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Quantas vezes já ouvimos isso? Dezenas, centenas? Quando li Entre Quatro Paredes do Jean Paul Sartre foi como ler A Vida do Espírito de Hanna Arendt quando ela fala de Sócrates. Somente ali, naquele instante, por mais que eu soubesse que Sócrates tinha dito que sei que nada sei, eu percebi que nunca tinha pensado nisso. Conhecer alguma coisa é diferente de pensar sobre ela. É como comparar o tamanho da cabeça de alfinete que deu origem ao universo com o universo. Estava tudo ali, bem na sua cara, naquele micro-ponto cósmico, todo o universo, intangível. Uma explosão, uma reflexão e boom, o universo em sua infinita amplitude devora o conceito de grandeza. O que Sócrates quis dizer com sei que nada sei é que sei que nada sei. Trocando em miúdos: o deus do fogo procura o fogo. A resposta encerra-se na pergunta.

E o que Sartre quis dizer com o inferno são os outros? Bem, não foi ele que disse, foi Garcin, seu personagem

– isso explode a frase e dá inicio a esse texto.

Lá, não há espelhos...

Garcin, Inês e Estelle. Papel, pedra e tesoura. Os três são confinados em um quarto, quente, como o inferno deve ser. Não há janelas, não há espelhos, não há um charuto. Não há distrações alem da sua cabeça e a dos outros. Mas como Garcin irrita Inês e Inês irrita Estelle, que por sua vez irrita Garcin, a convivência é insuportável. Quando isso fica evidente, eles decidem se calar, apartando-se. Se ficarem reclusos, presos em si, completamente entregues aos seus pensamentos, então não precisarão da companhia um do outro e, consequentemente, não vão passar a eternidade brigando. Mas por mais que tentem, é impossível. Ainda que não sejam mais humanos, que estejam naquele lugar infernal, distante do mundo, distante de todos, nem assim, conseguem se livrar da condição humana.

Por mais que enterrasse os dedos nos ouvidos, as senhoras falavam dentro de minha cabeça. Quer me deixar em paz, agora?

(…)

Que infantilidade! Eu o sinto até nos meus olhos. Seu silêncio grita em minhas orelhas. Pode soldar a boca, pode cortar a língua. Será que por isso o sr. deixaria de existir? Faria parar esse seu pensamento que estou ouvindo, que faz tic-tac como um despertador?

Garcin se desespera:

Abram! Vamos, abram! Aceitarei tudo: as tenazes, o chumbo derretido, as pinças, os garrotes, tudo que queima, tudo o que dilacera. Quero sofrer de verdade! Prefiro cem dentadas, prefiro a chibata a esse sofrimento cerebral, esse fantasma de sofrimento, que roça, que acaricia, e que nunca dói o bastante.

A porta se abre.

Que está esperando? Vá, vá depressa!

Não, não vou.

E você, Estelle?

Estelle não se move. Inês dá uma gargalhada

Então, qual de nós? Qual de nós três? O caminho está livre, quem é que nos prende? É de morrer de rir! Nós somos inseparáveis!

Garcin prefere sofrer as piores torturas a esse terror psicológico. Mas quando a porta se abre, ele decide ficar. Na nossa discussão do livro, a Leila sugeriu que seria o medo do desconhecido que o fez ficar. Discordo. Você está no inferno, uma porta se abre. Você não vai embora por que está com medo? Você está no inferno, lembra? Se existisse alguma coisa pior, seria isso não? O desconhecido é assustador, mas não a ponto de me fazer ficar voluntariamente no inferno.

Uma vez a porta fechada, Garcin interroga Inês

Não ficará escuro nunca?

Nunca.

Você me verá sempre?

Sempre!

Garcin conclui

Então, é isso que é o inferno! Nunca imaginei… Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… O inferno são os outros!

Mas por que Garcin não foi embora? Acredito que pior tormento do que o convívio eterno com os outros é a eternidade na solidão, estar só em si, resumir-se ao eu e nada mais, ser como uma caneta bic é. Não há inferno pior que esse. E quem disse que onde estão é o inferno? O criado, ente que representa a “instituição”, não diz nada a respeito. Já Garcin, Inês e Estelle acreditam que estão no inferno. Garcin se acha um covarde, Estelle uma assassina e Inês se culpa pela morte da sua companheira. Os três se consideram culpados. Afinal, se você acredita que é merecedor do céu, por que aceitar ir para o inferno? Já diria minha velha vózinha: Quem tem a consciência tranqüila, nada teme.

Não há espelhos no quarto. O outro é o seu espelho. Um espelho que pode ser terrível, mas melhor que nenhum. Quem é você afinal de contas? Você é? Ou você se tornou o que é? Se o que você encara diante do espelho do outro não lhe agrada é porque nunca pensou a respeito. Lembra quando eu disse no inicio do texto que conhecer algo é diferente de pensar sobre algo? viu? você somente leu, não pensou Uma inscrição na entrada do Oráculo de Delfos dizia “Conhece-te a ti mesmo”. Ora, se você se conhece, por que consultar um oráculo sobre o seu futuro? Independente do que você descobrir, não vai deixar de ser você quem vai tomar as decisões (o que pode explicar porque das tragédias gregas terminarem todas confirmando as profecias, porque conhecer o futuro não muda quem você é). Esse movimento reflexivo do ser, de não estar só, não é voluntário, você ocupa um lugar no mundo como ser pensante e pensa sobre esse lugar naturalmente. Mas você não se resume ao eu, você só existe na medida em que se enxerga na consciência do outro.

Mas e se Garcin saísse do quarto e passasse a vagar eternamente pelo corredor? Poderia alcançar a salvação ali?

