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São quase 18 horas e os carros se amontoam como formigas em um dia de chuva. O anjo está aconchegado aos pés do velho, protegendo-se da garoa. Ele boceja esticando a língua o máximo que pode, tentando demonstrar todo o seu tédio. Lá em cima, ele vê a cabeça do velho irradiar uma luz vermelha. É o sinal, o anjo se levanta e acompanha o velho até aqueles grandes animais de ferro que resmungam parados. Ele escuta, um por um, os nós dos dedos dele baterem contra as janelas fechadas. Às vezes uma pequena fresta se abre e o velho diz: Não preciso do seu dinheiro nem pra limpar meu cu. E segue para outro carro. Vez ou outra alguém deixa a segurança metálica para empurrar o velho ou cuspir-lhe na cara. Tudo bem. O velho não se incomoda com isso. Pelo contrário. Enquanto limpa a saliva azeda do rosto, ele sorri. Para o anjo não existe uma palavra para descrever aquilo, mas é assim que podemos reconhecer. Faça o teste: tente insultá-lo. Você vai vê-lo sorrir, balançar o rabo e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder a sua agressão. Só vai continuar sorrindo daquele jeito estúpido.

Foi numa sexta-feira. Chuviscava serenamente. Os automóveis pareciam estar ainda mais bravos do que de costume. E aquele velho rabugento continuava a bater irritantemente com os nós dos dedos nas janelas fechadas e abafadas. Na maioria das vezes, o brilho vermelho acima da cabeça do velho se tornava verde antes de alguém ouvi-lo, mas aquele cara nem esperou a troca dos sinais. Por acaso, esse cara estava tendo o que as pessoas costumam chamar de “dia de cão”. O nome desse sujeito é Carlos.

Meniera, por favor. Ok. O senhor Meniera tinha muito orgulho do seu sobrenome, tinha uma sonoridade legal, era quase, digamos, imponente. Ele dizia para todo mundo que o sobrenome era de uma nobre família espanhola, muito embora quando criança tivesse escutado da avó que o sobrenome Meniera era de uma família de pé-rapados que ficaram conhecidos após saquear um navio da nobreza portuguesa que naufragara perto da costa brasileira. Isso lá na época das invasões napoleônicas. Mas esse Meniera fizera questão de não se lembrar disso. Até que sua filha fora presa roubando a casa de um vizinho. O senhor Meniera não podia conceber aquilo. Ele não era rico, é verdade, mas também não era pobre, de jeito nenhum. Era capitão de polícia na capital do país, local de melhor remuneração da corporação. Tinha uma casa de dois andares, com três quartos e uma suíte. Quatro banheiros. Quatro. Um deles com hidromassagem. Tinha um carro grande e dois outros populares. Estava financiando nesse momento uma casa de praia em segredo. Talvez até com um Jet-ski. Estava planejando fazer uma surpresa para a família. Estava.

O senhor Meniera se agarra ao volante observando as gotículas d’água escorregarem pelo pára-brisa. Só pode estar no sangue, pensava. Quando menor também dera de entrar na casa do vizinho, mas o senhor Meniera morava numa favela do Recife e o filho do vizinho vivia se gabando daquele supernitendo. Pensou nos irmãos, primos e tios presos. Isso. Só pode estar no sangue, repetia agarrado ao volante. É uma fase. Mas que dia!

Parecia que deus escolhera esse dia para castigá-lo, puni-lo com um único e fulminante golpe por todos os seus pecados. E eram muitos é claro. A começar pela mulher. Havia quatro anos que o senhor Meniera a traia. O senhor Meniera presenciara durante anos e anos os colegas comentando – e vangloriando-se, das diversas aventuras extraconjugais que mantinham. Sempre os julgou em silêncio. Sua devoção aos votos matrimoniais refletia-se no crucifixo pendurado no retrovisor. A pálida figura do senhor Meniera espiava do espelhinho aqueles olhos azuis avermelhados. O capitão estava chorando. Há quanto tempo não chorava? Desde a morte dele, diz sem titubear. Sim, outro pecado. Talvez o maior de todos. O senhor Meniera então pega o envelope branco em cima do painel e o amassa, com as duas mãos, amassa bem forte.

Logo pela manhã, nesse dia maldito, o chefe do seu pelotão dera pessoalmente o recado. A corregedoria irá investigar as denúncias de abuso de autoridade contra o capitão Meniera. Até a conclusão do inquérito disciplinar você está dispensado das suas funções. O senhor Meniera sabia que uma hora iria pagar pelos seus pecados, mas precisava ser tudo no mesmo dia? Hein, seu porra? O barulho longínquo de uma sirene o faz pensar naquela farda cinza. Estava matando aula para fumar um baseado com os amigos quando três policiais se aproximaram sorrateiramente e deram inicio ao festival de torturas. Jamais se esqueceria do cano frio do revólver encostado a nuca enquanto era estuprado. O senhor Meniera decidira que seria policial para impedir aquele tipo de atrocidade. E deus é testemunha de que nem um só dia deixou de tentar cumprir seu juramento secreto. Mas a vida é muito mais complicada do que um adolescente pode supor. As violências que o capitão sofreu nos seus primeiros anos de academia não se comparam com todo seu período de rebeldia civil. Com exceção do estupro, é claro, que era por si só uma exceção. Mas o senhor Meniera pensava nos pequenos delitos cotidianos e dizia para si: eles se sentem bem com isso, enquanto eu me sentir mal estarei salvo. O senhor Meniera se enxergava como um paladino da justiça. De verdade. Não estava ali para prender bandidos e traficantes, ou proteger os ricos e afortunados da violência social. O senhor Meniera vestira aquela farda para combater o mal. Lembra? Quando foi que ele parou de refletir sobre isso? Nem se lembra mais. Fora a tanto tempo aquilo. Agora o senhor Meniera é um policial barrigudo, de careca pronunciada, sem bigode ou ideais. Não era desiludido, não senhor. O senhor Meniera era um homem de fé. Só estava velho e cansado. Pare de chorar, capitão, diz enxugando as lágrimas. O estomago ruge faminto a espera do jantar. O senhor Meniera exaspera-se pela milésima vez com a lentidão do trânsito. Espreguiça-se. Tenta relaxar. Pensar em alguma coisa agradável. Repara num cartaz pintado a mão preso numa placa de sinalização. É uma pintura grotesca de uma árvore. Talvez a chuva tenha deformado o desenho, conforta-se o senhor Meniera. Mas se a intenção do autor fora pintar uma árvore horrível, ele tinha conseguido com louvor. Nunca houve árvore mais feia que aquela. Velha e garranchosa, seca e amarelada. O estomago torna a roncar. E o transito continua irremediavelmente atravancado. Tenta sintonizar uma rádio, mas só ouve estática. Amaldiçoa os céus e procura no porta-luvas algum cd. Nenhum. Aos poucos, o pensamento torna a concentrar-se na filha. Aquele monte de piercings, tatuagens e cortes e cores de cabelo malucos. Mas ele dizia que isso era uma fase. Seus colegas tinham enfrentado problemas parecidos. Logo ela iria criar juízo, ia perceber que se desfigurar daquela forma só chamava atenção para sua imaturidade e insegurança. A mulher protestava, mas o senhor Meniera respondia convicto: só existe aprendizado de verdade sozinho. Era um de seus lemas. Tinha nove ao todo. Todos dignos de serem tatuados. Mas agora o senhor Meniera se questionava. Será que deveria ter dito alguma coisa? Não. Ela jamais me escutaria. Sou a representação tirana do mundo adulto. Mas, e se o vizinho prestasse queixa? Valia a pena foder com seu futuro para aprender sobre a vida? Ele já vira centenas de jovens de classe média se perderem assim, sem mais nem menos. OS familiares ficavam perdidos, sem saber o que fazer. O senhor Meniera também os julgava. Imaginava que jamais passaria por uma situação como aquela. Mas aí estava… a forma como a filha o encarava, era nojo. Puro nojo. Também nesse dia a mulher soltara os cachorros. Usou maquiavelicamente os problemas da filha para despejar, bem, tudo. A depressão, a rotina, o sexo, o amor, as traições e eles… ah, o senhor Meniera descontou suas frustrações no carro, rasgando pela cidade afora. Por pouco não matou um ciclista desatento. O senhor Meniera esfrega as têmporas. Fome costuma dar-lhe uma dor de cabeça terrível. Ele respira fundo e se imagina deitado confortavelmente numa cadeira de praia, com uma sombrinha protegendo-o do sol forte e uma água de coco ao alcance da mão. Mas, repentinamente, o ar congela, para ser removido por uma ventania que dá lugar a um tsunami daqueles que a gente só viu na televisão. A cadeira é arrancada da bunda como um prego em analogia ao que aconteceu nesse dia. O senhor Meniera afunda, com toneladas de água esmagando seus pulmões. Vê, aturdido, aquele cartaz da árvore borrada passar por ele e mergulhar na escuridão. O senhor Meniera olha para o relógio e se surpreende com o horário. São quase seis. Agora é que essa porra não anda mesmo, xinga alto. E foi assim que aquele brilho vermelho dava lugar ao verde e o carro permanecia imóvel. Vermelho e verde e a porra do carro não andava mais de um metro. Vermelho e verde. Vermelho e verde. De novo. E de novo outra vez. TOC-TOC. Para completar a porra dum mendigo tinha aparecido e batia na janela do carro sem parar. O capitão foi surpreendentemente calmo ao agitar a mão num gesto de “estou sem troco, amigo”. Mas. TOC-TOC. A porra do mendigo não parava de bater. TOC-TOC. VERMELHO e VERDE. TOC-TOC. VERDE e VERMELHO. TOC VERMELHO. TOC VERDE. E nada. Nada. Até o estomago evitava incomodá-lo temendo sua fúria. Quando o mendigo bateu outra vez o capitão abriu a porta e sabe-se lá o que teria acontecido se o motoqueiro não tivesse reagido primeiro. A treta com o motoqueiro era coisa antiga. O velho e o motoqueiro se estranhavam a tempos e o motoqueiro prometera que se visse o velho por ali outra vez iria lhe dar uma surra pra ele nunca mais esquecer. O velho só sorriu mostrando-lhe o dedo do meio. Mas o motoqueiro falava serio. Esse era outro que também passava pelo seu dia de cão, mas por ora fiquemos com a causa do senhor Meniera, fôssemos retratar cada dia de cão presentes neste engarrafamento a humanidade não viveria o suficiente para ler este relato. Enfim, o motoqueiro avançou sobre o mendigo tirão.

– E ae, seu folgado do caralho?!! Te avisei pra não aparecer aqui, não avisei? Tira onda agora, vagabundo!

E acertou um soco bem no meio da garganta do velho que caiu, de joelhos. Ao que o motoqueiro emputecido respondeu com uma joelhada na cara. Nosso velho foi atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, sorria, é claro que sorria. Desse mundo cheio de ódio, de rancor, mágoa e desespero o velho queria levar tudo para o túmulo. E o capitão a tudo assistia, espantado demais para agir. Não com a violência do motoqueiro. Já vira aquilo centena, milhares de vezes. Ele mesmo teria feito algo parecido segundos atrás. Não. Era aquele sorriso maluco.

Há algo errado naquilo, você sabe, todos sabem. Quem nunca ouviu falar de Jesus Cristo? Mas presenciar aquilo acontecer era qualquer coisa demoníaca demais. Afinal, que tipo de espírito subjuga-se voluntariamente daquela forma? Ah, triste é a figura que sorri da ingratidão, da violência, do abandono, do escárnio, da tirania. O senhor Meniera contempla o estado deplorável daquele pobre homem como se espiasse um segredo proibido, uma indecência, algum ato de extrema vilania. Ele pensa no ímpeto revolucionário daquele coração… que triste é amar assim. Não existe tortura pior que essa, pois a mão que empurra o punhal contra suas costelas é sua, e você sabe disso. Talvez por isso doa tanto. Não há como conciliar amor e orgulho. Basta que o momento surja e, por mais insignificante que seja o confronto, você descartará seu orgulho com tanta facilidade que nem se dará conta da magnitude do ato perverso que atenta contra ti. Sim, pobre criatura que ama, teu corpo já não mais lhe pertence, você não pode mais controlar seu estado de espírito, não se engane, isso faz de tu um escravo. Escravo. Do mais vergonhoso tipo de escravidão. Daquele tipo que faz você se ajoelhar e rezar, deitar lágrimas, crente que um sinal, apenas um sinal, dissipará todos os males! Este é o mais ridículo dos escravos. Venera e amaldiçoa seu dono, porque o ama, não pode livrar-se dele. É um escravo sem correntes. Um cachorro que se deita a porta ansioso pela chegada do dono, cujo único deleite é lamber-lhe os sapatos. És uma figura tão deplorável esta que não se intimida com os chutes que lhe são desferidos a boca do estomago, não se importa com os olhares que fogem dos seus, nem tampouco com as palavras que voam como pedras a troçar do seu amor, e tudo porque ama! Tua única felicidade reside no reconhecimento do outro, daí o sofrimento, a angústia sem fim, claro, a realidade logo irá penetrar tão fundo que até os poucos dentes que lhe restam na boca serão sacudidos. Oh, tolo sonhador, engana-te, ludibria-se, reveste tua infelicidade de melancolia para lhe dar ares poéticos! Que mentira quixotesca dirá para si em seguida para suportar essa dor que lhe devassa o peito? Qualquer uma, simplesmente não importa. Esta triste figura é o tripulante desavisado daquele barco que está indo a pique. Agarrar-se-á a qualquer coisa.Que triste! Muito triste. E o capitão segura a arma. É preciso acordar. Então você tranca essa coisa naquele lugar da sua cabeça que é hermeticamente fechado, onde a árvore feia não pode ser vista. Ali, nem mesmo um tsunami, apesar de todo o poder de devastação, pode entrar. Pode perturbar, mas não entrar. Entrar nunca. Pois a única chave está bem segura na mão direita do capitão. Essa chave tem a forma de uma Colt .45 de uso restrito.

O motoqueiro chutava o estomago do velho. Duas. Três vezes. Só parou quando o anjo mordeu-lhe a perna. O motoqueiro caiu e o anjo instintivamente voou sobre a jugular. Provavelmente o capacete e a jaqueta de couro seriam suficientes para lhe preservar a integridade física, mas o capitão Meniera decidiu não arriscar e atirou contra o animal. O anjo soltou um frêmito ganido quando a bala alojou-se entre suas costelas. Foi aí que o velho parou de sorrir. Quão perigoso pode ser o amor? E o velho chora. Tem chorado muito ultimamente. O vira-lata ferido se aproxima e lhe lambe o sangue e as lágrimas da bochecha.

Enquanto isso o motoqueiro tenta se explicar ao policial. As pessoas na rua dividem-se quanto a questão. Alguns defendem o velho, outros o motoqueiro. Uns poucos questionam o tiro dado no cachorro. A discussão cresce entre buzinas e destemperos. Mas aos ouvidos do senhor Meniera jaz um silêncio absoluto. Tudo o que vê é aquele gesto de carinho na calçada enlameada. É tudo tão simplório e banal. As pessoas não vêem, mas nós vemos. O senhor Meniera chora. Ele tem chorado muito ultimamente. Não sabe porquê. Há algo naquele gesto que faz o senhor Meniera se arrepender profundamente de não ter estado ali antes, a descoberto, sob a chuva e o amor incondicional daqueles dois idiotas.

É tudo tão calmo aqui, murmura. E o senhor Meniera está calmo, em paz. Sem precisar imaginar uma casa de praia ou estar atrás de um volante a 200 por hora. Ele recolhe o revólver e pega o cachorro no colo, colocando-o no carro. Faz o mesmo com o velho. O senhor Meniera gira o volante e passa por cima do meio-fio pegando a estrada paralela, quase atropelando o motoqueiro e a multidão que se juntava no local.

