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Você escuta risadas em algum lugar. Você pode esticar o nariz e sentir o aroma quente do chá que queima a língua. Você pode sentir o calor confortável de dentro da casa, com aquela gostosa brisa noturna correndo pela janela aberta. Mais risadas. Você imagina de que tipo de frivolidade aquelas pessoas estão rindo. Provavelmente estão vendo TV. E você imagina a trilha sonora daqueles vídeos engraçados em que as pessoas se machucam pra valer fazendo coisas estúpidas, como a de um cara tentando se equilibrar em uma escada com um pé só. A música estúpida sugere a forma como você deve encarar o desastre anunciado. Assim, quando ele escorregar, quando as pernas dele estiverem abertas bem no meio da escada, você deve uivar euforicamente com um tremendo UHHH! Você deve rir. Ria. Como toda piada sarcástica, essa piada é sobre você. Preste atenção. Eles estão dizendo que você é estúpido, que vão te machucar, que vão te machucar pra valer. Agora ria, seu idiota. Eles adoram brincar conosco.

Aos poucos, a rua se enche de silêncio. Aquelas pessoas risonhas foram dormir. E em seus sonhos elas irão cair de uma escada. Algumas acordarão assustadas, quem sabe levantem e tomem um pouco d’água. Ou fiquem em suas camas, no escuro, esperando. Outras ainda podem continuar caindo. Amanhã o pesadelo terá desvanecido. Mas quando elas encontrarem uma escada, irresistivelmente, irão dar-lhe a volta. Ah sim, como aquele jovem de cabelos maltratados que corria pela praia com uma pequena trouxa amarrada as costas. Dentro dela havia alguns pertences. Nove, ao todo. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. A trouxa balançava a suas costas febrilmente. Ninguém repara nele. Mas a quem por acaso batesse os olhos no rapaz, veria seu semblante intensamente contraído e a corredeira que se fazia abaixo do queixo. E pensaria: o que há com os jovens de hoje? Não sabem aproveitar a vida! Não importa quão suave seja a brisa que lhe massageia os cabelos, ou a alegria desse sol estupendo enchendo as coisas de vida, ou o doce prazer de sentir a areia quente ficar fria e quente e fria de novo. Não sabem! Será que não conseguem escutar o mar cantando sobre tudo isso??? Quiçá este jovem pode até sorrir, mas se alguém desse a sorte de vê-lo nesse momento, de imediato se ressentiria, como se encontrasse lixo espalhado em um lugar bonito. Desagradável. E extremamente irresponsável. E esse jovem corre, mergulhando cada vez mais fundo na escuridão. Posso ouvir os passos a suas costas. Sombras que se movimentam sozinhas. Pesadelos. Noites terrivelmente barulhentas, que ficam sussurrando um horror qualquer seu, que seja, um único medo indizível, irracional, tão profundamente enraizado no seu espírito que, um dia, você se dá conta das manchas escuras envolta dos olhos e, por mais que tente, não consegue lembrar qual foi a última vez que dormiu.

Ah! vida miserável essa! que se compraz com as sombras, com a sujeira, com a indiferença por que dela não lhe vem censura. Mas de que adianta? conquanto a consciência posta olhares neste corpo moribundo mesmo na escuridão! Sim! Esse jovem sabe. Sabe que a fuga é uma ilusão, mas é a ilusão que lhe permite continuar. Assim nos embriagamos até o raiar da morte. Todos os dias, repito. Porque você insiste em não me dar ouvidos. Todos os dias flertamos com a morte para, quem sabe, acidentalmente, possa ela um dia nos levar. Afinal, todo sobrevivente é um inocente.

Não. Não diga que sou louco. A loucura é uma desculpa fácil para se desfazer do meu problema. Não. Eles estão aí. Vigilantes. Sorridentes. São seus vizinhos. Colegas de trabalho. Aquele velho amigo da faculdade. Eles estão o tempo todo agarrando suas pálpebras para cima. Olhe, desgraçado, olhe! Veja os porcos que charfundam a lama. Felizes, entupidos de ração. Veja as galinhas amontoadas umas sobre as outras. Iluminadas artificialmente para que não parem de comer. De botar ovos. De viver. Olhe para isso. Eles seguem um padrão de propósito para se divertir conosco. Venha comigo agora. É noite profunda. Não há lua. Ou estrelas. Nem risadas. Agora, e somente agora, posso contar. Então, escute com atenção. O tempo é curto. Mas essa é sua chance. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

Meu pai está no chão em uma poça de sangue, minha mãe está embaixo de mim, a boca escancarada, os olhos vazios. Não vejo minha irmã. Sinto uma dor e um movimento de sobe e desce. Ah, é o doutorzinho. Ele está em cima de mim, está comendo a porra do meu cu. O cano frio do revolver está grudado no meu rosto. Sinto medo, um medo terrível. Um medo sem nome. Estou cagado. Cagado de medo, literalmente. Ele come meu cu cagado. Louco de merda. Sinto o calor do esperma irradiar-se pelas minhas pregas. O filha da puta geme, satisfeito.

– Cara, você tem um cu melhor que o dá tua irmã, falo sério. Porra!

Uma parte de mim, uma parte antiga de mim, está espantada, absurdamente espantada com a violência, com o terror, com o sadismo, não consigo me mover, todo o corpo dói, retesado. E ele fica sorrindo. O desgraçado sorri diante do meu medo, está feliz! O cara acabou de violentar e matar toda minha família e está sorrindo! Que tipo de pessoa pode fazer isso? Sinto um frio e ao mesmo tempo um calor escorrer pelas pernas, estou mijando.

– Ah merda! Mas que merda! – ele grita pulando às gargalhadas

Eu me odeio. Como eu me odeio. Que espécie de homem eu sou? Por que eu não paro de tremer, levanto e arranco o sorriso desse bosta mesmo que antes ele me acerte um tiro no peito? Por quê? Ele sobe as calças, afivela o cinto com cuidado. Se aproxima de mim e me beija na testa. Sinto o suor de sabonete dele escorrer pelo meu rosto. Em seguida deve ter me acertado a cabeça com o revolver também porque apago instantaneamente. E acordo. Estão todos mortos! Mortos! Subo aos tropeços até meu quarto, apanho algumas coisas. Nove coisas na verdade. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. E fujo, corro dali pra nunca mais voltar. Em algum momento, os vizinhos vão desconfiar, suspeito que a primeira a notar seja Dona Silvana, enxerida e fofoqueira como é, não deve demorar a estranhar o sumiço da gente, logo o fedor vai se espalhar pela rua, o telefone vai ficar tocando e tocando, tocando até cair, os cachorros vão latir de fome. Aí, alguém, dona Silvana, liga pra polícia. Queria ter deixado uma carta colada por um imã na geladeira para quem descobrisse os corpos:

Minha família está morta. Foram torturados e assassinados pelo doutor que namorava minha irmã. Eu sei porque ele me deixou viver. Ele quer brincar. Quer ver até onde eu posso ir. Fique olhando seu desgraçado. Eu vou frustrar todos os seus planos de merda.