Em nossas discussões do livro, muito se falou que uma vez sozinho, seria possível alcançar a redenção por meio da paz interior, da iluminação, do nirvana, do que você quiser chamar. Não posso concordar com isso. Não posso. Porque uma vez só, privado do contato humano, do mundo, eu deixaria minha condição humana, eu deixaria de ser o que sou. Isso não é morrer? Talvez por isso tanta gente tenha acreditado que a morte seria mais reconfortante do que a sensação de solidão. E concordo com elas. Estar só eternamente é como definhar sem morrer nunca. Por outro lado, chegar a esse estado acima das necessidades humanas é a morte, pois eu só sou eu enquanto sinto essas necessidades desprezíveis da humanidade. Eu não quero deixar de ser quem eu sou, somente assim o farei quando for inevitável.

O que está em jogo aqui é um elemento extremamente delicado porque se pressupõe a necessidade de estar só. Hipoteticamente, se alguém se encontrasse sozinho no mundo, ele conseguiria existir porque poderia se encontrar dentro de si mesmo e isso bastaria.

Acredito que Sartre partilhava do mesmo pressuposto que eu: o ser humano é um ser social. Se Garcin não se enxergasse como covarde, precisaria que Estelle lhe dissesse que não era? Se forçarmos o argumento e imaginarmos que o quarto, o criado, as mulheres, tudo é uma criação da cabeça de Garcin, isso não excluiria o fato de que há gente nesse mundo. Nós precisamos de companhia, nem que para isso tenhamos que criar uma. Ninguém pode existir só, viver sim, mas existir não. Quando Descartes diz que penso logo existo, ele alcança um axioma da existência, tudo o mais pode ser mentira, a única certeza é a minha existência. Mas de que valeria esse pensamento se não fosse dito? Por que publicá-lo? Por que a aprovação dos outros se tudo pode ser mentira como as sombras na caverna de Platão? Porque ainda que tudo não passe de uma grande farsa, essa é a sua verdade, esse é o seu mundo, esse é você.

Quem você acha que é em frente a essa pessoa?

É engraçado pensar que o inferno são os outros, porque isso me faz lembrar de outro grande filósofo que disse aparentemente o contrário: amai-vos uns aos outros como a ti mesmo. No fundo, os dois dizem a mesma coisa. E o deus do fogo procura o fogo.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

O Abismo do Apanhador

Publicado: 10 de setembro de 2011 por Bill em A Vida
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Depois do encontro do Clube da Luta [Grupo aberto (http://www.facebook.com/groups/248280985211118/)], prometi que falaria das minhas impressões do livro The Catcher In The Rye porque algumas pessoas do clube não entenderam o porquê do meu fascínio pelo livro.

A história do Apanhador no Campo de Centeio é a história do jovem Holden Caulfield, um rapaz que tendo reprovado em quase todas as matérias da escola, dá um tempo por aí antes de voltar pra casa com receio de ouvir mais um sermão dos pais. É isso, essa é a história. Mas ao longo do livro vamos descobrir um bocado de coisas sobre Holden, o que ele pensa, como ele pensa, por que ele pensa dessa forma. Alguns terminarão a leitura do Apanhador e dirão que Holden é o típico adolescente. Perguntador, chato, desagradável, em suma, uma pessoa irritante.

Como encarar com seriedade alguém que é capaz de perguntar para onde vão os patos no inverno?

O personagem principal do livro escapa de todos os estereótipos possíveis que a literatura tradicional tanto adora. Holden Caulfield é um pé no saco. Cínico, mentiroso e, muitas vezes, insuportável, como todo bom adolescente tem que ser.

O “bom adolescente” não é aquele menino todo certinho, obediente, que tira as melhores notas na escola. O “bom” de Jerome David Salinger é um adolescente em crise. A crise é um sinal de que o adolescente está estressado com a passagem entre o mundo infantil e o mundo adulto. Mesmo que inconsciente, o “bom adolescente” é capaz de ‘sentir’ a diferença entre os mundos. Por isso quando vemos Holden emburrado, desgostoso de tudo e de todos, achamo-o infantil porque é justamente isso que Jerome quer passar. Que outra forma tem uma criança de protestar contra algo que a desagrada?

Holden tem 17 anos, não pode mais chorar, então amarra a cara, o que é bem mais maduro do que irromper em prantos esperando que alguém faça a sua vontade. Essa transição de espírito, a adolescência, ainda que seja muito comentada cotidianamente, pouco é compreendida em sua intensa amplitude para a formação do caráter.

O universo adolescente é repleto de contradições. Não se pode chorar porque não é mais criança, no entanto também não pode responder aos pais. Não deve ficar brincando por aí porque não é mais criança, mas não pode largar os estudos para trabalhar. É uma linha tênue que ora coloca o jovem entre as crianças, ora entre os adultos. E daí se você gosta de comprar balinhas? Você não é mais criança, devia saber que isso estraga os dentes.

O adolescente ainda gosta de jogar vídeo-game como muitos adultos também gostam. Mas o adolescente vai ser muito mais cobrado se passar o dia todo jogando PS3. Aí você pergunta: Oxe, como assim? um adulto jogando vídeo-game o dia todo não vai ser cobrado? OK. Ele pode até ser cobrado, mas ele já é um adulto, sabe o que faz da vida. E embora você saiba que ele está fazendo errado, você irá se calar porque de fato, ele sabe mesmo. Mas e o adolescente? Há, aí não, você dirá logo. O adolescente não sabe o que faz, não tem a devida noção de que se passar o dia todo jogando vídeo-game vai jogar a vida fora. Vamos pegar o adolescente de Jerome por exemplo. Holden toda hora quer fugir, ir pra algum lugar qualquer, de preferencia o campo, longe da hipocrisia e da cretinice (das cidades). Olha só o que ele queria fazer da vida dele, você dirá.

Bom, então Holden deve ser obrigado a fazer algo que não quer. Se seu desejo fosse ficar jogando video-game o dia todo, o certo a se fazer, como pais responsáveis, seria obrigá-lo a ir a escola. Claro, aonde você já viu um pai permitir que o filho passe o dia todo jogando video-game?

