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Publicado: 3 de abril de 2016 por Bill em A Vida
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Quem por acaso pudesse observar Jo nesse momento, de quatro, limpando o vomito do menino Eduardo, pingando de suor (nessa época do ano aqui faz um calor infernal e dona Beth proíbe que o ar condicionado seja ligado quando ela não está em casa), jamais poderia supor que ela é a maior heroína que esse mundo já viu.

E isso porque eu nem falei dos seus 50 e tantos anos, do quase nanismo, da magreza desconcertante ou da pele preta, para não deixar que seu preconceito diminuísse o tamanho dela.

Eu adoraria falar das muitas façanhas dessa senhora. Adoraria. Mas o tempo, por ora, me impede de fazê-lo. Vou me ater a narrar nosso encontro. Foi assustador. Espetacularmente assustador.

Foi assim, eu já trabalhava para dona Beth há uns 10 anos como empregada doméstica (odeio o nome dessa profissão, é como se fossemos bichinhos de estimação). Acompanhei toda a gravidez de dona Beth e até fiquei com ela quando do parto do menino Eduardo. Cuidei dessa criança como o filho que nunca tive e não sei quando, o menino Eduardo começou a agir estranho. Ele não queria dormir no quarto dele de jeito nenhum, nem com luz acesa. Ele abria um berreiro ensurdecedor, tanto que sua voz sumia depois de um tempo, e também se arranhava, chorando tanto que o rosto ficava todo inchado. Ninguém sabia o que fazer e doutor Carlos não suportava o barulho. Saia de casa para não fazer uma besteira. Ele e dona Beth discutiam muito por causa do menino Eduardo, porque doutor Carlos achava que a culpa era dela por sempre fazer tudo que a criança queria. Eu me sentia culpada, porque dona Beth quase não ficava com o filho, se o que o doutor Carlos dizia fosse verdade, a culpada era eu como não. Era por isso que eu achava que não conseguia largar dele. Tentava acalmá-lo de todas as formas possíveis e por fim acabamos arrumando um jeito. Eu fingia que o colocava pra dormir, mas depois de um tempo ele vinha pro meu quarto e antes de amanhecer eu o colocava na cama dele outra vez. Ficamos assim durante um ano e pouco até que eu quebrei a bacia limpando um armário. Daí que indiquei essa senhora Jo que tinha uma filha que estudava com a minha, e que de acordo com essa minha filha, passava por muitas dificuldades.

Disse a dona Beth que encontraria uma mulher de confiança pra tomar conta da casa na minha ausência. Pedi a minha filha que falasse com a senhora Jo, que queria entrevistá-la para um emprego temporário.

No outro dia, ela veio. Tenho que admitir que havia alguma coisa. É claro que não sabia o que era então, mas estava lá. Lembro nitidamente de sentir quando ela cruzou o vão da porta e ouvi a cortina de anéis de latinha tilintarem.

Era uma presença pesada, como se com ela o céu instantaneamente fosse coberto por nuvens negras e o ar ficasse carregado de estática.

Mas era uma senhora muito comum, absolutamente simplória, sendo sua característica mais marcante aparentar ser muito mais velha do que de fato era.

Pedi pra que se sentasse, já imaginando uma forma educada de dispensá-la, pois por mais que me condoesse seu estado, que conclui ser este o motivo das suas dificuldades, não poderia colocá-la na casa de dona Beth e do doutor Carlos sabendo que ela não daria conta do serviço.

Mas, inesperadamente, Jo se recusou a sentar e sua resposta foi ainda mais inesperada e francamente espantosa.

– Não, amiga. Muito obrigada. Mas eu não posso me dar o luxo de relaxar esta coluna. É ela que sustenta o mundo.

E continuou andando pela minha sala, bisbilhotando meus pertences e fotos de família dispostos na estante às minhas costas.

Desconcertada, e tentando voltar para o mundo real, onde as coisas são sólidas e previsíveis, decidi que Jo estava ficando caduca (então o verdadeiro motivo das suas dificuldades) e tentei falar honestamente.

– Minha filha deve ter falado pra senhora que a casa onde trabalho é bem grande.

– O mundo certamente é maior. Este é seu marido?

Ela me empurrou uma fotografia na cara.

– Sim. Ele morreu quando Ana tinha cinco anos.