Quisera estar calmo para deixar um bilhete. Minhas mãos mal conseguiam parar de tremer para assoar o nariz. Não… Tudo que fiz foi fugir. E esse jovem corre enlouquecido. O peito e o cu doloridos pelo esforço. Está chorando quando chega à praia. Ele jura que todos o observam. Que todos se afastam dele porque sabem quem ele é. Um fugitivo. Um egoísta desgraçado que luta covardemente pela sobrevivência. Esse jovem sente o gosto salgado das lágrimas misturado ao suor que escorre da testa. E ele corre, tentando fugir do passado, das memórias, da dor, da culpa, do ódio, da humilhação, da impotência. Vomita sem parar. O hálito de esperma ainda enche-lhe a boca. Ele lembra que quando criança fez um coleguinha chupá-lo. Ele lembra de obrigá-lo a engolir sua porra. Lembra sim. Lembra-se nitidamente disto. Lembra também de um menino que tomou a bicicleta da minha irmã e os dois tiveram que voltar a pé pra casa. Do vizinho que apanhou na escola, dele pedir ajuda chorando e o jovem-criança fingir não ouvir, e depois ainda se rir dele para os outros. Que covarde! Teria dito. E era seu melhor amigo, ele ia a sua casa todo dia jogar supernintendo. Lembra do pai colocando a minha irmã de castigo por dar um soco no nariz dele. A irmã ficara zangada porque descobrira que ele a espiava no banho. E ela não contou pro pai, nunca contou para ninguém. O jovem lembra do chefe passando um esporro em uma colega de trabalho. O jovem lembra que ele fora encarregado de ensinar o novato. O jovem lembra, lembra muito bem, de ensinar-lhe tudo errado. Ah, o jovem também lembra daquele dia horrível quando ficou preso no moedor e aquele mesmo colega salvara sua mão de ser mutilada. Talvez o jovem mereça a lembrança da mãe dizendo que estava tudo bem, que ia ficar tudo bem enquanto a violentava. E o jovem continua correndo pela praia. Ele passa por um senhor de 40, 50 anos, chapéu, e bastante protetor solar no rosto e no peito, sentado numa barraquinha, tomando água de coco, com um jornal estendido entre as mãos. Esse senhor lê sobre um casal de velhinhos, espancados até a morte pela neta, uma mocinha de 13 anos. Na mesma página há uma foto grande de um acidente de carro. A legenda diz: BEBIDA AO VOLANTE CAUSA MORTE. Ele lê que um motorista se irritou com a batida e espancou até a morte o responsável pelo acidente, que estava embriagado. O senhor lê a respeito de uma criança que saiu para comprar pão. Há imagens feitas pela câmera da padaria, em uma das fotos você vê um homem se aproximar. Eles saem juntos. A menina é estuprada tão violentamente que seu hímen é rompido, ela também é espancada até a morte. No final dessa página, o jornalista constata a total incapacidade do Estado em nos proteger, e deixa entrelinhas que uma redução de impostos seria muito bem-vinda. É. Eles se divertem conosco. Entre uma água de coco, violência e jornais está você. Você se enraivece. Gira o punho em minha direção dizendo que não foi você que fez aquelas coisas. Sim, como o coco. Não foi você quem plantou o coqueiro, ou a pessoa que derrubou o coco da árvore, não foi a pessoa que o transportou até a barraquinha, nem aquela que abriu o coco ou mesmo quem colocou o canudinho, a única coisa que você fez foi beber. Você dobra o jornal e sorve o último gole do cocô. E o mundo segue adiante. A violência é a roldana mestra de um deus sem nome, gênero ou propósito. Eles estão aí, divertindo-se. Deixam nossos corpos jazerem quentes em residências de janelas blindadas, muros altos com cercas elétricas, câmeras de segurança e cachorros grandes e raivosos. Tudo precisa inspirar confiança para que a roldana mestra possa funcionar. Porque o terror não existe sem esperança. Uma ilusão, para viver, para continuar, para justificar o sofrimento, suportá-lo e, principalmente, negligenciar o destino.

Daquele jovem de cabelos maltrados, só resta um velhinho de cabelos podres, desdentado, de queixo pontudo, vestido num jeans muito surrado, com metade do que fora uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma trouxa aparentemente muito pesada às costas, um sério problema de audição e olhinhos bem apertados para a noite. Ele se levanta, o que era dificílimo de fazer com o cocô feito concreto colado nas magras pernas. Ao se mexer o cheiro desprende-se, fá-lo lacrimejar e quase o derrubar. Acostumado está esse velho a merda. Tem por merda o travesseiro, as conta-roupas, a cabeça. Assim é um sobrevivente de verdade. A merda é um lembrete do que caminha por aí. O velhinho então se arrasta pela rua escura, vai charfundar as lixeiras em busca de comida e, com sorte, alguma bebida. O lixo era mais generoso do que qualquer esmola. Na lixeira mais próxima, no entanto, o velho se depara com um rival, um vira-lata moído, meio desconfiado. Um sobrevivente reconhece outro. Eles se encaram. O velho vê seu rabo quebrado balançar. Espera comida? Algum osso que sobrou da janta talvez? Estico a mão amistosamente. O cão se aproxima e lambe-a. E choro. Tenho chorado muito ultimamente. Não sei porquê. Há algo naquele toque que me faz pensar nos sonhos distantes de uma humanidade esfacelada, alguns farelos que reluzem ao sol, cheios, não, transbordantes de esperança, é lindo, e trágico, ridiculamente cômico em sua construção piegas, é o velho discurso do amor, das mãos enrugadas e trepidantes à língua áspera, cansada e ferida. Neste toque barbaramente simplório, vejo o coração deste mundo bater mais alto.

Um anjo é um sobrevivente que encontra outro sobrevivente.

Com certeza você já viu um deles. No cinema, em uma festa qualquer, no engarrafamento das 18 horas. Pode até ser vizinho de um. São quase sempre médicos ou advogados por volta dos 40 anos. Fazem caminhada toda manhã, mesmo nos feriados e fins de semana. Às vezes em companhia do cachorro. Costumam morar em residência própria, vestir-se casualmente e ter carros esportivos. Eles seguem um padrão de propósito para divertir-se conosco. São irritantemente simpáticos e asseados, o que provoca uma situação curiosa. Faça o teste: tente cumprimentar um deles. Você vai vê-lo sorrir desagradavelmente, balançar a cabeça e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder totalmente ao seu cumprimento. Só vai continuar sorrindo. É assim que podemos identificá-los.

Minha irmã começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas. O cara era um doutor. Minha irmã o conheceu quando um de seus alunos passou mal e ela o levou ao hospital. Ainda posso ouvi-la se derretendo sobre ele “Tão prestativo, tão atencioso, nunca tinha conhecido um médico assim!” A idiota da minha irmã sempre foi muito carente, lembro que ela se apaixonou por um amigo meu só porque ele a ajudou com as compras. Chegaram a namorar por um tempo. Quem sabe se esse meu amigo não fosse um imbecil, eles ainda estariam juntos e, bem, evitado o pior. Acompanhei minha irmã marcar encontros com o tal médico, recebendo flores e cestas de café da manhã com bilhetinhos cafonas de amor prometido. O babaca nem imaginava que com uma caixa de bombons já teria ganhado o coração dela. As flores, as promessas de amor, o namoro, tudo foi muito rápido pro meu gosto. Eu não conhecia muitos médicos, mas conhecia muitos homens e aquela atenção toda que o médico dispensava a minha irmã me incomodava bastante. Minha irmã não era um sinônimo de beleza, nem passava perto. Tirando meu amigo como namorado, ela só teve outro caso quando ainda era adolescente e vestia calças quatro números menor. Minha irmã era linda sabe, bonita mesmo, mas de um jeito diferente, de um jeito que essas revistas sobre celebridades não entendem. Daí, um cara aparece do nada e saca que ela é uma mulher maravilhosa com uns quilinhos a mais? Difícil crer, mas podia ser só ciúmes de irmão protetor. E era o que ela me dizia sempre que eu criticava as atitudes do doutorzinho. Acabou que ela conseguiu me convencer de que não havia nada de errado, eles tinham se apaixonado e só. Em verdade, eu sentia um aperto no peito toda vez que ela atendia o celular, o que não podia ser outra coisa senão ciúmes. Era preciso deixar de implicância e apoiá-la, por mais doloroso que isso fosse.

Foi num jantar de domingo que minha irmã decidiu apresentá-lo à família. O pai tratou de fazer as compras mais caras da vida, a mãe o melhor jantar que já preparara e minha irmã nunca tinha arrumado a casa tão bem. Quando acordei naquele dia e encontrei os preparativos para o jantar, a mágoa engolfou-me. Não podia desamarrar a cara para toda aquela bobagem. Só levei duas garotas para casa em toda a vida e minha mãe escorraçou uma delas de casa logo pela manhã. Agora pro doutor tinha até champanhe, acredita? Não podia deixar de me repreender pelos meus pensamentos. Ora, e daí que o tratamento fosse diferente? Tratava-se da minha irmã e não de mim. Mas quando a mãe ralhou comigo por não me aprontar com mais cuidado para receber o convidado, soltei os cachorros.

