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Publicado: 3 de abril de 2016 por Bill em A Vida
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Quem por acaso pudesse observar Jo nesse momento, de quatro, limpando o vomito do menino Eduardo, pingando de suor (nessa época do ano aqui faz um calor infernal e dona Beth proíbe que o ar condicionado seja ligado quando ela não está em casa), jamais poderia supor que ela é a maior heroína que esse mundo já viu.

E isso porque eu nem falei dos seus 50 e tantos anos, do quase nanismo, da magreza desconcertante ou da pele preta, para não deixar que seu preconceito diminuísse o tamanho dela.

Eu adoraria falar das muitas façanhas dessa senhora. Adoraria. Mas o tempo, por ora, me impede de fazê-lo. Vou me ater a narrar nosso encontro. Foi assustador. Espetacularmente assustador.

Foi assim, eu já trabalhava para dona Beth há uns 10 anos como empregada doméstica (odeio o nome dessa profissão, é como se fossemos bichinhos de estimação). Acompanhei toda a gravidez de dona Beth e até fiquei com ela quando do parto do menino Eduardo. Cuidei dessa criança como o filho que nunca tive e não sei quando, o menino Eduardo começou a agir estranho. Ele não queria dormir no quarto dele de jeito nenhum, nem com luz acesa. Ele abria um berreiro ensurdecedor, tanto que sua voz sumia depois de um tempo, e também se arranhava, chorando tanto que o rosto ficava todo inchado. Ninguém sabia o que fazer e doutor Carlos não suportava o barulho. Saia de casa para não fazer uma besteira. Ele e dona Beth discutiam muito por causa do menino Eduardo, porque doutor Carlos achava que a culpa era dela por sempre fazer tudo que a criança queria. Eu me sentia culpada, porque dona Beth quase não ficava com o filho, se o que o doutor Carlos dizia fosse verdade, a culpada era eu como não. Era por isso que eu achava que não conseguia largar dele. Tentava acalmá-lo de todas as formas possíveis e por fim acabamos arrumando um jeito. Eu fingia que o colocava pra dormir, mas depois de um tempo ele vinha pro meu quarto e antes de amanhecer eu o colocava na cama dele outra vez. Ficamos assim durante um ano e pouco até que eu quebrei a bacia limpando um armário. Daí que indiquei essa senhora Jo que tinha uma filha que estudava com a minha, e que de acordo com essa minha filha, passava por muitas dificuldades.

Disse a dona Beth que encontraria uma mulher de confiança pra tomar conta da casa na minha ausência. Pedi a minha filha que falasse com a senhora Jo, que queria entrevistá-la para um emprego temporário.

No outro dia, ela veio. Tenho que admitir que havia alguma coisa. É claro que não sabia o que era então, mas estava lá. Lembro nitidamente de sentir quando ela cruzou o vão da porta e ouvi a cortina de anéis de latinha tilintarem.

Era uma presença pesada, como se com ela o céu instantaneamente fosse coberto por nuvens negras e o ar ficasse carregado de estática.

Mas era uma senhora muito comum, absolutamente simplória, sendo sua característica mais marcante aparentar ser muito mais velha do que de fato era.

Pedi pra que se sentasse, já imaginando uma forma educada de dispensá-la, pois por mais que me condoesse seu estado, que conclui ser este o motivo das suas dificuldades, não poderia colocá-la na casa de dona Beth e do doutor Carlos sabendo que ela não daria conta do serviço.

Mas, inesperadamente, Jo se recusou a sentar e sua resposta foi ainda mais inesperada e francamente espantosa.

– Não, amiga. Muito obrigada. Mas eu não posso me dar o luxo de relaxar esta coluna. É ela que sustenta o mundo.

E continuou andando pela minha sala, bisbilhotando meus pertences e fotos de família dispostos na estante às minhas costas.

Desconcertada, e tentando voltar para o mundo real, onde as coisas são sólidas e previsíveis, decidi que Jo estava ficando caduca (então o verdadeiro motivo das suas dificuldades) e tentei falar honestamente.

– Minha filha deve ter falado pra senhora que a casa onde trabalho é bem grande.

– O mundo certamente é maior. Este é seu marido?

Ela me empurrou uma fotografia na cara.

– Sim. Ele morreu quando Ana tinha cinco anos.

– Sim, sim. Mas por que ele não está aqui?

– A senhora não me ouviu. Ele morreu.

