agora na faculdade. Foi assim nos trabalhos, nas amizades, nos namoros, nos casamentos… Foi assim durante toda a vida dela. Mas esse era o superpoder de Frida. Secretamente ela se chamava super frígida e ria intimamente. Desde criança Frida percebera os grandes poderes da invisibilidade. Enquanto todos só falavam aos berros na sua casa, Frida se mantinha calada com a boca cheia dos bifes e batatas das irmãs. As vezes em que percebiam o prato menos cheio, brigavam umas com as outras. Nunca suspeitavam de Frida. Só uma das irmãs viu a verdadeira Frida. Possivelmente, foi a única pessoa no mundo a fazê-lo. Ela derrubara Frida da bicicleta uma vez e no dia seguinte, enquanto se arrumava para ir a escola, Frida entrou no quarto, jogou cabelo no chão e esperou. A mãe entrou, viu a cena e cobriu de porrada a menina que gritava desesperadamente: Mãe! Eu juro, mãe! Foi ela! Foi ela! O cabelo nem é dela, mãe! Desde esse dia, sempre que alguma coisa dava errado, a irmã olhava pra Frida. A garota permanecia estritamente quieta e ela passou a indagar muitos anos depois se não teria sonhado aquilo. Jamais imaginou que aquela mulher que frequentemente aparecia no noticiário era sua irmã. Frida sempre viveu as mais perigosas aventuras. Como mudar suas notas no diário dos professores. Frida se regojizava quando a mãe ia saber dela na escola. Os professores não sabiam o que dizer porque não se lembravam dela, claro! ela nunca ia as aulas! O mais inacreditável é que tendo mudado uma vez as notas, os professores passavam a fazer isso sozinhos, porque achavam que eles é que esqueciam de anotar. Sozinha, Frida morria de rir disto. Também uma vez sabotara os planos das amigas que planejavam ridicularizar Carmelita, uma menina que se não fosse pelo peso seria tão absolutamente banal quanto Frida. Frida puniu as colegas severamente, entregando-as a diretora com uma carta anônima dizendo que ao meio dia se dirigisse ao pátio da escola e observasse Ana e suas colegas. Nesse dia, especialmente, Frida sumira. Pouco depois disso, o grupo se desfez. Sucumbiu diante das intrigas. Mas ninguém nunca suspeitou dela. E Frida se divertia com isso. Muito. Horrores. Talvez, o caso mais engraçado, embora trágico no inicio, foi quando Frida, entediada com o primeiro casamento, decidiu fazer uma surpresa ao marido marcando um encontro num motel. A coisa era tão absurdamente fora do feitio de Frida, que o marido achou que estava traindo a esposa com ela mesma! E o engraçado é que Frida só foi se dar conta disso depois quando viu o marido desconversar todas vez que ela mencionava aquelas horas de amor fogoso que passavam juntos a tarde. Ah, foi essa “amante” que se tornou a ladra de batom vermelho berrante. Frida ia aos locais, olhava tudo e depois, bam! Mãos para cima, isso é um assalto! Chegou a roubar o próprio banco em que trabalhava! E o mais difícil era segurar o riso quando as pessoas viam sua imagem na TV e diziam que ela era a mulher mais sensacional que já tinham visto! Ah, mas nem tudo são flores na vida de Frida. Num desses assaltos, um jovem negro, um garçom, foi preso acusado de ser cúmplice dela, foi condenado e se matou. Frida que finalmente decidira se entregar e confessar tudo, vira pela TV a noticia. Foi a única vez que seus filhos a viram triste. Desde então Frida tem usado a ladra de batom vermelho berrante para fazer justiça. Como entregar o dinheiro dos seus roubos para aquela gente mais necessitada. Ela nunca fez aquilo pelo dinheiro mesmo. E todo santo dia, procurava no jornal noticias de abuso policial, patronal e patriarcal. Obviamente que era humanamente impossível intervir em todos os casos, mas ela fazia seu melhor, algo inédito em sua vida. À noite, a mulher de batom vermelho berrante entrava na casa das vítimas, apontava uma arma para sua cabeça, amarrava-a na cama e tatuava seu crime no peito – vira isso em um filme sueco. Não que isso a redimisse de seus erros. Frida jamais se perdoaria pelo que fez. Mas, sabe, era bom sorrir de vez em quando.