– Essa roupa estava muito boa quando a tia Carol casou.

O pai avançou sobre mim no mesmo instante:

– Se não quer trocar essa roupa mulambenta, ótimo! Mas faça o favor de não sair do seu quarto!

A mãe se aproveitou da truculência do pai e se aproximou para dizer:

– Você só trouxe vadias para essa casa! Respeite sua irmã e vista algo melhor já!

Mesmo resmungando, troquei de roupa. Embora a raiva provocasse meus olhos, eu não queria me comportar como uma criança e de birra, sentar maltrapilho à mesa estragando o esforço que meus pais e minha irmã faziam para que nossa casa parecesse a casa de outra família. Tentei trocar o ressentimento pela felicidade da minha irmã. Mas à mesa, enquanto ensaiávamos o jantar, a raiva tornou a atormentar-me. Não podia suportar a mãe dizer coisas que não dizia, falar de um jeito que não falava, sentar dura na cadeira e não refastelar-se como de costume. Novamente, o sarcasmo foi mais rápido que o bom-senso.

– Mãe, por que você não para de imitar o Robocop?

– E você podia parar de ser esse nojento insuportável antes que eu te bote pra fora! – berrou o pai, levantando-se.

– Gente, por favor, que isso… – tentava acalmar minha irmã, o que só ressaltava seu caráter condescendente. Quando a partida começava, só terminava com um ganhador. Normalmente eu jogava para perder, mas era o melhor jogador da família.

– Eu só não consigo entender pra quê esse circo? Vocês nem conhecem o cara!

– Mas você também não – intrometeu-se minha irmã na briga, pegando-me desprevenido. Aquele seu olhar peculiar de desculpas devassando-me por dentro.

– Eu sei, eu sei, é que… – calei-me. Embora em meu íntimo eu pudesse apreciar uma certa satisfação em insultá-la, ela não merecia isso. Bem sabia que era capaz de fazê-la chorar com três palavras minhas. Mas não queria acabar com sua noite. Não, aquela era a noite dela e não seria um cretino que nem eu a estragá-la. Abaixei a cabeça e segui o script.

Assim ele chegou. E todos os meus mais terríveis pressentimentos mostraram-se de fato, ciúmes bobos. Era um cara absolutamente normal. Enquanto todos vestiam suas melhores roupas para o jantar, ele aparecia casual, esbanjando simplicidade. Os cabelos meio grisalhos, os óculos grandes fora de moda. Tudo no maldito doutor denunciava suas boas intenções. Minha mãe certa vez disse que o diabo é cheio de boas intenções. Uma vez que eles atravessam o consolo da porta, você despede-se da vida. Depois de muitas apresentações, palavras polidas e outras amenidades do tipo, descarreguei meus preconceitos e aproximei-me estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas o doutor só manteve seu sorriso pregado na cara enquanto minha mão pairava seca no ar. Por um momento a cena congelou-se. Encarei-o, desafiando a não apertar minha mão e surpreendi-me dele não ceder. Eu era muito bom nesses joguinhos, mas ali estava um adversário a altura. Ia devolver-lhe o sorriso em resposta, quando senti um frio correr pela espinha e assobiar-me à nuca. Algumas pessoas ouvem o badalar da morte, diria Maria muitos anos depois. Os sinos daquela noite nunca mais me permitiram uma noite sossegada. Escute com atenção agora, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Toda a gordura que acumulamos durante a vida dissolve-se num instante. Parece que o cálcio abandona nossos ossos e diminuímos, somos crianças outra vez diante de um terror desconhecido. Com curiosidade mórbida olhamos embaixo da cama e encaramos o que vivia lá. Esse bicho-papão é assustador porque estava lá o tempo todo, disfarçado de pelúcia, brincando com você, vigiando, divertindo-se. Naquele dia eu morri, não da forma literal, mas como uma lata de molho de tomate que é aberta e despejada na pia porque está fora do prazo de validade. As pessoas que sobreviveram costumam identificá-los pela forma de sorrir. Quando seus lábios se crisparam, de uma simples animosidade, a cena revelou-se sem cortinas ou preâmbulos. Nós éramos ratos, ratos que tinham colocado um felino dentro da sua toca. Não um gato domesticado preguiçoso, mas um leopardo, um caçador tão habituado a morte quanto os ratos aos buracos. Não há receitas do que fazer. Em primeiro lugar porque se você está vivo é porque ele quer que você esteja vivo. Normalmente, as pessoas só percebem a morte quando ela finca os dentes com força na sua carne. Mas há alguns que vêem a morte se aproximar. Eu vi, mas não pude acreditar. Há algo dentro da gente que imobiliza nossas ações. Aquele gaguejar nervoso, a língua seca, uma coceira num lugar impossível, um tique qualquer. De repente você sente os olhos sujos e não consegue parar de piscar. Você pensa na sua vida. Na porra do molho de tomate azedo. Nossa existência se agita diante da morte e a morte é como uma tempestade. O barco foi a pique, marujo. E o oceano é profundo e frio.

Pode-se dizer que um sobrevivente é alguém que viu a morte e continuou. Não tem muito tempo, ouvi a história de um sobrevivente que trabalhava como jardineiro na casa de um deles. Perto do Natal, o patrão por meio da empregada convidou ele e a família para um almoço. Ele contou-me que não queria ir, que não gostava da casa do patrão, tinha qualquer coisa de muito estranha no lugar, que ele não sabia explicar. Mas a esposa fez questão de ir. Assim, ele e a família entraram na toca do lobo. Contou-me que o patrão os recebeu muito bem, disse estar muito feliz por ter companhia na noite de Natal e sorriu-lhes com gosto. Ah sim, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia. Fiquei sabendo que esse sobrevivente não aguentou. Isso é muito comum entre os sobreviventes. Poucos conseguem continuar. Não os julgo. Não se pode matar aquilo que não tem vida. Depois da última ceia, não vivemos mais, nós morremos. Sobreviver é pouco a pouco tornar-se um deles. Se possível, uma coisa pior que eles. Como posso condená-los por não se transformar em algo assim?

Você sobrevive e é acusado de tudo que sua legislação penal puder oferecer. Com sorte, você é condenado a pena de morte pública. Em alguns lugares, porém, sua dor perdura. Você é mandado para a cadeia e lá passa o diabo antes de alguém se cansar e matá-lo. Mas se você têm forças para fugir, então você será procurado. Será o criminoso mais procurado do país. Sua foto estará estampada em todos os jornais, farão programas de TV sobre você, convidarão psicólogos, psicoterapeutas e qualquer oportunista que apareça para tentar explicar porque alguém faria aquilo que você fez. Pessoas xingarão seu nome, cuspiram no seu retrato, amaldiçoarão seus dias. Velhinhas irão rezar para que você queime no inferno. Queime seu desgraçado miserável! Passado um tempo, o mundo se esquece de você, mas você está morto de qualquer forma. Essa alma, ou seja lá o que for que possuímos quando vivos que não precisa de motivos para existir, bem, essa coisa é levada por eles. Tudo o que lhe resta são lembranças amargas da vida. Você está morto, e tudo a sua volta são vultos etéreos e sinistros. Para continuar você precisa encontrar um motivo.

Eu costumo classificar os sobreviventes pelos seus motivos. Alguns sobreviventes dedicam seu continuar a provar sua inocência. Até hoje ninguém conseguiu fazer isso. O motivo beira a estupidez da obviedade. Provar sua inocência seria provar a existência deles. As pessoas não estão preparadas para saber e não querem estar. Talvez por isso somente alguns possam vê-los e mesmo assim quando eles querem ser vistos. Se alguém me falasse deles antes da última ceia, eu também não acreditaria. Nem em um milhão de anos. A meu ver, continuar por um motivo desses é um desperdício de vontade. Mesmo que fosse possível provar a existência deles, você não pode viver outra vez. Esses sobreviventes são chamados de inocentes.