Ela ficou me encarando com um olhar entre o deboche e o divertimento o que foi completamente absurdo para mim. Se a bacia me permitisse eu teria me levantado e mandado ela embora. Graças a deus que a bacia estava quebrada.

– Olha, infelizmente não acho que a senhora vá dar conta de…

– Senhora Rosana – ela me interrompeu empurrando minha cadeira de rodas para longe – você vai descansar no seu quarto até eu dar um jeito nessa sua sala, obviamente que a senhora não tem muito tempo para cuidar dela, e nesse estado será impossível fazê-lo. Imagino que sua filha deve ser tão preguiçosa quando minha Lúcia. Fique tranqüila. Eu vou dar um jeito em tudo. Descanse.

E fechou a porta do quarto as minhas costas.

Jo foi trabalhar na casa dos meu patrões porque cerca de uma hora depois, em que por 15 minutos eu fiquei batendo na porta do meu quarto, Jo me puxou para uma sala irreconhecível. Aquele foi o meu primeiro momento de transcendência. Jo me mostrou como ficamos quando nossa prioridade é o outro. Entrelinhas, Jo dizia para eu cuidar melhor de Ana.

Enfim, o caso é que mandei Jo para dona Beth sem maiores preocupações (confesso que tinha receio daquele jeito abusado dela). Nem consigo descrever o quanto me fez bem estar fora daquele lugar maldito. Já conseguia relaxar, até ria assistindo Casos de Família com Ana. Nós nunca ficamos tão amigas.

Um dia entretanto, Jo veio bater na minha porta de madrugada. Eu e minha filha abrimos a porta completamente espantadas e curiosas por tão inusitada visita. Mas isto nem se compara com o susto que levei quando vi o menino Eduardo nas costas de Jo. Quase cai pra trás. Foi Ana quem me segurou.

– Depressa suas molengas! Fechem a porta!

Ela jogou o menino Eduardo no sofá e correu pra cozinha. Eu e minha filha fechamos a porta e ficamos em pé no meio da sala, assustadas demais para fazer qualquer outra coisa.

Jo voltou com um pano molhado e colocou na testa do menino.

– Vem cá

– Eu? – Perguntei

– Não, o papa. Você, idiota! Vem, ajoelha aqui

Fiquei de joelhos ao lado do sofá.

– Você sabe o que fazer – disse ela me passando o pano molhado – Não deixe a febre subir. Eu tenho que ir lá salvá-lo.

– Salvar? Quem? O que aconteceu? – perguntei em pânico largando o pano, já temendo o pior.

– Idiota, o menino! O menino!

Ela abaixou pra pegar o pano e deu pra ouvir a coluna estalando de cima a baixo.

– Não deixe a febre subir – ela se sentou no outro sofá e fechou os olhos.

– Que porra é essa? – Ana falou.

– Ana – chamei – Vem cá, o Eduardo ta com febre, fica aqui com ele. Deixa eu resolver isso.

Levantei e chacoalhei a maluca até que ela abriu os olhos.

– Você vai me contar o que está acontecendo se não vou ligar pra policia – disse sem rodeios.

Jo quase chorou. Foi a primeira e única vez que a vi fraquejar.

– Ô menina tola. Tá certo. Você quer ouvir? Tudo bem.

Ela tirou um maço de cigarros do bolso do casaco, puxou um e o acendeu com um isqueiro puxado de outro bolso tão rápido que poderia ter sido mágica.

– Quando você passa muito tempo numa tempestade acaba se esquecendo de como o mar é, na verdade, muito tranqüilo. Você deve ter reparado como está se sentindo melhor, não? Desde que saiu do inferno?

– A casa?

– Sim, tenho certeza de que você sentia, foi por isso que desobedeceu seus patrões, você nunca acreditou que o medo do menino fosse só coisa de criança mimada.

– Não, nunca – a verdade era muito simples. Só era difícil demais lidar com ela.

– Eu não sei qual é a história do lugar. Praticamente todo lugar nesse mundo tem uma história sinistra. Acontece que dependendo do coração de quem reside, o lugar pode se tornar uma antena que sintoniza todo tipo de coisa hedionda e você não acreditaria nos horrores que vagam por aí a noite.

– Espíritos?