Um anjo costuma ter uma aparência muito desagradável, tão desagradável que te faz ficar sob a chuva, admirando-a.

Você escuta risadas em algum lugar. Você pode esticar o nariz e sentir o aroma quente do chá que queima a língua. Você pode sentir o calor confortável de dentro da casa, com aquela gostosa brisa noturna correndo pela janela aberta. Mais risadas. Você imagina de que tipo de frivolidade aquelas pessoas estão rindo. Provavelmente estão vendo TV. E você imagina a trilha sonora daqueles vídeos engraçados em que as pessoas se machucam pra valer fazendo coisas estúpidas, como a de um cara tentando se equilibrar em uma escada com um pé só. A música estúpida sugere a forma como você deve encarar o desastre anunciado. Assim, quando ele escorregar, quando as pernas dele estiverem abertas bem no meio da escada, você deve uivar euforicamente com um tremendo UHHH! Você deve rir. Ria. Como toda piada sarcástica, essa piada é sobre você. Preste atenção. Eles estão dizendo que você é estúpido, que vão te machucar, que vão te machucar pra valer. Agora ria, seu idiota. Eles adoram brincar conosco.

Aos poucos, a rua se enche de silêncio. Aquelas pessoas risonhas foram dormir. E em seus sonhos elas irão cair de uma escada. Algumas acordarão assustadas, quem sabe levantem e tomem um pouco d’água. Ou fiquem em suas camas, no escuro, esperando. Outras ainda podem continuar caindo. Amanhã o pesadelo terá desvanecido. Mas quando elas encontrarem uma escada, irresistivelmente, irão dar-lhe a volta. Ah sim, como aquele jovem de cabelos maltratados que corria pela praia com uma pequena trouxa amarrada as costas. Dentro dela havia alguns pertences. Nove, ao todo. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. A trouxa balançava a suas costas febrilmente. Ninguém repara nele. Mas a quem por acaso batesse os olhos no rapaz, veria seu semblante intensamente contraído e a corredeira que se fazia abaixo do queixo. E pensaria: o que há com os jovens de hoje? Não sabem aproveitar a vida! Não importa quão suave seja a brisa que lhe massageia os cabelos, ou a alegria desse sol estupendo enchendo as coisas de vida, ou o doce prazer de sentir a areia quente ficar fria e quente e fria de novo. Não sabem! Será que não conseguem escutar o mar cantando sobre tudo isso??? Quiçá este jovem pode até sorrir, mas se alguém desse a sorte de vê-lo nesse momento, de imediato se ressentiria, como se encontrasse lixo espalhado em um lugar bonito. Desagradável. E extremamente irresponsável. E esse jovem corre, mergulhando cada vez mais fundo na escuridão. Posso ouvir os passos a suas costas. Sombras que se movimentam sozinhas. Pesadelos. Noites terrivelmente barulhentas, que ficam sussurrando um horror qualquer seu, que seja, um único medo indizível, irracional, tão profundamente enraizado no seu espírito que, um dia, você se dá conta das manchas escuras envolta dos olhos e, por mais que tente, não consegue lembrar qual foi a última vez que dormiu.

Ah! vida miserável essa! que se compraz com as sombras, com a sujeira, com a indiferença por que dela não lhe vem censura. Mas de que adianta? conquanto a consciência posta olhares neste corpo moribundo mesmo na escuridão! Sim! Esse jovem sabe. Sabe que a fuga é uma ilusão, mas é a ilusão que lhe permite continuar. Assim nos embriagamos até o raiar da morte. Todos os dias, repito. Porque você insiste em não me dar ouvidos. Todos os dias flertamos com a morte para, quem sabe, acidentalmente, possa ela um dia nos levar. Afinal, todo sobrevivente é um inocente.

Não. Não diga que sou louco. A loucura é uma desculpa fácil para se desfazer do meu problema. Não. Eles estão aí. Vigilantes. Sorridentes. São seus vizinhos. Colegas de trabalho. Aquele velho amigo da faculdade. Eles estão o tempo todo agarrando suas pálpebras para cima. Olhe, desgraçado, olhe! Veja os porcos que charfundam a lama. Felizes, entupidos de ração. Veja as galinhas amontoadas umas sobre as outras. Iluminadas artificialmente para que não parem de comer. De botar ovos. De viver. Olhe para isso. Eles seguem um padrão de propósito para se divertir conosco. Venha comigo agora. É noite profunda. Não há lua. Ou estrelas. Nem risadas. Agora, e somente agora, posso contar. Então, escute com atenção. O tempo é curto. Mas essa é sua chance. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

Meu pai está no chão em uma poça de sangue, minha mãe está embaixo de mim, a boca escancarada, os olhos vazios. Não vejo minha irmã. Sinto uma dor e um movimento de sobe e desce. Ah, é o doutorzinho. Ele está em cima de mim, está comendo a porra do meu cu. O cano frio do revolver está grudado no meu rosto. Sinto medo, um medo terrível. Um medo sem nome. Estou cagado. Cagado de medo, literalmente. Ele come meu cu cagado. Louco de merda. Sinto o calor do esperma irradiar-se pelas minhas pregas. O filha da puta geme, satisfeito.

– Cara, você tem um cu melhor que o dá tua irmã, falo sério. Porra!

Uma parte de mim, uma parte antiga de mim, está espantada, absurdamente espantada com a violência, com o terror, com o sadismo, não consigo me mover, todo o corpo dói, retesado. E ele fica sorrindo. O desgraçado sorri diante do meu medo, está feliz! O cara acabou de violentar e matar toda minha família e está sorrindo! Que tipo de pessoa pode fazer isso? Sinto um frio e ao mesmo tempo um calor escorrer pelas pernas, estou mijando.

– Ah merda! Mas que merda! – ele grita pulando às gargalhadas

Eu me odeio. Como eu me odeio. Que espécie de homem eu sou? Por que eu não paro de tremer, levanto e arranco o sorriso desse bosta mesmo que antes ele me acerte um tiro no peito? Por quê? Ele sobe as calças, afivela o cinto com cuidado. Se aproxima de mim e me beija na testa. Sinto o suor de sabonete dele escorrer pelo meu rosto. Em seguida deve ter me acertado a cabeça com o revolver também porque apago instantaneamente. E acordo. Estão todos mortos! Mortos! Subo aos tropeços até meu quarto, apanho algumas coisas. Nove coisas na verdade. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. E fujo, corro dali pra nunca mais voltar. Em algum momento, os vizinhos vão desconfiar, suspeito que a primeira a notar seja Dona Silvana, enxerida e fofoqueira como é, não deve demorar a estranhar o sumiço da gente, logo o fedor vai se espalhar pela rua, o telefone vai ficar tocando e tocando, tocando até cair, os cachorros vão latir de fome. Aí, alguém, dona Silvana, liga pra polícia. Queria ter deixado uma carta colada por um imã na geladeira para quem descobrisse os corpos:

Minha família está morta. Foram torturados e assassinados pelo doutor que namorava minha irmã. Eu sei porque ele me deixou viver. Ele quer brincar. Quer ver até onde eu posso ir. Fique olhando seu desgraçado. Eu vou frustrar todos os seus planos de merda.

Quisera estar calmo para deixar um bilhete. Minhas mãos mal conseguiam parar de tremer para assoar o nariz. Não… Tudo que fiz foi fugir. E esse jovem corre enlouquecido. O peito e o cu doloridos pelo esforço. Está chorando quando chega à praia. Ele jura que todos o observam. Que todos se afastam dele porque sabem quem ele é. Um fugitivo. Um egoísta desgraçado que luta covardemente pela sobrevivência. Esse jovem sente o gosto salgado das lágrimas misturado ao suor que escorre da testa. E ele corre, tentando fugir do passado, das memórias, da dor, da culpa, do ódio, da humilhação, da impotência. Vomita sem parar. O hálito de esperma ainda enche-lhe a boca. Ele lembra que quando criança fez um coleguinha chupá-lo. Ele lembra de obrigá-lo a engolir sua porra. Lembra sim. Lembra-se nitidamente disto. Lembra também de um menino que tomou a bicicleta da minha irmã e os dois tiveram que voltar a pé pra casa. Do vizinho que apanhou na escola, dele pedir ajuda chorando e o jovem-criança fingir não ouvir, e depois ainda se rir dele para os outros. Que covarde! Teria dito. E era seu melhor amigo, ele ia a sua casa todo dia jogar supernintendo. Lembra do pai colocando a minha irmã de castigo por dar um soco no nariz dele. A irmã ficara zangada porque descobrira que ele a espiava no banho. E ela não contou pro pai, nunca contou para ninguém. O jovem lembra do chefe passando um esporro em uma colega de trabalho. O jovem lembra que ele fora encarregado de ensinar o novato. O jovem lembra, lembra muito bem, de ensinar-lhe tudo errado. Ah, o jovem também lembra daquele dia horrível quando ficou preso no moedor e aquele mesmo colega salvara sua mão de ser mutilada. Talvez o jovem mereça a lembrança da mãe dizendo que estava tudo bem, que ia ficar tudo bem enquanto a violentava. E o jovem continua correndo pela praia. Ele passa por um senhor de 40, 50 anos, chapéu, e bastante protetor solar no rosto e no peito, sentado numa barraquinha, tomando água de coco, com um jornal estendido entre as mãos. Esse senhor lê sobre um casal de velhinhos, espancados até a morte pela neta, uma mocinha de 13 anos. Na mesma página há uma foto grande de um acidente de carro. A legenda diz: BEBIDA AO VOLANTE CAUSA MORTE. Ele lê que um motorista se irritou com a batida e espancou até a morte o responsável pelo acidente, que estava embriagado. O senhor lê a respeito de uma criança que saiu para comprar pão. Há imagens feitas pela câmera da padaria, em uma das fotos você vê um homem se aproximar. Eles saem juntos. A menina é estuprada tão violentamente que seu hímen é rompido, ela também é espancada até a morte. No final dessa página, o jornalista constata a total incapacidade do Estado em nos proteger, e deixa entrelinhas que uma redução de impostos seria muito bem-vinda. É. Eles se divertem conosco. Entre uma água de coco, violência e jornais está você. Você se enraivece. Gira o punho em minha direção dizendo que não foi você que fez aquelas coisas. Sim, como o coco. Não foi você quem plantou o coqueiro, ou a pessoa que derrubou o coco da árvore, não foi a pessoa que o transportou até a barraquinha, nem aquela que abriu o coco ou mesmo quem colocou o canudinho, a única coisa que você fez foi beber. Você dobra o jornal e sorve o último gole do cocô. E o mundo segue adiante. A violência é a roldana mestra de um deus sem nome, gênero ou propósito. Eles estão aí, divertindo-se. Deixam nossos corpos jazerem quentes em residências de janelas blindadas, muros altos com cercas elétricas, câmeras de segurança e cachorros grandes e raivosos. Tudo precisa inspirar confiança para que a roldana mestra possa funcionar. Porque o terror não existe sem esperança. Uma ilusão, para viver, para continuar, para justificar o sofrimento, suportá-lo e, principalmente, negligenciar o destino.

Daquele jovem de cabelos maltrados, só resta um velhinho de cabelos podres, desdentado, de queixo pontudo, vestido num jeans muito surrado, com metade do que fora uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma trouxa aparentemente muito pesada às costas, um sério problema de audição e olhinhos bem apertados para a noite. Ele se levanta, o que era dificílimo de fazer com o cocô feito concreto colado nas magras pernas. Ao se mexer o cheiro desprende-se, fá-lo lacrimejar e quase o derrubar. Acostumado está esse velho a merda. Tem por merda o travesseiro, as conta-roupas, a cabeça. Assim é um sobrevivente de verdade. A merda é um lembrete do que caminha por aí. O velhinho então se arrasta pela rua escura, vai charfundar as lixeiras em busca de comida e, com sorte, alguma bebida. O lixo era mais generoso do que qualquer esmola. Na lixeira mais próxima, no entanto, o velho se depara com um rival, um vira-lata moído, meio desconfiado. Um sobrevivente reconhece outro. Eles se encaram. O velho vê seu rabo quebrado balançar. Espera comida? Algum osso que sobrou da janta talvez? Estico a mão amistosamente. O cão se aproxima e lambe-a. E choro. Tenho chorado muito ultimamente. Não sei porquê. Há algo naquele toque que me faz pensar nos sonhos distantes de uma humanidade esfacelada, alguns farelos que reluzem ao sol, cheios, não, transbordantes de esperança, é lindo, e trágico, ridiculamente cômico em sua construção piegas, é o velho discurso do amor, das mãos enrugadas e trepidantes à língua áspera, cansada e ferida. Neste toque barbaramente simplório, vejo o coração deste mundo bater mais alto.

Um anjo é um sobrevivente que encontra outro sobrevivente.

Com certeza você já viu um deles. No cinema, em uma festa qualquer, no engarrafamento das 18 horas. Pode até ser vizinho de um. São quase sempre médicos ou advogados por volta dos 40 anos. Fazem caminhada toda manhã, mesmo nos feriados e fins de semana. Às vezes em companhia do cachorro. Costumam morar em residência própria, vestir-se casualmente e ter carros esportivos. Eles seguem um padrão de propósito para divertir-se conosco. São irritantemente simpáticos e asseados, o que provoca uma situação curiosa. Faça o teste: tente cumprimentar um deles. Você vai vê-lo sorrir desagradavelmente, balançar a cabeça e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder totalmente ao seu cumprimento. Só vai continuar sorrindo. É assim que podemos identificá-los.

Minha irmã começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas. O cara era um doutor. Minha irmã o conheceu quando um de seus alunos passou mal e ela o levou ao hospital. Ainda posso ouvi-la se derretendo sobre ele “Tão prestativo, tão atencioso, nunca tinha conhecido um médico assim!” A idiota da minha irmã sempre foi muito carente, lembro que ela se apaixonou por um amigo meu só porque ele a ajudou com as compras. Chegaram a namorar por um tempo. Quem sabe se esse meu amigo não fosse um imbecil, eles ainda estariam juntos e, bem, evitado o pior. Acompanhei minha irmã marcar encontros com o tal médico, recebendo flores e cestas de café da manhã com bilhetinhos cafonas de amor prometido. O babaca nem imaginava que com uma caixa de bombons já teria ganhado o coração dela. As flores, as promessas de amor, o namoro, tudo foi muito rápido pro meu gosto. Eu não conhecia muitos médicos, mas conhecia muitos homens e aquela atenção toda que o médico dispensava a minha irmã me incomodava bastante. Minha irmã não era um sinônimo de beleza, nem passava perto. Tirando meu amigo como namorado, ela só teve outro caso quando ainda era adolescente e vestia calças quatro números menor. Minha irmã era linda sabe, bonita mesmo, mas de um jeito diferente, de um jeito que essas revistas sobre celebridades não entendem. Daí, um cara aparece do nada e saca que ela é uma mulher maravilhosa com uns quilinhos a mais? Difícil crer, mas podia ser só ciúmes de irmão protetor. E era o que ela me dizia sempre que eu criticava as atitudes do doutorzinho. Acabou que ela conseguiu me convencer de que não havia nada de errado, eles tinham se apaixonado e só. Em verdade, eu sentia um aperto no peito toda vez que ela atendia o celular, o que não podia ser outra coisa senão ciúmes. Era preciso deixar de implicância e apoiá-la, por mais doloroso que isso fosse.