Certo, agora responda-me com sinceridade: Você acha que um adolescente vai aproveitar alguma coisa da escola sendo obrigado a fazê-lo? Você realmente acredita que só o fato de IR a escola fará com que ele aprenda? Como se fosse assim: Você entra na sala, senta e aprende.

Holden Caulfield não gostava de ir a escola e por mais que todos dissessem que era importante, Holden só iria dar a devida importância quando ele achasse que é importante. O momento que temos mais próximo disto é quando ele está no apartamento de um antigo professor e quase podemos vislumbrar um Holden indo pra escola mais disposto. Mas isso com uma conversa franca, sem imposições. O professor tenta mostrar a Holden as consequências de suas atitudes e fazer com ele reflita. Podemos ver que Holden realmente quer um motivo pra ter que ir a escola. Mas se um pai primeiro obriga o filho a alguma coisa e depois tenta demonstrar sua importância, o diálogo já ficará comprometido.

O que está por trás dessa postura, é a noção dita mais acima de que “o adolescente não sabe o que faz”. Alguns educadores dirão que isso é negar humanidade aos adolescentes. Não preciso ir tão longe, prefiro perguntar se você faria bem um trabalho compulsório. Veja bem, estou perguntado se você faria bem e não simplesmente fazer. Porque o adolescente ‘faz’ na maioria das vezes, para agradar os pais ou para não ser perturbado pelos mesmos. O adolescente quando obrigado a fazer algo que não quer, irá se tornar um adulto com uma lição de vida muito importante: você pode driblar o sistema. No entanto, seu caráter estará propenso ao de uma pessoa acostumada a disfarçar seus verdadeiros interesses e o pior, pode vir a se tornar uma pessoa infeliz e cretina por sempre viver escondendo o que realmente quer.

E é isso que Holden odeia acima de tudo. Essa facilidade que os adultos tem de mentir. Holden percebe que a medida que vai crescendo tem que esconder cada vez mais o que lhe passa no íntimo. Não pode sair por aí com um chapéu de caça vermelho “ridiculo”. Nem dizer que quer se casar e fugir pro campo que nem um “maluco”.

Holden está amargurado por ter que fingir o tempo todo, porque ele sabe que está se tornando um dos cretinos que tanto odeia. Que um dia vai terminar a escola e trabalhar com o pai. E não é isso que Holden quer.

Mas o que Holden quer? A unica passagem que Holden diz o que quer fazer da vida está carregada de metáforas. Ele diz:

Sabe o que eu queria fazer de verdade? No duro? Fico imaginando uma porção de crianças brincando num campo de centeio. Milhares de crianças e ninguém por perto. Eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê eu tenho que fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo

Sem dúvida é o momento mais impactante do livro, como se tudo convergisse para isso. Imagino se Jerome pensou primeiro nisso e depois pensou na história, já que é esse trecho que dá nome ao livro.

Salinger faz de Holden um adolescente em crise, que ciente do sinistro mundo que está prestes a fazer parte, quer salvar o máximo de crianças que puder do abismo horrível que é o mundo dos adultos. É como quando Holden chora tentando apagar um palavrão na escada da escola que a irmã estuda. Holden tenta proteger a todo custo a inocência dessas crianças, mas chora porque sabe que é inevitável, que não pode salva-las do abismo. Do mesmo modo, parece que Holden tenta bloquear a lembrança de um ex-colega que morre depois de “cair” de uma janela em sua antiga escola.

O abismo de Holden às vezes é mencionado, acredito, como metáforas de mal-estar em que o garoto sente um vazio enorme “como se estivesse a beira de um precipício e tudo é escuridão”. Essa metáfora patológica do abismo é apresentada algumas vezes ao longo da história e imaginamos se Holden está doente. Ele está doente sim, infectado pelo vírus de um mundo pestilento, que pouco a pouco devora a ingenuidade da alma e o transforma num zumbi de terno e gravata que se importa com o valor da mala dos outros.

Nesse abismo, a crueldade do mundo adulto representada por Nova York é o lugar da desfaçatez como o colega mais velho que posa de intelectual, dos aproveitadores na pele da prostituta e do cafetão, das mulheres feias, estúpidas e interesseiras. Não que não existam essas coisas no Pencey, mas ali, em Nova York, tudo é uma cusparada. Quando Holden toma café com as freiras da Cruz Vermelha fica condoído por um mundo que devia ser mais justo com as pessoas boas e no entanto, as pobres freiras… Holden então revela sua surpresa com o comportamento de um ex-colega que Holden tinha percebido, sentia vergonha de suas malas baratas. Holden confessa, bastante amargurado por se sentir insultado com uma coisa tão boba, que o garoto tinha usado suas malas como se fossem dele. Holden não dava a mínima para a qualidade de suas malas. Mas isso o tinha machucado de uma maneira pertubadora. Porque era o mundo dos adultos com suas cretinices egoístas se infiltrando no seu mundo.

Esse mundo também me perturba como podem ver nesse post https://boanoitebill.wordpress.com/2011/06/23/o-que-me-levou-a-historia/. De uma perspectiva oposta a de Holden (os Caulfield são da classe média), eu também entrei em crise diante do mundo. O meu fascínio pelo Apanhador certamente bebe um pouco nesse descontentamento do garoto com a realidade adulta. Quando foi que começamos a mentir? Quando foi que passamos a esconder o que sentimos? Pra que fingir? Pra passar a impressão de normalidade? Pra não ferir o ego de alguém? Ou temos vergonha de quem nós somos? Ou seria medo?