– Fantasmas, demônios. Há muitos nomes. O que você precisa saber é que o ódio assim como qualquer sentimento se reproduz e se alimenta de si mesmo. Há muito ódio no nosso mundo. E pessoas de coração vazio são o abrigo perfeito para acolher um rancor que há muito já esqueceu seu ressentimento. Seus patrões, Rosana, são tão ocos quanto esta madeira – envolta em fumaça escura, ela bate três vezes no tampo da mesa – O problema é que os maus, especialmente os maus, adoram uma vida virginal como a do seu menino. Ele sem duvida deve ter brincado com eles, mas logo deve ter visto o que eles são de verdade e se assustou. E é muito assustador mesmo. Alguns simplesmente não conseguem acordar.

– Mas o que ta acontecendo agora – pergunto ao lado do menino Eduardo, que aquém da febre sob controle, parecia ainda lutar contra ela.

– Eu não sei. Ele pode estar em qualquer lugar agora. Está fugindo certamente. Mas para que eles tomem o corpo dele, eles precisam do seu consentimento. Eles só vão parar de persegui-lo quando conseguirem isso. E na maioria das vezes a vítima nem sabe o que eles querem e, infelizmente querida, eles adoram se divertir com isso.

– Então vá ajudá-lo! Por favor! Ajude-o! Me desculpe por favor! Mas ajude-o! Ajude-o!

Jo sorri, cansada. E quando fecha os olhos, vejo uma lágrima escorrer pela pele seca e escura, sem qualquer emoção.

O outro mundo é um mundo de sombras, cheio de escadas, pontes, corredores soturnos e portas, tudo em tamanhos absurdos. Jo já é uma rastreadora experiente. Ela sente o cheiro da inocência no ar. Sobretudo, identifica o odor nauseabundo da salivação de quem está logo atrás dele. Nesse mundo, Jo tem asas. E ela voa rapidamente para onde o menino Eduardo tenta se esconder. Outrora, ele também tivera asas, mas os monstros já o depenaram por completo. O menino agora corre nu, em carne viva, chorando. O seu lance de sorte, se é que se pode falar em sorte do outro lado, é que essas criaturas costumam brigar entre si. Muitas delas já se conhecem. E há montanhas de ódio antigo sob eles. Mas Jo sabe que há um inimigo muito pior. Sabe que ele está dormindo, do contrário seria tarde demais. O homem de chapéu perto desse horror inominável é só uma formiguinha amarela. Mesmo assim, o homem de chapéu é um poderoso adversário e nota a presença de Jo. Ele grita pra sua turba de sombras e elas se reúnem em torno dele porque Jo é um inimigo em comum.

O segredo do poder de Jo é que ela aprendeu há muito, muito tempo, que o ódio não se combate com o ódio. É assim que Jo se entrega a eles. Mas no fim, depois de infinitas violências, é sua resiliência que triunfa. Seus agressores, exaustos, descansam. E a mutilada e deformada Jo segue em seu resgate. O menino Eduardo agora é um velhinho de asas curtas e olhos medrosos. Ele grita ao seu toque, mas Jo não deixa dúvidas do seu amor, e o menino a acolhe num abraço. É ele quem a carrega de volta para o meu lar, cruzando portas, escadas, pontes e corredores sem fim.

Tudo isso em apenas duas horas. Duas horas. Jo me disse que essas horas duram milênios lá.

Eles voltam e sem saber o que se passou, é para o menino que vão os meus cuidados.

Somente muitos anos depois, quando foi minha filha quem teve problemas com esse outro mundo,

que é esse, Jo insiste em dizer isso

“Aquele mundo só existe porque há colunas que o sustentam aqui”

é que ela me contou o que se passou. Jo é a maior heroína que esse mundo já viu. E quando finalmente me recuperei da cirurgia e pude voltar ao trabalho, eu a encontrei limpando o vomito do menino-velho Eduardo (ainda nauseado por tudo o que viveu, Jo diz que a mente inibe as memórias, mas que o corpo se lembra). E foi assim. Imagine, se você pudesse observar essa senhora limpando o chão nesse momento, será que você seria capaz de dizer que está diante da pessoa mais importante do mundo?

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Aconteceu de se encontrarem todos os sete juntos numa sala branca, sem saber porque ou como haviam parado ali.

Disse então uma criança com um ridículo chapéu vermelho depois de um tempo bastante longo de ausências.

Estou com fome.

Imediatamente um prato quente de arroz com feijão, bifes e batatas fritas se projetou a sua frente. O cheiro inundou a sala e o espanto tomou o lugar. Elas se levantaram e foram olhar o fenômeno de perto.