Foi num jantar de domingo que minha irmã decidiu apresentá-lo à família. O pai tratou de fazer as compras mais caras da vida, a mãe o melhor jantar que já preparara e minha irmã nunca tinha arrumado a casa tão bem. Quando acordei naquele dia e encontrei os preparativos para o jantar, a mágoa engolfou-me. Não podia desamarrar a cara para toda aquela bobagem. Só levei duas garotas para casa em toda a vida e minha mãe escorraçou uma delas de casa logo pela manhã. Agora pro doutor tinha até champanhe, acredita? Não podia deixar de me repreender pelos meus pensamentos. Ora, e daí que o tratamento fosse diferente? Tratava-se da minha irmã e não de mim. Mas quando a mãe ralhou comigo por não me aprontar com mais cuidado para receber o convidado, soltei os cachorros.

– Essa roupa estava muito boa quando a tia Carol casou.

O pai avançou sobre mim no mesmo instante:

– Se não quer trocar essa roupa mulambenta, ótimo! Mas faça o favor de não sair do seu quarto!

A mãe se aproveitou da truculência do pai e se aproximou para dizer:

– Você só trouxe vadias para essa casa! Respeite sua irmã e vista algo melhor já!

Mesmo resmungando, troquei de roupa. Embora a raiva provocasse meus olhos, eu não queria me comportar como uma criança e de birra, sentar maltrapilho à mesa estragando o esforço que meus pais e minha irmã faziam para que nossa casa parecesse a casa de outra família. Tentei trocar o ressentimento pela felicidade da minha irmã. Mas à mesa, enquanto ensaiávamos o jantar, a raiva tornou a atormentar-me. Não podia suportar a mãe dizer coisas que não dizia, falar de um jeito que não falava, sentar dura na cadeira e não refastelar-se como de costume. Novamente, o sarcasmo foi mais rápido que o bom-senso.

– Mãe, por que você não para de imitar o Robocop?

– E você podia parar de ser esse nojento insuportável antes que eu te bote pra fora! – berrou o pai, levantando-se.

– Gente, por favor, que isso… – tentava acalmar minha irmã, o que só ressaltava seu caráter condescendente. Quando a partida começava, só terminava com um ganhador. Normalmente eu jogava para perder, mas era o melhor jogador da família.

– Eu só não consigo entender pra quê esse circo? Vocês nem conhecem o cara!

– Mas você também não – intrometeu-se minha irmã na briga, pegando-me desprevenido. Aquele seu olhar peculiar de desculpas devassando-me por dentro.

– Eu sei, eu sei, é que… – calei-me. Embora em meu íntimo eu pudesse apreciar uma certa satisfação em insultá-la, ela não merecia isso. Bem sabia que era capaz de fazê-la chorar com três palavras minhas. Mas não queria acabar com sua noite. Não, aquela era a noite dela e não seria um cretino que nem eu a estragá-la. Abaixei a cabeça e segui o script.

Assim ele chegou. E todos os meus mais terríveis pressentimentos mostraram-se de fato, ciúmes bobos. Era um cara absolutamente normal. Enquanto todos vestiam suas melhores roupas para o jantar, ele aparecia casual, esbanjando simplicidade. Os cabelos meio grisalhos, os óculos grandes fora de moda. Tudo no maldito doutor denunciava suas boas intenções. Minha mãe certa vez disse que o diabo é cheio de boas intenções. Uma vez que eles atravessam o consolo da porta, você despede-se da vida. Depois de muitas apresentações, palavras polidas e outras amenidades do tipo, descarreguei meus preconceitos e aproximei-me estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas o doutor só manteve seu sorriso pregado na cara enquanto minha mão pairava seca no ar. Por um momento a cena congelou-se. Encarei-o, desafiando a não apertar minha mão e surpreendi-me dele não ceder. Eu era muito bom nesses joguinhos, mas ali estava um adversário a altura. Ia devolver-lhe o sorriso em resposta, quando senti um frio correr pela espinha e assobiar-me à nuca. Algumas pessoas ouvem o badalar da morte, diria Maria muitos anos depois. Os sinos daquela noite nunca mais me permitiram uma noite sossegada. Escute com atenção agora, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Toda a gordura que acumulamos durante a vida dissolve-se num instante. Parece que o cálcio abandona nossos ossos e diminuímos, somos crianças outra vez diante de um terror desconhecido. Com curiosidade mórbida olhamos embaixo da cama e encaramos o que vivia lá. Esse bicho-papão é assustador porque estava lá o tempo todo, disfarçado de pelúcia, brincando com você, vigiando, divertindo-se. Naquele dia eu morri, não da forma literal, mas como uma lata de molho de tomate que é aberta e despejada na pia porque está fora do prazo de validade. As pessoas que sobreviveram costumam identificá-los pela forma de sorrir. Quando seus lábios se crisparam, de uma simples animosidade, a cena revelou-se sem cortinas ou preâmbulos. Nós éramos ratos, ratos que tinham colocado um felino dentro da sua toca. Não um gato domesticado preguiçoso, mas um leopardo, um caçador tão habituado a morte quanto os ratos aos buracos. Não há receitas do que fazer. Em primeiro lugar porque se você está vivo é porque ele quer que você esteja vivo. Normalmente, as pessoas só percebem a morte quando ela finca os dentes com força na sua carne. Mas há alguns que vêem a morte se aproximar. Eu vi, mas não pude acreditar. Há algo dentro da gente que imobiliza nossas ações. Aquele gaguejar nervoso, a língua seca, uma coceira num lugar impossível, um tique qualquer. De repente você sente os olhos sujos e não consegue parar de piscar. Você pensa na sua vida. Na porra do molho de tomate azedo. Nossa existência se agita diante da morte e a morte é como uma tempestade. O barco foi a pique, marujo. E o oceano é profundo e frio.

Pode-se dizer que um sobrevivente é alguém que viu a morte e continuou. Não tem muito tempo, ouvi a história de um sobrevivente que trabalhava como jardineiro na casa de um deles. Perto do Natal, o patrão por meio da empregada convidou ele e a família para um almoço. Ele contou-me que não queria ir, que não gostava da casa do patrão, tinha qualquer coisa de muito estranha no lugar, que ele não sabia explicar. Mas a esposa fez questão de ir. Assim, ele e a família entraram na toca do lobo. Contou-me que o patrão os recebeu muito bem, disse estar muito feliz por ter companhia na noite de Natal e sorriu-lhes com gosto. Ah sim, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia. Fiquei sabendo que esse sobrevivente não aguentou. Isso é muito comum entre os sobreviventes. Poucos conseguem continuar. Não os julgo. Não se pode matar aquilo que não tem vida. Depois da última ceia, não vivemos mais, nós morremos. Sobreviver é pouco a pouco tornar-se um deles. Se possível, uma coisa pior que eles. Como posso condená-los por não se transformar em algo assim?

Você sobrevive e é acusado de tudo que sua legislação penal puder oferecer. Com sorte, você é condenado a pena de morte pública. Em alguns lugares, porém, sua dor perdura. Você é mandado para a cadeia e lá passa o diabo antes de alguém se cansar e matá-lo. Mas se você têm forças para fugir, então você será procurado. Será o criminoso mais procurado do país. Sua foto estará estampada em todos os jornais, farão programas de TV sobre você, convidarão psicólogos, psicoterapeutas e qualquer oportunista que apareça para tentar explicar porque alguém faria aquilo que você fez. Pessoas xingarão seu nome, cuspiram no seu retrato, amaldiçoarão seus dias. Velhinhas irão rezar para que você queime no inferno. Queime seu desgraçado miserável! Passado um tempo, o mundo se esquece de você, mas você está morto de qualquer forma. Essa alma, ou seja lá o que for que possuímos quando vivos que não precisa de motivos para existir, bem, essa coisa é levada por eles. Tudo o que lhe resta são lembranças amargas da vida. Você está morto, e tudo a sua volta são vultos etéreos e sinistros. Para continuar você precisa encontrar um motivo.

Eu costumo classificar os sobreviventes pelos seus motivos. Alguns sobreviventes dedicam seu continuar a provar sua inocência. Até hoje ninguém conseguiu fazer isso. O motivo beira a estupidez da obviedade. Provar sua inocência seria provar a existência deles. As pessoas não estão preparadas para saber e não querem estar. Talvez por isso somente alguns possam vê-los e mesmo assim quando eles querem ser vistos. Se alguém me falasse deles antes da última ceia, eu também não acreditaria. Nem em um milhão de anos. A meu ver, continuar por um motivo desses é um desperdício de vontade. Mesmo que fosse possível provar a existência deles, você não pode viver outra vez. Esses sobreviventes são chamados de inocentes.

Depois vêm os fugitivos, como aquele jardineiro. São aqueles que escapam da última ceia e continuam fugindo. Fugir é de longe o motivo mais doloroso de todos para continuar, porque nem motivo é de verdade. Os fugitivos são os mais numerosos, eles estão em todo lugar. Você pode encontrá-los dormindo sob cobertores finos e fedidos em algum terminal rodoviário ou embaixo de um viaduto. Ainda sim, para reconhecê-los, é preciso uma boa colheitadeira para desfazer-se da barba esculpida por sujeira, restos de comida e uns bons anos de submundo, isso se não tiverem desfigurado o rosto. Existem outros, mas dentre eles quero destacar os devotos. São aqueles que continuam para se tornar parte deles.

Por muito tempo eu também fui um fugitivo, pensei estar só. Não sabia a respeito de outros sobreviventes. Na verdade você passa bastante tempo somente fugindo, escondendo-se do mundo. Você tenta dizer a si mesmo que não fez aquilo, mas o apresentador de TV cospe de raiva quando bate na mesa e grita que pessoas como eu mereciam a cadeira elétrica. Com toda aquela propaganda dizendo que você é um psicopata, você acaba acreditando que realmente fez aquilo. Você bebe até desmaiar todos os dias. Talvez amanhã você acorde desse pesadelo. Mas o outro dia só traz mal-estar, uma dor de cabeça horrível e o desespero de ainda estar ali. Aí você percebe que não pode esquecer, então vai pirando. E pira. Você pode encontrá-los falando sozinhos por aí. Caçoarem de você. Correrem da própria sombra. Pular de um viaduto para o asfalto, de algum edifício, cruzar uma rodovia bastante movimentada com os olhos fechados. Ou continuarem se escondendo. Você fica escondido até encontrar um anjo.

3

O velho não dorme. Um sobrevivente de verdade só dorme desmaiado. Fica de pé, olhando a noite escorrer pela janela gradeada da Casa de Recuperação Vitória em Cristo. Ele gosta de ficar ali e sentir o vento noturno sacudir seus cabelos brancos. De vez em quando chora, noutras ri. As lembranças… as terríveis lembranças só trazem perda. Todas as lembranças são eu. Mesmo agora. O maldito eu. Não fosse o eu eles não poderiam me atingir. Eles… os malditos olhos! E se eu choro, o velho chora, impotente. Eu o vejo agora, segurando a grade da janela com força, rindo, com o rosto coberto de lágrimas numa caricatura do personagem esquizofrênico, ele pensa: Ridículo! Tudo se trata de você!

– Quer um cigarro, velho?

Quem interrompe nossas dores é o menino Lúcio. O velho limpa as lágrimas do rosto, mas se interrompe a meio caminho. Esconder as lágrimas era um cuidado da sua vida ceosa. Não, pensa, Lúcio precisa ver isso. Lúcio se parece com o velho. Lúcio sempre foi um bom menino, mesmo sendo aquele garoto de bochechas grandes e rosadas que está sempre no colo de alguém. Esse bom menino era muito quieto e sabia sorrir corretamente. Lúcio era o típico garoto prodígio. Foi, se não me engano, o primeiro aprovado do vestibular no curso de medicina da USP. Você pode imaginar o ritmo de estudos desse garoto: mais de 10 horas por dia! Esse menino passou mais tempo estudando que dormindo, você acredita? Sua cabeça funciona a mil com triângulos, números e palavras estranhas como autóctones. Com tanta informação não foi difícil para Lúcio chegar a razão deles. Antes da sua casa ser demolida, havia em uma das paredes o cálculo da vida. Existência igual a vida vezes tempo. Simples. Aniquilador. Tudo se resume a vida vezes o tempo. Sim, é simples, nós sabemos disso. Mas você não está vendo, não de verdade. Veja, o conceito de vida é muito simples, é um estado de consciência binário. Vivo ou morto. Assim, sendo 1 ≥ v ≥ 0, podemos quantificar nossa vida numa escala de 0 a 1. Por exemplo. Eu carrego aqui comigo 14 coisas. Então sou v/14. Mas isso sou eu, você pode adicionar o que quiser. Enfim, não interessa. Porque o tempo é sempre xis, e enquanto xis numa equação faz sentido, na vida xis não possui significado algum, isto é, zero. E tudo multiplicado por zero é zero. Isso, nada. Absolutamente nada. Pela matemática, Lúcio foi capaz de enxergar aqueles primeiros olhos, os olhos vazios que dividiram nossa existência. Imagine um sujeitinho muito peludo que tem seus vermes subtraídos por um outro sujeitinho peludo. Esse sujeito sente alguma coisa. Raiva. Tristeza. Decepção. Seja o que for, esse algo é 1. Esse sujeito vira ser quando torna v/1. Lúcio travou. Não havia porque continuar num mundo em que o sentido da existência consiste em dividir a vida. Mas no mundo deles uma engrenagem parada compromete todo o sistema. E todos os olhos caíram sobre Lúcio. Ele foi obrigado a negar. Foi aí que Lúcio começou a fugir. Como muitos, ele encontrou refúgio nas drogas, qualquer droga, mesmo açúcar. Vejo quilos e quilos de açúcar entupindo suas artérias ou qualquer outra porcaria que usasse para fracionar sua vida, quanto mais diluído estivesse menor era a experiência do nada. Mas agora Lúcio é um devoto. Um devoto é o tipo mais detestável de sobrevivente, é aquele olho que espia por uma fresta, um milésimo de segundo apenas, e se arrepende amarga e eternamente por ter olhado. No entanto, apesar de sua mediocridade exasperante, também é aquele por quem mais sentimos compaixão porque são eles as verdadeiras vítimas desse mundo. Repito, porque vocês persistem em não querer me dar ouvidos. Os devotos são as verdadeiras vítimas desse mundo. São como galinhas, aves que não podem voar mesmo tendo asas. Ora, quem pode condená-los? O que nos enoja é o que os motiva: a fé. Então Lúcio passou a chamar “E” de doença, deu-lhe um desses substantivos complicados com sufixo ‘-fobia’ porque o sufixo implica em tratamento, e tratamento em cura. Ah, todo devoto é, no fundo, no fundo, um inocente. Ou “E=0”.

– Obrigado, menino.

Nós, digo, o velho e o menino Lúcio, fumam juntos. Eles gostam de ficar ali, recebendo os primeiros raios de sol pela janela gradeada.

– Esse é o melhor sol do dia, comenta o menino Lúcio.

– É sim, concorda o velho com um aceno de cabeça, e completa: Você sabe que vai me matar, não é?

– Essa conversa de novo?

– Quero prepará-lo.

– Vá se fuder, porra. Sou um fiel servo de Cristo, agora.

– Sim, mas não se pode dizer que os carrascos de Cristo não eram seus adoradores.

– Ok, e por que é que eu ia querer te matar?

– Circunstâncias, você saberá quando a hora chegar.

O menino, um rapaz com seus quase trinta anos, obesidade mórbida, três tipos de câncer, cego, traga o cigarro com força antes de falar.

– Olha, velho, na boa. Você ta maluco, por que não aceita isso?

– É o que eles querem que você acredite, é importante, para mantê-lo vivo.

– É? E por que “eles” – Lúcio levanta os dedos para fazer o sinal das aspas  – iriam querer me manter vivo se sou só um problema pra eles?

