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12 Páginas de uma Revista Francesa (France Football) que resumem o Brasil em todos os sentidos:

Ok, vamos ver com funciona uma lavagem cerebral. Digo isso pq tenho conhecimento de causa. Já fui fascista de esquerda. Típico produto desta lavagem cerebral. Você passa a odiar o país em que vive, todo mergulhado ele em corrupção, e você, o incorruptível, é o único que vê a VERDADE, e ou se organiza politicamente na oposição com um discurso raivoso ou começa a destruir e a sabotar tudo pq tudo e todos são farinha do mesmo saco, menos vc.

– Apesar do lema brasileiro: “Ordem e Progresso”, o que menos se vê na preparação deste mundial, é Ordem ou Progresso. É claro! Quem escolheu esse lema? É interessante pensar em Ordem e Progresso num dos países mais desiguais do mundo. Ordem para que os pobres não se rebelem e Progresso para que eles tenham esperança.

– A FIFA não pediu o Brasil para sediar a Copa, foi o Brasil que procurou a FIFA e fez a proposta. Que Brasil? Há vários brasis. Um deles não gostou nada nada da falta de discussão quanto a sediar um evento caríssimo e fútil. E falo isso como petista.

– A corrupção no Brasil é endêmica, do povo ao governo. Repito: o brasil é um dos países mais desiguais do mundo, como não ser corrupto quando a própria sociedade promove a corrupção? Se vc acha que ver todos os dias dezenas de pessoas dormindo na rua e continuar indo pro trabalho ou pra escola não é corrupção, eu peço encarecidamente que você reflita sobre esse conceito.

– A burocracia é cultural, tudo precisa ser carimbado, gerando milhões para os Cartórios. Disso não posso falar, sou pobre, nunca precisei ir num cartório na minha vida.

– Tudo se desenvolve a base de propinas. Atire a primeira pedra o país capitalista em que isso não ocorre. O que ocorre é que há uma parcela significativa da classe média que está descontente com o governo e credita os males do país a corrupção desse governo. Quer ver? olha o tópico seguinte.

– Todo o alto escalão do governo Lula está preso por corrupção, mas os artistas e grande parte da população acham que eles são honestos, e fazem campanhas para recolher dinheiro para eles. Viu?

– Hoje, tudo que acontece de errado no Brasil, a culpa é da FIFA, antes era dos EUA, já foi de Portugal, o brasileiro não tem culpa de nada. Ele fala isso pq credita os males do país a “população burra que não tem culpa de ser burra, mas é mesmo assim” que votou no governo lula.

– O Brasileiro dá mais importância ao futebol do que à política. Porra, futebol (o esporte em geral) é bem mais legal que política, em que país não é assim? Eu respondo, os países chatos.

– O Brasileiro elege jogadores de futebol para cargos públicos. Isso é piada, né? E Ronald Reagan? não foi jogador, mas era uma celebridade como tal, o que sabia de política? Ora, sei lá, se voto em um candidato é pq me identifico com ele, não é essa a idéia de REPRESENTAÇÃO? Mas esse é o velho discurso de autoridade, como se o fato do cara nunca ter ido a escola o desqualificasse para representar quem quer que seja. NOTA: esse cara obviamente não se sente representado pelo governo lula. 

– Romário (ex-Barcelona) é hoje deputado. Aproveita o descontentamento com a Copa para se auto-promover, mas nunca apresentou um projeto de lei sobre saúde ou educação. Sua meta é dar ingresso da Copa para pobre(como se essa fosse a prioridade para um pobre brasileiro). Romário é um dos deputados mais atuantes da Câmara. Sem mais.

– O Deputado mais votado do Brasil é um palhaço analfabeto e banguela, que faz uma dança ridícula, com roupas igualmente ridículas, e seu bordão é: “pior que está não fica”. É, essa pessoa realmente detesta uma das caras do brasil.

– Em uma das músicas deste palhaço analfabeto ele diz: “Ele é ladrão mas é meu amigo!”, Isso traduz bem o espírito do Brasileiro (http://letras.mus.br/tiririca/176533/ ) Concordo.

– Brasileiros se identificam com analfabetos. Mentira. Eu me identifico, mas quem compartilha isso no face não.

– A carga tributária do Brasil é altíssima maior que a da França, e os serviços públicos são péssimos comparáveis aos do Congo. Ah, quem me dera viver na França onde não se tributa consumo, mas renda… ai de mim!

– Mas o Brasileiro médio pensa que ele mora na Suíça. Quem está lá, na verdade, é a FIFA. Oi?

– Há um dito popular que diz que “Deus é brasileiro”. Concordo.

– A FIFA, como imagem institucional, busca não associar-se a ditaduras. Tanto que excluiu a África do Sul na época do Aparthaid e, ao contrário do COI, recusou a candidatura da China, apesar das ótimas condições que o país oferecia. Mas o Brasil, sede da Copa, vive um caso de amor com ditaduras. Tipo, venezuela e irã, hum, já deu pra perceber que não foi um jornalista estrangeiro que escreveu esse artigo, né?

– O Brasil pleiteava uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, para sentar-se ao lado França, mas devido ao seu alinhamento com ditaduras, a França já se manifestou contrariamente. É, a FRANÇA, como se EUA e CHINA não fossem contra tb. Quem apoia a candidatura brasileira é a Alemanha, que quer entrar tb, e é a ALEMANHAAAA.

– A Presidente Brasileira parece estar alienada da realidade e diz que será o melhor mundial de todos os tempos, isso, melhor que o do Japão, dos EUA, da França, da Alemanha. (http://www.youtube.com/watch?v=urmR5fXMJu8 Pronto. Virou profeta que nem a presidente.

– Só ela pensa assim, na FIFA se fala em maior erro estratégico da história da Instituição. Desconheço os bastidores da fifa.