São quase 18 horas e os carros se amontoam como formigas em um dia de chuva. O anjo está aconchegado aos pés do velho, protegendo-se da garoa. Ele boceja esticando a língua o máximo que pode, tentando demonstrar todo o seu tédio. Lá em cima, ele vê a cabeça do velho irradiar uma luz vermelha. É o sinal, o anjo se levanta e acompanha o velho até aqueles grandes animais de ferro que resmungam parados. Ele escuta, um por um, os nós dos dedos dele baterem contra as janelas fechadas. Às vezes uma pequena fresta se abre e o velho diz: Não preciso do seu dinheiro nem pra limpar meu cu. E segue para outro carro. Vez ou outra alguém deixa a segurança metálica para empurrar o velho ou cuspir-lhe na cara. Tudo bem. O velho não se incomoda com isso. Pelo contrário. Enquanto limpa a saliva azeda do rosto, ele sorri. Para o anjo não existe uma palavra para descrever aquilo, mas é assim que podemos reconhecer. Faça o teste: tente insultá-lo. Você vai vê-lo sorrir, balançar o rabo e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder a sua agressão. Só vai continuar sorrindo daquele jeito estúpido.

Foi numa sexta-feira. Chuviscava serenamente. Os automóveis pareciam estar ainda mais bravos do que de costume. E aquele velho rabugento continuava a bater irritantemente com os nós dos dedos nas janelas fechadas e abafadas. Na maioria das vezes, o brilho vermelho acima da cabeça do velho se tornava verde antes de alguém ouvi-lo, mas aquele cara nem esperou a troca dos sinais. Por acaso, esse cara estava tendo o que as pessoas costumam chamar de “dia de cão”. O nome desse sujeito é Carlos.

Meniera, por favor. Ok. O senhor Meniera tinha muito orgulho do seu sobrenome, tinha uma sonoridade legal, era quase, digamos, imponente. Ele dizia para todo mundo que o sobrenome era de uma nobre família espanhola, muito embora quando criança tivesse escutado da avó que o sobrenome Meniera era de uma família de pé-rapados que ficaram conhecidos após saquear um navio da nobreza portuguesa que naufragara perto da costa brasileira. Isso lá na época das invasões napoleônicas. Mas esse Meniera fizera questão de não se lembrar disso. Até que sua filha fora presa roubando a casa de um vizinho. O senhor Meniera não podia conceber aquilo. Ele não era rico, é verdade, mas também não era pobre, de jeito nenhum. Era capitão de polícia na capital do país, local de melhor remuneração da corporação. Tinha uma casa de dois andares, com três quartos e uma suíte. Quatro banheiros. Quatro. Um deles com hidromassagem. Tinha um carro grande e dois outros populares. Estava financiando nesse momento uma casa de praia em segredo. Talvez até com um Jet-ski. Estava planejando fazer uma surpresa para a família. Estava.

O senhor Meniera se agarra ao volante observando as gotículas d’água escorregarem pelo pára-brisa. Só pode estar no sangue, pensava. Quando menor também dera de entrar na casa do vizinho, mas o senhor Meniera morava numa favela do Recife e o filho do vizinho vivia se gabando daquele supernitendo. Pensou nos irmãos, primos e tios presos. Isso. Só pode estar no sangue, repetia agarrado ao volante. É uma fase. Mas que dia!

Parecia que deus escolhera esse dia para castigá-lo, puni-lo com um único e fulminante golpe por todos os seus pecados. E eram muitos é claro. A começar pela mulher. Havia quatro anos que o senhor Meniera a traia. O senhor Meniera presenciara durante anos e anos os colegas comentando – e vangloriando-se, das diversas aventuras extraconjugais que mantinham. Sempre os julgou em silêncio. Sua devoção aos votos matrimoniais refletia-se no crucifixo pendurado no retrovisor. A pálida figura do senhor Meniera espiava do espelhinho aqueles olhos azuis avermelhados. O capitão estava chorando. Há quanto tempo não chorava? Desde a morte dele, diz sem titubear. Sim, outro pecado. Talvez o maior de todos. O senhor Meniera então pega o envelope branco em cima do painel e o amassa, com as duas mãos, amassa bem forte.