Uma pessoa que usava óculos de grau com hastes vermelhas perguntou:

Diga-me criança, quando disse que estava com fome, pensou neste prato que está a sua frente?

A criança hesitou um momento, e então respondeu:

Sim!

E se lançou sobre o prato comendo o bife com as mãos nuas.

Um outro que estava próximo a pessoa do óculos vermelho, falou:

Eu quero sair daqui.

Mas nada aconteceu.

Então uma voz rouca às costas desses falou:

Talvez, sejam só os desejos mais sinceros que possam ser realizados.

Eles se viraram para voz, a de óculos vermelho perguntou:

Ué, e tu? Porque não se levantou e veio até aqui verificar este negócio?

Ei, ela também não levantou.

Argumentou a voz apontando para uma pessoa que roncava alto.

A pessoa de óculos vermelho não gostou da resposta, disse:

Ora, por acaso não sente curiosidade? O prato surgiu do nada!

 

Tal qual vocês! Até onde eu sei, esse prato é tão curioso quanto vocês, ou eu mesmo…

A voz rouca olhou para as mãos como se nunca as tivesse visto antes e aparentava estar genuinamente espantado.

É verdade! Alguém gritou levando as mãos à cabeça.

Será que estamos mortos?

Todos olharam ao redor. Tudo era branco, tão branco que era impossível discernir o teto do chão ou das paredes, de fato, sequer era possível enxergar coisa alguma que não eles mesmos e suas sombras.

A pessoa de óculos vermelhos esticou os braços horizontalmente, avaliou alguma coisa e disse:

É muito estranho. Há luz neste lugar, mas não consigo detectar a fonte, é como se a luz simplesmente existisse como a escuridão existe e isso é impossível, pois se há luz, há uma fonte.

A pessoa com as mãos na cabeça falou:

Do que importa a física no inferno!

Ei, calma ae! Disse um outro de aspecto robusto com uma camisa vermelha estilo academia.

Quem disse que estamos no inferno? Fale por você! Ora, esse lugar é branco, não é? O céu é branco!

Mas que coisinha mais racista pra se dizer hein, disse uma pessoa não muito maior que a criança.

É verdade, concordou a de óculos vermelhos.

A pessoa com camisa tipo academia sorriu.

Que isso gente, todo mundo sabe que o céu é branco.

Mas se isto é o céu, disse a voz rouca andando de quatro, aonde está deus?

Isto não é o céu, disse a pessoa de óculos vermelhos.

Como você sabe? Perguntou a de mãos na cabeça.

Porque o céu não existe. Se estamos mortos, estamos, pronto.

Mas tem que haver algum propósito, argumentou a de camisa estilo academia

Tem? Ironizou óculos vermelhos.

Claro, interveio aquela que era pouco maior que a criança

olha, eu não gosto muito de você, esse ar de presunção me irrita, o outro nem disfarça o racismo, a criança não para de comer e nem sequer nos oferece uma batatinha, tu só fica de mãos na cabeça enquanto o outro só dorme e…

Todos procuraram pelo último dos sete e encontraram-na já pequeninha como se a sala branca simplesmente se estendesse pelo infinito.

MEUDEUSDOCÉU! – GRITOU COM AS MÃOS NA CABEÇA.

É O INFERNO! O INFERNO EU DISSE! OLHA! NÃO TEM FIM!

E a doida! completou a pouco maior que a criança rindo

Calma, calma! Vamos pensar! Você falou uma coisa interessante. Lembrei de uma peça do Sartre, o inferno são os outros. Talvez este lugar seja realmente o inferno…

A mãos na cabeça começou a chorar, o que fez a criança parar de comer.

Então é isso? Vociferou a camisa estilo academia

Vamos passar a eternidade aqui olhando um para a cara dos outros?

A mãos na cabeça chorava alto e a criança estava começando a querer chorar.

Bom, pelo menos não é o inferno de sartre strictu sensus.

Como assim? Quis saber a camisa de estilo academia.

Nunca leu o inferno são os outros? É que na peça as pessoas são incapazes de fechar os olhos. E são só três também. Ah! E o inferno deles é um hotel que eles nunca conseguem sair porque são incapazes de resolver seus problemas uns com os outros.

Nós somos sete, ou éramos começou a pouco maior que a criança olhando para onde tinham visto a doida se perder na brancura

acho que nós representamos os sete pecados capitais.