Continua…

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Ou contra a democracia?

Basta de corrupção. Certo, mas o que fazer?

http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/sete-de-setembro-um-dia-de-protesto-contra-a-corrupcao

Quando a Veja (naopense) apóia é porque o negócio, no minimo, tem duas caras. E é exatamente por isso que a Marcha Contra a Corrupção pode disfarçar um discurso anti-democrático. A esmagadora maioria quer que seus políticos sejam honestos, eu quero, você quer, todos querem. Mas pense no contexto. Brasília por exemplo. Quem votou em Jaqueline Roriz? O povão, a periferia, a massa de manobra, pobres coitados que não tiveram acesso a educação de qualidade.

Nós nunca votaríamos numa mulher dessas não é?

http://www.facebook.com/event.php?eid=194166463984479

Ora, se Jaqueline Roriz cometeu algum crime ela será punida. Não por uma CPI que serve a outros propósitos (normalmente serve como vitrine para a oposição, isso vale tanto para o PSDB quanto valeu para o PT), mas será julgada pela corte competente, o STF.

Já me disseram assim: Não adianta, chega lá e os corruptos são absolvidos. Se é assim, por que os protestos não são em frente ao STF? Se você acredita que a maioria dos políticos são corruptos, por que esperar que punam outros corruptos? Porque o que está em jogo não é a corrupção do sistema (quem é rico tem mais chance de se eleger, quem se vende a uma empreiteira também), mas o voto burro do povão. Afinal, se não fosse por esses políticos escolhidos pelo povão como os Rorizes, os Malufs, etc, não haveria porque dessa marcha, não é mesmo?

Cansados de corrupção, estarão de luto pela democracia?

Sei que muita gente bacana foi nessa marcha, mas é preciso refletir sobre o que se fazer a respeito da corrupção. Fechar o congresso então? Impedir pobre de votar? Não, isso é muito anti-democrático não é? Então melhor, criar uma lei impedindo que fichas sujas se candidatem, isso… porque alguns votos são melhores que outros, o povo não sabe votar, então é melhor que se crie uma lei anti-democrática para que o povão não possa votar no Joaquim Roriz outra vez, não é? Roriz de novo não. Todos nós sabemos disso. Mesmo que para isso, tenhamos que deixar a democracia de lado.

O presidente não representa o povo?

Quando Fernando Henrique se reelegeu em 98 fiquei desiludido com a democracia. Puxa, como o povo é burro. FHC só governava para o sudeste, principalmente para São Paulo, e esse povo estupido ainda tem coragem de reeleger um cara desses? Doía a alma acompanhar algumas notícias sobre a seca no semi-árido nordestino, famílias e famílias sobrevivendo com um litro de guarapa e comendo farinha misturada com barro cozido. Conheço esse discurso anti-democrático, porque já estive do outro lado. Ano após ano e os mesmos políticos corruptos. Rancor e desilusão se misturam para formar um sentimento corrosivo chamado fascismo. É, eu já fui fascista, agora eu sei disso. É um momento em que você passa a odiar secretamente as pessoas que você quer salvar. E começa assim, chutando a bunda dos políticos eleitos democraticamente.

 bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho

Em 3 de março de 1967, os militares dão o segundo golpe com a publicação da Lei de Segurança Nacional. Udenistas e afins que pretendiam tomar o poder com o apoio dos militares foram “traídos”. O alto oficialato decide não entregar o governo aos civis por temer uma crise institucional. Assim, para manter a ordem, os militares endurecem o regime. Se antes os estudantes podiam fazer seus protestos, não mais. Greves? Nem pensar. Os jornalistas que atacavam o governo militar, emudeceram. Aqueles que não, foram obrigados a trabalhar na clandestinidade. Os exemplos são muitos, dentre os mais famosos estão O Pasquim e o Última Hora. Mas havia um pequeno jornal paulista, pouco expressivo além da Zona Oeste, que ironicamente se chamava A Expressão. O dono do jornal não era um jornalista, mas um homem que tinha duas paixões na vida: ferrovias e comunicação. Seu Nono já era conhecido pelos seus ousados investimentos ferroviários, mas sua entrega no comando de um jornal foi algo que surpreendeu até mesmo seus amigos mais íntimos. A Expressão, no entanto, ao contrário das suas ferrovias, não ia bem e geralmente dava prejuízo. Diziam que Seu Nono iria a falência em dois anos no máximo. Se seu sonho fracassaria isso é algo que jamais poderemos saber, porque no verão de 67, a redação dA Expressão pegou fogo até o último papel impresso. Foi um golpe doloroso para Seu Nono, que já nos seus mais de 70 anos não tinha mais aquela força juvenil para resistir as intempéries da vida. Talvez, o que tivesse deixado Seu Nono tão triste nos seus últimos meses de vida fosse a pergunta do porquê um jornalzinho do interior, uma simples caduquice sua, tivesse sido alvo de um atentado como aquele.

Seu Nono teve dois filhos. Sempre os levava para passear na sua locomotiva predileta e eles tinham bem guardado consigo a memória do som que a Maria-Fumaça fazia quando subia a colina. Seu Nono também levou os filhos para conhecerem a redação d’A Expressão. E ambos tomaram do pai suas paixões. Assim, quando o pai morreu, seus filhos montaram um sistema de redação coletiva, fragmentada e móvel. O sistema consistia basicamente em correspondências anônimas não remuneradas e impressão irregular. No inicio, participavam os dois filhos do Seu Nono e os antigos jornalistas d’A Expressão. Mas logo depois da primeira edição, começaram a receber pedidos de outros jornalistas querendo participar do projeto. Jornalistas na ativa inclusive, de grandes jornais. Daí, já na segunda edição o jornal adotou um nome: Expresso das Oito e Meia. Uma homenagem as duas paixões do Seu Nono, a velha Maria-Fumaça e seu jornalzinho do interior. Oito e Meia porque a primeira impressão ocorreu numa manhã de domingo às 8:30.