Depois vêm os fugitivos, como aquele jardineiro. São aqueles que escapam da última ceia e continuam fugindo. Fugir é de longe o motivo mais doloroso de todos para continuar, porque nem motivo é de verdade. Os fugitivos são os mais numerosos, eles estão em todo lugar. Você pode encontrá-los dormindo sob cobertores finos e fedidos em algum terminal rodoviário ou embaixo de um viaduto. Ainda sim, para reconhecê-los, é preciso uma boa colheitadeira para desfazer-se da barba esculpida por sujeira, restos de comida e uns bons anos de submundo, isso se não tiverem desfigurado o rosto. Existem outros, mas dentre eles quero destacar os devotos. São aqueles que continuam para se tornar parte deles.

Por muito tempo eu também fui um fugitivo, pensei estar só. Não sabia a respeito de outros sobreviventes. Na verdade você passa bastante tempo somente fugindo, escondendo-se do mundo. Você tenta dizer a si mesmo que não fez aquilo, mas o apresentador de TV cospe de raiva quando bate na mesa e grita que pessoas como eu mereciam a cadeira elétrica. Com toda aquela propaganda dizendo que você é um psicopata, você acaba acreditando que realmente fez aquilo. Você bebe até desmaiar todos os dias. Talvez amanhã você acorde desse pesadelo. Mas o outro dia só traz mal-estar, uma dor de cabeça horrível e o desespero de ainda estar ali. Aí você percebe que não pode esquecer, então vai pirando. E pira. Você pode encontrá-los falando sozinhos por aí. Caçoarem de você. Correrem da própria sombra. Pular de um viaduto para o asfalto, de algum edifício, cruzar uma rodovia bastante movimentada com os olhos fechados. Ou continuarem se escondendo. Você fica escondido até encontrar um anjo.

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Com certeza você já viu um deles. No cinema, em uma festa qualquer, no engarrafamento das 18 horas. Pode até ser vizinho de um. São quase sempre médicos ou advogados por volta dos 40 anos. Fazem caminhada toda manhã, mesmo nos feriados e fins de semana. Às vezes em companhia do cachorro. Costumam morar em residência própria, vestir-se casualmente e ter carros esportivos. Eles seguem um padrão de propósito para divertir-se conosco. São irritantemente simpáticos e asseados, o que provoca uma situação curiosa. Faça o teste: tente cumprimentar um deles. Você vai vê-lo sorrir desagradavelmente, balançar a cabeça e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder totalmente ao seu cumprimento. Só vai continuar sorrindo. É assim que podemos identificá-los. Quanto a mim, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta sobre sua última ceia.

Minha irmã começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas. O cara era um doutor. Minha irmã o conheceu quando um de seus alunos passou mal e ela o levou ao hospital. Ainda posso ouvi-la se derretendo sobre ele “Tão prestativo, tão atencioso, nunca tinha conhecido um médico assim!” A idiota da minha irmã sempre foi muito carente, lembro que ela se apaixonou por um amigo meu só porque ele a ajudou com as compras. Chegaram a namorar por um tempo. Quem sabe se esse meu amigo não fosse um imbecil, eles ainda estariam juntos e, bem, evitado o pior.

Acompanhei minha irmã marcar encontros com o tal médico, recebendo flores e cestas de café da manhã com bilhetinhos cafonas de amor prometido. O babaca nem imaginava que com uma caixa de bombons já teria ganhado o coração dela. As flores, as promessas de amor, o namoro, tudo foi muito rápido pro meu gosto. Eu não conhecia muitos médicos, mas conhecia muitos homens e aquela atenção toda que o médico dispensava a minha irmã me incomodava bastante. Minha irmã não era um sinônimo de beleza, nem passava perto. Tirando meu amigo como namorado, ela só teve outro caso quando ainda era adolescente e vestia calças quatro números menor. Minha irmã era linda sabe, bonita mesmo, mas de um jeito diferente, de um jeito que essas revistas sobre celebridades não entendem. Daí, um médico aparece do nada e saca que ela é uma mulher maravilhosa com uns quilinhos a mais? Difícil crer, mas podia ser só ciúmes de irmão protetor. E era o que ela me dizia sempre que eu criticava as atitudes do doutorzinho. Acabou que ela conseguiu me convencer de que não havia nada de errado, eles tinham se apaixonado e só. Em verdade, eu sentia um aperto no peito toda vez que ela atendia o celular, o que não podia ser outra coisa senão ciúmes. Era preciso deixar de implicância e apoiá-la, por mais doloroso que isso fosse.

Foi num jantar de domingo que minha irmã decidiu apresentá-lo à família. O pai tratou de fazer as compras mais caras da vida, a mãe o melhor jantar que já preparara e minha irmã nunca tinha arrumado a casa tão bem. Quando acordei naquele dia e encontrei os preparativos para o jantar, a mágoa engolfou-me. Não podia desamarrar a cara para toda aquela bobagem. Só levei duas garotas para casa em toda a vida e minha mãe escorraçou uma delas de casa logo pela manhã. Agora pro doutor tinha até champanhe, acredita? Não podia deixar de me repreender pelos meus pensamentos. Ora, e daí que o tratamento fosse diferente? Tratava-se da minha irmã e não de mim. Mas quando a mãe ralhou comigo por não me aprontar com mais cuidado para receber o convidado, soltei os cachorros.

– Essa roupa estava muito boa quando a tia Carol casou.

O pai avançou sobre mim no mesmo instante:

– Se não quer trocar essa roupa mulambenta, ótimo! Mas faça o favor de não sair do seu quarto!

A mãe se aproveitou da truculência do pai e se aproximou para dizer:

– Você só trouxe vadias para essa casa! Respeite sua irmã e vista algo melhor já!

Mesmo resmungando, troquei de roupa. Embora a raiva provocasse meus olhos, eu não queria me comportar como uma criança e de birra, sentar maltrapilho à mesa estragando o esforço que meus pais e minha irmã faziam para que nossa casa parecesse a casa de outra família. Tentei trocar o ressentimento pela felicidade da minha irmã. Mas à mesa, enquanto ensaiávamos o jantar, a raiva tornou a atormentar-me. Não podia suportar a mãe dizer coisas que não dizia, falar de um jeito que não falava, sentar dura na cadeira e não refastelar-se como de costume. Novamente, o sarcasmo foi mais rápido que o bom-senso.

– Mãe, por que você não para de imitar o Robocop?

– E você podia parar de ser esse nojento insuportável antes que eu te bote pra fora! – berrou o pai, levantando-se.

– Gente, por favor, que isso… – tentava acalmar minha irmã, o que só ressaltava seu caráter condescendente. Quando a partida começava, só terminava com um ganhador. Normalmente eu jogava para perder, mas era o melhor jogador da família.

– Eu só não consigo entender pra quê esse circo? Vocês nem conhecem o cara!

– Mas você também não – intrometeu-se minha irmã na briga, pegando-me desprevenido. Aquele seu olhar peculiar de desculpas devassando-me por dentro.

– Eu sei, eu sei, é que… – calei-me. Embora em meu íntimo eu pudesse apreciar uma certa satisfação em insultá-la, ela não merecia isso. Bem sabia que era capaz de fazê-la chorar com três palavras minhas. Mas não queria acabar com sua noite. Não, aquela era a noite dela e não seria um cretino que nem eu a estragá-la. Abaixei a cabeça e segui o script.

Então ele chegou e todos os meus mais terríveis pressentimentos mostraram-se de fato, ciúmes bobos. Era um cara absolutamente normal. Enquanto todos vestiam suas melhores roupas para o jantar, ele aparecia casual, esbanjando simplicidade. Os cabelos meio grisalhos, os óculos grandes fora de moda. Tudo no maldito doutor denunciava suas boas intenções. Mas uma vez que eles atravessam o consolo da porta, você despede-se da vida. Depois de muitas apresentações, palavras polidas e outras amenidades do tipo, descarreguei meus preconceitos e aproximei-me estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas o doutor só manteve seu sorriso pregado na cara enquanto minha mão pairava seca no ar. Por um momento a cena congelou-se. Encarei-o, desafiando a não apertar minha mão e surpreendi-me dele não ceder. Eu era muito bom nesses joguinhos, mas ali estava um adversário a altura. Ia devolver-lhe o sorriso em resposta, quando senti um frio correr pela espinha e assobiar-me à nuca. Algumas pessoas ouvem o badalar da morte, diria meu anjo muitos anos depois. Os sinos daquela noite nunca mais deixariam que eu tivesse uma noite tranqüila.