Talvez não seja tão prazeroso viajar com Holden, para alguém que tenha passado pela adolescência sem uma “crise”. Não sei. Gosto de pensar que todos passamos por uma crise independente da idade e um pouco mais, um pouco menos, vão entender o que se passa com ele. Acontece que quando a “crise” vem na adolescência, você ainda não é um adulto e não pode fazer o que quiser. A diferença é que quando adulto, as pessoas conversam com você como um adulto, mas quando adolescente, tratam-o como uma criança que devia agir como um adulto.

No final do livro, Holden contempla sob uma chuva rala  a irmãzinha Phoebe girar num carrossel, pensando em se despedir dela. Fugir de uma vez por todas. É nesse instante que decide ficar. Ficar para proteger a irmã. Ficar para ajudá-la, para apoiá-la como ela o apoiou, não seria justo deixá-la. Não é desse jeito que Holden faz as coisas. Holden então conserva sua integridade e, ao mesmo tempo, encontra a luz que precisava para quando chegar no fundo do abismo, ainda poder vislumbrar o que realmente importa.

O Apanhador no Campo de Centeio pode ser entendido como uma metáfora para o próprio livro, que “salva” almas de caírem na escuridão do abismo. No entanto, prefiro imaginar que o Apanhador é um professor de História.

 bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

Em busca da identidade

Publicado: 15 de julho de 2011 por Bill em o Universo
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A NEGAÇÃO DA MISCIGENAÇÃO
como mito fundador brasileiro 
 
O que nos faz brasileiros?

As evocações dos beats aos mitos de liberdade dos fundadores da América em confronto direto com a política imperialista dos Estados Unidos no pós-Guerra, constituíram a motivação para analisar alguns mitos que cercam nossa identidade e sua dialética com as contradições da realidade brasileira.

O mito, a realidade e o homem

O termo grego mytos significa dizer falar, contar. Do apogeu do racionalismo grego até o início deste século, o mito é o resultado do questionamento humano sobre o universo e sobre o próprio ser. Na sociedade contemporânea, com o predomínio da explicação cientifica do mundo, mito passou a significar algo falso, inventado. Mas é um erro pressupor que por esta conotação o mito não influencie no cotidiano, na sociedade como um todo. Em algumas culturas, mito significa verdade, mais que isso: a verdade mais profunda e perene. Significa história verdadeira, tão mais verdadeira quanto é revelação primordial, modelo das atividades e instituições humanas. É exemplar e sagrada: só pode ser recitada, cantada ou dançada em ocasião solene, o que lhe dá o caráter de santidade. O acesso a seu relato é reservado aos que já se submeteram a uma iniciação. Só se compreende o mito pelo próprio mito. Quando as investidas não o destroem, no mínimo seu crivo de análise passa despercebido por ele. Pois, muito mais que a razão e a ciência, o mito está encarregado de conter, por uma espécie de “razão engajada”, aquilo que deve ser encarado como o plenamente humano.

Luz divina ou uma bola de fogo gigante no espaço?

O mito é a maneira de vida que a ciência, embora almeje, jamais será. E se a ciência pretende transformar-se num modo de vida, como pode bem nos parecer na civilização altamente tecnicista de hoje, só o será miticamente. A ciência só destrói um mito criado por outro: o de si mesma. E, como por um paradoxo inesperado, vemo-nos hoje diante de uma tarefa cada vez mais inadiável: a de desmascarar o mito da ciência. Para a razão, o mito, na acepção que proponho, é um modo de sentir dimensões da realidade, inatingíveis racionalmente, dando-lhes significado e consistência.

Partindo então da explicação do mito, deve-se estabelecer a relação do mito com a identidade e desta, com a realidade. Como um todo, pode-se considerar que o mito está inserido na cultura de um povo. A identidade é compreendida enquanto construção social que produz efeitos sociais. Esta construção é elaborada de forma dinâmica e multidimensional. A questão da identidade se dá na medida da importância e do significado do mito, criando uma especificidade para determinado povo. Como narrativa de um acontecimento primordial, o mito é considerado formador e ordenador do comportamento humano, no sentido de explicar a realidade atual através da explicação do tempo primordial, com o objetivo de satisfazer necessidades religiosas e as aspirações morais. A necessidade de compreender a realidade presente  faz com que o homem contemporâneo, que se beneficia do avanço tecnológico para o seu conforto pessoal e sucesso profissional, busque no mito a razão de ser de sua existência, para suprir o vazio que existe na sua vida no que diz respeito à sua própria memória cultural.  Existe ou ocorre uma recuperação do valor existencial, da linguagem simbólica, comum ao mito, ao sonho e à arte. Refutando o senso comum, o mito não seria um pensar insuficiente ou ingênuo, uma crença falsa, mas exporia a própria atividade criadora e imaginativa, a transcendência do viver imediato.

O ‘Destino Manifesto’ dos portugueses

A consagração da "paz racial" pelos portugueses

O mar era a última fronteira a ser desbravada
Só o mais valente se lançava ao desconhecido
Quando naquela terra chegamos, maravilhados ficamos
Tamanha beleza e esplendor
Cores exóticas, figuras curiosas e um sol abrasador”
 

O homem não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e idéias, de tal modo que o mito, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo. O primeiro dos mitos fundadores da nossa história, na expressão de Sérgio Buarque de Holanda, é a “visão do paraíso”. Diários de bordo e cartas dos navegantes referem-se às terras brasileiras falando da formosura de suas praias imensas, da grandeza e variedade de seus arvoredos e animais, da fertilidade de seu solo e da inocência de suas gentes que “não lavram nem criam (…) e andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos”, como se lê na Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei Don Manuel Sobre o Achamento do Brasil. Nesses relatos, o Brasil é sempre descrito como um imenso jardim, uma espécie de Éden: a vegetação é luxuriante e bela (flores e frutos perenes), aqui reina a primavera eterna contra o também eterno outono do mundo. O verde da bandeira brasileira representa a inesgotável riqueza natural do solo pátrio. O mesmo fenômeno pode ser observado no Hino Nacional, que canta mares mais verdes, céus mais azuis, bosques com mais flores e nossa vida de “mais amores”. O gigante está “deitado eternamente em berço esplêndido”, isto é, na Natureza como paraíso ou berço do mundo, e é eterno em seu esplendor.