Logo pela manhã, nesse dia maldito, o chefe do seu pelotão dera pessoalmente o recado. A corregedoria irá investigar as denúncias de abuso de autoridade contra o capitão Meniera. Até a conclusão do inquérito disciplinar você está dispensado das suas funções. O senhor Meniera sabia que uma hora iria pagar pelos seus pecados, mas precisava ser tudo no mesmo dia? Hein, seu porra? O barulho longínquo de uma sirene o faz pensar naquela farda cinza. Estava matando aula para fumar um baseado com os amigos quando três policiais se aproximaram sorrateiramente e deram inicio ao festival de torturas. Jamais se esqueceria do cano frio do revólver encostado a nuca enquanto era estuprado. O senhor Meniera decidira que seria policial para impedir aquele tipo de atrocidade. E deus é testemunha de que nem um só dia deixou de tentar cumprir seu juramento secreto. Mas a vida é muito mais complicada do que um adolescente pode supor. As violências que o capitão sofreu nos seus primeiros anos de academia não se comparam com todo seu período de rebeldia civil. Com exceção do estupro, é claro, que era por si só uma exceção. Mas o senhor Meniera pensava nos pequenos delitos cotidianos e dizia para si: eles se sentem bem com isso, enquanto eu me sentir mal estarei salvo. O senhor Meniera se enxergava como um paladino da justiça. De verdade. Não estava ali para prender bandidos e traficantes, ou proteger os ricos e afortunados da violência social. O senhor Meniera vestira aquela farda para combater o mal. Lembra? Quando foi que ele parou de refletir sobre isso? Nem se lembra mais. Fora a tanto tempo aquilo. Agora o senhor Meniera é um policial barrigudo, de careca pronunciada, sem bigode ou ideais. Não era desiludido, não senhor. O senhor Meniera era um homem de fé. Só estava velho e cansado. Pare de chorar, capitão, diz enxugando as lágrimas. O estomago ruge faminto a espera do jantar. O senhor Meniera exaspera-se pela milésima vez com a lentidão do trânsito. Espreguiça-se. Tenta relaxar. Pensar em alguma coisa agradável. Repara num cartaz pintado a mão preso numa placa de sinalização. É uma pintura grotesca de uma árvore. Talvez a chuva tenha deformado o desenho, conforta-se o senhor Meniera. Mas se a intenção do autor fora pintar uma árvore horrível, ele tinha conseguido com louvor. Nunca houve árvore mais feia que aquela. Velha e garranchosa, seca e amarelada. O estomago torna a roncar. E o transito continua irremediavelmente atravancado. Tenta sintonizar uma rádio, mas só ouve estática. Amaldiçoa os céus e procura no porta-luvas algum cd. Nenhum. Aos poucos, o pensamento torna a concentrar-se na filha. Aquele monte de piercings, tatuagens e cortes e cores de cabelo malucos. Mas ele dizia que isso era uma fase. Seus colegas tinham enfrentado problemas parecidos. Logo ela iria criar juízo, ia perceber que se desfigurar daquela forma só chamava atenção para sua imaturidade e insegurança. A mulher protestava, mas o senhor Meniera respondia convicto: só existe aprendizado de verdade sozinho. Era