462 edições depois, o Passageiro Nº 1 (codinome do irmão mais velho, herança da ditadura) abandonou o comando do Expresso por divergências  ideológicas com o Passageiro Nº 2. Uma analogia ao processo de redemocratização. Sem um inimigo comum, nem mesmo a lembrança do Maquinista (pseudônimo dado ao Seu Nono) seria capaz de unir os irmãos.

O vale tudo que tomou conta das eleições presidenciais e mais! Entrevista exclusiva com o presidente Sarney e um super especial sobre a redemocratização, contando tudo o que rolou nos bastidores! Pegue sua passagem agora mesmo!

O link aqui: Expresso das Oito e Meia. ed462

Um agradecimento especial às minhas amigas Tálita e Riquelle, por sua inestimável colaboração. Valeu!

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.  Você pode até tentar me definir, mas no final sempre ficam três palavras: boa noite bill!

O site do Cara

Publicado: 19 de julho de 2011 por Bill em o Universo
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Lula lança site

No Instituto Cidadania são registradas as atividades do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que desde sua saída do governo se dedica à construção do futuro Instituto Lula, voltado para causas políticas e sociais no Brasil, África e América Latina.

http://www.icidadania.org

E vamos fazer coro ao movimento #LulaNoTwitter

Em busca da identidade

Publicado: 15 de julho de 2011 por Bill em o Universo
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A NEGAÇÃO DA MISCIGENAÇÃO
como mito fundador brasileiro 
 
O que nos faz brasileiros?

As evocações dos beats aos mitos de liberdade dos fundadores da América em confronto direto com a política imperialista dos Estados Unidos no pós-Guerra, constituíram a motivação para analisar alguns mitos que cercam nossa identidade e sua dialética com as contradições da realidade brasileira.

O mito, a realidade e o homem

O termo grego mytos significa dizer falar, contar. Do apogeu do racionalismo grego até o início deste século, o mito é o resultado do questionamento humano sobre o universo e sobre o próprio ser. Na sociedade contemporânea, com o predomínio da explicação cientifica do mundo, mito passou a significar algo falso, inventado. Mas é um erro pressupor que por esta conotação o mito não influencie no cotidiano, na sociedade como um todo. Em algumas culturas, mito significa verdade, mais que isso: a verdade mais profunda e perene. Significa história verdadeira, tão mais verdadeira quanto é revelação primordial, modelo das atividades e instituições humanas. É exemplar e sagrada: só pode ser recitada, cantada ou dançada em ocasião solene, o que lhe dá o caráter de santidade. O acesso a seu relato é reservado aos que já se submeteram a uma iniciação. Só se compreende o mito pelo próprio mito. Quando as investidas não o destroem, no mínimo seu crivo de análise passa despercebido por ele. Pois, muito mais que a razão e a ciência, o mito está encarregado de conter, por uma espécie de “razão engajada”, aquilo que deve ser encarado como o plenamente humano.

Luz divina ou uma bola de fogo gigante no espaço?

O mito é a maneira de vida que a ciência, embora almeje, jamais será. E se a ciência pretende transformar-se num modo de vida, como pode bem nos parecer na civilização altamente tecnicista de hoje, só o será miticamente. A ciência só destrói um mito criado por outro: o de si mesma. E, como por um paradoxo inesperado, vemo-nos hoje diante de uma tarefa cada vez mais inadiável: a de desmascarar o mito da ciência. Para a razão, o mito, na acepção que proponho, é um modo de sentir dimensões da realidade, inatingíveis racionalmente, dando-lhes significado e consistência.

Partindo então da explicação do mito, deve-se estabelecer a relação do mito com a identidade e desta, com a realidade. Como um todo, pode-se considerar que o mito está inserido na cultura de um povo. A identidade é compreendida enquanto construção social que produz efeitos sociais. Esta construção é elaborada de forma dinâmica e multidimensional. A questão da identidade se dá na medida da importância e do significado do mito, criando uma especificidade para determinado povo. Como narrativa de um acontecimento primordial, o mito é considerado formador e ordenador do comportamento humano, no sentido de explicar a realidade atual através da explicação do tempo primordial, com o objetivo de satisfazer necessidades religiosas e as aspirações morais. A necessidade de compreender a realidade presente  faz com que o homem contemporâneo, que se beneficia do avanço tecnológico para o seu conforto pessoal e sucesso profissional, busque no mito a razão de ser de sua existência, para suprir o vazio que existe na sua vida no que diz respeito à sua própria memória cultural.  Existe ou ocorre uma recuperação do valor existencial, da linguagem simbólica, comum ao mito, ao sonho e à arte. Refutando o senso comum, o mito não seria um pensar insuficiente ou ingênuo, uma crença falsa, mas exporia a própria atividade criadora e imaginativa, a transcendência do viver imediato.