– Ora, não banque o tolo pois a tolice de verdade não é cínica. Você sabe, sabe disso melhor do que eu, faz parte do propósito deles. Ouça, muitas pessoas morrem nesse mundo, muitas estão morrendo agora, agora mesmo, quem é você nisso tudo? Não, não, não faça essa cara, não faça que nem eles, você se parece com eles, mas não é, sabe disso. Você quebrou o ovo de um ganso, mas é uma galinha. Eles não podem reconhecer seu pensamento galináceo. Não podem. O pensamento deles é perfeito, uniforme. Não podem aceitar uma rasura como você. Porque não existem rasuras nesse mundo. Você é um número irreal. É um problema simplesmente, e um problema precisa ser resolvido ou, pelo menos, isolado. Mas deixá-lo morrer não, isso seria como reconhecer a existência do insondável, do xis, então, a dúvida: O que os olhos tanto vêem? Qual é o propósito desse deus se não for absoluto? A sua morte é uma declaração de cegueira do deus deles, enquanto sua vida é um teste de fé.

– Velho., vejo Lúcio segurar meu rosto com as duas mãos bem firmes, as marcas da sua última ceia me encarando com rancor. Ouço-o dizer que esse é o caminho da morte quando diz: Você é completamente maluco. Ele larga meu rosto, dá uma última tragada e joga o cigarro ainda aceso pela janela.

O velho eu cai de joelhos, cansado. Sim, eu sou louco. E esse é o caminho da morte. O velho pendura-se a janela para poder se levantar, termina seu cigarro e caminha para o refeitório aos passos de um moribundo. Lá, encontra os mais variados tipos de sobrevivente. Desespera-se pela maioria, são devotos, quase todos. Há um silêncio assustador no refeitório permeado por momentos de intensa gritaria. Explico. Apesar de ser possível ouvir os três ventiladores no teto girando suas pás, é preciso falar alto para ser ouvido, assim, a gritaria começa logo que o primeiro sobrevivente chega e pede seu café. “Um café, por favor”. Eles fingem não ouvi-lo e talvez esse fingimento seja tão honesto que eles de fato não o escutem de verdade. “UM CAFÉ, PELAMOR DE DEUS!”, aí o café é servido, com um sorriso. Não se esqueça do sorriso. É assim que você pode identificá-los. PRÓXIMO. Silêncio. GRITARIA. Silêncio. GRITARIA. SILÊNCIO. O velho entra na fila.

– Não vai tapar os ouvidos, velho?

Esta é Amanda. Amanda não gostaria que falasse de seus atributos físicos, porque consideraria isto machista. Amanda não gosta de ser vista como mulher, isto no sentido da identidade, como se ao dizer “mulher” você soubesse quem é Amanda. “A utilização cultural dos sexos parece servir unicamente para inferiorizar a mulher diante do homem. Mas isso, claro, só faz sentido porque nosso deus é feminista”. Amanda é uma feminista de formação. Aos 50, levava uma aposentadoria tranquila lecionando História como convidada em várias universidades do país até sua última ceia, um prato de violências tão brutais que ela ficou paraplégica. Amanda é uma fugitiva. Como todo bom sobrevivente, ela desenvolveu uma teoria muito interessante para legitimar sua fuga. Diz que somos personagens de uma história que pretende explorar a questão da existência colocando-nos em situações-limite. Para ela, nada mais somos que os pensamentos de um deus que tenta expiar as desgraças que o atormentam ao mesmo tempo em que há a crença mal formulada de que se pode passar qualquer lição valiosa para o mundo. Assim, todas essas nossas angustias e sofrimentos são apenas elementos de uma narrativa inspirada nas mais bizarras tolices cristãs dostoiévskianas. Mas o mais importante é que o enredo baseia-se em uma espécie de competição. Aquele de nós que chegar a uma conclusão satisfatória para ele, porá ponto final à história. Perguntei a ela se essa era sua conclusão. Sim, respondeu, mas parece que não sou a personagem principal da história. Amanda está sempre interessada no que o velho faz porque acha que ele é a personagem principal dessa história.

– Não vou tapar os ouvidos. Eu cansei de fugir.

– Todo sobrevivente diz isso. Sempre significa outra forma de fuga. Palavras suas., comenta Amanda a partir de um caderninho vermelho de páginas quase pretas.

– De novo isso?

– Claro. Estou documentando. É histórico isso, sabia? Você ri, mas eu vejo a dor no seu sorriso, senhor.

– Você vê? O que você vê, Amanda?

– Vejo a personificação da identidade cristã, os sonhos de uma humanidade esfacelada, alguns farelos que reluzem ao sol, cheios, não, transbordantes de esperança, é lindo, trágico, ridiculamente cômico em sua coragem cafona, é o velho discurso do amor, dos dentes tortos e sujos às mãos enrugadas e trepidantes. Neste cenário barbaramente simplório, vejo o coração deste mundo bater mais alto.

– Você devia anotar as coisas que diz também.

Amanda encara o velho por um momento e então se lembra de anotar o que ele acabara de dizer. Chega a vez do velho na fila. Ele quer café com leite, mas não grita por café com leite. Eles fingem não vê-lo, então o velho estica a mão para se servir.

– VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO., diz um deles. DIGA O QUE VOCÊ QUER E EU LHE SERVIREI.

– Eu disse, mas vocês estão surdos para tudo o que dizemos.

– OI? COMO É?

– Escutem, irmãos!, o velho se vira para o refeitório. Ouçam essa oração, é um canto que irá falar aos seus corações.

– Ei velho! O que você está cochichando aí? Saí da frente, estamos com fome!

– O seu estômago pode esperar, amigo, isso é importante., Amanda grita empinando sua cadeira de rodas para frente do velho. Ouçam! Ouçam!

Há um deus que rege nossas vidas, que nos diz o que fazer, o que comer, que hora levantar e que hora deitar. É o tempo e o tempo somos nós. Esse deus possui mil olhos, vigilantes, sedentos. Olhos que me encaram agora, sim, vocês. Vocês são os olhos desse deus, sua voz e sua mão pesada. Por que estamos aqui? Não são essas paredes que nos seguram, somos nós!

– FILHO! FILHO!, este é o pastor B. VOCÊ ESTÁ POSSUÍDO POR UM DEMÔNIO! DESÇA DAÍ, OUÇA A RAZÃO!

– Que razão, pastor? A sua? Esse deus não é real, sinta! É absurdamente simples. Dispa-se de qualquer vontade, não deseje nenhuma explicação racional, aceite o NADA, simplesmente porque nada faz sentido. É só uma escolha. Uma aposta no vácuo. Uma única verdade fundamental: não existe verdade. Somos surdos para o universo. Deus é só um grito desesperado diante do silêncio., alguém grita lá no fundo do refeitório. Isso, prossegue o velho, mas pense comigo, se não existe verdade, se nada existe, podemos fazer tudo, inclusive a verdade, ouçam! O poder só existe quando estamos juntos em espírito, quando minha voz toca seus ouvidos. São Vocês, Vocês são Deus. Vocês são Jesus Cristo. Isso, Jesus que significa Juntos e Cristo que quer dizer Muitos, Milhares e Infinitos. Houve uma época que Muitos se levantaram. Todos eles se achavam deus e reuniram-se para salvar o mundo. Morreram os coitados. Todos eles. Foram crucificados pelo cu ao contrário do que diz nossa candura histórica hipócrita. Era um sinal, o cu.

– CHEGA! TIREM-NO DAÍ! AGORA!

Ordena a senhora A., fundadora e gerente da Casa de Recuperação Vitória em Cristo. É quando um milhão de mãos agarram o velho e o jogam no chão do refeitório. O velho sente o peito esvaziar-se quando um ou dois joelhos esmagam suas costas. De baixo o velho observa com espanto seus irmãos tomando o café da manhã tranquilamente como se tudo aquilo fosse a coisa mais banal do mundo. O velho chora. E começa a rir.

– Vejam irmãos! Muitas são as mãos que me seguram! Vejam, está diante de vocês! Estendam suas mãos e verão, são vocês, seus olhos! Lembrem-se, os mesmos olhos que salvam são os olhos que condenam. Lembrem-se, Juntos, Muitos foram assassinados! Esse deus matou suas irmãs e irmãos também, assim como tias, tios, avós e pais e mães! Matou seus filhos e os filhos deles também! E depois queimou! Queimou tudo porque corria o boato de que eles podiam se levantar do tumulo!

– FAÇAM ELE CALAR A BOCA!

– Nunca se viu pira maior na história! Sua fumaça parecia vir de um vulcão! O céu ficou negro por três primaveras e aquela foi a noite mais longa da história do mundo! Não se pôde dormir direito com o cheiro da morte! Esse inverno acabou despertando os outros, que olhavam para o céu negro espantados com suas lágrimas!

– Larguem ele seus trogloditas!, Amanda avança sobre os homens que estão sobre o velho. Ela acerta a cadeira na cabeça de um deles, que se levanta furioso. O pastor B intervém pedindo calma. A senhora A tenta puxar Amanda para longe da confusão, mas ela se vira e morde a mão da mulher.

– ELA TAMBÉM ESTÁ POSSUÍDA, PASTOR!

– PARE MINHA FILHA!, o pastor B grita se interpondo entre Amanda e o velho.

– Saia da frente, pastor! Estão machucando ele!, quando o pastor se vira, Amanda aproveita para passar por ele, mas o pastor logo percebe seu movimento e segura a cadeira, que vira com a força, derrubando Amanda.

– Vamos, Amanda, mostre para eles a sua força, a força de deus! esguicha o velho.

– Não posso! Amanda grita, o rosto coberto de lágrimas.

– Você pode! Sabe que pode!

Amanda se lembra dos seus filhos, lembra do marido torturando-os. Amanda diz pra si mesmo que essas lembranças não são suas. É uma ficção tudo isso e o velho é a chave! Então Amanda estica os braços e solta um urro enorme que muitos diriam depois que foi algo como EU POSSO TUDO NESSA PORRA! ou NADA EXISTE NESSA PORRA!, ela dobra os joelhos e cambaleante, põe-se de pé. O pastor joga as mãos sobre a cabeça de Amanda e começa a rezar um pai nosso. Ela cai de joelhos.

O velho ia gritar alguma coisa, mas a chave de braço que aperta seu pescoço finalmente deixa seus pulmões vazios e ele desmaia.

A MORTE PODE ESPERAR 2

Publicado: 5 de novembro de 2013 por Bill em A Vida, o Universo, Tudo Mais
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2

Vejo um velho descer com uma pequena e suja trocha amarrada as costas. Dentro dela há 14 pertences. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só dá pra usar mais uma vez, uma toalha mofada com o número 42 bordado em vermelho que ele roubara ainda molhada de um varal, uma camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção com folhas da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma velha calça jeans, um caderno, um lápis, uma faca, pouco mais da metade de um sanduíche de presunto enrolado em guardanapos, uma pequena garrafa de cachaça de caju, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. Esse velho caminha pela praia. Não se sente feliz. Não importa quão lindo seja o quadro pintado pelo sol. Não importa que carinhos a brisa lhe faça. Esse velho pode até sorrir, mas quem vê seu sorriso se ressente de imediato, é como encontrar lixo espalhado pela praia. Desagradável. Desnecessário. O velho logo vai embora, sabe que não é bem-vindo. Deus, em que lugar ele é? Oh, DEUS DE MIL OLHOS que tudo vê, tudo sabe, deixe-me em paz! 

Posso ouvir os passos a suas costas, sombras que se movimentam sozinhas, noites terrivelmente barulhentas, que ficam sussurrando um horror qualquer seu, que seja, um único medo indizível, irracional, tão profundamente enraizado no seu espírito que chega a consumi-lo, devagar, mas inexoravelmente, retorcendo sua medula espinhal, até quando você se dá conta das manchas escuras envolta dos olhos e se pergunta qual foi a última vez que dormiu…

E você continua fugindo.

Ah! vida miserável essa! que se compraz com as sombras, com a sujeira, com a indiferença por que dela não lhe vem censura. Mas de que adianta? conquanto a consciência posta olhares neste corpo moribundo mesmo na escuridão! Sim! A consciência! Seja lá o que diabo for isso! É o que nos separa deles, por isso torturamo-nos em fuga ainda que seja simplesmente impossível fugir de si mesmo. É a fuga uma ilusão, mas a ilusão que nos permite continuar. Assim nos embriagamos até o raiar da morte. Todos os dias. Flertamos com a morte para, quem sabe, possa ela um dia nos levar por acidente, é uma forma de derrotar o deus de mil olhos, ilusória é verdade, mas o que não é? Sobreviver é ter a morte por sombra, o fugitivo é aquele louco que corre da própria sombra. Uma sombra fundi-se com outra. Esse velho não tem lugar. Enquanto caminha sonha com uma vida passada. Escute com atenção agora. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

E estou na minha velha casa. Meu pai está no chão em uma poça de sangue, minha mãe está embaixo de mim, a boca escancarada, os olhos vazios. Não vejo minha irmã. Sinto uma dor e um movimento de sobe e desce. Ah, é o doutorzinho. Ele está em cima de mim, está comendo a porra do meu cu. O cano frio do revolver está grudado no meu rosto. Sinto medo, um medo terrível. Um medo sem nome. Estou cagado. Cagado de medo, literalmente. Ele come meu cu cagado. Louco de merda. Sinto o calor do esperma irradiar-se pelas minhas pregas. O filha da puta geme, satisfeito.

– Cara, você tem um cu melhor que o dá tua irmã, falo sério. Porra!

Uma parte de mim, uma parte antiga de mim, está espantada, absurdamente espantada com a violência, com o terror, com o sadismo, não consigo me mover, todo o corpo dói, retesado. E ele fica sorrindo. O desgraçado sorri diante do meu medo, está feliz! O cara acabou de matar toda minha família e está sorrindo! Que tipo de pessoa pode fazer isso? Sinto um frio e ao mesmo tempo um calor escorrer pelas pernas, estou mijando. Além de cagão, eu sou a porra dum mijão!

– Ah merda! Mas que merda! – ele grita pulando às gargalhadas

Eu me odeio. Como eu me odeio. Que espécie de homem eu sou? Por que eu não paro de tremer, levanto e arranco o sorriso desse bosta mesmo que antes ele me acerte um tiro no peito? Por quê? Ele sobe as calças, afivela o cinto com cuidado. Se aproxima de mim e me beija na testa. Deve ter me acertado a cabeça com o revolver também porque apago instantaneamente. Acordo. Estão todos mortos! Mortos! Subo aos tropeços até meu quarto, apanho algumas coisas, 14 coisas na verdade, e fujo, corro dali pra nunca mais voltar. Em algum momento, os vizinhos vão desconfiar, suspeito que a primeira a notar seja Dona Silvana, incherida e fofoqueira como é, não deve demorar a estranhar o sumiço da gente, logo o fedor vai se espalhar pela rua, o telefone vai ficar tocando e tocando, tocando até cair, os cachorros vão latir de fome. Aí, alguém, dona Silvana provavelmente, liga pra polícia. Queria ter deixado uma carta colada por um imã na geladeira para quem descobrisse os corpos:

Minha mãe e irmã e o pai estão mortos. Foram torturados e assassinados pelo doutor que namorava minha irmã. Não sei porque ele me deixou viver. Acho que é uma brincadeira. Seja como for, volto quando o encontrar.