Em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre inicia seu livro com um rasgado elogio aos portugueses. Já no primeiro parágrafo lemos: Quando em 1532 se organizou econômica e civilmente a sociedade brasileira já foi depois de um século inteiro de contato dos portugueses com os trópicos; demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. A explicação para o sucesso do português no Brasil é explicado, segundo Freyre, pelo seu passado étnico, de povo indefinido entre a Europa e a África. Uma população meio cristã, meio sarracena, e que em ambos contava parentes, amigos, simpatias de crenças ou de costumes. Freyre fala na capacidade para a miscigenação que haveria no português: a miscigenação foi o processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga escala. É sobre esse mito fundador comentado por Freyre que as raízes de uma identidade brasileira crescerão.

Macunaíma fica branco, loiro e de olhos azuis

Assim, sorridentes, os povos indígenas conviveram com os europeus
 
 
 
Matando nossos deuses, destruindo nossas histórias, envergonhando nossas tradições
Acostumados as batalhas estávamos
Mas não conhecíamos uma guerra que se luta sem armas”
 

O segundo elemento na produção do mito fundador é ainda mais idealizado que o primeiro. O índio brasileiro que se tem retratado no imaginário popular, assemelha-se mais a um índio norte-americano com sua pena na cabeça e dizendo “Hao!”. Porém, com certo esforço, podemos encontrar um índio mais pelado, pintado e com cabelos lisos em cuia. Seu espírito é selvagem, mas sua índole é pura, intocada pela corrupção dos homens modernos. Essa imagem romantizada de índio é, sobretudo, uma contribuição de dois grandes escritores nacionalistas, Gonçalves Dias e José de Alencar. Juntos, encarregaram-se de criar/evocar esse mito, tentativa de afirmação de uma identidade genuinamente brasileira, distante da gênese européia atrelada ao passado colonial e, consequentemente, a Portugal.  Mas não só de lirismo, o índio tornou-se o mito que conhecemos.

Finca-se a bandeira brasileira em terras indigenas

Com o aval da ciência por meio Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB, os povos indígenas ganham contornos científicos. O século XIX instaura uma nova consciência histórica e determina aquilo que se deveria entender por história que, no caso brasileiro, promoveu a institucionalização do debate e delineamento de uma proposta de “Nação brasileira”. Neste quadro, coube ao IHGB o projeto de escrita da história de uma nação em processo de consolidação. O próprio Gonçalves Dias ganharia vaga entre os membros da instituição. No projeto etnográfico do IHGB, os diferentes povos indígenas não poderiam ser mais enumerados, mas inseridos dentro de um sistema que compreendesse a unidade indígena, sistema este que deveria também ser explicado nos termos de uma história nacional. E tal necessidade de sistematização haveria de ser cumprida tanto no eixo temporal, como no eixo espacial. Assim, o índio foi resgatado para ser retratado como um símbolo, construído de forma imponente, como um cavaleiro medieval, cheio de qualidades, virtudes e valores europeus.

Vergonha nacional

Procura-se escrava. Boa recompensa

Avaliaram meu porte, da largura dos ombros aos dedões dos pés
Fui arrancado de minha terra e vendido tal qual se vende um porco
Os doentes eram jogados no mar ainda vivos
Foram tantos, tantos, que anseio o dia em que a maré virá negra dos corpos enfermos
Dos poucos que aqui chegaram, menos resistiram
Essa terra devia ser negra, se não é, tamanho crime perpetrado”

Já para o terceiro elemento da matriz do mito fundador, o IHGB não foi tão condescendente. Para os abolicionistas a escravidão era um assunto tabu, as reações de uma elite conservadora eram demasiadas violentas para um confronto aberto. Assim, coube aos historiadores escravocratas a missão de representar o negro na fundação do Brasil.

Zumbi venceu algumas batalhas, mas a verdadeira guerra é silenciosa

O que se passou no Instituto Histórico é um ótimo parâmetro para entender a conjuntura em que a participação do negro na história foi construída no imaginário popular. A coisificação da pessoa negra deu ensejo ao nascimento de um mito negativo, com base na opressão, nos trabalhos forçados, que alimentaram e desencadearam uma série de movimentos de libertação escravagista, sempre mal vista pelos senhores de engenho. Esse momento de relutância dos escravos e que se transformou com o passar dos anos no mito da sua representação social: o negro com sinonímia de mal trabalhador, o típico malandro carioca. Muitos dos adjetivos que qualificavam o negro de forma pejorativa resultam da resistência dos seus antepassados à escravidão: nada realizava além do necessário. Daí ser considerado preguiçoso. Assim a cozinheira jamais executava satisfatoriamente o serviço da arrumadeira, caso isso lhe fosse dado a fazer. Tantas outras formas de relutância ao poder senhorial foram desenvolvidas pelos escravos, com o escopo de evitar que seus filhos tivessem o mesmo destino de servidão, e conseqüentemente, causar prejuízos aos seus donos. Os suicídios e as fugas representavam a manifestação da vingança contra todo regime colonialista escravista. Daí também, que as resistências mais radicais, o assassinato de seus donos por exemplo, conferia ao negro insubmisso outra característica pejorativa relacionada à marginalidade social. Tudo isso sob o véu do mito da miscigenação.

O retrato disforme do Brasil

A cultura dominante se impõe coercitivamente sobre outras culturas e os grupos dominados terminam por absolver a inferioridade, ou seja, a escravidão produz a imagem negativa, que possivelmente os negros e, em certa medida, os índios também, ao longo dos séculos, introjetaram de si mesmos. Há um comprometimento da identidade, logo que, o homem assimila costumes da raça superior para ser aceito pela sociedade. Se é difícil enfrentar uma guerra que se luta sem armas, o que dizer de uma guerra invisível?