Ela apontou para a criança.

A gula.

Apontou para aquela que dormia.

Preguiça.

E eu, o que eu sou? Quis saber a camisa estilo academia.

Luxuria.

E porque?

Af, olha pra tu, aposto como se masturba olhando no espelho.

E desde quando vaidade é luxúria?

Você não é a vaidade, querida.

Ah, é claro, é você né?

Não, é a senhora arrogante de óculos vermelhos descolados.

Isso eu não posso negar, disse a de óculos vermelho

Mas e você, han? Inveja?

Não, to mais pra fúria.

Gente, gente, e eu? E eu?

Tu meu bem é a avareza, só pensa em ti.

A isso, ela abaixou as mãos da cabeça.

Se estamos no inferno mesmo, eu posso te matar sua filha da puta!

Então vem valentona, vem!

Puta não devia ser um xingamento, falou a óculos vermelho para ninguém.

Calma gente, tentou apaziguar a camisa de academia inutilmente porque as duas já estavam trocando socos e se atracando no chão que começava a ser pincelado de vermelho.

A criança então chorou alto e as duas pararam.

Uma delas levou as mãos a cabeça e correu para a criança tentando acalma-la.

Olha, começou a camisa de academia, to pensando aqui. Talvez isto seja um reality show, han? O que vocês acham? Alguém nos drogou e nos colocou aqui.

Ah, claro, porque você adora ser observada né?

Olha, você tá começando a me irritar também.

Ótimo, as duas brancas vão linchar a neguinha, quero novidade!

Espera, meditou a óculos vermelhos. Tem alguns padrões estranhos aqui. Todas nos somos mulheres.

Desculpa, mas você não é mulher, disse a de mãos na cabeça.

Sou o que eu quiser ser. Vejamos, uma transgênero, duas brancas, uma velha e uma halterofilista, três negras e uma criança com síndrome de down, este com certeza não é um reality show!

Tem uns realitys bem bizarros na TV paga.

Mas pra pagar uma produção dessa envergadura? Olha para essa sala! Esses canais underground não tem dinheiro pra pagar um cenário tão gigantesco! E aquele prato surgiu do nada, vocês viram!

Então nós fomos sequestrados por alienígenas! Desesperou-se a mãos na cabeça.

Pode ser, concluiu a óculos vermelhos.

Não, senhora arrogância, você tem razão. Somos um grupo heterogêneo demais. De certa forma, aqui estão representados os grupos mais marginalizados da sociedade. Vamos lá, a gente não tá fazendo nada mesmo, quem sabe existe alguma coisa por trás disso? não foi você quem disse que os personagens da peça não conseguiam sair porque não paravam de brigar? Vamos tentar conversar, então. Eu começo. Meu nome é Dona. Na verdade é Madonna, mas eu odeio esse nome. Foi o machista do meu pai que escolheu, enfim. Sou estudante de direito e sei lá, sou meio doidona, ceis já viram né?

Ok, sorriu a óculos vermelhos. Faltou um pouco de sororidade nas tuas atitudes miga, mas de boa. Eu sou Maria Almeida Alcântara. Sou trans desde que me entendo por gente, assumida desde os 15, quando fugi de casa. Sou formada em História, História da Arte e adoro literatura, tenho três especi, hum, acho que isso não é importante. Sou casada há nove anos, tenho duas filhas maravilhosa, uns vinte cachorros e… é isso.

Sou Vanessa, mas podem me chamar de vanessão, também tenho sobrenome Almeida, engraçado, né? Sou fisiculturista e luto muay thai nas horas vagas. Adoro surfar. E amo séries de TV.

Ah, sou Vitoria Conceição Prado… ann, fui professora de letras na PUC… tenho três filhos… e meu marido morreu no ano passado.

A criança olhava fixamente pro prato vazio.

E você, bebe? Perguntou vitoria.

Cristina, disse ela sem tirar os olhos do prato.

Ok, disse dona

A preguiça continua dormindo, mas pelo jeito parece ser uma moradora de rua. E aquela que foi embora, sei lá, parecia uma mina negra rica.

É, parecia, concordou Vanessão

Então é isso.

Elas ficaram em silencio meditando sobre o que tinham escutado.

Não adiantou porra nenhuma essa merda, falou vitoria.

É, não custava tentar, falou dona.