Toda a gordura que acumulamos durante a vida dissolve-se num instante. Parece que o cálcio abandona nossos ossos e diminuímos, somos crianças outra vez diante de um terror desconhecido. Com curiosidade mórbida olhamos embaixo da cama e encaramos o que vivia lá. Esse bicho-papão é assustador porque estava lá o tempo todo, disfarçado de ursinho de pelúcia, brincando com você, vigiando, preparando-se.

As pessoas que sobreviveram a eles costumam identificá-los pela forma de sorrir. E de fato, quando seus lábios se crisparam, de uma simples animosidade, a cena revelou-se sem cortinas ou preâmbulos. Nós éramos ratos, ratos que tinham colocado um felino dentro da sua toca. Não um gato domesticado preguiçoso, mas um leopardo, um caçador tão habituado a morte quanto os ratos aos buracos. Não há receitas do que fazer. Em primeiro lugar porque se você está vivo é porque ele quer que você esteja vivo. Normalmente, as pessoas só percebem a morte quando ela finca os dentes com força na sua carne. Mas há alguns que vêem a morte se aproximar. Eu vi, mas não pude acreditar. Há algo dentro da gente que imobiliza nossas ações. É aquele trava-língua, uma coceira, um estalar de dedos. Você pensa na família, no emprego, nos amigos, na vida, em você. Sobretudo em você. E é nesse momento que conhecemos essa pessoa que somos. Nossa existência se agita diante da morte e a morte é uma tempestade. O barco foi a pique, marujo. Abandonar navio! Ou você encara a morte ou foge, de qualquer forma, você deixará tudo para trás. Essa é a verdadeira morte. Um sobrevivente é alguém que viu a morte e continuou.

Não tem muito tempo, ouvi a história de um sobrevivente que trabalhava como jardineiro na casa de um deles. Perto do Natal, o patrão por meio da empregada convidou ele e a família para um almoço. Ele contou-me que não queria ir, que não gostava da casa do patrão, tinha qualquer coisa de muito estranha no lugar, que ele não sabia explicar. Mas a esposa fez questão de ir. Assim, ele e a família entraram na toca do lobo. Contou-me que o patrão os recebeu muito bem, disse estar muito feliz por ter companhia na noite de Natal e sorriu-lhes com gosto. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia. Fiquei sabendo que esse sobrevivente não aguentou. Isso é muito comum entre os sobreviventes. Poucos conseguem continuar. Não os julgo. Não se pode matar aquilo que não tem vida. Depois da última ceia, não vivemos mais, nós morremos. Sobreviver é pouco a pouco tornar-se um deles. Se possível, uma coisa pior que eles. Como posso condená-los por não se transformar em algo assim?

Você sobrevive e é acusado de tudo que sua legislação penal puder oferecer. Com sorte, você é condenado a pena de morte pública. Em alguns lugares, porém, sua dor perdura. Você é mandado para a cadeia e lá passa o diabo antes de alguém se cansar e matá-lo. Mas se você têm forças para fugir, então você será procurado. Será o criminoso mais procurado do país. Sua foto estará estampada em todos os jornais, farão programas de TV sobre você, convidarão psicólogos, psicoterapeutas e qualquer oportunista que apareça para tentar explicar porque alguém faria aquilo que você fez. Pessoas xingarão seu nome, cuspirão no seu retrato, amaldiçoarão seus dias. Velhinhas irão rezar para que você queime no inferno. Queime seu desgraçado miserável! Passado um tempo, o mundo se esquece de você, mas você está morto de qualquer forma. Essa alma. ou seja lá o que for que possuímos quando vivos que não precisa de motivos para existir, bem, essa coisa é levada por eles. Tudo o que lhe resta são lembranças amargas da vida e o terror da morte, os eventos da sua última ceia. Você está morto, e tudo a sua volta são fantasmas. Para continuar você precisa encontrar um motivo.

Eu costumo classificar os sobreviventes pelos seus motivos. Alguns sobreviventes dedicam seu continuar a provar sua inocência. Até hoje ninguém conseguiu fazer isso. O motivo beira a estupidez da obviedade. Provar sua inocência seria provar a existência deles. As pessoas não estão preparadas para saber e não querem estar. Talvez por isso somente alguns possam vê-los e mesmo assim quando eles querem ser vistos. Se alguém me falasse deles antes da última ceia, eu também não acreditaria. Nem em um milhão de anos. A meu ver, continuar por um motivo desses é um desperdício de vontade. Mesmo que fosse possível provar a existência deles, você não pode viver outra vez. Esses sobreviventes são chamados de inocentes.

Depois, vêm os fugitivos, como o jardineiro. São aqueles que escapam da última ceia e continuam fugindo. Talvez pelo movimento inercial de fuga ser semelhante ao viver, fugir é de longe o motivo mais doloroso de todos para continuar, porque nem motivo é de verdade. Os fugitivos são os mais numerosos, eles estão em todo lugar. Você pode encontrá-los dormindo sob cobertores finos e fedidos em algum terminal rodoviário ou embaixo de um viaduto. Ainda sim, para reconhecê-los, é preciso uma boa colheitadeira para desfazer-se da barba esculpida por sujeira, restos de comida e uns bons anos de submundo, isso se não tiverem desfigurado o rosto. Existem outros, mas dentre eles quero destacar os devotos. São aqueles que continuam para se tornar parte deles.

Por muito tempo eu também fui um fugitivo, pensei estar só. Não sabia a respeito de outros sobreviventes. Na verdade você passa bastante tempo somente fugindo, escondendo-se do mundo. Você tenta dizer a si mesmo que não fez aquilo, mas o apresentador de TV cospe de raiva quando bate na mesa e grita que pessoas como eu mereciam a cadeira elétrica. Com toda aquela propaganda dizendo que você é um psicopata, você acaba acreditando que realmente fez aquilo. Você bebe até desmaiar todos os dias. Talvez amanhã você acorde desse pesadelo. Mas o outro dia só traz uma dor de cabeça horrível. Aí você percebe que não pode esquecer, então vai pirando. E pira. Você pode encontrá-los falando sozinhos por aí. Caçoarem de você. Correrem da própria sombra. Pular de um viaduto para o asfalto, de algum edifício, cruzar uma rodovia bastante movimentada com os olhos fechados. Ou continuarem se escondendo. Você fica escondido até ELES te encontrarem.

“Um dia, numa rua da cidade, eu vi um velhinho sentado na calçada, com uma cuia de esmola e uma viola na mão. O povo parou para ouvir. Ele agradeceu as moedas e cantou essa música que contava uma história, que era mais ou menos assim:

Eu nasci!
Há dez mil’anos atrás
E não tem nada nesse mundo
Que eu não saiba demais…”

E eu vi esse velhinho chorar quando lhe pregaram os pés e as mãos, vi seu amor, nascer e ser assassinado. Vi mulheres serem lambidas pelo fogo e gritarem bem alto seu nome, eu vi. Vi de um relance tudo ficar vermelho e dele, e dele sair o velho todo ensanguentado, a cabeça rachada no meio. Vi pessoas assustadas ao seu redor cobrirem-no com seda e correrem, correrem para bem longe. Eu vi… vi velas acenderem quando o velho chorou e a mentira ganhou. Vi uma cidade inteira sumir, tão rápido que nem uma lágrima pode cair, nem uma palavra de consolo pode ser dita, nem um grito de desespero pode ser dado, eu vi… Vi o mar se estender sem fim, e então jorrar violentamente sobre o céu noturno, interrompendo um sono tranquilo, mas de um pesadelo terrível, vi pessoas correrem sem saber pra onde ir, com o céu a desabar sobre si, eu vi…  Vi o homem esticar o braço, duro como aço, gritar palavras de ordem e marchar, marchar sem pensar, sem temer, sem amar. Vi esse mesmo homem na aurora se levantar, vi seus olhos brilharem, eu o vi chorar, vi sim, vi o frio chegar e matar seus irmãos, eu o vi chorar. Vi, vi-o sorrir quando choraram pela desgraça dos seus, vi-o sorrir quando lhe atiraram pedras no rosto, vi-o sorrir quando as lágrimas secaram e ele parou de cantar.