– Sim, sim. Mas por que ele não está aqui?

– A senhora não me ouviu. Ele morreu.

Ela ficou me encarando com um olhar entre o deboche e o divertimento o que foi completamente absurdo para mim. Se a bacia me permitisse eu teria me levantado e mandado ela embora. Graças a deus que a bacia estava quebrada.

– Olha, infelizmente não acho que a senhora vá dar conta de…

– Senhora Rosana – ela me interrompeu empurrando minha cadeira de rodas para longe – você vai descansar no seu quarto até eu dar um jeito nessa sua sala, obviamente que a senhora não tem muito tempo para cuidar dela, e nesse estado será impossível fazê-lo. Imagino que sua filha deve ser tão preguiçosa quando minha Lúcia. Fique tranqüila. Eu vou dar um jeito em tudo. Descanse.

E fechou a porta do quarto as minhas costas.

Jo foi trabalhar na casa dos meu patrões porque cerca de uma hora depois, em que por 15 minutos eu fiquei batendo na porta do meu quarto, Jo me puxou para uma sala irreconhecível. Aquele foi o meu primeiro momento de transcendência. Jo me mostrou como ficamos quando nossa prioridade é o outro. Entrelinhas, Jo dizia para eu cuidar melhor de Ana.

Enfim, o caso é que mandei Jo para dona Beth sem maiores preocupações (confesso que tinha receio daquele jeito abusado dela). Nem consigo descrever o quanto me fez bem estar fora daquele lugar maldito. Já conseguia relaxar, até ria assistindo Casos de Família com Ana. Nós nunca ficamos tão amigas.

Um dia entretanto, Jo veio bater na minha porta de madrugada. Eu e minha filha abrimos a porta completamente espantadas e curiosas por tão inusitada visita. Mas isto nem se compara com o susto que levei quando vi o menino Eduardo nas costas de Jo. Quase cai pra trás. Foi Ana quem me segurou.

– Depressa suas molengas! Fechem a porta!

Ela jogou o menino Eduardo no sofá e correu pra cozinha. Eu e minha filha fechamos a porta e ficamos em pé no meio da sala, assustadas demais para fazer qualquer outra coisa.

Jo voltou com um pano molhado e colocou na testa do menino.

– Vem cá

– Eu? – Perguntei

– Não, o papa. Você, idiota! Vem, ajoelha aqui

Fiquei de joelhos ao lado do sofá.

– Você sabe o que fazer – disse ela me passando o pano molhado – Não deixe a febre subir. Eu tenho que ir lá salvá-lo.

– Salvar? Quem? O que aconteceu? – perguntei em pânico largando o pano, já temendo o pior.

– Idiota, o menino! O menino!

Ela abaixou pra pegar o pano e deu pra ouvir a coluna estalando de cima a baixo.

– Não deixe a febre subir – ela se sentou no outro sofá e fechou os olhos.

– Que porra é essa? – Ana falou.

– Ana – chamei – Vem cá, o Eduardo ta com febre, fica aqui com ele. Deixa eu resolver isso.

Levantei e chacoalhei a maluca até que ela abriu os olhos.

– Você vai me contar o que está acontecendo se não vou ligar pra policia – disse sem rodeios.

Jo quase chorou. Foi a primeira e única vez que a vi fraquejar.

– Ô menina tola. Tá certo. Você quer ouvir? Tudo bem.

Ela tirou um maço de cigarros do bolso do casaco, puxou um e o acendeu com um isqueiro puxado de outro bolso tão rápido que poderia ter sido mágica.

– Quando você passa muito tempo numa tempestade acaba se esquecendo de como o mar é, na verdade, muito tranqüilo. Você deve ter reparado como está se sentindo melhor, não? Desde que saiu do inferno?

– A casa?

– Sim, tenho certeza de que você sentia, foi por isso que desobedeceu seus patrões, você nunca acreditou que o medo do menino fosse só coisa de criança mimada.

– Não, nunca – a verdade era muito simples. Só era difícil demais lidar com ela.

– Eu não sei qual é a história do lugar. Praticamente todo lugar nesse mundo tem uma história sinistra. Acontece que dependendo do coração de quem reside, o lugar pode se tornar uma antena que sintoniza todo tipo de coisa hedionda e você não acreditaria nos horrores que vagam por aí a noite.