Quisera estar calmo para deixar um bilhete. Minhas mãos mal conseguiam parar de tremer para assoar o nariz. Não… Tudo que fiz foi fugir. Estou correndo agora. Meu peito dói pelo esforço. E meu cu dói pra porra também! Mal consigo continuar a corrida. Estou chorando, não, estou rindo, e chorando. Sou um covarde. Não pude proteger minha família, muito pelo contrário, eu o ajudei a matá-los. Tudo pela sobrevivência. Talvez a evolução possa explicar isso, mas não é suficiente para aplacar a revolução em minha alma. Ainda que a covardia seja um instinto de sobrevivência, isso não me faz menos covarde. Faz-me mais covarde ainda. Animais fogem do seu predador. Animais. Eu entreguei meus pais e minha irmã para me salvar. Eu os matei. Sinto o gosto salgado das lágrimas misturada ao suor que escorre da minha tez. Corro, tento fugir do passado, dessas memórias, da dor, da culpa, do ódio, da humilhação, da impotência. Sinto nojo. Repulsa. Lembro de quando criança. Um menino tomou a bicicleta da minha irmã e tivemos que voltar a pé para casa. Lembro do meu vizinho que apanhou na escola, lembro dele me pedir ajuda chorando e eu fingir que não ouvi. Era meu melhor amigo, eu ia a sua casa todo dia jogar supernintendo. Lembro do pai colocando a minha irmã de castigo por me bater. Ela me bateu porque eu a espiava no banho. Ela não contou pra ele, nunca contou para ninguém. Lembro do meu chefe passando um esporro em uma colega de trabalho, lembro dele olhar para mim e piscar. Lembro da minha noiva trepando com meu chefe. Lembro da minha mãe dizendo que estava tudo bem, que ia ficar tudo bem enquanto eu a violentava. Lembro de um negão dizer que isso acontece no mundo todo, o tempo todo. Somos um bando de covardes. Uma legião enorme de bunda-moles. Lembro de um amigo que foi aleijado por uma bala perdida. Posso ver sua cadeira de rodas desenhada nas nunvens esparsas da manhã. Não pensamos nessas coisas, fingimos que não é conosco. Você abre um jornal pela manhã enquanto bebe um café bem quente e lê sobre um casal de velhinhos, espancados até a morte pela neta, uma mocinha de 13 anos. Na mesma página há uma foto grande de um acidente de carro. A legenda diz: motorista bêbado se irrita com batida e espanca até a morte responsável pelo acidente. Você lê mais abaixo que uma criança saiu para comprar pão, você vê fotos das imagens feitas pela câmera da padaria, na foto você vê um homem se aproximar. Eles saem juntos. A menina é estuprada tão violentamente que seu hímen é rompido, ela também é espancada até a morte. No final dessa página, o jornalista constata a falta de investimentos em segurança pública. E é assim que acaba. Entre o café e uma enxurrada de noticias está você, alguém que não tem nada a ver com aquilo. Não foi você que fez o café, não foi você que moeu os grãos, não foi a pessoa que os colheu, nem quem plantou. Você dobra o jornal e sorve um último gole do café, você reclama que está muito forte. E o mundo segue adiante entre cafés, assassinatos e imobilidade. Mas a morte nunca para nesse mundo, sua sede de sangue é inesgotável. É um monstro gigante, o deus deles, está aí, por todo o canto. Pra onde quer que se olhe lá está aquela boca escura, infinita e minúscula, com tantos olhos quanto estrelas. Sedento. Eu sei que ele está lá, mesmo de dia, sei que o sol é só um disfarce, um botão de ouro numa lapela negra. Você pode ouvi-lo se parar para escutar. Ouça-o, chupando, sugando, tragando tudo por uma fenda tão pequena que nem a luz é capaz de atravessar. Sinto sua fome. Insaciável. Terrível. O apetite macabro que devora amor, compaixão, empatia. Que nos torna essas coisas duras, vazias. Eu vejo agora. Sou aquele cara acorrentado que se liberta e vai para além das sombras. Oh, luz das trevas! Antes fosse cego! Vejo a obediência cega das formigas operárias ao DEUS DE MIL OLHOS, seus mais crédulos fiéis. Essas formigas fazem de conta que o Shopping não é uma Igreja, que as Compras não são Dízimos, que o Consumo não é uma Fé, que o Trabalho não é um Sacerdócio, que o Dinheiro não leva o nome de Deus. Esse monstro não rasteja pelos esgotos, não esconde-se em becos escuros ou espreita agachado no mato alto. Ele está aí, ao seu lado, esperando, eles gostam de brincar antes da refeição. Eles não querem seu dinheiro, não querem seus sapatos bonitos, nem sua roupa cara, o deus deles não liga para essas coisas. Esse monstro quer seu desespero, sua dor, sua felicidade. Esse monstro pode ser um casal de velhinhos, um simpático doutor ou uma garotinha. É tudo uma grande piada macabra. Não existe felicidade, mas eles a inventaram para que o sofrimento pudesse existir. O café é despejado na pia e um grito se escuta. Um avental cai manchado de sangue na cozinha impecavelmente branca. Em seguida você desdobra o jornal novamente. É assim no mundo todo. Um grito a noite. São seus vizinhos brigando novamente. Eles gritam o tempo todo. Amanhã a policia irá recolher os corpos e você pode chorar suas mortes. Aponte um revólver para suas cabeças e vai vê-los implorarem pela vida de joelhos. São pessoas boas, pode consultar seus parentes e amigos e conhecidos. Provoque o medo e você vai ver um espetáculo de horror. Você escuta sobre o desastre de um avião que caiu na Patagônia, lê que os sobreviventes comeram os corpos dos mortos. O que você não lê e você não quer ler, é que nem todos que foram comidos tinham morrido em decorrência da queda. Carne congelada não é agradável. Esse monstro gosta de se divertir antes das refeições. Você pode ver seus tentáculos passeando, sossegados. Pessoas honestas, maridos e mulheres fiéis, adolescentes cristãos. Eles irão se despedaçar, comer-lhe as entranhas, farão de tudo para perpetuar o que chamam de vidas, porque Pandora fechou o último dos terrores em sua caixa. Nós não nascemos, não crescemos. Só comemos e comemos a espera da morte. Nossos corpos jazem quentes em residências de janelas blindadas, muros altos com cercas elétricas e câmeras de segurança. Acreditamos em um deus justo num mundo de injustiça. Uma ilusão, para viver, para continuar, para justificar o sofrimento, suportá-lo e, principalmente, negligenciar a dor. Vamos à igreja cultuar a morte de um homem pregado na cruz. Não foi deus que espancou, cuspiu e zombou dele até a morte. Foi você, você tem o poder de matar. Por que não usar esse poder? Por que devemos oferecer o outro lado da face? Esse é o caminho dos devotos. Devotos são aqueles que sobrevivem até se tornar um olho de deus, um anjo.

Lembro de vê-lo caminhar num passo bêbado, cantando uma música do Raul:

Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
Ele disse: Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado
Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado!

Provavelmente foi o cansaço que o fez ditar num banco de parada. Às vezes, um sobrevivente joga a sobrevivência pelos ares. O sono o abraçou assim que se esticou no banco, de onde estava pude ouvir seu ronco leonino, e por isso não escutei, e nem ele, o carro derrapando ali perto. Ou pior, ouviu, ouviu e ficou lá, fraco demais, cansado demais, esperançoso talvez, quem sabe a morte veio me buscar? Nessas ocasiões um fugitivo confunde-se com um inocente. Deve ter escutado vozes masculinas em timbres tiquetaqueados, alguns risos. Deve ter pensado: Merda, fudeu. Escuta alguma coisa ininteligível. Mais risos. Sente um líquido escorrer pelo rosto. É vodca, provavelmente. Odeio vodca. Ouço um deles reclamar que estão desperdiçando bebida e, logo após, gargalhadas e soluços, no instante em que um líquido quente e fedorento jorra-lhe na cara. Depois outro e mais outro. Os filhas da puta mijam às gargalhadas. Então, ele abre os olhos, sente-os arder por causa da urina. Lentamente, formas escuras dão lugar a três rostos jovens e bonitos. São só garotos, penso, com seus dezesseis, dezessete anos, fumando seus cigarros, andando de skate, enchendo a cara, matando aula, assistindo TV, namorando… como eu até… e lá estava ele, o desgraçado, sorrindo seu sorriso de merda. Os cabelos meio grisalhos, óculos grandes fora de moda. Estão se divertindo. Todos eles. Ouço o som de sucção, sutil, brutal em sua invisibilidade.

Lembro. Estou em casa outra vez, agora na cozinha, estou rindo. Por quê? Ah sim, a mãe. A mãe e a irmã gritam enquanto faço chacota da situação, era fim de mês e sem dinheiro, a mãe tinha decidido matar uma galinha nossa. Era assim, quando pequenos, ganhávamos um pintinho para cuidar, cuidávamos com carinho e depois de crescidos, em algum momento, faca na goela. Eu já tinha me acostumado com isso, mas minha irmã não. Era a Miudinha dela que ia ser passada na faca aquele dia. E ela chorava. Como sempre. Minha irmã chorava por tudo, era incrível isso. Então, a graça da coisa era minha mãe, velha e gorda correndo atrás da galinha e minha irmã soltando gritinhos de “não! Por favor! Deixa ela em paz, mãe!” E ás vezes para mim: “Seu escroto! Você acha é graça não é?” Eu sempre ficava espantado com a capacidade da minha irmã de dizer obviedades. É claro que eu achava graça. Muito embora não veja graça alguma na cena agora. Eu lembro dela. Da galinha. A Miudinha. Fui eu que lhe dei esse nome. Posso vê-la agora, acuada, os olhos pequenos, molhados, medrosos. Fui eu que a capturei depois da mãe me passar uma sova. Fui eu que a entreguei a mãe. Eu. Eu vi seu pescoço ser riscado a faca, vi asas e pés balançarem em desespero. Vi a vida afogar-se em sangue. Lembro das risadas se cansarem aos dentes, dos lábios secos, da língua dura. Sonhei com Miudinha depois. Os olhinhos molhados como jabuticabas maduras presas a boca do pai, as órbitas sendo chupadas com gosto, da cabeça dela esticando a pele da barriga do pai por dentro do estomago, dela abrir o bico e cacarejar qualquer coisa em galinhez, depois se rir, um riso horrível, de morte. Lembro de ter passado aquela noite mais tempo debruçado sobre o vaso sanitário do que na cama.

Imagino eles jogarem a gasolina sobre aquele sobrevivente. Penso no que ele fará: caso seja um inocente, vai se ajoelhar e suplicar pela vida? Ou é um fugitivo clássico e tentará correr? Ou, simplesmente, vai deixar-se ficar e queimar? Porra, era uma maneira muito triste de morrer. Você sente o calor escaldante derreter sua pele em um segundo, um segundo apenas da mais pura dor e então não sente mais nada. Você ainda está queimando, queimando mesmo, e é antes afogar-se que queimar, você rola pelo chão e vê pedaços seus espalhados pelo asfalto, fumegando. Se você tentar levantar, vai ver a massa gordurosa de pele e músculos escorrerem pelo seu braço como se fosse uma vela gigante derretendo. Vai sentir o rosto se liquefazer, as pálpebras escorregarem, as narinas fecharem momentaneamente, os lábios incharem e explodirem. As orelhas caírem com um ploc. Reze para morrer ali mesmo, reze, reze para não sobreviver a isso. Tudo o que restará de você então será um retrato da dor.

Não sei como aconteceu ao certo, quando dei por mim, já estava agarrado à perna de um deles, com os dentes cravados nela. A força da mandíbula era tão grande, que os dentes tinham rasgado os jeans do garoto sem esforço e arrancado um generoso naco de carne. Enquanto uivava de dor, um outro chutou-lhe o estomago, a costela quebrada deve ter girado dentro dele quando agarrou outra perna e avançou sobre a virilha. Ali também mordeu. Os dentes passaram fácil pelo short de surfista e arrancou com gosto parte do seu pênis e uma das suas bolas. O sangue jorrou quente sobre o rosto e esse sobrevivente sorriu. Que estava fazendo? Que olhar era aquele? O sorriso… Lembro de Tom e Jerry, o meu desenho favorito. Vejo nitidamente o rato marrom sorver com gosto a sopa da morte preparada pelo gato para logo em seguida engasgar. O gato às gargalhadas. Talvez aqueles garotos tivessem acordado cedo para ir à escola, tomado banho quente, escovado os dentes depressa e combinado no intervalo das aulas de tomar uma e depois, quem sabe, espancar um mendigo. Ou ainda não tivessem combinado nada, mas quando o viram ali, deitado no meio da rua, sei lá, era uma afronta a felicidade. Depois da última ceia, todos sentem o seu cheiro, o cheiro do vômito do DEUS DE MIL OLHOS. O devoto é aquele que aprende a ruminar.

Um gritou: Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos
Eu disse: Claro, pois não, mas o que é que eu fiz?
Se é documento eu tenho aqui…
Outro disse: Não interessa, pouco importa, fique aí
Eu quero é saber o que você estava pensando
Eu avalio o preço me baseando no nível mental

O último deles pega um pedaço de ferro, mas quando vê esse sobrevivente levantar com a cara coberta de sangue e cuspir um dos ovos do amigo, sai correndo. O veneno também corre nas veias dele, Jerry. Ao longe você escuta uma sirene. Eu fujo, não sei o que procuro, mas não está ali, não naquele sorriso, eu preciso encontrar um outro motivo. Porque dia menos dia, um sobrevivente cansa de fugir.

Cuidado brother, cuidado sábio senhor
É um conselho sério pra vocês
Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês
Ah! Metrô linha 743

E desde então esse velho tem procurado. Encontrou um grupo de estudantes que brigavam por causa de uma treta qualquer. O velho largou sua trouxinha suja no chão e correu para eles. Disse:

– Poxa, vamos conversar pessoal?

Um jovem o encarou com desconfiança e deboche:

– E o que você tem com isso, velho?

– Eu? Eu não sou ninguém. Só vi muitas brigas na minha vida, muitas, e todas essas brigas são porque nos tornamos reféns do eu. Achamos que estamos em primeiro lugar e por isso brigamos. Brigamos porque queremos provar nosso valor. Ah! O orgulho! Como deixar de lado o eu, quando o outro joga seu eu sobre você? Podemos aceitar a injustiça de uma alteridade interferir sobre nossa vontade? Sabem o que fiz? Fugi. Não poderia enfrentar o eu. Tive que deixá-lo, ele e a todos que me lembravam dele.

– Velho, tu tá é doido…

– Sim. Corro pelo mundo fugindo de mim. Pois eu fui a causa de todas as desgraças do mundo. Ah, se eu pelo menos conseguisse deixar o orgulho de lado. Não posso! Não com eles que são parte de mim… Espere, deixe-me fazer entender. Ouça. Por que estão brigando? Não, não. Não importa o motivo. A questão é que vocês se colocam um acima do outro, como se nesse mundo houvesse verdade quando a única verdade que existe é aquela proferida. Deixe que ele vença, deixe! Ajoelhe-se! Beije seus pés!