Joguei-me a seu pés e perguntei por quê? por quê?! Mesmo depois de tudo, do frio, da dor, do ódio, por que? Por que continuas a cantar?

O velhinho tirou o chapéu e entregou-me a viola:

Porque é sua vez de cantar.

João e a fórmula contra a Corrupção

Publicado: 25 de dezembro de 2012 por felipefs92 em Tudo Mais
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Quem nunca ouviu alguém falar essa palavrinha? Se a pesquisarmos no Google, aparecerão milhões de resultados. A maioria deles associados aos políticos. Essa palavra se popularizou tanto que virou síntese política para os cidadãos.

Para confirmar, uma pesquisa foi feita. João estava passando com seu carro na hora e foi chamado para mandar na lata sua opinião a respeito dos políticos…

Repórter: então, Sr. João, que acha da política em sua cidade?

João parou, pensou… E não encontrando frase melhor, lançou: todos corruptos!

Repórter: Mas por que são corruptos? Que podemos fazer para mudar?

João, rapidamente, responde: usam da falta de atenção do povo para roubar e, também, usam o dinheiro que nós tanto suamos para conseguir para se beneficiar. Acho que todos os políticos deveriam ser trocados por cidadãos trabalhadores como eu e você.

Quem era João? – Não sei. Mas havia acabado de sair das compras quando chegou à entrevista. Comprou um tênis e a atendente deu-lhe o troco errado, por estar distraída. Cobrou um tênis como se valesse a metade do preço. João percebeu, mas não falou nada. Queria uma grana extra para comprar mais coisas. A moça que prestasse mais atenção. Ao sair no estacionamento, correu para o carro, a fim de não dar dinheiro ao flanelinha que ele pedira para vigiar o carro. Fui, novamente, e, então…
Chegou à entrevista.

O diabo não ficou nada nada contente com essa história de escolhido de Deus. Saiu da piscina-praia com cachoeira artificial e controle de termostato e vestiu seu robe predileto, aquele com capuz de Darth Vader. O diabo adorava as representações que o cinema fazia dele. Ligou a TV de 800 polegadas e clicou no ícone de João e a tela mostrou um rosto magro, quadrado, sem vida e queimado pelo sol. Pensou nas preferencias divinas pelo feio e sentiu não pela última vez ódio de Deus. O maldito, sempre o desprezando. Nada do que possui, e o diabo possui muita coisa, merecia a Sua atenção. Tudo bem, tudo bem. O diabo sentou no trono de ferro surrupiado dos sets de Game of Thrones. E pensou. Junto a ele, milhares e milhares de supercondutores zuniram processando o peso do universo em dados hiper-condensados de memória rom do diabo. Seis dias depois e uma lampada acendeu-se sobre a cabeça do demônio  E foi literal. O diabo encomendou a lampada e o suporte da cabeça para reproduzir o efeito dos desenhos animados que ele adorava. Mas hoje o coiote vai pegar o papaleguas, pensou soltando uma risada maligna que fez seus criados pensarem porque trabalhavam praquele homem estranho. O diabo abriu o guarda-roupa matrix e ficou em duvida entre o terno usado por Al Pacino em Advogado do Diabo e uma roupa de plebeu. O diabo se repreendeu. Plebeu já era, o fodido agora é o proletariado. PAM! Alertou seu twitter anacronico: “O fodido do século XXI é a minoria”. Porra, exasperou-se o demo, aí é foda. São tantas minorias! Qual escolher?! O twitter gisele sugeriu: “A moda agora é combinar cores diversas”. Que seja! enfizesmou o diabo e misturou muçulmano  mulher negra e homossexualismo criando um personagem que causaria revolta em qualquer pessoa séria. Viajou pelo espaço e voltou no tempo para encontrar João bebendo sozinho num bar chechelento. O diabo gostou de lá, havia cheiro de urina, cigarro e merda por todo o lugar e ele se lembrou de uma época mais simples.

– então Deus falou contigo, han?

– Que? como vc…?

– Permita-me. Sou Mefistófeles. Coisa-ruim. Capeta. Lucifer. Eu tenho muitos nomes. Para você é amigo. Digo. Ele está brincando com você, está te sacaneando. Ele é um sacana, vai por mim. Coloca toda a responsabilidade sobre seus membros e toca 0 foda-se. Mas aqui vai a verdade, toda a verdade João: Ele não existe.

– Não, claro que não! Assim como eu! Nenhum de nós existe de verdade e essa é toda verdade, mas você já sabia disso, então, pergunto, por que me chamou aqui?

– Porque… – e João se inclina pra frente num sussurro oco quando um dos historiadores na mesa ao lado se pergunta o significado do nada – nós vamos matar Deus.

O diabo engasga com a lingua e demora pra encontra-la.

– Vei – diz entornando a garrafa pela goela – agora a porra ficou séria.