O que resta da cultura indígena?

 Que tem eu pra falar?
Meu povo está morto
Esses que aí estão, que parecem conosco,
são herança da nossa vergonha
Usam jeans, falam no celular, andam de picape
Se ainda falam nossa língua, já dela esqueceram metade, metade do significado
logo deixarão de falar
 

No mito estadunidense de liberdade, há um desequilíbrio causado pelos beats ao reclamarem o mito como real. No caso brasileiro dá-se o contrário, o mito é negado. A identidade do mestiço brasileiro entra em crise quando percebemos hierarquias imutáveis ao longo dos séculos.

Alguns grilhões são invisíveis
Não compreendo
Vejo negros cercados
Sitiados em morros, amontoados em barracos, em cadeias
Vejo crianças chorando, com fome
Posso vê-las crescendo e terem filhos com fome também
Por que não se revoltam?
Na minha época também não andávamos com algemas nas mãos”
 

Aí, tem-se um processo curioso, de reinterpretação do mito fundador. As origens passam a ser evocadas, não pelo discurso dominante, mas por apropriações marginais que vão re-configurando o imaginário popular. O jeitinho brasileiro, tão desprezado pela elite, passa a ter uma conotação de auto-afirmação diante do explorador. O samba passa a ser exaltado, assim como o futebol. No âmbito acadêmico inicia-se uma produção critica da história nacional, há uma verdadeira subversão de valores, revestida de legitimidade cientifica. Os guetos, as aldeias, os morros, os quilombos, todos vivem um resgate histórico. As diferenças acentuam-se mais e mais, desconstruindo o mito da democracia racial e cultural.

A imagem do português, que exercia uma posição ímpar no processo de construção da identidade brasileira, pois, ao mesmo tempo que era um vínculo com a Europa, era também uma afronta a soberania, agora passa a ser negada de vez. Ridicularizada, vaiada. O mal que antes se imputava a escravidão, joga-se sobre os ombros portugueses.

Eu é que tinha que ta chorando! Eu! Olha só como sou retratado no imaginário brasileiro! Sou burro, estúpido, ganancioso, egoísta, quando tudo o que eu queria era aventura. Eu tive uma mulher indígena, sabe? Tive sim. Tive um escravo também e o libertei. Mas como fiquei nos livros de História? O Vilão! Eu sou o maldito vilão dessa história!”

As imagens do passado aparecem deformadas, falsificadas e colocadas a serviço de tendências posteriores. Essa é a dialética: passado e presente numa composição única e contínua, num entrelaçamento entre memória e discurso. Assume-se a divisão artificial construída entre mito e realidade, como entidades isoladas uma da outra. A realidade é tão produto do mito, quanto o mito é da realidade. À medida que a sociedade desenvolve novos espaços para segmentos antes mudos, embora não imóveis, evidencia-se o desequilíbrio de identidade. Portanto, o processo de formação da identidade individual e coletiva é fruto de um reconhecimento que se conquista pela ação consciente e organizada de um grupo que reivindica esse reconhecimento e essa valorização. Esse reconhecimento é conquistado e não concedido.

A identidade não é algo dado, mas uma condição forjada a partir de determinados elementos históricos e culturais, sendo sua eficácia momentânea, enquanto fator que instrumentaliza a ação, e será maior quanto mais estiver associada a uma dimensão emocional da vida social. Eis aí a questão chave para o entendimento da noção de construção identitária: a dimensão política enquanto fator de aglutinação em torno de uma determinada identidade tal como no caso dos beats. A identidade emerge quando sujeitos políticos se constituem, e nesse sentido, permite a criação de um nós, que leva a uma ação política. Essa re-significação passaria, pois, por uma apropriação interpretativa desses elementos, de modo a negá-los numa ideologia diferenciada e por isso, combativa.

Ficamos olhando a figura grotesca do português curvado sob o peso do machado cravado entre seus olhos ainda atônitos.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, petista, boêmio, metaleiro muy eclético, tonto, divertido y dulce… um comunista pero no mucho. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!

A ideologia vive

Publicado: 2 de maio de 2011 por Bill em o Universo
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Oposição vive momento de crise de identidade

A “notícia” estampada nos jornais de todo o país anunciava a debandada de boa parte dos deputados e vereadores do PSDB e do DEM para o recém-criado PSD de Gilberto Kassab. Partido esse que sob o comando do prefeito paulista, apóia o governo federal e o governo paulista, postura rejeitada pelo partido que, até pouco tempo atrás, Kassab fazia parte.

Pergunto. Que crise é essa se a oposição há 20 anos governa o estado mais rico do país? Sem falar em Minas, Goiás, etc. O próprio DEM que muitos já anunciavam sua extinção conquistou os governos de Santa Catarina e Rio Grande do Norte, melhor resultado que em 2006 quando ganhou somente no Distrito Federal, que embora abrigue a capital do Brasil tem pouca relevância do ponto de vista eleitoral. Se a vida política se garante sobre resultados eleitorais, a oposição vai muito bem obrigado.

Por que Kassab deixa o DEM quando a legenda vive seu melhor momento desde 2002?

A tal crise vem de outra ordem.