Escuta, ann, Maria, né? Que que você falou antes? Que eu fui sem soro… como é?

So-ro-ri-da-de. É um conceito sobre uma relação mais amistosa entre as mulheres. Tipo, na primeira oportunidade que tu teve tu já caçou briga com a senhora vitoria.

Ei, foi ela quem veio pra cima de mim!

Ok, então.

Quem merda hein, disse vanessão

Será que a gente vai ficar aqui pra sempre?

A gente podia tentar fazer que nem a doida, arriscou Maria.

Vei, essas horas a bicha ta louca atrás da gente. Olha, o inferno pode ser ruim, mas ficar sozinho eu acho que deve ser muito pior.

Concordo, disse Maria,

Eu também, disse vanessão

Mas eu não, falou vitoria

Eu não gosto de você sua putinha nojenta.

As mãos de dona se fecharam em punhos.

É. Você se acha especial né? Porque está aqui conosco, não é? Acha que é uma de nós? Você é só uma revolucionariazinha brincando no playgroud que nós deixamos você brincar, mas eu vou te dizer uma coisa, escute bem, os pretos são marginalizados por um motivo, imbecil.

E qual é?

Cala a boca, aconselhou Maria para ninguém.

Anda, fala, qual é o motivo?

Porque vocês ainda são símios, só por isso.

Elas se engalfinharam outra vez, e agora dona socava violentamente a boca de vitoria, que ria enlouquecidamente.

Você não pode me matar, sua gorila! Eu sou seu demônio e você é o meu! Nós vamos ficar aqui e dançar pra sempre.

Dona agarrou o crucifixo do pescoço dela e puxou.

Não! Devolve! Devolve!

Você não merece usar isso sua excrota do caralho! Cristo não dizia para amar o próximo?

Você não é meu próximo, imunda! Você esta mais próxima dos ratos do que de mim!

É, disse a voz da preguiça

Essa ideia de proximidade está defasada num mundo globalizado como nosso. Acho que ame o mais distante como você ama a si mesmo fica melhor

Mas você é

Você

É…

Como?

Ah, eu sai andando andando andando… ai vi que não ia dar em nada e tentei voltar, mas nunca consegui achar vocês.

Mas como é possível que você estivesse aí dormindo se você estava aqui com a gente conversando?

Não sei.

A preguiça bocejou longa e vagarosamente e aí, voltou a dormir.

Então espaço e tempo também não fazem sentido aqui, observou Maria.

Acho que nos podemos ser pensamentos, arriscou dona.

Pensamentos? Perguntou Maria.

É, sei lá, somos os desejos reprimidos de alguém.

Ou podemos ser os personagens de um livro como em um mundo de Sofia, falou Maria.

Ah, esse eu li! É verdade, pode mesmo.

Mas e se for, pra que estamos aqui? Perguntou vitoria

Bem, basicamente, a ideia de um livro é passar uma mensagem, disse Maria.

E que mensagem seria essa? Perguntou vanessão.

Ah vei, pode ser qualquer coisa! Disse dona

Não, lembra dos padrões? O nosso grupo dissonante.

Hum, e ai? Vai, tu é a senhora dos livros!

Bem, somos um grupo de pessoas marginalizadas, algumas menos, outras mais…

Talvez seja o lance do amor mesmo.

Hum?

De cristo. O lance que a doida falou. De amar o mais distante.

Ah, é. Mas, se fosse isso já teria acabado né?

Talvez já tenha, mas pra nós é eterno, lamentou vanessão

Se for assim, o pessoal lá da peça do inferno tá até hoje discutindo…

Mas tem uma coisa

O que? – perguntou vanessão esperançosa

Tem um livro do Dostoiévski que se chama o idiota. O idiota é como Jesus cristo seria tratado por nós, os egoístas. O idiota é uma figura amaldiçoada pelo bem, ele é simplesmente incapaz de rejeitar um desejo, por mais perverso ou injusto ou triste que seja. O idiota é a criança!

Hum, um pouco preconceituoso você não acha?

Só na mesma medida de quando a vitoria quis te ofender te chamando de filha da puta.

Dona sorriu e era um belo sorriso.

Então nós só temos que pedir a criança para nos tirar daqui?

Af vei

Falou a voz da preguiça

Sério mesmo? é isso que vocês vão pedir? de tudo que vocês podem fazer pelo mundo, é isso que vocês vão pedir? Preguiça de vocês, viu.