um de seus lemas. Tinha nove ao todo. Todos dignos de serem tatuados. Mas agora o senhor Meniera se questionava. Será que deveria ter dito alguma coisa? Não. Ela jamais me escutaria. Sou a representação tirana do mundo adulto. Mas, e se o vizinho prestasse queixa? Valia a pena foder com seu futuro para aprender sobre a vida? Ele já vira centenas de jovens de classe média se perderem assim, sem mais nem menos. OS familiares ficavam perdidos, sem saber o que fazer. O senhor Meniera também os julgava. Imaginava que jamais passaria por uma situação como aquela. Mas aí estava… a forma como a filha o encarava, era nojo. Puro nojo. Também nesse dia a mulher soltara os cachorros. Usou maquiavelicamente os problemas da filha para despejar, bem, tudo. A depressão, a rotina, o sexo, o amor, as traições e eles… ah, o senhor Meniera descontou suas frustrações no carro, rasgando pela cidade afora. Por pouco não matou um ciclista desatento. O senhor Meniera esfrega as têmporas. Fome costuma dar-lhe uma dor de cabeça terrível. Ele respira fundo e se imagina deitado confortavelmente numa cadeira de praia, com uma sombrinha protegendo-o do sol forte e uma água de coco ao alcance da mão. Mas, repentinamente, o ar congela, para ser removido por uma ventania que dá lugar a um tsunami daqueles que a gente só viu na televisão. A cadeira é arrancada da bunda como um prego em analogia ao que aconteceu nesse dia. O senhor Meniera afunda, com toneladas de água esmagando seus pulmões. Vê, aturdido, aquele cartaz da árvore borrada passar por ele e mergulhar na escuridão. O senhor Meniera olha para o relógio e se surpreende com o horário. São quase seis. Agora é que essa porra não anda mesmo, xinga alto. E foi assim que aquele brilho vermelho dava lugar ao verde e o carro permanecia imóvel. Vermelho e verde e a porra do carro não andava mais de um metro. Vermelho e verde. Vermelho e verde. De novo. E de novo outra vez. TOC-TOC. Para completar a porra dum mendigo tinha aparecido e batia na janela do carro sem parar. O capitão foi surpreendentemente calmo ao agitar a mão num gesto de “estou sem troco, amigo”. Mas. TOC-TOC. A porra do mendigo não parava de bater. TOC-TOC. VERMELHO e VERDE. TOC-TOC. VERDE e VERMELHO. TOC VERMELHO. TOC VERDE. E nada. Nada. Até o estomago evitava incomodá-lo temendo sua fúria. Quando o mendigo bateu outra vez o capitão abriu a porta e sabe-se lá o que teria acontecido se o motoqueiro não tivesse reagido primeiro. A treta com o motoqueiro era coisa antiga. O velho e o motoqueiro se estranhavam a tempos e o motoqueiro prometera que se visse o velho por ali outra vez iria lhe dar uma surra pra ele nunca mais esquecer. O velho só sorriu mostrando-lhe o dedo do meio. Mas o motoqueiro falava serio. Esse era outro que também passava pelo seu dia de cão, mas por ora fiquemos com a causa do senhor Meniera, fôssemos retratar cada dia de cão presentes neste engarrafamento a humanidade não viveria o suficiente para ler este relato. Enfim, o motoqueiro avançou sobre o mendigo tirão.