O ‘Destino Manifesto’ dos portugueses

A consagração da "paz racial" pelos portugueses

O mar era a última fronteira a ser desbravada
Só o mais valente se lançava ao desconhecido
Quando naquela terra chegamos, maravilhados ficamos
Tamanha beleza e esplendor
Cores exóticas, figuras curiosas e um sol abrasador”
 

O homem não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e idéias, de tal modo que o mito, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo. O primeiro dos mitos fundadores da nossa história, na expressão de Sérgio Buarque de Holanda, é a “visão do paraíso”. Diários de bordo e cartas dos navegantes referem-se às terras brasileiras falando da formosura de suas praias imensas, da grandeza e variedade de seus arvoredos e animais, da fertilidade de seu solo e da inocência de suas gentes que “não lavram nem criam (…) e andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos”, como se lê na Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei Don Manuel Sobre o Achamento do Brasil. Nesses relatos, o Brasil é sempre descrito como um imenso jardim, uma espécie de Éden: a vegetação é luxuriante e bela (flores e frutos perenes), aqui reina a primavera eterna contra o também eterno outono do mundo. O verde da bandeira brasileira representa a inesgotável riqueza natural do solo pátrio. O mesmo fenômeno pode ser observado no Hino Nacional, que canta mares mais verdes, céus mais azuis, bosques com mais flores e nossa vida de “mais amores”. O gigante está “deitado eternamente em berço esplêndido”, isto é, na Natureza como paraíso ou berço do mundo, e é eterno em seu esplendor.

Em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre inicia seu livro com um rasgado elogio aos portugueses. Já no primeiro parágrafo lemos: Quando em 1532 se organizou econômica e civilmente a sociedade brasileira já foi depois de um século inteiro de contato dos portugueses com os trópicos; demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. A explicação para o sucesso do português no Brasil é explicado, segundo Freyre, pelo seu passado étnico, de povo indefinido entre a Europa e a África. Uma população meio cristã, meio sarracena, e que em ambos contava parentes, amigos, simpatias de crenças ou de costumes. Freyre fala na capacidade para a miscigenação que haveria no português: a miscigenação foi o processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga escala. É sobre esse mito fundador comentado por Freyre que as raízes de uma identidade brasileira crescerão.

Macunaíma fica branco, loiro e de olhos azuis

Assim, sorridentes, os povos indígenas conviveram com os europeus
 
 
 
Matando nossos deuses, destruindo nossas histórias, envergonhando nossas tradições
Acostumados as batalhas estávamos
Mas não conhecíamos uma guerra que se luta sem armas”
 

O segundo elemento na produção do mito fundador é ainda mais idealizado que o primeiro. O índio brasileiro que se tem retratado no imaginário popular, assemelha-se mais a um índio norte-americano com sua pena na cabeça e dizendo “Hao!”. Porém, com certo esforço, podemos encontrar um índio mais pelado, pintado e com cabelos lisos em cuia. Seu espírito é selvagem, mas sua índole é pura, intocada pela corrupção dos homens modernos. Essa imagem romantizada de índio é, sobretudo, uma contribuição de dois grandes escritores nacionalistas, Gonçalves Dias e José de Alencar. Juntos, encarregaram-se de criar/evocar esse mito, tentativa de afirmação de uma identidade genuinamente brasileira, distante da gênese européia atrelada ao passado colonial e, consequentemente, a Portugal.  Mas não só de lirismo, o índio tornou-se o mito que conhecemos.

Finca-se a bandeira brasileira em terras indigenas

Com o aval da ciência por meio Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB, os povos indígenas ganham contornos científicos. O século XIX instaura uma nova consciência histórica e determina aquilo que se deveria entender por história que, no caso brasileiro, promoveu a institucionalização do debate e delineamento de uma proposta de “Nação brasileira”. Neste quadro, coube ao IHGB o projeto de escrita da história de uma nação em processo de consolidação. O próprio Gonçalves Dias ganharia vaga entre os membros da instituição. No projeto etnográfico do IHGB, os diferentes povos indígenas não poderiam ser mais enumerados, mas inseridos dentro de um sistema que compreendesse a unidade indígena, sistema este que deveria também ser explicado nos termos de uma história nacional. E tal necessidade de sistematização haveria de ser cumprida tanto no eixo temporal, como no eixo espacial. Assim, o índio foi resgatado para ser retratado como um símbolo, construído de forma imponente, como um cavaleiro medieval, cheio de qualidades, virtudes e valores europeus.

Vergonha nacional

Procura-se escrava. Boa recompensa

Avaliaram meu porte, da largura dos ombros aos dedões dos pés
Fui arrancado de minha terra e vendido tal qual se vende um porco
Os doentes eram jogados no mar ainda vivos
Foram tantos, tantos, que anseio o dia em que a maré virá negra dos corpos enfermos
Dos poucos que aqui chegaram, menos resistiram
Essa terra devia ser negra, se não é, tamanho crime perpetrado”

Já para o terceiro elemento da matriz do mito fundador, o IHGB não foi tão condescendente. Para os abolicionistas a escravidão era um assunto tabu, as reações de uma elite conservadora eram demasiadas violentas para um confronto aberto. Assim, coube aos historiadores escravocratas a missão de representar o negro na fundação do Brasil.

Zumbi venceu algumas batalhas, mas a verdadeira guerra é silenciosa

O que se passou no Instituto Histórico é um ótimo parâmetro para entender a conjuntura em que a participação do negro na história foi construída no imaginário popular. A coisificação da pessoa negra deu ensejo ao nascimento de um mito negativo, com base na opressão, nos trabalhos forçados, que alimentaram e desencadearam uma série de movimentos de libertação escravagista, sempre mal vista pelos senhores de engenho. Esse momento de relutância dos escravos e que se transformou com o passar dos anos no mito da sua representação social: o negro com sinonímia de mal trabalhador, o típico malandro carioca. Muitos dos adjetivos que qualificavam o negro de forma pejorativa resultam da resistência dos seus antepassados à escravidão: nada realizava além do necessário. Daí ser considerado preguiçoso. Assim a cozinheira jamais executava satisfatoriamente o serviço da arrumadeira, caso isso lhe fosse dado a fazer. Tantas outras formas de relutância ao poder senhorial foram desenvolvidas pelos escravos, com o escopo de evitar que seus filhos tivessem o mesmo destino de servidão, e conseqüentemente, causar prejuízos aos seus donos. Os suicídios e as fugas representavam a manifestação da vingança contra todo regime colonialista escravista. Daí também, que as resistências mais radicais, o assassinato de seus donos por exemplo, conferia ao negro insubmisso outra característica pejorativa relacionada à marginalidade social. Tudo isso sob o véu do mito da miscigenação.