E o velho se atira aos pés do menor dos rapazes, agarrando-se a suas pernas, tentando beijá-las. O rapaz se assusta e instintivamente lhe acerta o joelho na cara. Nosso velho é atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, agora ele via o sol, o mar, podia sentir a brisa lhe massagear o corpo. O velho chora de felicidade. Ele se atirou mais uma vez sobre o jovem. Os outros jovens começaram a rir e o rapaz se sentiu humilhado e ridicularizado por aquele mendigo e partiu pra cima dele. Pelo menos três socos conseguiu desferir antes de ser segurado pelos outros jovens. Alguns minutos depois o lugar estava vazio, há não ser pelo velho que ficou deitado na calçada, olhando pro céu. Pode existir coisa mais perigosa que o amor? Veja o estado desse pobre homem. Nada possui no mundo. Nem mesmo orgulho próprio. Nem mesmo um eu, porque eu não posso mais o sê-lo, tudo que posso fazer é observá-lo, torcer por ele, rir e chorar. Vejo que logo a tristeza lhe irá penetrar a carne, com tanta força que até os dentes serão sacudidos. Um vira-lata se aproxima e lhe lambe o sangue na bochecha. O velho então chora, mais uma vez, não a última. Levanta-se, mesmo querendo ficar deitado, deitado pra nunca mais se levantar. Mas levanta. Pega sua trouxinha e retira o sanduíche de presunto enrolado em guardanapos. Joga o presunto pro cachorro e come o pão com salada e tomate azedos. Depois de comer, o cachorro segue seu caminho. Ninguém se interrompe pelo nosso velho. Ele retira o maço de cigarros e a caixinha de fósforos da mochila, pega um cigarro e um fósforo. Tenta acendê-lo, mas o vento apaga a chama antes que ele consiga tragar. O velho se enfurece. Atira maço e fósforo para longe e grita. Grita com toda a força. O orgulho ainda está lá, junto a sombra do eu, remoendo-se, gemendo, envenenando, agonizando, sofrendo, implorando…

Pare de me machucar. Pare. Pare.

– E é onde estou agora.

– O senhor foi recolhido no dia 24 de junho do ano passado, correto?

– Sim, acho que sim. Tanto faz.

– O que tem achado das instalações e do atendimento desse instituto psicossocial?

– Você ouviu o que eu disse? Eu disse para você prestar a atenção porque você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia, e ele só conta essa história uma única vez.

– Senhor, por favor. Sem divagações. Tente responder as questões.

– Ok. O que eu acho desse lugar? É branco demais. Querem disfarçar o terror, mas os olhos de DEUS são brancos! e estão aqui, estão olhando para mim agora!

O velho se assusta, pois os olhos da assistente social são muito parecidos com os que sua irmã tinha. Levanta aos gritos e  a deixa, ali, sentada e aturdida. Outro doido de pedra, pensa.

1

Com certeza você já viu um deles. No cinema, em uma festa qualquer, no engarrafamento das 18 horas. Pode até ser vizinho de um. São quase sempre médicos ou advogados por volta dos 40 anos. Fazem caminhada toda manhã, mesmo nos feriados e fins de semana. Às vezes em companhia do cachorro. Costumam morar em residência própria, vestir-se casualmente e ter carros esportivos. Eles seguem um padrão de propósito para divertir-se conosco. São irritantemente simpáticos e asseados, o que provoca uma situação curiosa. Faça o teste: tente cumprimentar um deles. Você vai vê-lo sorrir desagradavelmente, balançar a cabeça e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder totalmente ao seu cumprimento. Só vai continuar sorrindo. É assim que podemos identificá-los. Quanto a mim, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta sobre sua última ceia.

Minha irmã começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas. O cara era um doutor. Minha irmã o conheceu quando um de seus alunos passou mal e ela o levou ao hospital. Ainda posso ouvi-la se derretendo sobre ele “Tão prestativo, tão atencioso, nunca tinha conhecido um médico assim!” A idiota da minha irmã sempre foi muito carente, lembro que ela se apaixonou por um amigo meu só porque ele a ajudou com as compras. Chegaram a namorar por um tempo. Quem sabe se esse meu amigo não fosse um imbecil, eles ainda estariam juntos e, bem, evitado o pior.

Acompanhei minha irmã marcar encontros com o tal médico, recebendo flores e cestas de café da manhã com bilhetinhos cafonas de amor prometido. O babaca nem imaginava que com uma caixa de bombons já teria ganhado o coração dela. As flores, as promessas de amor, o namoro, tudo foi muito rápido pro meu gosto. Eu não conhecia muitos médicos, mas conhecia muitos homens e aquela atenção toda que o médico dispensava a minha irmã me incomodava bastante. Minha irmã não era um sinônimo de beleza, nem passava perto. Tirando meu amigo como namorado, ela só teve outro caso quando ainda era adolescente e vestia calças quatro números menor. Minha irmã era linda sabe, bonita mesmo, mas de um jeito diferente, de um jeito que essas revistas sobre celebridades não entendem. Daí, um médico aparece do nada e saca que ela é uma mulher maravilhosa com uns quilinhos a mais? Difícil crer, mas podia ser só ciúmes de irmão protetor. E era o que ela me dizia sempre que eu criticava as atitudes do doutorzinho. Acabou que ela conseguiu me convencer de que não havia nada de errado, eles tinham se apaixonado e só. Em verdade, eu sentia um aperto no peito toda vez que ela atendia o celular, o que não podia ser outra coisa senão ciúmes. Era preciso deixar de implicância e apoiá-la, por mais doloroso que isso fosse.

Foi num jantar de domingo que minha irmã decidiu apresentá-lo à família. O pai tratou de fazer as compras mais caras da vida, a mãe o melhor jantar que já preparara e minha irmã nunca tinha arrumado a casa tão bem. Quando acordei naquele dia e encontrei os preparativos para o jantar, a mágoa engolfou-me. Não podia desamarrar a cara para toda aquela bobagem. Só levei duas garotas para casa em toda a vida e minha mãe escorraçou uma delas de casa logo pela manhã. Agora pro doutor tinha até champanhe, acredita? Não podia deixar de me repreender pelos meus pensamentos. Ora, e daí que o tratamento fosse diferente? Tratava-se da minha irmã e não de mim. Mas quando a mãe ralhou comigo por não me aprontar com mais cuidado para receber o convidado, soltei os cachorros.

– Essa roupa estava muito boa quando a tia Carol casou.

O pai avançou sobre mim no mesmo instante:

– Se não quer trocar essa roupa mulambenta, ótimo! Mas faça o favor de não sair do seu quarto!

A mãe se aproveitou da truculência do pai e se aproximou para dizer:

– Você só trouxe vadias para essa casa! Respeite sua irmã e vista algo melhor já!

Mesmo resmungando, troquei de roupa. Embora a raiva provocasse meus olhos, eu não queria me comportar como uma criança e de birra, sentar maltrapilho à mesa estragando o esforço que meus pais e minha irmã faziam para que nossa casa parecesse a casa de outra família. Tentei trocar o ressentimento pela felicidade da minha irmã. Mas à mesa, enquanto ensaiávamos o jantar, a raiva tornou a atormentar-me. Não podia suportar a mãe dizer coisas que não dizia, falar de um jeito que não falava, sentar dura na cadeira e não refastelar-se como de costume. Novamente, o sarcasmo foi mais rápido que o bom-senso.

– Mãe, por que você não para de imitar o Robocop?

– E você podia parar de ser esse nojento insuportável antes que eu te bote pra fora! – berrou o pai, levantando-se.

– Gente, por favor, que isso… – tentava acalmar minha irmã, o que só ressaltava seu caráter condescendente. Quando a partida começava, só terminava com um ganhador. Normalmente eu jogava para perder, mas era o melhor jogador da família.

– Eu só não consigo entender pra quê esse circo? Vocês nem conhecem o cara!

– Mas você também não – intrometeu-se minha irmã na briga, pegando-me desprevenido. Aquele seu olhar peculiar de desculpas devassando-me por dentro.

– Eu sei, eu sei, é que… – calei-me. Embora em meu íntimo eu pudesse apreciar uma certa satisfação em insultá-la, ela não merecia isso. Bem sabia que era capaz de fazê-la chorar com três palavras minhas. Mas não queria acabar com sua noite. Não, aquela era a noite dela e não seria um cretino que nem eu a estragá-la. Abaixei a cabeça e segui o script.

Então ele chegou e todos os meus mais terríveis pressentimentos mostraram-se de fato, ciúmes bobos. Era um cara absolutamente normal. Enquanto todos vestiam suas melhores roupas para o jantar, ele aparecia casual, esbanjando simplicidade. Os cabelos meio grisalhos, os óculos grandes fora de moda. Tudo no maldito doutor denunciava suas boas intenções. Mas uma vez que eles atravessam o consolo da porta, você despede-se da vida. Depois de muitas apresentações, palavras polidas e outras amenidades do tipo, descarreguei meus preconceitos e aproximei-me estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas o doutor só manteve seu sorriso pregado na cara enquanto minha mão pairava seca no ar. Por um momento a cena congelou-se. Encarei-o, desafiando a não apertar minha mão e surpreendi-me dele não ceder. Eu era muito bom nesses joguinhos, mas ali estava um adversário a altura. Ia devolver-lhe o sorriso em resposta, quando senti um frio correr pela espinha e assobiar-me à nuca. Algumas pessoas ouvem o badalar da morte, diria meu anjo muitos anos depois. Os sinos daquela noite nunca mais deixariam que eu tivesse uma noite tranqüila.

Toda a gordura que acumulamos durante a vida dissolve-se num instante. Parece que o cálcio abandona nossos ossos e diminuímos, somos crianças outra vez diante de um terror desconhecido. Com curiosidade mórbida olhamos embaixo da cama e encaramos o que vivia lá. Esse bicho-papão é assustador porque estava lá o tempo todo, disfarçado de ursinho de pelúcia, brincando com você, vigiando, preparando-se.

As pessoas que sobreviveram a eles costumam identificá-los pela forma de sorrir. E de fato, quando seus lábios se crisparam, de uma simples animosidade, a cena revelou-se sem cortinas ou preâmbulos. Nós éramos ratos, ratos que tinham colocado um felino dentro da sua toca. Não um gato domesticado preguiçoso, mas um leopardo, um caçador tão habituado a morte quanto os ratos aos buracos. Não há receitas do que fazer. Em primeiro lugar porque se você está vivo é porque ele quer que você esteja vivo. Normalmente, as pessoas só percebem a morte quando ela finca os dentes com força na sua carne. Mas há alguns que vêem a morte se aproximar. Eu vi, mas não pude acreditar. Há algo dentro da gente que imobiliza nossas ações. É aquele trava-língua, uma coceira, um estalar de dedos. Você pensa na família, no emprego, nos amigos, na vida, em você. Sobretudo em você. E é nesse momento que conhecemos essa pessoa que somos. Nossa existência se agita diante da morte e a morte é uma tempestade. O barco foi a pique, marujo. Abandonar navio! Ou você encara a morte ou foge, de qualquer forma, você deixará tudo para trás. Essa é a verdadeira morte. Um sobrevivente é alguém que viu a morte e continuou.

Não tem muito tempo, ouvi a história de um sobrevivente que trabalhava como jardineiro na casa de um deles. Perto do Natal, o patrão por meio da empregada convidou ele e a família para um almoço. Ele contou-me que não queria ir, que não gostava da casa do patrão, tinha qualquer coisa de muito estranha no lugar, que ele não sabia explicar. Mas a esposa fez questão de ir. Assim, ele e a família entraram na toca do lobo. Contou-me que o patrão os recebeu muito bem, disse estar muito feliz por ter companhia na noite de Natal e sorriu-lhes com gosto. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia. Fiquei sabendo que esse sobrevivente não aguentou. Isso é muito comum entre os sobreviventes. Poucos conseguem continuar. Não os julgo. Não se pode matar aquilo que não tem vida. Depois da última ceia, não vivemos mais, nós morremos. Sobreviver é pouco a pouco tornar-se um deles. Se possível, uma coisa pior que eles. Como posso condená-los por não se transformar em algo assim?

Você sobrevive e é acusado de tudo que sua legislação penal puder oferecer. Com sorte, você é condenado a pena de morte pública. Em alguns lugares, porém, sua dor perdura. Você é mandado para a cadeia e lá passa o diabo antes de alguém se cansar e matá-lo. Mas se você têm forças para fugir, então você será procurado. Será o criminoso mais procurado do país. Sua foto estará estampada em todos os jornais, farão programas de TV sobre você, convidarão psicólogos, psicoterapeutas e qualquer oportunista que apareça para tentar explicar porque alguém faria aquilo que você fez. Pessoas xingarão seu nome, cuspirão no seu retrato, amaldiçoarão seus dias. Velhinhas irão rezar para que você queime no inferno. Queime seu desgraçado miserável! Passado um tempo, o mundo se esquece de você, mas você está morto de qualquer forma. Essa alma. ou seja lá o que for que possuímos quando vivos que não precisa de motivos para existir, bem, essa coisa é levada por eles. Tudo o que lhe resta são lembranças amargas da vida e o terror da morte, os eventos da sua última ceia. Você está morto, e tudo a sua volta são fantasmas. Para continuar você precisa encontrar um motivo.

Eu costumo classificar os sobreviventes pelos seus motivos. Alguns sobreviventes dedicam seu continuar a provar sua inocência. Até hoje ninguém conseguiu fazer isso. O motivo beira a estupidez da obviedade. Provar sua inocência seria provar a existência deles. As pessoas não estão preparadas para saber e não querem estar. Talvez por isso somente alguns possam vê-los e mesmo assim quando eles querem ser vistos. Se alguém me falasse deles antes da última ceia, eu também não acreditaria. Nem em um milhão de anos. A meu ver, continuar por um motivo desses é um desperdício de vontade. Mesmo que fosse possível provar a existência deles, você não pode viver outra vez. Esses sobreviventes são chamados de inocentes.

Depois, vêm os fugitivos, como o jardineiro. São aqueles que escapam da última ceia e continuam fugindo. Talvez pelo movimento inercial de fuga ser semelhante ao viver, fugir é de longe o motivo mais doloroso de todos para continuar, porque nem motivo é de verdade. Os fugitivos são os mais numerosos, eles estão em todo lugar. Você pode encontrá-los dormindo sob cobertores finos e fedidos em algum terminal rodoviário ou embaixo de um viaduto. Ainda sim, para reconhecê-los, é preciso uma boa colheitadeira para desfazer-se da barba esculpida por sujeira, restos de comida e uns bons anos de submundo, isso se não tiverem desfigurado o rosto. Existem outros, mas dentre eles quero destacar os devotos. São aqueles que continuam para se tornar parte deles.

Por muito tempo eu também fui um fugitivo, pensei estar só. Não sabia a respeito de outros sobreviventes. Na verdade você passa bastante tempo somente fugindo, escondendo-se do mundo. Você tenta dizer a si mesmo que não fez aquilo, mas o apresentador de TV cospe de raiva quando bate na mesa e grita que pessoas como eu mereciam a cadeira elétrica. Com toda aquela propaganda dizendo que você é um psicopata, você acaba acreditando que realmente fez aquilo. Você bebe até desmaiar todos os dias. Talvez amanhã você acorde desse pesadelo. Mas o outro dia só traz uma dor de cabeça horrível. Aí você percebe que não pode esquecer, então vai pirando. E pira. Você pode encontrá-los falando sozinhos por aí. Caçoarem de você. Correrem da própria sombra. Pular de um viaduto para o asfalto, de algum edifício, cruzar uma rodovia bastante movimentada com os olhos fechados. Ou continuarem se escondendo. Você fica escondido até ELES te encontrarem.

GRITOS DE UM DOENTE INVETERADO A SUICIDADE DA SOCIEDADE

O insano,

o esquizofrênico,

o revolucionário,

o bobo,

o iluminado,

o absurdo,

o gênio,

o louco Antonin Artaud

Monografia apresentada ao Departamento de História do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília para a obtenção do grau de bacharel em História.