No plano nacional, o PSDB se juntou ao DEM, na época PFL, para formar o bloco parlamentar do governo. Em 94, tudo foi às mil maravilhas, o milagre do plano real brilhava nos olhos da classe média que podia ir às compras tranquilamente desde sabe-se-lá-deus-quando. As eleições de 98 estavam garantidas. Aí começou um movimento que é muito comentado, mas pouco discutido em suas consequências efetivas. O governo aprovou mesmo sob protesto ferozes da oposição a emenda da reeleição para presidente da República. Era o golpe branco de FHC. Um golpe não na oposição ou mesmo na República, alterar a Constituição em seus regimes eleitorais por mais que doa o coração faz parte do jogo. O golpe desferido por FHC atingiu sobretudo seu próprio partido. Há quem apressadamente argumente que o PSDB não tinha um político a altura do ex-presidente e que havia a ameaça do PT. Balela. Em 98 foi oba-oba, o PT nem chegou a fazer sombra ao PSDB. O caso é que Fernando em vez de pensar no futuro do partido, logo, em seu sucessor, decidiu que seria ele a colher os louros  depois que seu governo teve que sacrificar inúmeros investimentos para dar conta do arroucho fiscal que o plano real exigia. Era a hora da bonança e seria ele, Fernando Henrique Cardoso, pseudo-mentor do Plano Real, quem colheria os frutos tão duramente plantados. Foi um desastre. A política implantada mostrou-se incapaz de promover o crescimento econômico, os louros nunca viriam porque a lógica do plano Real mostrou-se perversa até mesmo para seus formuladores. Calcada em redução dos gastos públicos e juros altíssimos, muitos economistas, árduos defensores do Real, tentavam explicar por que o Brasil não podia crescer ainda.

Um assalto na calada da noite. As privatizações marcaram a fogo a memória do brasileiro. 

O problema do PSDB partiu da sua cartilha neoliberal. Uma resposta aparentemente simples dada a extensão da crise, mas é um tremendo engano achar que sua resolução é fácil, justamente porque o problema não é. Se José Serra tivesse comandado a legenda (ele é fraco demais para isso por N fatores), o PSDB teria um perfil bem diferente deste visto agora. Aliás, sem um perfil definido, o partido vive uma crise ideológica (que pode ser traduzida como uma crise de identidade), pois suas crenças mostraram-se erradas. Tal crise não é resultado de três eleições presidenciais consecutivas perdidas, mas simum sintoma de que algo está errado, afinal, o discurso não está convencendo. Convicção, esse é o problema.

Cardoso acreditava na política liberal, ele não acreditava no Brasil.

Para complicar ainda mais a confusão ideológica que o PSDB atravessa, o PT abraçou um espectro considerável dos gentis conservadores ao flexibilizar ou mesmo negligenciar bandeiras históricas do partido como o repúdio aos juros absurdos praticados pelo BC na época (e ainda hoje muito acima da média). Oportunismo, para os mais reacionários; pragmatismo, para os petistas e traição, para os ex-petistas.

Pragmatismo ou traição?

Fato é que essa guinada do PT sob o comando do ex-presidente Lula para a centro-esquerda desnorteou completamente o PSDB muito mais do que não ter uma raiz na sociedade, pois embora ela não tenha sido tão ramificada (ou profunda) quanto a do PT, é preconceito afirmar que não tiveram uma. Tiveram sim, só que bem diferente daquela do Partido dos Trabalhadores. Mas sinceramente, isso não significa muita coisa. As raízes da UDN eram muito profundas e eles também ficaram muito desnorteados quando Vargas nos anos 50 voltou (como ele mesmo prefetizou) “nos braços do povo”, que tal qual o PT (ou seria o contrario?), tinha uma ideologia mais fluida, (dificílima de combater, pois os dogmas são relativizados) e ainda que se possa argumentar que seu governo não era de esquerda, há de se admitir que Getúlio contrariava muitos interesses da direita que convenhamos era (ainda é) muito mais poderosa do que a esquerda.

José Serra na campanha presidencial sabia qual era o melhor caminho para o PSDB, enterrar o passado (esquecer, ou fingir que esqueceu, os erros, isto é, o apoio a política de FHC) e começar tudo de novo. Se tivesse conseguido se eleger, provavelmente quem estaria em crise agora seria o PT. Pegue o artigo do ex-presidente Cardoso tentando mostrar um caminho ao partido, um caminho que respeitasse o seu legado e no entendimento dele, o próprio partido. Já diria minha vózinha “muito ajuda quem não atrapalha”. O PSDB passa por uma crise justamente porque tem em tese uma ideologia social-democrata, mas praticou no governo FHC a liberal-democracia. Aí vem o ex-presidente dizer que deveriam parar de falar para as grandes multidões e se voltar para um público mais restrito, daí a confusão ideológica. Muitos dentro do partido acreditam na social-democracia e viram por 8 anos os petistas governarem do jeito que eles deveriam ter governado. A critica ao artigo do ex-presidente também é partidária. Esquecer o “povão”? Que social-democracia é essa que vira às costas para as massas? O ex-presidente Cardoso insiste em ser lembrado quando já devia ter se despedido da vida política, como ele mesmo fez com suas idéias.

Façamos um exercício mental especulativo. Imaginem que o resultado do segundo turno de 2010 tivesse sido diferente (lembrem-se da pequena diferença do segundo turno). Então veríamos o ex-presidente Lula tentando recuperar o ânimo dos derrotados não é mesmo? Tendo que responder a perguntas do tipo: O pragmatismo funcionou? Por que o ex-presidente Lula do auge de seus mais de 80% de aprovação não conseguiu eleger o sucessor? A tese da direita de que Lula é louco por holofotes iria pesar no debate. Teria o ex-presidente escolhido propositalmente um candidato mais fraco para que sua imagem não fosse eclipsada? Colocar a figura do ex-presidente em xeque, sem dúvida seria o o inicio de uma crise que poderia devastar o partido, já tencionado pela variedade de tendências ideológicas dos seus membros (muitos não engoliram até hoje a escolha de Henrique Meirelles para o BC). Afinal, a opção pela flexibilidade ideológica provou-se errônea. Percebam como o que ocorre com o PSDB é justamente isso, o partido perdeu seu líder ideológico e ficou desnorteado. Muitos dentro do PT fazem cara feia para a política macroeconômica adotada, mas aceitam porque confiam no Lula. Como muitos do PSDB confiaram em Fernando. Só para fechar nossa viagem imaginativa, e fixar uma diferença importante, pense em Lula sendo questionado internamente pela derrota, mas gozando de alto prestígio Brasil afora.