– E ae, seu folgado do caralho?!! Te avisei pra não aparecer aqui, não avisei? Tira onda agora, vagabundo!

E acertou um soco bem no meio da garganta do velho que caiu, de joelhos. Ao que o motoqueiro emputecido respondeu com uma joelhada na cara. Nosso velho foi atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, sorria, é claro que sorria. Desse mundo cheio de ódio, de rancor, mágoa e desespero o velho queria levar tudo para o túmulo. E o capitão a tudo assistia, espantado demais para agir. Não com a violência do motoqueiro. Já vira aquilo centena, milhares de vezes. Ele mesmo teria feito algo parecido segundos atrás. Não. Era aquele sorriso maluco.

Há algo errado naquilo, você sabe, todos sabem. Quem nunca ouviu falar de Jesus Cristo? Mas presenciar aquilo acontecer era qualquer coisa demoníaca demais. Afinal, que tipo de espírito subjuga-se voluntariamente daquela forma? Ah, triste é a figura que sorri da ingratidão, da violência, do abandono, do escárnio, da tirania. O senhor Meniera contempla o estado deplorável daquele pobre homem como se espiasse um segredo proibido, uma indecência, algum ato de extrema vilania. Ele pensa no ímpeto revolucionário daquele coração… que triste é amar assim. Não existe tortura pior que essa, pois a mão que empurra o punhal contra suas costelas é sua, e você sabe disso. Talvez por isso doa tanto. Não há como conciliar amor e orgulho. Basta que o momento surja e, por mais insignificante que seja o confronto, você descartará seu orgulho com tanta facilidade que nem se dará conta da magnitude do ato perverso que atenta contra ti. Sim, pobre criatura que ama, teu corpo já não mais lhe pertence, você não pode mais controlar seu estado de espírito, não se engane, isso faz de tu um escravo. Escravo. Do mais vergonhoso tipo de escravidão. Daquele tipo que faz você se ajoelhar e rezar, deitar lágrimas, crente que um sinal, apenas um sinal, dissipará todos os males! Este é o mais ridículo dos escravos. Venera e amaldiçoa seu dono, porque o ama, não pode livrar-se dele. É um escravo sem correntes. Um cachorro que se deita a porta ansioso pela chegada do dono, cujo único deleite é lamber-lhe os sapatos. És uma figura tão deplorável esta que não se intimida com os chutes que lhe são desferidos a boca do estomago, não se importa com os olhares que fogem dos seus, nem tampouco com as palavras que voam como pedras a troçar do seu amor, e tudo porque ama! Tua única felicidade reside no reconhecimento do outro, daí o sofrimento, a angústia sem fim, claro, a realidade logo irá penetrar tão fundo que até os poucos dentes que lhe restam na boca serão sacudidos. Oh, tolo sonhador, engana-te, ludibria-se, reveste tua infelicidade de melancolia para lhe dar ares poéticos! Que mentira quixotesca dirá para si em seguida para suportar essa dor que lhe devassa o peito? Qualquer uma, simplesmente não importa. Esta triste figura é o tripulante desavisado daquele barco que está indo a pique. Agarrar-se-á a qualquer coisa.Que triste! Muito triste. E o capitão segura a arma. É preciso acordar. Então você tranca essa coisa naquele lugar da sua cabeça que é hermeticamente fechado, onde a árvore feia não pode ser vista. Ali, nem mesmo um tsunami, apesar de todo o poder de devastação, pode entrar. Pode perturbar, mas não entrar. Entrar nunca. Pois a única chave está bem segura na mão direita do capitão. Essa chave tem a forma de uma Colt .45 de uso restrito.

O motoqueiro chutava o estomago do velho. Duas. Três vezes. Só parou quando o anjo mordeu-lhe a perna. O motoqueiro caiu e o anjo instintivamente voou sobre a jugular. Provavelmente o capacete e a jaqueta de couro seriam suficientes para lhe preservar a integridade física, mas o capitão Meniera decidiu não arriscar e atirou contra o animal. O anjo soltou um frêmito ganido quando a bala alojou-se entre suas costelas. Foi aí que o velho parou de sorrir. Quão perigoso pode ser o amor? E o velho chora. Tem chorado muito ultimamente. O vira-lata ferido se aproxima e lhe lambe o sangue e as lágrimas da bochecha.

Enquanto isso o motoqueiro tenta se explicar ao policial. As pessoas na rua dividem-se quanto a questão. Alguns defendem o velho, outros o motoqueiro. Uns poucos questionam o tiro dado no cachorro. A discussão cresce entre buzinas e destemperos. Mas aos ouvidos do senhor Meniera jaz um silêncio absoluto. Tudo o que vê é aquele gesto de carinho na calçada enlameada. É tudo tão simplório e banal. As pessoas não vêem, mas nós vemos. O senhor Meniera chora. Ele tem chorado muito ultimamente. Não sabe porquê. Há algo naquele gesto que faz o senhor Meniera se arrepender profundamente de não ter estado ali antes, a descoberto, sob a chuva e o amor incondicional daqueles dois idiotas.

É tudo tão calmo aqui, murmura. E o senhor Meniera está calmo, em paz. Sem precisar imaginar uma casa de praia ou estar atrás de um volante a 200 por hora. Ele recolhe o revólver e pega o cachorro no colo, colocando-o no carro. Faz o mesmo com o velho. O senhor Meniera gira o volante e passa por cima do meio-fio pegando a estrada paralela, quase atropelando o motoqueiro e a multidão que se juntava no local.

Um anjo costuma ter uma aparência muito desagradável, tão desagradável que te faz ficar sob a chuva, admirando-a.