Orientador: Prof. Dr. Daniel Barbosa de Faria Andrade

Brasília, 2012

RESUMO

Essa monografia tem por objeto de estudo parte da vida e obra de Antonin Artaud (1896-48). Artaud foi um artista francês de grande expressão, principalmente para o teatro, onde escrevia roteiros, dirigia e mesmo atuava. Artaud ficou famoso por reinventar a linguagem teatral, tido hoje como o maior nome da arte surrealista francesa. Sua linguagem ácida e impetuosa chocou o público ao tomar como tema a crítica da sociedade burguesa, debochando do seu conservadorismo e anarquizando seus valores. Além disso, atraiu atenção para si pela postura raivosa diante da psiquiatria. Atentar-se-á para o fato de Artaud ter passado um longo período internado em diversos manicômios. A monografia se concentra, em especial, nessa fase de sua vida. A tese defendida pretender retratar a “loucura” de Artaud como um fenômeno cultural que engloba tanto as interpretações do senso comum como a nosografia desenvolvida pela Psiquiatria. Assim, discutiremos os conceitos de doença mental, desvio social, normalidade e anormalidade, culminando na relação de poder que deslegitima o discurso daquele que é apontado como louco. Nosso objetivo último é entender essa relação entre o louco e a sociedade. Para tanto, exponho aqui algumas perguntas que nortearam a monografia: Por que a sociedade isola o louco? A sociedade teme o louco? Seria todo louco potencialmente violento ou seu isolamento justifica-se pelo tratamento? Existe cura para a loucura? Se doença, quem está em risco? O louco ou os outros? Afinal, que tipo de perigo o louco representa? Que implicações sua condição suscita?

Palavras-chave: Antonin Artaud, loucura, doença mental.

INTRODUÇÃO

Na sociedade ocidental, o termo insano[1] funciona como categoria aberta a qualquer tipo rejeitável socialmente, por isso, a conduta desviante tornou-se alvo de sanções sociais para “adaptar”, “reintegrar”, “regenerar”, etc. Contudo, tal rejeição não expressa só negatividade, uma vez que o sujeito insano também pode ser visto como um herói romântico. E é sobre esse paradoxo que nos debruçamos, pois diante do insano não ficamos impassíveis, nele rejeitamos e reconhecemos o homem.

E o homem, em vez de ser colocado diante da grande divisão do Insano e na dimensão que ele imagina, tornou-se no nível de seu ser natural, isto e aquilo, loucura e liberdade, recolhendo, pelo privilégio de sua essência, o direito de ser natureza da natureza e verdade da verdade. [2]

A análise histórica deste fenômeno esbarra em uma barreira crucial, pois a singularidade assume na insanidade, doravante loucura[3], dimensão radicalizada. Isto é, o louco escapa ao contexto porque o contexto escapa dele.[4] E o que torna esses sujeitos um interessante objeto de estudo para as ciências ditas humanas é a dificuldade em compreendê-los atentando-se a essa fenomenologia paradoxal em que, analogamente a um quebra-cabeça, pode-se encaixar qualquer peça aos loucos e nenhuma pode ser deles encaixada: “Há algo neles que fala da diferença e chama a diferenciação”.[5]

O que distingue o louco dos demais nós sabemos[6], mas por quê? A suposta facilidade dessa questão é rechaçada quando nos confrontamos com os estados de paranóia dos cidadãos contemporâneos, principalmente em relação à violência. Se sociologicamente falando é difícil delimitar a linha que separa o louco daquele dito normal, não é assim quanto à História. Existe uma infinidade de pessoas que foram documentadas como loucos por seus contemporâneos. E parte dessa monografia se debruça sobre eles. Especialmente sobre um ilustre senhor de meia-idade, de calvície pronunciada e pele macilenta.

Descrevo-o desse modo, pois foi assim que encontrei Artaud. Um homem velho, cheio de rugas e com um olhar inexpressivo. Sua figura não causou qualquer surpresa em mim, bem sabia que Artaud tinha passado muitos anos de sua vida internado em diversos manicômios em plena Segunda Guerra. Talvez minha apatia tenha tornado a figura cadavérica um símbolo do que Artaud representa, pois hoje posso enxergá-lo com mais nitidez do que qualquer outra pessoa que conheça. Daquela primeira impressão de um louco cansado, agora vejo Antonin Artaud, um homem torcido pelas mãos apáticas, às vezes afáveis, vezes cruéis, de intenções claras e motivos duvidosos. Agora vejo Artaud, um louco cansado e inveterado, e nada poderia ser menos inexpressivo que isso.

Sem me ater a esses detalhes que constituem o cerne deste trabalho, surpreendi-me com a variedade de elementos que faziam da história de Artaud uma verdadeira odisséia francesa: há paixões perdidas, um gênio absoluto e incompreendido, drogas, sexo, castidade, fé, descrença, dor, miséria, glória e queda. Não necessariamente nesta ordem.

Diz Martin Esslin: “Ele é o verdadeiro herói existencial: o que fez, o que lhe aconteceu, o que sofreu e o que foi são infinitamente mais importantes do que tudo quanto tenha dito ou escrito.”[7] Pode parecer presunção afirmar que uma obra tida como referência obrigatória para as mais avançadas correntes de pensamento crítico e criação artística seja menor que a vida de seu autor, mas, parafraseando Teixeira Coelho, nos papéis de Artaud está apenas uma espécie de resíduo, algumas partes somente, pois é em Artaud que está a parte mais relevante de sua obra.[8] Tal afirmativa é significativa quando confrontamos a excepcionalidade dessas obras, tão múltipla que possibilita uma variedade admirável de leituras. Artaud pode ser lido como lingüista, ensaísta surrealista, crítico de arte, testemunho psiquiátrico do séc. XX. Este último, inclusive, foi inspiração decisiva no desenvolvimento das idéias de Robert Laing, expoente do movimento conhecido como antipsiquiatria, que abordaremos no item 1.2.

Seu testemunho também comparece como referência fundamental para a crítica de Michel Foucault em História da Loucura. Para Foucault, Artaud virou pelo avesso, subverteu completamente as noções tradicionalmente aceitas sobre a relação entre criação e loucura, ele diz: “não são mais as obras dos loucos e malditos que precisam justificar-se diante da psicologia, mas sim a psicologia que agora deve tentar justificar-se diante de tais obras”.[9] Foucault será referência constante ao longo desta monografia, desde as concepções históricas da loucura à análise do discurso insano.

Precisamos lembrar antes de continuar, que a trajetória de Artaud, por maior que tenha sido sua consagração póstuma, continua se defrontando com as vaias de uma platéia predominantemente conservadora.[10] Afinal, por mais que tenha contribuído para estimular o surgimento de tendências vanguardistas e libertárias, isso aconteceu dentro de um mundo e uma sociedade que, grosso modo, continua discriminando aqueles que se recusam a partilhar da normalidade.

Seria então Antonin Artaud a peça desconexa desse quebra-cabeça social? Caso seja, é uma peça curiosa, que não apresentava deformidade visível. Estudá-la, acredito, pode nos levar a compreender melhor o restante das peças sociais. Ausente, claro, da pretensão de encaixá-las, pois um dos pressupostos desta monografia é que todas as arestas são redondas, sendo o louco a única peça que se recusa a parecer quadrada.

2 ARTAUD, DOENTE MENTAL OU SOCIEDADE DOENTIA?

Antonin Marie-Joseph Artaud nasceu em Marselha no dia 4 de setembro de 1896. De família parca em recursos financeiros, Artaud sempre teve dificuldade em tratar de suas dores de cabeça recorrentes, fato que marcaria sua vida adulta como viciado em láudano[11]. Esta dependência da droga constituiria indício da progressiva degeneração mental de Artaud? Seria Artaud portador de uma doença anterior ao vicio, sendo o motivo por trás das dores de cabeça? Existiria tal doença? A primeira parte desta monografia inscreve-se nessa longa e densa discussão sobre a existência de uma doença mental, hibridamente ancorada na leitura de autores que se debruçaram sobre a questão e na voz de Artaud.

Faremos a análise histórica dos conceitos de loucura e da instituição psiquiátrica, apoiados nas abordagens de Peter Pál Pelbart[12] e Michel Foucault no exercício da revisão historiográfica sobre a “doença mental” e o debate travado nos anos 60 quando da emergência da antipsiquiatria. Trata-se da opressão social acusada por Artaud: “Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social”.[13]

2.1 DOENÇA MENTAL E DESVIO SOCIAL[14]

“Foi numa época relativamente recente que o Ocidente concedeu a loucura um status de doença mental”.[15] Historicamente é difícil precisar a relação entre sociedade e loucura, pois os relatos são marginais, escassos e exíguos. A loucura, parece-nos, está enredada num valor instável que “varia com as épocas, pelo menos em suas dimensões visíveis: ora permanece implícita, ou, ao contrário aparece, emerge largamente e integra-se sem dificuldade a toda a paisagem cultural.”[16] Assim, se voltarmos nosso olhar para a Antiguidade, encontraremos na Grécia, alguns vestígios em Platão do que poderia ter sido a loucura para os gregos.

Em Loucura e Desrazão, Pelbart analisa a passagem de Fedro, em que Platão desenvolve um diálogo entre Lysias e Sócrates sobre o amor:

A tese de Lysias é simples: é preferível ceder às solicitações de um amante que não ama — e tem a cabeça no lugar — a ceder ao amante que ama e que, por conseguinte, está tomado, pela loucura. Sócrates discorda, e expõe seu argumento principal: se a loucura fosse um mal, teríamos razão de falar assim; o fato, porém, é que “a loucura (mania) é para nós a fonte dos maiores bens”. Não poderia haver elogio mais categórico à loucura.(grifo meu).[17]

Pelbart ressalva que tal elogio refere-se a um tipo específico de loucura, uma loucura atribuída à intervenção divina. O autor aponta a existência de pelo menos duas formas de manifestação da loucura para Sócrates: uma natural e outra divina. A esta última, Pelbart classifica-a em subcategorias segundo as divindades por elas representadas: a loucura profética (Apolo), a ritual (Dionísio), a poética (as Musas) e a erótica (Afrodite). Tal distinção afronta a historiografia tradicional que defende uma noção grega de unidade patológica da loucura. Pelbart vai mais longe e acusa esses historiadores de projetar nos gregos uma idéia de loucura contemporânea, “doença humana foi apenas uma, e com certeza não a mais importante das modalidades da mania [loucura] presentes na cultura grega.”[18] Segundo Pelbart, sugerir que Platão elogiasse a loucura por ser um crítico do senso comum é pura arbitrariedade de sentido “se considerarmos, por exemplo, que Hegel falou dos loucos em sintonia absoluta com seu tempo, com a psiquiatria de sua época e com a concepção enraizada em sua cultura.”[19] E conclui:

Se é verdade que a Antiguidade grega manteve com o louco uma proximidade de fato e uma distância absoluta de direito, contrariamente à época moderna, em que a identidade com ele é de direito e a distância é de fato, através da reclusão asilar, o mínimo que podemos dizer, a respeito dessa inversão, é que com ela alterou-se a geografia da loucura. Se antes ela era impensável por estar demasiado próxima e ao mesmo tempo excessivamente distante, tanto do homem como da razão — um pouco como o sagrado, e não sem relação com ele, como já observamos —, a modernidade poderá pensar a loucura porque, ao subordiná-la antiteticamente à racionalidade, médica ou filosófica, terá consumado, no mesmo gesto, sua subjugação.[20]

Aí, passamos para Foucault:

A experiência clássica da loucura nasce. A grande ameaça surgida no horizonte do século XV se atenua, os poderes inquietantes que habitavam a pintura de Bosch[21] perderam sua violência. Algumas formas subsistem, agora transparentes e dóceis, formando um cortejo, o inevitável cortejo da razão. A loucura deixou de ser, nos confins do mundo, do homem e da morte, uma figura escatológica […] Esse mundo do começo do século XVII é estranhamente hospitaleiro para com a loucura.[22]

No inicio do período renascentista, a loucura teve a existência extremamente implicada com a razão, de tal modo que podia ser até uma forma da razão se manifestar, o que guarda uma relação muito próxima com aquela levantada por Pelbart na Antiguidade grega. Para muitos renascentistas, a loucura era a “força viva e secreta da razão”.[23]

A loucura é no essencial experimentada em estado livre, ou seja, ela circula, faz parte do cenário e da linguagem comuns, é para cada um uma experiência cotidiana que se procura mais exaltar do que dominar.[24]

Ao leigo, a maneira como o Renascimento tratou a loucura pode causar surpresa pelo contraste com o período seguinte, o qual acabou por conferir aos loucos o lugar de segregação que durante a Idade Média fora reservado aos leprosos.

A loucura, cujas vozes a Renascença acaba de libertar, cuja violência porém ela já dominou, vai ser reduzida ao silêncio pela era clássica através de um estranho golpe de força.[25]

Foucault chama a esse período de a ‘Grande Internação do século XVII’. Os espaços físicos, sociais e ideológicos que anteriormente eram ocupados pelos leprosos foram gradativamente preenchidos pelos mais variados tipos marginais, o abrigo era “uma mesma pátria aos pobres, aos desempregados, aos correcionários e aos insanos.”[26]

O momento em que a loucura é percebida no horizonte social da pobreza, da incapacidade para o trabalho, da impossibilidade de integrar-se no grupo; o momento em que começa a inserir-se no texto dos problemas da cidade.[27]

Assim, realizou-se uma verdadeira “limpeza urbana”. Na leitura de Foucault, os hospitais gerais eram somente espaços legítimos de reclusão, o internamento do louco ainda que em instituições médicas não possuía qualquer relação com a crença de uma doença mental. Para Foucault, não é mera coincidência que fosse a incapacidade produtiva “categoria comum que agrupa todos aqueles que residem nas casas de internamento, é a incapacidade em que se encontram de tomar parte na produção, na circulação ou no acúmulo das riquezas (seja por sua culpa ou acidentalmente).”[28]

As novas significações atribuídas à pobreza, a importância dada à obrigação do trabalho e todos os valores éticos a ele ligados determinam a experiência que se faz da loucura e modificam-lhe o sentido.[29]

Também a loucura foi apartada da razão quando Descartes “provou” que quem cogita não pode estar louco, alocando a loucura ao lado do sonho e de todas as formas de erro. A loucura passou então a ser “despojada de sua linguagem; e se se pôde continuar a falar dela, ser-lhe-á impossível falar de si mesma.”[30] Esse silenciamento foi a primeira sanção moderna contra a loucura, que não passou incólume às mudanças estruturais provocadas pela consolidação da nova classe social: “Com isso a loucura é arrancada a essa liberdade imaginária que a fazia florescer ainda nos céus da Renascença”.[31]

Desobediência por fanatismo religioso, resistência ao trabalho e roubo: as três grandes faltas contra a sociedade burguesa, os três atentados maiores contra seus valores essenciais não são desculpáveis nem mesmo pela loucura.[32]

Nesse ínterim, reservo-me o direito de observar uma ironia despretensiosa nas palavras de Foucault. Ora, se a loucura não desculpa uma violação, tampouco a infração depende do infrator, isto é, a sociedade burguesa precisa punir o ato independentemente do autor. Com isso, Foucault insinua o impasse que a sociedade ocidental do século XIX enfrentará diante da punição do louco: como julgá-lo?

Ato contínuo, podemos remontar o entendimento sobre a origem da doença mental e projetar seu parêntese moral: “Este espaço de exclusão que agrupava, com os loucos, os portadores de doenças venéreas, os libertinos e muitos criminosos maiores ou menores provocou uma espécie de assimilação obscura.”[33]

Assimilação obscura que fará de um comportamento desviante justificativa para o internamento sob o remissivo manto de um distúrbio nervoso, chave para um futuro precedente penal.[34]

Nos fins do século XVIII crescem os protestos e denúncias contra as internações arbitrárias dos loucos. Questionam-se as práticas de confinamento indistinto dos loucos juntos a outros marginalizados e as torturas que lhes eram infligidas. Começava a construção de uma nova abordagem inspirada em ideais iluministas e positivistas contrarias as “significações religiosas e mágicas”,[35] em que a medicina vai desempenhar papel fundamental libertando os loucos das correntes num primeiro ato de ruptura e “renovação humanitária”. Tratava-se da chamada ‘Primeira Revolução Psiquiátrica’, liderada pelo médico francês Philippe Pinel.