O retrato disforme do Brasil

A cultura dominante se impõe coercitivamente sobre outras culturas e os grupos dominados terminam por absolver a inferioridade, ou seja, a escravidão produz a imagem negativa, que possivelmente os negros e, em certa medida, os índios também, ao longo dos séculos, introjetaram de si mesmos. Há um comprometimento da identidade, logo que, o homem assimila costumes da raça superior para ser aceito pela sociedade. Se é difícil enfrentar uma guerra que se luta sem armas, o que dizer de uma guerra invisível?

O que resta da cultura indígena?

 Que tem eu pra falar?
Meu povo está morto
Esses que aí estão, que parecem conosco,
são herança da nossa vergonha
Usam jeans, falam no celular, andam de picape
Se ainda falam nossa língua, já dela esqueceram metade, metade do significado
logo deixarão de falar
 

No mito estadunidense de liberdade, há um desequilíbrio causado pelos beats ao reclamarem o mito como real. No caso brasileiro dá-se o contrário, o mito é negado. A identidade do mestiço brasileiro entra em crise quando percebemos hierarquias imutáveis ao longo dos séculos.

Alguns grilhões são invisíveis
Não compreendo
Vejo negros cercados
Sitiados em morros, amontoados em barracos, em cadeias
Vejo crianças chorando, com fome
Posso vê-las crescendo e terem filhos com fome também
Por que não se revoltam?
Na minha época também não andávamos com algemas nas mãos”
 

Aí, tem-se um processo curioso, de reinterpretação do mito fundador. As origens passam a ser evocadas, não pelo discurso dominante, mas por apropriações marginais que vão re-configurando o imaginário popular. O jeitinho brasileiro, tão desprezado pela elite, passa a ter uma conotação de auto-afirmação diante do explorador. O samba passa a ser exaltado, assim como o futebol. No âmbito acadêmico inicia-se uma produção critica da história nacional, há uma verdadeira subversão de valores, revestida de legitimidade cientifica. Os guetos, as aldeias, os morros, os quilombos, todos vivem um resgate histórico. As diferenças acentuam-se mais e mais, desconstruindo o mito da democracia racial e cultural.

A imagem do português, que exercia uma posição ímpar no processo de construção da identidade brasileira, pois, ao mesmo tempo que era um vínculo com a Europa, era também uma afronta a soberania, agora passa a ser negada de vez. Ridicularizada, vaiada. O mal que antes se imputava a escravidão, joga-se sobre os ombros portugueses.

Eu é que tinha que ta chorando! Eu! Olha só como sou retratado no imaginário brasileiro! Sou burro, estúpido, ganancioso, egoísta, quando tudo o que eu queria era aventura. Eu tive uma mulher indígena, sabe? Tive sim. Tive um escravo também e o libertei. Mas como fiquei nos livros de História? O Vilão! Eu sou o maldito vilão dessa história!”

As imagens do passado aparecem deformadas, falsificadas e colocadas a serviço de tendências posteriores. Essa é a dialética: passado e presente numa composição única e contínua, num entrelaçamento entre memória e discurso. Assume-se a divisão artificial construída entre mito e realidade, como entidades isoladas uma da outra. A realidade é tão produto do mito, quanto o mito é da realidade. À medida que a sociedade desenvolve novos espaços para segmentos antes mudos, embora não imóveis, evidencia-se o desequilíbrio de identidade. Portanto, o processo de formação da identidade individual e coletiva é fruto de um reconhecimento que se conquista pela ação consciente e organizada de um grupo que reivindica esse reconhecimento e essa valorização. Esse reconhecimento é conquistado e não concedido.

A identidade não é algo dado, mas uma condição forjada a partir de determinados elementos históricos e culturais, sendo sua eficácia momentânea, enquanto fator que instrumentaliza a ação, e será maior quanto mais estiver associada a uma dimensão emocional da vida social. Eis aí a questão chave para o entendimento da noção de construção identitária: a dimensão política enquanto fator de aglutinação em torno de uma determinada identidade tal como no caso dos beats. A identidade emerge quando sujeitos políticos se constituem, e nesse sentido, permite a criação de um nós, que leva a uma ação política. Essa re-significação passaria, pois, por uma apropriação interpretativa desses elementos, de modo a negá-los numa ideologia diferenciada e por isso, combativa.

Ficamos olhando a figura grotesca do português curvado sob o peso do machado cravado entre seus olhos ainda atônitos.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, petista, boêmio, metaleiro muy eclético, tonto, divertido y dulce… um comunista pero no mucho. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!

A ideologia vive

Publicado: 2 de maio de 2011 por Bill em o Universo
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Oposição vive momento de crise de identidade

A “notícia” estampada nos jornais de todo o país anunciava a debandada de boa parte dos deputados e vereadores do PSDB e do DEM para o recém-criado PSD de Gilberto Kassab. Partido esse que sob o comando do prefeito paulista, apóia o governo federal e o governo paulista, postura rejeitada pelo partido que, até pouco tempo atrás, Kassab fazia parte.

Pergunto. Que crise é essa se a oposição há 20 anos governa o estado mais rico do país? Sem falar em Minas, Goiás, etc. O próprio DEM que muitos já anunciavam sua extinção conquistou os governos de Santa Catarina e Rio Grande do Norte, melhor resultado que em 2006 quando ganhou somente no Distrito Federal, que embora abrigue a capital do Brasil tem pouca relevância do ponto de vista eleitoral. Se a vida política se garante sobre resultados eleitorais, a oposição vai muito bem obrigado.