Em 2002, o povo estava insatisfeito com o governo, os próprios tucanos não tinham esperanças de vitória. Em 2006, apostaram no repúdio da população aos sucessivos escândalos de corrupção, deixando a ideologia em segundo plano. O vencedor da disputa interna foi Geraldo Alckmin, um político bem mais identificado com os ideais puritanos da direita do que José Serra. Nas eleições de 2006, o que marcou não foram as acusações de corrupção de Alckmin, mas principalmente sua falta de convicção em defender o legado do governo FHC, sabia que os erros da gestão tucana eram indefensáveis, mas o que fazer? Essa pergunta martelava o rosto de Alckmin nos debates.

Em 89 o PIG (apelido cartunesco dado à mídia conservadora) era capaz de eleger um presidente.

No dia 14 foi ao ar no Jornal Nacional a edição do debate presidencial entre Lula e Collor

Em 2010, José Serra se lança não somente candidato para presidente da República, mas fundador de um novo pensamento no PSDB. Reconhecia os êxitos da gestão petista e considerava que poderia fazer melhor. O que não podia era defender o ex-presidente Cardoso. Se ganhasse, FHC seria enterrado definitivamente. No entanto, Serra não conseguiu desfazer a impressão deixada pelos tucanos no governo federal. A crise do sistema financeiro mundial mostrou que o Estado mínimo bancado pelo FMI e que o PSDB aceitou de bom grado, estava terrivelmente errado. Não que os brasileiros não soubessem disso, mas a crise salientou a diferença abismal que separava os dois governos.

Enquanto FHC some, Lula aparece.

Agora fique atento ao comportamento eleitoral do brasileiro na última eleição diante da seguinte sentença: O neoliberalismo é uma ideologia definitivamente fracassada (pelo menos atualmente). Então a escolha concentra-se em Plínio do PSOL, garantia de Estado forte, mas muito radical para o gosto da maioria; Marina Silva, ex-petista, seu perfil deixa dúvidas quanto ao seu esquerdismo, logo a possibilidade de um Estado fraco; Dilma do (pelo) PT, garantia de Estado forte, mas muitas atitudes denotam sua proximidade com a direita e José Serra, que também é garantia de Estado forte só que não deixa dúvidas do seu vínculo com a direita. Essa foi a cisão nas eleições de 2010.

Abaixo um esquema de como fica o ciclo ideológico brasileiro ultimamente:

Ciclo ideológico dos partidos brasileiros

PV e PMDB agregam diferentes matizes, por isso são de centro, embora isso seja uma simplificação didática e altamente questionável. PT e PSDB são puxados para o centro por conta de seus respectivos candidatos, ainda que tenham uma identificação ideológica diferente destes. Repare na tensão que existe. Enquanto o PT é puxado pela direita, o PSDB é atraído pela esquerda.

Embora o terrorismo religioso tenha conquistado muitos votos para o PSDB, foi o fato de Dilma e Serra terem perfis muito próximos um do outro que provocou o racha eleitoral. Só que a batalha de Serra era muito mais difícil que a de Dilma, enquanto ele tinha que lutar contra o fantasma de FHC, Dilma tinha o escudo enorme e reluzente do ex-presidente Lula, por isso o tucano jogou sujo, aceitando a baixaria que seus aliados insulavam, para que driblasse a desconfiança dos mais conservadores (contingente considerável) com a chantagem ideológica de que ao contrário de Lula, Dilma não teria legitimidade dentro do PT para conter as alas mais radicais. Sem dúvida o grande erro de estratégia de Serra. Ao tentar conquistar o apoio dos conservadores que votaram em Marina, o PSDB polarizou ideologicamente a disputa, que era tudo o que o PT mais queria. Ora, sem mais, era só confrontar os 8 anos do PT com o do PSDB. Até para quem tinha votado em Serra no primeiro turno recuou diante do radicalismo do tucano, afinal, ficou fácil identificar a ideologia dominante no PSDB.

Sem propostas diferentes, o discurso caiu na baixaria

Mas, e agora? Serra sai derrotado da disputa e não tem legitimidade para traçar o caminho a ser seguido pelo partido, embora seja a sua, a idéia mais acertada. Talvez por isso tenha cruzado os braços diante do surgimento do PSD encabeçado por Kassab, legenda que certamente iria enfraquecer a oposição. De duas uma: ou o ex-governador pretende ingressar na legenda para escapar do passado maldito do PSDB ou aproveitar o enfraquecimento da legenda tucana e tomar as rédeas da situação. Um aviso importante para a oposição: Serra conseguiu 40 milhões de votos no segundo turno, mas enquanto FHC era colocado de lado no programa eleitoral do partido, a figura de Lula era no mínimo respeitada quando não enaltecida. Numa análise apressada e descuidada pode parecer personalismo, mas a meu ver Lula é claramente uma escolha ideológica do eleitorado brasileiro. Ironicamente, quando temos um novo partido social-democrata sendo criado, muitos apontam a falência do sistema político brasileiro pelo aspecto unitário de busca eleitoral sem perfil ideológico. Pode ser, mas para mim, tal conclusão é redutora e cínica da realidade. O PSD surge para atender carências ideológicas que DEM e PSDB não são capazes de suprir, seja por vícios ideológicos ou por interesses particulares de alguns caciques. Quando o PDS não se coloca como oposição, é uma posição pragmática sim, mas que não deixa de ser ideológica. Afinal o PT agora representa a social-democracia e para se opor a esse projeto ou você é socialista ou liberal e nós já sabemos, pelo menos no plano nacional, a preferência ideológica do brasileiro.

 

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, petista, boêmio, metaleiro, tonto, divertido y dulce… um comunista pero no mucho. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!