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Vida de Cão

Publicado: 5 de julho de 2013 por Bill em A Vida
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Ontem eu me vi como cachorro, mas não foi como um cachorro que vê por olhos humanos, mas olhos caninos que vêem um homem. Estava sentado em um banco, assim, sem fazer nada, esperando, dali a pouco me surge um cachorro. No inicio não lhe dei qualquer importância, mas o cachorro se sentou a minha frente e ficou me encarando. Então fui tomado por aquele sentimento de assombro. O cachorro a minha frente já tinha sido o Meu cachorro… Billi. Tem tanto tempo… Não recordo o que sucedera a ele, simplesmente desaparecera, mas… ali estava ele, disso eu tinha certeza. Era Billi. Agora velho, magro e maltratado. Fiz assim com a mão para que ele se aproximasse e para minha surpresa o cachorro deu um pulo em mim, por muito pouco não lhe acertei a fuça no susto, mas por sorte percebi sua língua áspera e quente nas costas da minha mão e entendi que ele só estava feliz demais para se conter. Mas o malcheiro era insuportável e logo tive que espantá-lo. Fiquei ali de novo, sentado, sem nada pra fazer, e agora com remorso. Mas então surge uma moça pela rua com vestido rosa apertado que me faz sentir um arrepio pelo pescoço: eu já vi aquela pessoa! E então ela sorri e nem sei como já estou abraçando e beijando Marina, uma grande amiga dos tempos de faculdade.

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Quão irônica a vida pode ser?? Dali a pouco percebo que Marina tenta me dispensar, nossos assuntos ficam girando e girando sem chegar em local algum, vejo claramente seus olhos se encherem de tédio. Sou um fardo. Não somos mais amigos. Percebo que ela ainda tenta me fazer um agrado, me passa o telefone que sei que é de mentira, diz que foi bom me ver. Dou-lhe um último abraço, sei que é o último, preciso lhe dizer o quanto ela foi importante na minha vida, que… mas então noto seu olhar de desconforto, e… receio… Marina acha que vou tentar alguma coisa, um beijo talvez… eu bem que poderia faze-lo só de birra, não posso… a lembrança de outrora ainda é muito forte… estou chorando. Marina se apieda ao mesmo tempo que se enoja, deves pensar que esta não é a postura de um homem. Percebo com horror que amo Marina, que me sento todos os dias naquele banco porque no fundo desejava um dia reencontra-la! terá Billi feito o mesmo comigo? Oh, pobres criaturas essas que nascem para amar! Amor é dor! Marina vai embora. Fico sentado limpando o ranho do nariz, quando outra moça belíssima vira a rua, outra amiga sumida! Abano meu rabo e corro até ela, na esperança de que ela demore para me enxotar e tudo bem, tudo bem, sou um cachorro! Vivo para amar!

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Um trago e uma lata de cerveja quase vazia

Publicado: 24 de abril de 2013 por Bill em A Vida
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Volto para casa fumando. Dou uma tossida e me pergunto: por que fumo? Não sei. Gosto do jeito como minha mão segura o cigarro, gosto também de soprar a fumaça para cima e acompanhá-la se dissolver no ar, gosto disso, gosto até do nojo estampado na cara de uma mulher que passa por mim com a mão no nariz, é disso que mais gosto, mas só gosto não explica por que fumo, é caro, deixa dentes e unhas amarelados, dizem que faz mal à saúde e afasta as pessoas. Não me aproximo de uma criança quando estou fumando e gosto muito de crianças. Não tenho filhos. Trago o cigarro com força quando passo pelo morro que dá para minha casa, estou perto, preciso terminar o cigarro, não gosto de entrar em casa fumando embora fume dentro de casa. Seguro a fumaça no peito por 10 segundos, alguém me disse certa vez que o bom fumante fala até 10 palavras sem soltar fumaça. Não sou um bom fumante. Tento outra vez. Sou um péssimo fumante. Sinto o gosto do cigarro azedar próximo ao filtro. Bem a tempo, lá está a lixeira. Dois passos fora do caminho e apago o cigarro a lataria da lixeira, jogo-o e erro a boca da lixeira, a bituca vai parar a outros três passos de mim e cinco fora do meu caminho de volta para casa, sigo meu rumo, mas sete passos e meio depois penso no planeta e penso nos milhares de fumantes que jogam bitucas na rua e naquelas pessoas que recolhem algumas dessas bitucas sob sol quente ganhando um salário de fome. Retorno para recolher a bituca do chão, vejo se alguém observa minhas esquisitices e sem ninguém a vista, volto a jogar o resto de cigarro na boca da lixeira, dessa vez acerto. Sigo meu rumo. Penso que sou doido ou muito estúpido. É quando passo pela ponte que fica a nove passos de casa. Lá, duas pessoas conversam, uma delas toma um gole de cerveja e atira a lata quase vazia, quase, pois vejo um restinho de cerveja escapulir na queda até o córrego que está cheio e marrom por causa das chuvas. Penso na imensurável quantidade de pessoas que não possuem consciência ambiental e que por isso o planeta não poderia suportar mais um século de seres humanos. Mas é esse homem só ignorante ou dotado de uma superinteligência hipócrita? Poderá ele saber, consciente ou não, de que jogar a lata no lixo não adiantaria absolutamente nada de nada? As pessoas não vão deixar de jogar latas por aí. Não vão. Até serem enterradas por elas. Acendo outro cigarro a porta de casa, trago e apago-o nas costas da mão direita. É, eu sou muito louco mesmo.