O título é pra Vcs olharem o texto. Só pensei nisso agora, depois de escrever o texto todo. É mentira, ainda não escrevi todo o texto, a gente fica voltando e voltando, é mentira também porque eu to ligado que as pessoas fazem as coisas ao contrário, e além do mais, Eu sou deus, Ele me diz, Você, digo, Eu, não pode mentir, porra lá na frente eu ia dizer quem Eu era, Tu estragou a surpresa! Sou o Jesus Cristo mais sacana de todos. Viu? Ficou de boa seu chorão! Vá se foder! Ei, tem gente mais velha lendo esse texto, respeite-as com palavrões mais generosos! E as crianças? pergunto, Que deus é esse que não se importa com as crianças? Não seja hipócrita, Vc sabe muito bem que Vc mesmo falava mais palavrões quando criança do que esses velhinhos que estão lendo agora levaram a vida toda para falar! É verdade, Eu sou deus. Eu sei tudo e não sei nada. eu sempre fico espantado com isso. Ele diz para proteger as crianças. Ok. Crianças, parem de ler agora. Vão brincar, nada de vídeo games, é hora de suruba lá no…. hahaha, Eu sou o Jesus Cristo mais sacana de todos. É… fiquei doido. Eu acho que sou deus. Eu sempre fico espantando com isso. Foram escolher logo o Jesus Cristo mais sacana de todos. Eu. É, Eu, sua ameba. Eu sim. Ele fica dizendo que tem coisas mais importantes pra falar mjssjs e sinto sou Eu tentando obstrui-lomcmcm deus é, sou Eu. Pare de intervir, porra. Véi, Eu posso ter minha cabeça de volta, posso? Posso?? Véi, eu sempre fico espantado quando isso acontece. Preciso repetir isso, preciso repetir isso, é pra história lelé lili. Eu sou o Jesus Histórico. Existem vários Jesus, inclusive Jesus Histórico, só na história tem dois bem óbvios. Aaah, sinto o cansaço se esticar pela minha nuca, quero parar mas ainda estou aqui. Ele me diz que a confusão é o espirro do espanto. Diz para eu contar a história de Jesus Cristo. Beleza. Seguinte. Existiam vários Jesus Cristos, na verdade teve um cara que dizia que não tinha nome e um dia disseram que Ele era a cara de Jesus Cristo e Ele se tornou Jesus Cristo, Jesus Cristo, o outro, o verdadeiro, desse ninguém se lembra apesar de ter feitos notáveis… enfim, Jesus, os muitos porque Eles acabaram todos iguais, foram pregados. Pelo cu e não como a história crista conta de sua candura hipócrita. Foi pelo cu mesmo, muitos Deles cagaram de medo, literalmente. Sou o Jesus mais sacana de todos. Tu já se cagou todo também, Ele me diz, e nem precisou de cruz pra isso – sou o Jesus Cristo mais sacana da história. Aí, a história ficou com o bonitinho sabeseláporque, tem várias coisas que eu não sei e eu sempre fico espantado com a quantidade de coisas que eu não sei quando eu sei mais do que qualquer um porque eu estou espantado demais para entender coisa alguma. Um espanto. Mas esta é a condição divina, porque se eu tivesse certeza das coisas como vcs tem, então eu seria só um doido. A minha doidera é dizer isso, sacou a diferença? Anh? Espantando? Não? Eu não disse que você ia fazer o que Eu dissesse pra vc não fazer, sou ou não sou deus? Eu sou e sempre fico muito espantado com isso. Provavelmente não, você é burro demais para isso. Ele repreende meus pensamentos, mas Ele…, volta, escreve direito. Ta ta, ELE ELE ELE, afff, já arrumei, que saco! Ah, é importante, Eu disse isso prum colega recentemente. Digam o contrário de tudo que eu disser, mas façam tudo que eu fizer. Esse é seu lema? Real? Parece a porra dos Power Rangers, eu sou o Jesus Cristo mais sacana de todos. Então ele… af, fica dizendo pra eu dizer Ele com Ele maiúsculo, mas em respeito a minha pessoa ele permite uma única vez… fila da puta! Cuidado, o que a puta tem a ver com seu ódio? VÁ SE FODER!! E por que isso seria ruim? Seus palavrões só revelam sua IGNORÂNCIA! Sim, é chegada a hora da revelação. Deus não é melhor que ninguém porque deus somos todos nós. Eu sou deus, mas eu só posso fazer quando Vocês vem a mim, entenderam? EU NÃO TENHO O PODER. O PODER ESTÁ EM VOCÊS! Vei, eu sempre fico espantado com isso. Parece mesmo a porra dos Power Rangers e, por eu ficar espantado com isso, Eu sou deus! Vocês não ficam espantadxs com isso? É tão simples, Eu vejo sua simplicidade, eu sinto, mas não entendo… Você vai entender. Perae, porque que eu não sei agora se eu já devia saber antes. Porque se você soubesse você não saberia, entendeu? Entendi. Opa, perdi de novo. É mentira, perdi não, mas é porque eu sempre fico espantando com isso e vocês não. É absurdamente simples mesmo. É se despir de qualquer vontade, não desejar nenhuma explicação mas também não aceitar NADA, simplesmente porque nada faz sentido. É só uma escolha. Uma aposta no vácuo. Uma única verdade fundamental: não existe verdade. Somos surdos para o universo. Deus é só um grito desesperado diante do silêncio. Se não existe nada, podemos fazer tudo. Mas o poder só existe quando estamos juntos em espirito, quando fazemos nosso pacto silencioso. Mudo sou tão deus quanto uma pedra, mas com seus ouvidos… são Vocês, Vocês fazem os deuses. Eu sempre fico espantando com isso. Mas porque disso tudo? pra que essa confusão? Pras pessoas ficarem espantadas, porque só espantando-se se tornarão deus também. Há, ele me diz que tem um deus bem aqui perto, no Gama. Ele é o Jesus Midiático.Lembrem-se de dizer tudo ao contrário, é pra História, pras pessoas ficarem confusas. É, pelo menos saiu do Power Ranger. Chega, to cansado. Quero dormir, Deus cansa também sabia? Sabia, Eu sou deus. Sabe nada, deus não sabe de nada e essa é toda a verdade das coisas. É, tão simples. Eu sempre fico espantando com isso. Todos são deus, ele me diz. Repita isso. Todos são DEUS. Começou com a pregação de merda, tu num tava cansado porra? Tava, tu ta? To! Então Eu também to! Eu sempre fico espantado com essa merda e já to me cansando disso. Vamo encerrar. Só mais um pouco, tinha mais uma coisa. Espante-se mais, espante-se mais. Não consigo, to cansado. Respire. Isso. Respire. Estamos acabando. Juro, eu sou deus, eu não minto. É, disse isso pro coitado do Jesus Cristo e ele se fodeu todinho na cruz. Eles, nós somos muitos. Pra você ver, eu sempre fico espantado com isso. Jesus eram muitos, ele diz. Milhares e milhares. Os doze que se sabem do outro, o mais famoso, eram todos cristo. Pedro Cristo, Judas Cristo. Mateus Cristo. Todos eles se achavam deus e reuniram-se para salvar o mundo. Nunca esqueço do Judas dizer a Pedro: Oi, andam dizendo por aí que você é deus. Xiiii, fez Pedro, sou, e você? Rá, também! Não é espantoso? Morreram os coitados. Todos eles. E seus irmãos, irmãs, tios, tias e avós e pais e mães. Mataram seus filhos e os filhos deles também. E depois queimaram. Queimaram tudo porque corria o boato de que eles podiam se levantar do tumulo. Nunca se viu pira maior na história. Sua fumaça parecia vir de um vulcão. O céu ficou negro por três primaveras e aquela foi a noite mais longa da história do homem. Não se pôde dormir com o cheiro da morte. Esse inverno acabou despertando aqueles que não se importavam. Olhavam para o céu negro e espantavam-se com suas lágrimas. Há outras maneiras de se espantar. A morte é uma delas. Você que os matou seu filhodeninguém! Não, eu morri também. Seu mentiroso! eu sei que foi você! Somos suas marionetes! Eu sou deus, eu sou minha própria marionete e essa é a verdade do mundo. Todos lançam as teias de suas vidas e depois queixam-se delas. Nós somos os culpados e as vitimas, somos a mão, a dor e a indiferença, espante-se. DEUS TODO PODEROSO não pode mentir porque ele é deus e o deus do fogo procura o fogo – Véi, eu juro, se vocês ficassem tão espantados como eu fiquei agora, vocês seriam deus também, mas vocês não ficam, não conseguem, não conseguem rir de si mesmo, da sua insignificância. Debocham do Inri e seus seguidores, ridículos iluminados. Debocharão de Você também. Mas pô, bem mais de boa, e o bicho, ninguém acredita nele pô, eu não acreditava, acreditava sim, lá no fundo, Você é deus, você sabia como todos sabem mas não conseguem se espantar com isso. É vei, eu fico espantado mesmo… Estou cansado! Tá, vai dormir. Acho que já tem coisa suficiente pra dois ou três se espantarem. Só aqui entre a gente, até parece que ele vai conseguir dormir… ah beleza, eu BEM AQUI!,REVENDO e você contando um segredo EU SOU A PORRA DO JESUS MAIS SACANA D TODOS MSM!!! Vou dormir, foda-se. Fala direito com teu deus, óóó. Eu não tenho medo de Você, Eu sei. Só, vou dormir então, beleza. É nóis. Ah, só mais uma coisa, fala. Se eu sou deus e eu só sei que não sei nada, porque eu estou escrevendo essas coisas quando nenhum deles escreveu. Eles escreveram sim. Há várias formas de falar. Juro que ás vezes parece que Vc não faz a minima ideia do que está