Por que Kassab deixa o DEM quando a legenda vive seu melhor momento desde 2002?

A tal crise vem de outra ordem.

No plano nacional, o PSDB se juntou ao DEM, na época PFL, para formar o bloco parlamentar do governo. Em 94, tudo foi às mil maravilhas, o milagre do plano real brilhava nos olhos da classe média que podia ir às compras tranquilamente desde sabe-se-lá-deus-quando. As eleições de 98 estavam garantidas. Aí começou um movimento que é muito comentado, mas pouco discutido em suas consequências efetivas. O governo aprovou mesmo sob protesto ferozes da oposição a emenda da reeleição para presidente da República. Era o golpe branco de FHC. Um golpe não na oposição ou mesmo na República, alterar a Constituição em seus regimes eleitorais por mais que doa o coração faz parte do jogo. O golpe desferido por FHC atingiu sobretudo seu próprio partido. Há quem apressadamente argumente que o PSDB não tinha um político a altura do ex-presidente e que havia a ameaça do PT. Balela. Em 98 foi oba-oba, o PT nem chegou a fazer sombra ao PSDB. O caso é que Fernando em vez de pensar no futuro do partido, logo, em seu sucessor, decidiu que seria ele a colher os louros  depois que seu governo teve que sacrificar inúmeros investimentos para dar conta do arroucho fiscal que o plano real exigia. Era a hora da bonança e seria ele, Fernando Henrique Cardoso, pseudo-mentor do Plano Real, quem colheria os frutos tão duramente plantados. Foi um desastre. A política implantada mostrou-se incapaz de promover o crescimento econômico, os louros nunca viriam porque a lógica do plano Real mostrou-se perversa até mesmo para seus formuladores. Calcada em redução dos gastos públicos e juros altíssimos, muitos economistas, árduos defensores do Real, tentavam explicar por que o Brasil não podia crescer ainda.

Um assalto na calada da noite. As privatizações marcaram a fogo a memória do brasileiro. 

O problema do PSDB partiu da sua cartilha neoliberal. Uma resposta aparentemente simples dada a extensão da crise, mas é um tremendo engano achar que sua resolução é fácil, justamente porque o problema não é. Se José Serra tivesse comandado a legenda (ele é fraco demais para isso por N fatores), o PSDB teria um perfil bem diferente deste visto agora. Aliás, sem um perfil definido, o partido vive uma crise ideológica (que pode ser traduzida como uma crise de identidade), pois suas crenças mostraram-se erradas. Tal crise não é resultado de três eleições presidenciais consecutivas perdidas, mas simum sintoma de que algo está errado, afinal, o discurso não está convencendo. Convicção, esse é o problema.

Cardoso acreditava na política liberal, ele não acreditava no Brasil.

Para complicar ainda mais a confusão ideológica que o PSDB atravessa, o PT abraçou um espectro considerável dos gentis conservadores ao flexibilizar ou mesmo negligenciar bandeiras históricas do partido como o repúdio aos juros absurdos praticados pelo BC na época (e ainda hoje muito acima da média). Oportunismo, para os mais reacionários; pragmatismo, para os petistas e traição, para os ex-petistas.

Pragmatismo ou traição?

Fato é que essa guinada do PT sob o comando do ex-presidente Lula para a centro-esquerda desnorteou completamente o PSDB muito mais do que não ter uma raiz na sociedade, pois embora ela não tenha sido tão ramificada (ou profunda) quanto a do PT, é preconceito afirmar que não tiveram uma. Tiveram sim, só que bem diferente daquela do Partido dos Trabalhadores. Mas sinceramente, isso não significa muita coisa. As raízes da UDN eram muito profundas e eles também ficaram muito desnorteados quando Vargas nos anos 50 voltou (como ele mesmo prefetizou) “nos braços do povo”, que tal qual o PT (ou seria o contrario?), tinha uma ideologia mais fluida, (dificílima de combater, pois os dogmas são relativizados) e ainda que se possa argumentar que seu governo não era de esquerda, há de se admitir que Getúlio contrariava muitos interesses da direita que convenhamos era (ainda é) muito mais poderosa do que a esquerda.

José Serra na campanha presidencial sabia qual era o melhor caminho para o PSDB, enterrar o passado (esquecer, ou fingir que esqueceu, os erros, isto é, o apoio a política de FHC) e começar tudo de novo. Se tivesse conseguido se eleger, provavelmente quem estaria em crise agora seria o PT. Pegue o artigo do ex-presidente Cardoso tentando mostrar um caminho ao partido, um caminho que respeitasse o seu legado e no entendimento dele, o próprio partido. Já diria minha vózinha “muito ajuda quem não atrapalha”. O PSDB passa por uma crise justamente porque tem em tese uma ideologia social-democrata, mas praticou no governo FHC a liberal-democracia. Aí vem o ex-presidente dizer que deveriam parar de falar para as grandes multidões e se voltar para um público mais restrito, daí a confusão ideológica. Muitos dentro do partido acreditam na social-democracia e viram por 8 anos os petistas governarem do jeito que eles deveriam ter governado. A critica ao artigo do ex-presidente também é partidária. Esquecer o “povão”? Que social-democracia é essa que vira às costas para as massas? O ex-presidente Cardoso insiste em ser lembrado quando já devia ter se despedido da vida política, como ele mesmo fez com suas idéias.