Você escuta risadas em algum lugar. Você pode esticar o nariz e sentir o aroma quente do chá que queima a língua. Você pode sentir o calor confortável de dentro da casa, com aquela gostosa brisa noturna correndo pela janela aberta. Mais risadas. Você imagina de que tipo de frivolidade aquelas pessoas estão rindo. Provavelmente estão vendo TV. E você imagina a trilha sonora daqueles vídeos engraçados em que as pessoas se machucam pra valer fazendo coisas estúpidas, como a de um cara tentando se equilibrar em uma escada com um pé só. A música estúpida sugere a forma como você deve encarar o desastre anunciado. Assim, quando ele escorregar, quando as pernas dele estiverem abertas bem no meio da escada, você deve uivar euforicamente com um tremendo UHHH! Você deve rir. Ria. Como toda piada sarcástica, essa piada é sobre você. Preste atenção. Eles estão dizendo que você é estúpido, que vão te machucar, que vão te machucar pra valer. Agora ria, seu idiota. Eles adoram brincar conosco.

Aos poucos, a rua se enche de silêncio. Aquelas pessoas risonhas foram dormir. E em seus sonhos elas irão cair de uma escada. Algumas acordarão assustadas, quem sabe levantem e tomem um pouco d’água. Ou fiquem em suas camas, no escuro, esperando. Outras ainda podem continuar caindo. Amanhã o pesadelo terá desvanecido. Mas quando elas encontrarem uma escada, irresistivelmente, irão dar-lhe a volta. Ah sim, como aquele jovem de cabelos maltratados que corria pela praia com uma pequena trouxa amarrada as costas. Dentro dela havia alguns pertences. Nove, ao todo. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. A trouxa balançava a suas costas febrilmente. Ninguém repara nele. Mas a quem por acaso batesse os olhos no rapaz, veria seu semblante intensamente contraído e a corredeira que se fazia abaixo do queixo. E pensaria: o que há com os jovens de hoje? Não sabem aproveitar a vida! Não importa quão suave seja a brisa que lhe massageia os cabelos, ou a alegria desse sol estupendo enchendo as coisas de vida, ou o doce prazer de sentir a areia quente ficar fria e quente e fria de novo. Não sabem! Será que não conseguem escutar o mar cantando sobre tudo isso??? Quiçá este jovem pode até sorrir, mas se alguém desse a sorte de vê-lo nesse momento, de imediato se ressentiria, como se encontrasse lixo espalhado em um lugar bonito. Desagradável. E extremamente irresponsável. E esse jovem corre, mergulhando cada vez mais fundo na escuridão. Posso ouvir os passos a suas costas. Sombras que se movimentam sozinhas. Pesadelos. Noites terrivelmente barulhentas, que ficam sussurrando um horror qualquer seu, que seja, um único medo indizível, irracional, tão profundamente enraizado no seu espírito que, um dia, você se dá conta das manchas escuras envolta dos olhos e, por mais que tente, não consegue lembrar qual foi a última vez que dormiu.

Ah! vida miserável essa! que se compraz com as sombras, com a sujeira, com a indiferença por que dela não lhe vem censura. Mas de que adianta? conquanto a consciência posta olhares neste corpo moribundo mesmo na escuridão! Sim! Esse jovem sabe. Sabe que a fuga é uma ilusão, mas é a ilusão que lhe permite continuar. Assim nos embriagamos até o raiar da morte. Todos os dias, repito. Porque você insiste em não me dar ouvidos. Todos os dias flertamos com a morte para, quem sabe, acidentalmente, possa ela um dia nos levar. Afinal, todo sobrevivente é um inocente.

Não. Não diga que sou louco. A loucura é uma desculpa fácil para se desfazer do meu problema. Não. Eles estão aí. Vigilantes. Sorridentes. São seus vizinhos. Colegas de trabalho. Aquele velho amigo da faculdade. Eles estão o tempo todo agarrando suas pálpebras para cima. Olhe, desgraçado, olhe! Veja os porcos que charfundam a lama. Felizes, entupidos de ração. Veja as galinhas amontoadas umas sobre as outras. Iluminadas artificialmente para que não parem de comer. De botar ovos. De viver. Olhe para isso. Eles seguem um padrão de propósito para se divertir conosco. Venha comigo agora. É noite profunda. Não há lua. Ou estrelas. Nem risadas. Agora, e somente agora, posso contar. Então, escute com atenção. O tempo é curto. Mas essa é sua chance. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

Meu pai está no chão em uma poça de sangue, minha mãe está embaixo de mim, a boca escancarada, os olhos vazios. Não vejo minha irmã. Sinto uma dor e um movimento de sobe e desce. Ah, é o doutorzinho. Ele está em cima de mim, está comendo a porra do meu cu. O cano frio do revolver está grudado no meu rosto. Sinto medo, um medo terrível. Um medo sem nome. Estou cagado. Cagado de medo, literalmente. Ele come meu cu cagado. Louco de merda. Sinto o calor do esperma irradiar-se pelas minhas pregas. O filha da puta geme, satisfeito.