Os tsunamis da vida e as raízes da imobilidade

Publicado: 12 de abril de 2011 por Bill em A Vida
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Em certos momentos da vida, precisamos de um tsunami. Ficamos acomodados, entediados, preguiçosos e covardes. Não estou gostando de como as coisas estão indo, mas estou por demais atarefado para me dar ao luxo de me preocupar com algo tão fútil como o meu desagrado.

Então você está sentado, é seu horário de almoço, mas você está sem fome. Espreguiça-se em sua cadeira confortável, sua mesa é grande, você é um cara importante. Tem até ar-condicionado no seu escritório! Há um quadro muito bonito pendurado na parede, você nota. Engraçado como nunca tinha reparado nele. Há uma árvore pintada lá. Se a intenção do artista era pintar uma árvore horrível, ele tinha conseguido com louvor. A árvore era horrível, velha e garranchosa, seca e amarelada. Não posso esquecer de jogar esse quadro fora, você pensa. A hora do almoço já está quase acabando e você continua sem fome. 

Repentinamente, o ar congela, para ser removido por uma ventania que dá lugar a um tsunami daqueles que a gente só viu na televisão. Seu escritório é arrancado do prédio em analogia ao que acontece com sua vida. O quadro com a árvore permanece preso a parede.

As vezes precisamos de um tsunami, porque alguns de nós são covardes demais para se mover por conta própria, ou ainda seja dado a mau-caratismos e acredite que se está ruim para você, está ruim para um bocado de gente e quando questionado sobre tal situação, responda sinicamente: temos que fazer alguma coisa.

Seu codinome é pilantra da silva. Na verdade você pensa: o problema não é meu e nesse caso, você realmente se convenceu que o problema não é seu mesmo. Se você está sentado no seu escritório quando o dia está lindo lá fora, a culpa não é sua! É do mundo! A realidade é o seu escudo, a sua árvore da imobilidade.

Em ambos os casos, seja por covardia, por preguiça ou por sem-vergonhice, você é o principal culpado. Você indigna-se em meio ao turbilhão que varre escritórios, casas, cidades inteiras, árvores gigantescas de imobilismos. Grita furioso para um pseudo-deus, que só existe nessas horas:

Porra! O que você queria que eu fizesse?! Tudo está errado! É fácil você falar sendo a porra de DEUS! Mas eu sou só um qualquer e quem pode fazer alguma coisa de fato ta pouco se fodendo!

E novamente você usa o escudo dos outros para eximir-se da culpa. Você é mestre nisso, aprendeu na melhor escola de todas. Passou a vida toda aprendendo nela. Mas não pode enganar a porra de Deus, afinal, ele sabe aquilo que nem mesmo você sabe, porque é mais que puro fingimento, você realmente acredita do fundo do coração que não pode fazer nada mesmo. E reza, todos os dias, para que um tsunami faça o serviço por você, porque quando ele lhe arrancar tudo, aí não há escolha.

A droga da escolha.

Você tinha a escolha de levantar-se e sair do escritório, mas você tem contas a pagar lhe diz seu bom-senso, perder o emprego não é uma opção. E você não chega nem a tentar. As raízes do seu imobilismo são muito profundas, foram plantadas antes mesmo de você poder andar. A primeira palavra que aprendeu foi não. A negação é uma defesa e essa porra de Deus bem sabe que é a melhor das defesas que existe, afinal foi ele quem inventou. Aí você fica puto, continua rodopiando e grita o mais forte que os pulmões lhe permitem, pois o mundo todo está girando agora e você pode gritar a vontade.

Foi você! Você fez as coisas desse jeito!

Então você lembra que nem acredita na porra desse Deus, que está conversando com a própria consciência, que deve estar puta da vida porque você ficou lá sentado no escritório, esperando pela fome, enquanto ela gritava enlouquecidamente para você se mover. E você chora de indignação, pelo mundo injusto que você mesmo criou dentro da sua cabeça. Se você sobreviver vai ter outra chance, será mais fácil você acha, pois o tsunami destruiu tudo o que se conhece e os sobreviventes vão ter que começar a partir do zero. A chata da consciência, agora consciente de si, cutuca-lhe a têmpora.

É, agora você não pode mais se enganar. Você sabe que sobrou muita coisa, pois nem um OMO da vida é capaz de tirar toda a sujeira.

E você sobrevive, está lá, ajudando a reconstruir o mundo e percebe que depois de muito esforço, o mundo vai ficando do mesmo jeito que estava antes, daquele jeito desagradável, onde as horas de folga são uma chatice. E você olha para os rostos a sua volta, impotência, indiferença, tristeza, conformidade. Há algo errado naquilo tudo, você sabe, todos sabem, mas fazer o quê? As coisas são do jeito que são. E você dorme, cansado.

Em um sonho, que você não vai lembrar quando acordar, você é levado pelo tsunami, pois nem mesmo sonhando você se permite fazer alguma coisa. Você novamente tranca a consciência naquele lugar da sua cabeça que é hermeticamente fechado, onde o quadro com a árvore feia não pode ser removido. Ali, nem mesmo um tsunami, apesar de todo o poder de devastação, pode entrar. Pode perturbar, mas não entrar. Entrar nunca. Não há furacão, terremoto ou tsunami capaz de arrancar as raízes da sua árvore de certezas.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.