Façamos um exercício mental especulativo. Imaginem que o resultado do segundo turno de 2010 tivesse sido diferente (lembrem-se da pequena diferença do segundo turno). Então veríamos o ex-presidente Lula tentando recuperar o ânimo dos derrotados não é mesmo? Tendo que responder a perguntas do tipo: O pragmatismo funcionou? Por que o ex-presidente Lula do auge de seus mais de 80% de aprovação não conseguiu eleger o sucessor? A tese da direita de que Lula é louco por holofotes iria pesar no debate. Teria o ex-presidente escolhido propositalmente um candidato mais fraco para que sua imagem não fosse eclipsada? Colocar a figura do ex-presidente em xeque, sem dúvida seria o o inicio de uma crise que poderia devastar o partido, já tencionado pela variedade de tendências ideológicas dos seus membros (muitos não engoliram até hoje a escolha de Henrique Meirelles para o BC). Afinal, a opção pela flexibilidade ideológica provou-se errônea. Percebam como o que ocorre com o PSDB é justamente isso, o partido perdeu seu líder ideológico e ficou desnorteado. Muitos dentro do PT fazem cara feia para a política macroeconômica adotada, mas aceitam porque confiam no Lula. Como muitos do PSDB confiaram em Fernando. Só para fechar nossa viagem imaginativa, e fixar uma diferença importante, pense em Lula sendo questionado internamente pela derrota, mas gozando de alto prestígio Brasil afora.

Em 2002, o povo estava insatisfeito com o governo, os próprios tucanos não tinham esperanças de vitória. Em 2006, apostaram no repúdio da população aos sucessivos escândalos de corrupção, deixando a ideologia em segundo plano. O vencedor da disputa interna foi Geraldo Alckmin, um político bem mais identificado com os ideais puritanos da direita do que José Serra. Nas eleições de 2006, o que marcou não foram as acusações de corrupção de Alckmin, mas principalmente sua falta de convicção em defender o legado do governo FHC, sabia que os erros da gestão tucana eram indefensáveis, mas o que fazer? Essa pergunta martelava o rosto de Alckmin nos debates.

Em 89 o PIG (apelido cartunesco dado à mídia conservadora) era capaz de eleger um presidente.

No dia 14 foi ao ar no Jornal Nacional a edição do debate presidencial entre Lula e Collor

Em 2010, José Serra se lança não somente candidato para presidente da República, mas fundador de um novo pensamento no PSDB. Reconhecia os êxitos da gestão petista e considerava que poderia fazer melhor. O que não podia era defender o ex-presidente Cardoso. Se ganhasse, FHC seria enterrado definitivamente. No entanto, Serra não conseguiu desfazer a impressão deixada pelos tucanos no governo federal. A crise do sistema financeiro mundial mostrou que o Estado mínimo bancado pelo FMI e que o PSDB aceitou de bom grado, estava terrivelmente errado. Não que os brasileiros não soubessem disso, mas a crise salientou a diferença abismal que separava os dois governos.

Enquanto FHC some, Lula aparece.

Agora fique atento ao comportamento eleitoral do brasileiro na última eleição diante da seguinte sentença: O neoliberalismo é uma ideologia definitivamente fracassada (pelo menos atualmente). Então a escolha concentra-se em Plínio do PSOL, garantia de Estado forte, mas muito radical para o gosto da maioria; Marina Silva, ex-petista, seu perfil deixa dúvidas quanto ao seu esquerdismo, logo a possibilidade de um Estado fraco; Dilma do (pelo) PT, garantia de Estado forte, mas muitas atitudes denotam sua proximidade com a direita e José Serra, que também é garantia de Estado forte só que não deixa dúvidas do seu vínculo com a direita. Essa foi a cisão nas eleições de 2010.

Abaixo um esquema de como fica o ciclo ideológico brasileiro ultimamente:

Ciclo ideológico dos partidos brasileiros

PV e PMDB agregam diferentes matizes, por isso são de centro, embora isso seja uma simplificação didática e altamente questionável. PT e PSDB são puxados para o centro por conta de seus respectivos candidatos, ainda que tenham uma identificação ideológica diferente destes. Repare na tensão que existe. Enquanto o PT é puxado pela direita, o PSDB é atraído pela esquerda.

Embora o terrorismo religioso tenha conquistado muitos votos para o PSDB, foi o fato de Dilma e Serra terem perfis muito próximos um do outro que provocou o racha eleitoral. Só que a batalha de Serra era muito mais difícil que a de Dilma, enquanto ele tinha que lutar contra o fantasma de FHC, Dilma tinha o escudo enorme e reluzente do ex-presidente Lula, por isso o tucano jogou sujo, aceitando a baixaria que seus aliados insulavam, para que driblasse a desconfiança dos mais conservadores (contingente considerável) com a chantagem ideológica de que ao contrário de Lula, Dilma não teria legitimidade dentro do PT para conter as alas mais radicais. Sem dúvida o grande erro de estratégia de Serra. Ao tentar conquistar o apoio dos conservadores que votaram em Marina, o PSDB polarizou ideologicamente a disputa, que era tudo o que o PT mais queria. Ora, sem mais, era só confrontar os 8 anos do PT com o do PSDB. Até para quem tinha votado em Serra no primeiro turno recuou diante do radicalismo do tucano, afinal, ficou fácil identificar a ideologia dominante no PSDB.