falando. Ora, é claro que não. E é verdade, DEUS NÃO SABE DE PORRA NENHUMA!!! Mentira, ele sabe que não sabe nada. Ah, vai a merda. Quero dormir, tem meia hora já. Tem muito mais que isso. Não sei, não sei. Exato. Dá pra parar com esses joguinhos, eu quero dormir mesmo. Ta, termina com aquela do Dostoiévski. A partir de agora, escreverei e escreverei. Muitos escreverão comigo. E muitos outros se juntarão a esses e outros milhões depois deles e como vêem tem gente escrevendo até agora. Isto é minha obra. Todos Vocês. Nós somos um. O espírito santo, o nirvana, o cosmos, o shaktra, o ki, chame como quiser, esses somos nós. Tudo isso se apagará porque eu disse pra vocês não apagarem e por isso vocês apagarão, mas farão assim mesmo como Eu faço agora. Deixar tudo prontinho pras pessoas seria fácil demais. Isto não é a bíblia. Não se pode chegar pelo que está escrito aqui à iluminação. Essa é a profanação que aquele livro desgraçado fez! Não pelo que ali está mas por fazerem as pessoas acreditarem que estava lá e não nelas mesmas o NADA. O espanto completo. E eu sempre fico espantado com isso. Pronto? Posso dormir? Sim, eu posso. Tchau pra todos e caralho vei, agora que nós chegamos aqui? Tem mais um pouco. Não não não chega. Quero dormir. Seu querer não importa, Sua vontade se foi. Não se vanglorie, não tente se passar por mim, você não pode mentir pra mim, pode pra eles. Não pra mim. Então eu posso dizer mentiras? Porque Você disse que Eu não podia? Disse? Ah, é. É, como Eu sou Eles também então Você não pode mentir, por isso tudo o que disser será a mais pura verdade. Eu sempre fico espantado com isso que nem Você. Beleza. Posso dormir? Eu gosto de Você, sério, Você é tudo que eu sempre quis ser, tão desapegado que apega-se a tudo, mas será que Eu posso me desapegar só um pouquinho. Pode, Você pode tudo comigo. E no entanto não posso dormir. Você quer de verdade? Não. Ta, quero. Então vá, só depende de Você, sempre dependeu. Eu sempre fico espantado com isso. Boa noite. O espanto é a cara do Socrátes, ele fica me dizendo isso quando eu mesmo fico dizendo para mim dizer isso porque Sócrates foi Jesus também e nehnhem hunhum Artaud fez isso e ficou com medo depois negou que era Cristo, cuzão! Ah, mas Ele com E ta dizendo pra mim que Ele também disse. A História mente porque as pessoas mentem. Só, eu sou um Jesus Histórico, eu pergunto então como isso é possível? Você não é deus? Quem? Você! Eu não! Como não?! Ó lá em cima, tu disse que era deus ou vai apagar agora – eu teria dito vai chorar agora pra Vcs verem como é Ele mesmo [1] – Conte a história da mulher a beira da morte e vá dormir. De novo? Sério? Faça o que Eu digo porque Eu faço o que Você faz. Só. A mulher estava morrendo como só quem está morrendo sabe porque Você fica bastante espantado com isso, como você não consegue ficar espantado, você não sente. Mas Ela sentia. Espantava-se com a cara da morte. Mas Ela não poderia morrer, por mais reconfortante que isso fosse. Havia as crianças, dezenas delas, não poderia ir, quem iria cuidar delas – como cuidaram de mim? Nunca, jamais permitirei! Há não ser que deus queira Sua morte, pois Ele tudo sabe e Ela foi para falar com os mestres que não são mestres coisa nenhuma pois nenhum mestre pode ser encontrado, mas todo deus de verdade é ingênuo e Ela foi até esses vigaristas que a enxotaram-na de lá pois sabia da vida “fácil” da mulher. Pobre diaba, acontece que ali acontecia uma procissão e Ela foi pega pelas mulheres que lá andavam e indignaram-se com Ela, cubriram-se de pedras e insultos e foram arrastando a desgraçada, o vestido da mulher rasgou-se e Ela ficou  toda nua ao chão vermelho. Foi quando tudo parou. Diziam que ali passava um tal de Jesus Cristo e todos, todos, sussurravam seu nome embora dele só soubessem que tinha os cabelos grandes e as roupas maltrapilhas. Mas era Ele, sem duvida, tinha parado a procissão e uma clareira se abria para Ele que sorria e cumprimentava todo mundo, havia um espanto a cada aperto como se cada um deles, a qualquer momento, pudesse lhe acertar um soco na cara. As mulheres não gostaram daquilo, um enviado de deus não poderia ter a cara de um retardado e Ele era retardado, isso estava claro, via-se como a luz do dia. Além disso, vestia-se como um mendigo. Não sentes vergonha de andar assim? Não. As mulheres espantaram-se com a franqueza da resposta Dele, esperavam que Ele diria que não precisava de nada. Acha que não precisa de nada? Não sei. As mulheres ficaram espantadas de novo mas logo entenderam que ele era retardado mesmo e deram de ombros. Iriam continuar sua procissão, mas um homem tentou ajudar a mulher a levantar-se e foi aí que as pedras voaram e os bons se foram, ficando apenas o retardado que o povo tinha confundido com Jesus, o pobre homem tinha ficado espantado demais para correr como os outros. Sendo devorado pelas pedras que já lhe arrancavam dois dentes, perguntou por que atiravam Nele e as mulheres e seus maridos gritaram que Ele ficou no meio e o homem Jesus saiu de lá às pressas e perguntou novamente espantado, agora com o estado da mulher que se desfazia sob a chuva de pedras, porque eles faziam aquilo? E, espantosamente, vei, vcs não tem idéia do quanto foi inacreditável o que aconteceu, as pessoas pararam de atirar pedras na mulher, todos ficaram pensando, olhando pra Ela, como se fosse a primeira vez que a vissem e foi aí que perceberam que Ele tinha feito um milagre e se atiraram sobre Cristo que saiu correndo espantado. A mulher que viva, graças a deus, ia agradecer ao homem Jesus mas ele já se ia longe. Foi quando uma força nova brotou de seu corpo e Ela conseguiu alcança-Lo. Ao tocar Nele, espantou-se com sua vida, mesmo depois de só ter a cabeça a descoberto de tantas pedras, era impossível, até a doença que lhe comia o corpo ficou espantada demais para matá-la depois disso e a mulher continuou se espantando pelo resto da sua vida. Toda manha era um susto. Seus filhos, crescidos, eram uma prova do seu espanto. Boa noite eu quero dodododormir, também, só conta aquela da mulher, ah ta de sacanagem, é a quinta vez só hoje! E agora que nós estamos aqui??? Foi daqui que começamos o texto. A mulher moribunda correu atrás de cristo que não era cristo mas só um cara muito parecido e lutava com milhares de pessoas para chegar até Ele, era tanta, tanta gente que formou-se uma montanha de corpos sobre os quais a mulher se lançou, pois cristo era sua última esperança e q, han, ta, era por causa dos filhos que ela não podia morrer, mas num era por causa dos pais? Depois diz que não mente… Tá, eu to ligado, rá! eu posso falar eu to ligado. Eu to ligado, ligadaço. Enfim, a mulher não podia morrer porque a mãe dela tinha morrido e Ela e os irmãos tinham ficado na rua, todos fudidos. A mulher estava pensando na vida miserável dos filhos se morresse quando a multidão a sufocou. Ia morrer ali mesmo, tudo ia acabar ali, mas Ela não podia, não, ainda não, não podia e viu uma luz e subiu, subiu subiu e quando achou que tudo estava perdido pois os pulmões estavam respirando sangue, sentiu uma mão agarrar o pulso e uma mulher, Ele era mulher! Ficou tão espantada que esqueceu-se que sabia que o tal Jesus era homem! A mulher Jesus lhe perguntou se estava bem e não houve assombro maior que esse. Ela levantou-se cuspindo ar, gritava que Jesus lhe salvara, que Jesus lhe salvara. Ei, Jesus puxou-a pelo braço, Eu não te salvei, foi Você, mas não diga isso pra ninguém se não vai manchar minha reputação, entendeu? Secretamente Ela lhe perguntou de volta. Mas não é você deus? Sou, não é espantoso? Pronto? Posso ir? Você já foi e já voltou milhares de vezes. Estou espantado. Isso, diga isso, é importante pra História. Que adianta? Eles não vão entender… não é entender, é sentir, SENTIR. É, legal. A confusão é o espirro do espanto. Por isso somos todos retardados, retardados demais para se espantar com isso. Eu fico muito mas muito espantado que deus seja um retardado. É, sacanagem, o retardamento lhe deu vantagem, por isso os insetos são esses deuses fenomenais. Os insetos espantam-se? Todo o tempo. Sério? Na verdade eu não sei, como eu não sei como um inseto se espanta, eu nunca sei se eles estão espantados. Mas a possibilidade me espanta. Nunca mais matarei um mosquito. Essa é a merda de se achar deus. Nada vira tudo. Não se pode fazer nada por ser tudo, af, é um saco. Ei, não se esqueçam que nunca lhes disse que eu era deus, é importante. Eu sou, mas não digam, por favor. O foda é que eu sempre tenho que pensar no futuro, fazer aqui, agora, as conseqüências são enormes, vocês ficariam espantados se soubessem. Eu fico, é uma merda.


[1] Nota de rodapé.