– Cara, você tem um cu melhor que o dá tua irmã, falo sério. Porra!

Uma parte de mim, uma parte antiga de mim, está espantada, absurdamente espantada com a violência, com o terror, com o sadismo, não consigo me mover, todo o corpo dói, retesado. E ele fica sorrindo. O desgraçado sorri diante do meu medo, está feliz! O cara acabou de violentar e matar toda minha família e está sorrindo! Que tipo de pessoa pode fazer isso? Sinto um frio e ao mesmo tempo um calor escorrer pelas pernas, estou mijando.

– Ah merda! Mas que merda! – ele grita pulando às gargalhadas

Eu me odeio. Como eu me odeio. Que espécie de homem eu sou? Por que eu não paro de tremer, levanto e arranco o sorriso desse bosta mesmo que antes ele me acerte um tiro no peito? Por quê? Ele sobe as calças, afivela o cinto com cuidado. Se aproxima de mim e me beija na testa. Sinto o suor de sabonete dele escorrer pelo meu rosto. Em seguida deve ter me acertado a cabeça com o revolver também porque apago instantaneamente. E acordo. Estão todos mortos! Mortos! Subo aos tropeços até meu quarto, apanho algumas coisas. Nove coisas na verdade. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. E fujo, corro dali pra nunca mais voltar. Em algum momento, os vizinhos vão desconfiar, suspeito que a primeira a notar seja Dona Silvana, enxerida e fofoqueira como é, não deve demorar a estranhar o sumiço da gente, logo o fedor vai se espalhar pela rua, o telefone vai ficar tocando e tocando, tocando até cair, os cachorros vão latir de fome. Aí, alguém, dona Silvana, liga pra polícia. Queria ter deixado uma carta colada por um imã na geladeira para quem descobrisse os corpos:

Minha família está morta. Foram torturados e assassinados pelo doutor que namorava minha irmã. Eu sei porque ele me deixou viver. Ele quer brincar. Quer ver até onde eu posso ir. Fique olhando seu desgraçado. Eu vou frustrar todos os seus planos de merda.