– Espíritos?

– Fantasmas, demônios. Há muitos nomes. O que você precisa saber é que o ódio assim como qualquer sentimento se reproduz e se alimenta de si mesmo. Há muito ódio no nosso mundo. E pessoas de coração vazio são o abrigo perfeito para acolher um rancor que há muito já esqueceu seu ressentimento. Seus patrões, Rosana, são tão ocos quanto esta madeira – envolta em fumaça escura, ela bate três vezes no tampo da mesa – O problema é que os maus, especialmente os maus, adoram uma vida virginal como a do seu menino. Ele sem duvida deve ter brincado com eles, mas logo deve ter visto o que eles são de verdade e se assustou. E é muito assustador mesmo. Alguns simplesmente não conseguem acordar.

– Mas o que ta acontecendo agora – pergunto ao lado do menino Eduardo, que aquém da febre sob controle, parecia ainda lutar contra ela.

– Eu não sei. Ele pode estar em qualquer lugar agora. Está fugindo certamente. Mas para que eles tomem o corpo dele, eles precisam do seu consentimento. Eles só vão parar de persegui-lo quando conseguirem isso. E na maioria das vezes a vítima nem sabe o que eles querem e, infelizmente querida, eles adoram se divertir com isso.

– Então vá ajudá-lo! Por favor! Ajude-o! Me desculpe por favor! Mas ajude-o! Ajude-o!

Jo sorri, cansada. E quando fecha os olhos, vejo uma lágrima escorrer pela pele seca e escura, sem qualquer emoção.

O outro mundo é um mundo de sombras, cheio de escadas, pontes, corredores soturnos e portas, tudo em tamanhos absurdos. Jo já é uma rastreadora experiente. Ela sente o cheiro da inocência no ar. Sobretudo, identifica o odor nauseabundo da salivação de quem está logo atrás dele. Nesse mundo, Jo tem asas. E ela voa rapidamente para onde o menino Eduardo tenta se esconder. Outrora, ele também tivera asas, mas os monstros já o depenaram por completo. O menino agora corre nu, em carne viva, chorando. O seu lance de sorte, se é que se pode falar em sorte do outro lado, é que essas criaturas costumam brigar entre si. Muitas delas já se conhecem. E há montanhas de ódio antigo sob eles. Mas Jo sabe que há um inimigo muito pior. Sabe que ele está dormindo, do contrário seria tarde demais. O homem de chapéu perto desse horror inominável é só uma formiguinha amarela. Mesmo assim, o homem de chapéu é um poderoso adversário e nota a presença de Jo. Ele grita pra sua turba de sombras e elas se reúnem em torno dele porque Jo é um inimigo em comum.

O segredo do poder de Jo é que ela aprendeu há muito, muito tempo, que o ódio não se combate com o ódio. É assim que Jo se entrega a eles. Mas no fim, depois de infinitas violências, é sua resiliência que triunfa. Seus agressores, exaustos, descansam. E a mutilada e deformada Jo segue em seu resgate. O menino Eduardo agora é um velhinho de asas curtas e olhos medrosos. Ele grita ao seu toque, mas Jo não deixa dúvidas do seu amor, e o menino a acolhe num abraço. É ele quem a carrega de volta para o meu lar, cruzando portas, escadas, pontes e corredores sem fim.

Tudo isso em apenas duas horas. Duas horas. Jo me disse que essas horas duram milênios lá.

Eles voltam e sem saber o que se passou, é para o menino que vão os meus cuidados.

Somente muitos anos depois, quando foi minha filha quem teve problemas com esse outro mundo,

que é esse, Jo insiste em dizer isso

“Aquele mundo só existe porque há colunas que o sustentam aqui”

é que ela me contou o que se passou. Jo é a maior heroína que esse mundo já viu. E quando finalmente me recuperei da cirurgia e pude voltar ao trabalho, eu a encontrei limpando o vomito do menino-velho Eduardo (ainda nauseado por tudo o que viveu, Jo diz que a mente inibe as memórias, mas que o corpo se lembra). E foi assim. Imagine, se você pudesse observar essa senhora limpando o chão nesse momento, será que você seria capaz de dizer que está diante da pessoa mais importante do mundo?

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