Sem propostas diferentes, o discurso caiu na baixaria

Mas, e agora? Serra sai derrotado da disputa e não tem legitimidade para traçar o caminho a ser seguido pelo partido, embora seja a sua, a idéia mais acertada. Talvez por isso tenha cruzado os braços diante do surgimento do PSD encabeçado por Kassab, legenda que certamente iria enfraquecer a oposição. De duas uma: ou o ex-governador pretende ingressar na legenda para escapar do passado maldito do PSDB ou aproveitar o enfraquecimento da legenda tucana e tomar as rédeas da situação. Um aviso importante para a oposição: Serra conseguiu 40 milhões de votos no segundo turno, mas enquanto FHC era colocado de lado no programa eleitoral do partido, a figura de Lula era no mínimo respeitada quando não enaltecida. Numa análise apressada e descuidada pode parecer personalismo, mas a meu ver Lula é claramente uma escolha ideológica do eleitorado brasileiro. Ironicamente, quando temos um novo partido social-democrata sendo criado, muitos apontam a falência do sistema político brasileiro pelo aspecto unitário de busca eleitoral sem perfil ideológico. Pode ser, mas para mim, tal conclusão é redutora e cínica da realidade. O PSD surge para atender carências ideológicas que DEM e PSDB não são capazes de suprir, seja por vícios ideológicos ou por interesses particulares de alguns caciques. Quando o PDS não se coloca como oposição, é uma posição pragmática sim, mas que não deixa de ser ideológica. Afinal o PT agora representa a social-democracia e para se opor a esse projeto ou você é socialista ou liberal e nós já sabemos, pelo menos no plano nacional, a preferência ideológica do brasileiro.

 

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, petista, boêmio, metaleiro, tonto, divertido y dulce… um comunista pero no mucho. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!

Quem acompanha o blog sabe da minha repulsa pela mídia nacional, logo eu não poderia deixar de me manifestar a respeito da cobertura feita da ocupação das favelas do Rio de Janeiro, Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão.

Rio contra o crime, diz a reportagem

Depois da ocupação das favelas do Complexo do Alemão, Renato Machado, do programa Bom Dia Brasil da Rede Globo, anunciava a ‘vitória’ da sociedade, um ‘dia histórico’ da vida dos cariocas. OK. Sem dúvida alguma é um alívio para boa parte dos cariocas saberem que o governo estadual tomou iniciativa quanto a questão do tráfico nos morros. Mas vamos às questões que passam a margem do debate que a televisão como um meio de comunicação de grande alcance poderia oferecer para informar e instruir a população brasileira sobre o que se passa de verdade, o que esse acontecimento significa, quais são suas causas e  consequências, enfim, aprofundar as discussões. Não é isso o que se vê. Muito pelo contrário, a opinião que tenho a respeito é de que esses programas tentam desinformar propositalmente afim de evitar questionamentos quanto a certas atitudes em nome da segurança pública.

Logo de cara podemos estranhar a dicotomia entre bem e mal apresetada. Os traficantes são maus não é mesmo? Nasceram em localidades miseráveis com os mais altos níveis de desemprego e escolaridade do estado do Rio de Janeiro. Seus espelhos de sucesso profissional eram os traficantes que desfilavam com carros importados. Diriam alguns que trabalho de verdade era o do seu pai, pedreiro, pois apesar de ganhar pouco, ganhava honestamente. Na opinião do garoto sem dúvida o pai trabalhava honestamente porque era imbecil covarde demais para tentar algo melhor. Olharia para você e diria inconvenientemente: Para você é fácil ser honesto. O que esse garoto, agora traficante, responderia quando perguntado se ele se considerava mau?

Quantos deles se tornarão traficantes?

Ou um policial do Rio de Janeiro que ganhando 600 reais tem que subir o morro para fazer cumprir a Lei. Esse policial sabe que lá em cima a Lei que ele conhece não vale nada. Essa “Lei” nunca subiu o morro e os favelados tiveram que inventar uma, não seria agora que eles iriam aceitar a nossa. O policial então vê seus amigos comprando apartamentos e carros novos. O que ele reponderia francamente a respeito de honestidade? Ele se consideraria uma pessoa má?

A essa última pergunta talvez o policial até dissesse que sim, mas que isso era irrelevante, pois que ele não tinha opção, pois bondade e mesmo honestidade não desviam balas nem alimentam bocas, que dirá pagar uma escola particular para o filho, comprar uma jóia para a mulher…

Quanto vale a minha vida?

O tráfico não teria prosperado no Rio não fosse a conivência dos policiais. Enquadrar essas pessoas em boas ou más é tão absurdo quanto separá-las em brancos e negros. As definições podem até servir para seus respectivos fins, mas não exprimem de forma alguma a profundidade do tema.

Um estudo do Núcleo de Pesquisa das Violências da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Nupevi-Uerj), em parceria com o Laboratório de Estatística Aplicada da mesma instituição, divulgado no mês passado, apontou que 41,1% das favelas da cidade do Rio de Janeiro estavam sob o controle de grupo milicianos em 2008. Quase metade. Quem é mocinho ou bandido nessa história?

Ainda sem resposta: Quanto vale minha vida?

A mídia, basicamente falando daquela comandada pelos maiores grupos de comunicação como Organizações Globo e Grupo Abril, agi de modo perverso, criminalizando a pobreza, dificultando que sua audiência tenha dados suficientes para formar uma opinião melhor construída, contribuindo para a formulação de diagnósticos falsos e premissas escusas e mesquinhas embasadas em seu rídiculo conceito binário social.

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Finalmente, a comunidade livre

Não podemos deixar de inferir ao final, de que essa conjuntura elaborada pela mídia nativa seja fruto de seus anseios particulares. É mais fácil exterminar os traficantes do que conseguir que seu filho pare de usar drogas. Tá, ok. Ele pode até continuar usando, mas essa droga virá de origem mais confiável pelo menos daqui por diante…

Jovens moradores de bairros nobres do Rio são presos por tráfico de drogas.

 

bill, o que ele faz? Faz História (literalmente) na Universidade de Brasília, é além de historiador, professor marxista, entusiasta da vida, doutor em ciências ocultas, mestre em astrologia satânica, missionário de Nosso Senhor Nosso, frequentador do HPAP, flamenguista, cinéfilo, sagitariano, hetero-gay, otaku, amante fervoroso, adepto de todo tipo de filia, alcóolatra assumido e apaixonado pela arte do questionamento, um comunista. Tonto, divertido y dulce. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!