Quisera estar calmo para deixar um bilhete. Minhas mãos mal conseguiam parar de tremer para assoar o nariz. Não… Tudo que fiz foi fugir. E esse jovem corre enlouquecido. O peito e o cu doloridos pelo esforço. Está chorando quando chega à praia. Ele jura que todos o observam. Que todos se afastam dele porque sabem quem ele é. Um fugitivo. Um egoísta desgraçado que luta covardemente pela sobrevivência. Esse jovem sente o gosto salgado das lágrimas misturado ao suor que escorre da testa. E ele corre, tentando fugir do passado, das memórias, da dor, da culpa, do ódio, da humilhação, da impotência. Vomita sem parar. O hálito de esperma ainda enche-lhe a boca. Ele lembra que quando criança fez um coleguinha chupá-lo. Ele lembra de obrigá-lo a engolir sua porra. Lembra sim. Lembra-se nitidamente disto. Lembra também de um menino que tomou a bicicleta da minha irmã e os dois tiveram que voltar a pé pra casa. Do vizinho que apanhou na escola, dele pedir ajuda chorando e o jovem-criança fingir não ouvir, e depois ainda se rir dele para os outros. Que covarde! Teria dito. E era seu melhor amigo, ele ia a sua casa todo dia jogar supernintendo. Lembra do pai colocando a minha irmã de castigo por dar um soco no nariz dele. A irmã ficara zangada porque descobrira que ele a espiava no banho. E ela não contou pro pai, nunca contou para ninguém. O jovem lembra do chefe passando um esporro em uma colega de trabalho. O jovem lembra que ele fora encarregado de ensinar o novato. O jovem lembra, lembra muito bem, de ensinar-lhe tudo errado. Ah, o jovem também lembra daquele dia horrível quando ficou preso no moedor e aquele mesmo colega salvara sua mão de ser mutilada. Talvez o jovem mereça a lembrança da mãe dizendo que estava tudo bem, que ia ficar tudo bem enquanto a violentava. E o jovem continua correndo pela praia. Ele passa por um senhor de 40, 50 anos, chapéu, e bastante protetor solar no rosto e no peito, sentado numa barraquinha, tomando água de coco, com um jornal estendido entre as mãos. Esse senhor lê sobre um casal de velhinhos, espancados até a morte pela neta, uma mocinha de 13 anos. Na mesma página há uma foto grande de um acidente de carro. A legenda diz: BEBIDA AO VOLANTE CAUSA MORTE. Ele lê que um motorista se irritou com a batida e espancou até a morte o responsável pelo acidente, que estava embriagado. O senhor lê a respeito de uma criança que saiu para comprar pão. Há imagens feitas pela câmera da padaria, em uma das fotos você vê um homem se aproximar. Eles saem juntos. A menina é estuprada tão violentamente que seu hímen é rompido, ela também é espancada até a morte. No final dessa página, o jornalista constata a total incapacidade do Estado em nos proteger, e deixa entrelinhas que uma redução de impostos seria muito bem-vinda. É. Eles se divertem conosco. Entre uma água de coco, violência e jornais está você. Você se enraivece. Gira o punho em minha direção dizendo que não foi você que fez aquelas coisas. Sim, como o coco. Não foi você quem plantou o coqueiro, ou a pessoa que derrubou o coco da árvore, não foi a pessoa que o transportou até a barraquinha, nem aquela que abriu o coco ou mesmo quem colocou o canudinho, a única coisa que você fez foi beber. Você dobra o jornal e sorve o último gole do cocô. E o mundo segue adiante. A violência é a roldana mestra de um deus sem nome, gênero ou propósito. Eles estão aí, divertindo-se. Deixam nossos corpos jazerem quentes em residências de janelas blindadas, muros altos com cercas elétricas, câmeras de segurança e cachorros grandes e raivosos. Tudo precisa inspirar confiança para que a roldana mestra possa funcionar. Porque o terror não existe sem esperança. Uma ilusão, para viver, para continuar, para justificar o sofrimento, suportá-lo e, principalmente, negligenciar o destino.

Daquele jovem de cabelos maltrados, só resta um velhinho de cabelos podres, desdentado, de queixo pontudo, vestido num jeans muito surrado, com metade do que fora uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma trouxa aparentemente muito pesada às costas, um sério problema de audição e olhinhos bem apertados para a noite. Ele se levanta, o que era dificílimo de fazer com o cocô feito concreto colado nas magras pernas. Ao se mexer o cheiro desprende-se, fá-lo lacrimejar e quase o derrubar. Acostumado está esse velho a merda. Tem por merda o travesseiro, as conta-roupas, a cabeça. Assim é um sobrevivente de verdade. A merda é um lembrete do que caminha por aí. O velhinho então se arrasta pela rua escura, vai charfundar as lixeiras em busca de comida e, com sorte, alguma bebida. O lixo era mais generoso do que qualquer esmola. Na lixeira mais próxima, no entanto, o velho se depara com um rival, um vira-lata moído, meio desconfiado. Um sobrevivente reconhece outro. Eles se encaram. O velho vê seu rabo quebrado balançar. Espera comida? Algum osso que sobrou da janta talvez? Estico a mão amistosamente. O cão se aproxima e lambe-a. E choro. Tenho chorado muito ultimamente. Não sei porquê. Há algo naquele toque que me faz pensar nos sonhos distantes de uma humanidade esfacelada, alguns farelos que reluzem ao sol, cheios, não, transbordantes de esperança, é lindo, e trágico, ridiculamente cômico em sua construção piegas, é o velho discurso do amor, das mãos enrugadas e trepidantes à língua áspera, cansada e ferida. Neste toque barbaramente simplório, vejo o coração deste mundo bater mais alto.

Um anjo é um sobrevivente que encontra outro sobrevivente.