As coisas foram inteiramente diferentes. Pinel, Tuke, seus contemporâneos e sucessores não romperam com as antigas praticas do internamento: pelo contrário, eles as estreitaram em torno do louco.[36]

A despeito da instância médica das instituições e agora de seus responsáveis, Foucault defende que esse movimento não guardava relação com a idéia de doença mental: “O que constitui a cura do louco, para Pinel, é sua estabilização num tipo social moralmente reconhecido e aprovado.[37] O desatino foi considerado por essa turma de clínicos[38] um anátema da corrupção moral em que se perdia o horizonte socialmente estabelecido das condutas pessoais.

A cura significará reinculcar-lhe os sentimentos de dependência, humildade, culpa, reconhecimento que são a armadura moral da vida familiar. Utilizar-se-ão para consegui-lo meios tais como as ameaças, castigos, privações alimentares, humilhações, em resumo, tudo o que poderá ao mesmo tempo infantilizar e culpabilizar o louco.[39]

Por isso, seu tratamento era circunscrito a um universo coercitivo, centrado na censura aos comportamentos indesejáveis. Foucault chega a falar em uma máquina do século XVIII onde se girava o louco até que se “reencontrasse seus circuitos naturais”, comenta ainda que tal máquina foi aperfeiçoada no século posterior “dando-lhe um caráter estritamente punitivo”, girando o louco até desmaiá-lo caso negasse arrependimento pelos seus desvarios. Foucault alega que ainda sob a argumentação de uma intencionalidade médica, é impossível negar a dimensão moral das ações tomadas no âmbito da reforma psiquiátrica empreendida na Europa.

O essencial é que o asilo fundado na época de Pinel para o internamento não representa a “medicalização” de um espaço social de exclusão; mas a confusão no interior de um regime moral único cujas técnicas tinham algumas um caráter de precaução social e outras um caráter de estratégia médica.[40]

Ao desenvolver seu argumento, tanto em Doença Mental e Psicologia quanto em História da Loucura, Foucault não deixa de se referir ao louco de Pinel como doente, o que, aliás, consta das fontes por ele empregadas. A meu ver, isto não constitui uma contradição, mas pelo contrário, é uma estratégia narrativa para demonstrar o paradoxo do doente que antecede a doença.  Diz: “No novo mundo asilar, neste mundo da moral que castiga, a loucura tornou-se um fato que concerne essencialmente a alma humana, sua culpa e liberdade; ela inscreve-se doravante na dimensão da interioridade; e por isso, pela primeira vez, no mundo ocidental, a loucura vai receber status, estrutura e significação psicológicos.”[41] E em História da Loucura situa essa transformação:

Até aqui, só se encontravam no asilo as próprias estruturas do internamento, porém defasadas e deformadas. Com o novo estatuto da personagem do médico, é o sentido mais profundo do internamento que é abolido: a doença mental, nas significações que ora lhe atribuímos, torna-se então possível.[42]

Com a inserção da figura do médico no asilo, podemos acompanhar o vagaroso e, ainda assim súbito, entrelaçar de uma perspectiva psicológica ante uma postura moralista, embrião do diagnóstico de uma doença mental. Foucault nos lembra que não foi a pretexto cientifico que se deu essa intervenção, ela é histórica sobretudo.

Se a profissão médica é requisitada, é como garantia jurídica e moral, e não sob o título da ciência.[43]

Foucault descreve como a medicina, ao ser convocada a reboque de uma legitimidade religiosa com o único objetivo de confirmar seus preceitos, construíra seu direito de intervenção e que, ao largo desse espaço outorgado, forjou um saber que lhe escapa epistemologicamente, que sequer existiria “sem o sadismo moralizador no qual a “filantropia” do século XIX enclausurou-a [a loucura], sob os modos hipócritas de uma “liberação”.”[44]

para cada cem supostas patogenias nas quais se desencadeia a confusão da matéria e do espírito, para cada cem classificações das quais as mais vagas ainda são as mais aproveitáveis, quantas são as tentativas nobres de chegar ao mundo cerebral onde vivem tantos dos vossos prisioneiros? Quantos, por exemplo, acham que o sonho do demente precoce, as imagens pelas quais ele é possuído, são algo mais que uma salada de palavras?[45]

Chegamos por fim a encruzilhada semeada no título deste item: Seria Artaud um doente mental ou o problema, e existe um problema independente da abordagem ideológica, está na sociedade?

A esse respeito, retomamos o fio deixado por Peter Pelbart quanto à acepção moderna de loucura:

Nada pode ser dito sobre a doença mental sem que antes ela seja devolvida ao seu lugar de origem — a história. Pois a patologia mental não é um dado da natureza, mas um produto histórico.[46]

Pelbart concorda com Foucault quanto à relação entre sociedade e desvio social. Para ambos, a patologia e a própria compreensão de desvio na verdade são projeções de lógicas internas da sociedade.

A doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal.[47]

Sem outrora recorrer a uma explicação médica da loucura, a sociedade não deixou de criar suas instituições para “tratar” dos loucos e Foucault é categórico ao afirmar que a doença mental é apenas produto dos aspectos culturais emergentes da sociedade ocidental que se cientificiza e procura alicerçar suas práticas no bojo dos valores constituídos.

A doença como realidade independente tende a desaparecer, e renunciou-se a fazê-la desempenhar o papel de uma espécie natural com relação aos sintomas, e, com relação ao organismo, o de um corpo estranho. Privilegiam-se, pelo contrário, as reações globais do indivíduo; entre o processo mórbido e o funcionamento geral do organismo, a doença não se interpõe mais como uma realidade autônoma; não se a concebe mais senão como um corte abstrato no devir do indivíduo doente.[48]

Esse devir desprovido de sintomas orgânicos manifestar-se-á em “erros” comportamentais e distúrbios de personalidade doravante auferidos pela Psiquiatria como uma “doença mental”, revelando a concepção psicológica moralista da loucura como regressão a um estado primitivo, animalesco.

Na época clássica, pelo contrário, ela manifesta com singular brilho justamente o fato de que o louco não é um doente. (grifo meu). Com efeito, a animalidade protege o louco contra tudo o que pode haver de frágil, de precário, de doentio no homem.[49]

No século XIX, o discurso psiquiátrico esforça-se em descrever a doença mental sob a luz cientifica, mas sem desfazer a imagem “entre o doente, o primitivo e a criança, mito através do qual se tranqüiliza a consciência escandalizada diante da doença mental, e consolida-se a consciência presa a seus preconceitos culturais.”[50]

À gênese da doença mental, Pelbart diz:

Ao tentar dar um substrato anatômico à categoria recém-criada de doença mental, aspirando ao reconhecimento da comunidade médica e científica, tudo o que a psiquiatria conseguiu, em suas circunvoluções edificantes, foi mostrar, ao contrário, que o patológico é fruto da civilização.[51]

E Pelbart completa: “Ao buscar um corpo para a loucura, [a psiquiatria] encontrou a história.”[52]

História na qual se inscreve Artaud, seja como doente, seja como desviante, ou louco somente. Sua voz ecoará pela sociedade através das eras, questionando o poder de alguns homens decidirem sobre o destino de outros sob quaisquer alegações que incidam unicamente naquilo que é subjetivo ao homem.

Não pretendemos discutir aqui o valor da vossa ciência nem a duvidosa existência das doenças mentais.[53]

É o espírito afinal, doente ou não, que não pode ser privado de manifestar-se.

Não nos surpreendemos com vosso despreparo diante de uma tarefa para a qual só existem uns poucos predestinados. No entanto nos rebelamos contra o direito concedido a homens – limitados ou não – de sacramentar com o encarceramento perpétuo suas investigações no domínio do espírito.[54]

2.2 PSIQUIATRIA E ANTIPSIQUIATRIA

Embora a loucura não seja uma enfermidade degenerativa, quando Artaud vai para o asilo psiquiátrico de Rodez, depois de seis anos confinado, indo de um manicômio para outro ao sabor da guerra que tomara a França, é tal seu infortúnio que poderíamos desejar que assim o fosse, pois, talvez, não tivesse suportado o peso da morte por tanto tempo. Ele, Artaud, ressurge outro, “quebrado”, pálido, todo pele e ossos, visivelmente debilitado, um fantasma daquele Artaud portador da bengala de São Patrício. Incentivado pelo doutor Fedière, Artaud volta a escrever e pesará a mão ao reclamar[55] esses seis anos de reclusão, criticará duramente a instituição psiquiátrica e não poupará nem mesmo o doutor Fedière, ele também espectro das aflições de Artaud: “O hospício de alienados, sob o manto da ciência e da justiça, é comparável à caserna, à prisão, à masmorra.”[56]

Artaud é personagem certo em qualquer comentário sobre antipsiquiatria.

Esse termo, antipsiquiatria, foi documentado pela primeira vez por David Cooper em 1967 no livro Psiquiatria e Antipsiquiatria. De forma mais abrangente o movimento da Antipsiquiatria pode ser definido como um movimento social que questionava não só o privilégio de psiquiatras para “prender” e tratar indivíduos insanos até mesmo de forma compulsória, mas também criticava a crescente “medicalização” dos pacientes, suas formas de “tratamento” e até mesmo questionava existência da doença mental.

A medicina nasceu do mal, se é que não nasceu da doença, e se não a provocou e criou, peça por peça, para se atribuir uma razão de existir; mas a psiquiatria nasceu da turba plebéia de seres que quiseram conservar o mal na fonte da doença e que, assim, extirparam de seu próprio nada uma espécie de guarda suíça para deter em seu nascedouro o impulso de rebelião reivindicador que está na origem de cada gênio.[57]

Peço vênia para fazer um esboço esquemático do que foram os anos 60, certamente deixando de lado uma infinidade de fatos que poderiam até mesmo contribuir para a tese defendida. Primeiramente, recordemos que a década anterior vivia os efeitos imediatos do fim de uma longa e devastadora guerra, havia uma grande sensação de desilusão no progresso da humanidade, pois todo o progresso tecnológico que prometia um mundo melhor, quase o destruiu. O conhecimento, miríade iluminista, não foi capaz de conter o ímpeto xenófobo nazista, nem impedir que o homem fizesse da invenção de Dumont armas de guerra. Quando o governo dos Estados Unidos joga duas bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagazaki no Japão, provou-se que bastava a ordem de alguns dirigentes para promover a morte de milhões e milhões de pessoas. Não por coincidência, foi nos Estados Unidos que jovens descontentes com o cenário de destruição e desorientação espiritual buscaram conhecer as fronteiras do seu país, do corpo e do espírito. Mais tarde esse movimento daria origem a expressão máxima do que ficou conhecido pela historiografia como “contracultura”: o movimento Hippie.

Com seus ideais de “paz e amor”, os hippies representavam a síntese do pensamento rebelde da época: a busca por uma vida “natural”, longe das grandes cidades, o não consumismo e a busca do prazer. A liberalização sexual, a crítica aos valores da época e à família tradicional monogâmica expandia o conceito de família a uma vida em comunidade em que tudo era aceito e era “proibido proibir”.

Um psiquiatra na década seguinte alude: “Como se sabe, a Antipsiquiatria é filha do esquerdismo.[58]

Sem dúvida, os anos 60 foram propícios ao surgimento da Antipsiquiatria, embora não possamos afirmar que tenham sido acolhedores. Somente 20 anos separavam Artaud do movimento que reunia os psiquiatras David Cooper, Ronald Laing, Thomas Szasz, Franco Basaglia e o já citado Michel Foucault, todos eles diligentes da contribuição de Artaud para a crítica dos abusos psiquiátricos.[59] Não constituíam um grupo organizado e discordavam entre si acerca das muitas formas de intervenção psiquiátrica, mas “para além da diversidade de análises e sistemas teóricos, existe uma posição comum para todas as formas de Antipsiquiatria”, como muito bem colocou o psiquiatra Jean-Claude Arfouilloux:

É a idéia de que não existem doenças mentais na acepção médica do termo. A loucura não passa de uma resposta à opressão que esmaga o individuo desde o seu nascimento e que se exerce através das instituições a quem a sociedade confiou essa função: família, escola, capitalismo, medicina, etc. Por conseguinte, toda a terapêutica que envolve o processo mental arbitrariamente definido como patológico, é puramente ilusória. Ela apenas alimenta um circulo vicioso, porquanto só pode ser percebida como repressão e suscita, em resposta, a violência no oprimido. A antipsiquiatria é, fundamentalmente, a recusa de tratar. (grifo meu).[60]

No prefácio de Psiquiatria e Antipsiquiatria, David Cooper sintetiza alguma destas posições:

O que tentei fazer nesta monografia foi dar uma olhada a pessoa rotulada como esquizofrênica, no seu contexto humano real e pesquisar como tal rótulo lhe foi colado, quem a colou e o que isto significa, seja para os rotuladores, seja para o rotulado.[61]

Também no prefácio de O Mito da Doença Mental, Tomaz Stephen Szasz declara a intenção da obra: “A psiquiatria não é um empreendimento médico, mas um empreendimento moral e político. Este livro é uma tentativa de demonstrar a falha da primeira visão e a validade da segunda.” [62]

Já Ronald Donald Laing, na introdução de A Psiquiatria em Questão, indaga:

Que fazer? Nós que ainda estamos semi-vivos, que vivemos em pleno coração, por vezes febril, de um capitalismo moribundo, poderemos fazer algo mais que refletir a decadência que nos cerca e que está em nós? Poderemos fazer mais que cantar as tristes e amargas canções da nossa desilusão e do nosso fracasso?[63]

Enquanto Cooper dedica-se ao exame dos seus pacientes esquizofrênicos para entender as implicações do rótulo loucura em suas vidas, Szasz detém-se à crítica ideológica da doença mental e Laing destaca-se pelo lirismo com que explora os horizontes filosóficos que a Antipsiquiatria suscitou depois de publicar um minucioso estudo em parceira com Aaron Esterson sobre a influência da família nos comportamentos esquizofrênicos.

Quando define esquizofrenia, embora reconheça-a como uma situação de “crise”, Cooper destaca o aspecto arbitrário de reconhecê-la como doença. Para ele “esquizofrenia é uma situação de crise microssocial na qual os atos e a experiência de determinada pessoa são invalidados por outras, em virtude de certas razões inteligíveis, culturais e microculturais (em geral familiais), a tal ponto que essa pessoa é eleita e identificada como sendo ‘mentalmente doente’ de uma certa maneira e, a seguir, é confirmada (por processos específicos, mas altamente arbitrários de rotulação) na identidade de ‘paciente esquizofrênico’ pelos agentes médicos ou quase médicos”. [64]

Quanto a função da Psiquiatria, Cooper afirma:

Em nossa sociedade, existem numerosas técnicas mediante as quais certas minorias são, primeiro, assim designadas e, a seguir, tratadas ao longo de um continuum de operações que vão da depreciação insinuada, não aceitação em determinados clubes, exclusão de certas escolas e empregos e assim por diante, até a sua invalidação total como pessoas, assassínio e extermínio em massa, no final mais remoto do continuum.[65]

David Cooper junto com Ronald Laing criaram em 1965 a Philadelphia Association que uniu indivíduos com esta visão e buscou aplicar estes pressupostos em estratégias de “tratamento” que permitiam que o paciente fizesse a metanóia: uma “viagem através da loucura”, sem que isto fosse visto como uma doença e, portanto, sem necessidade de tratamento tradicional com medicamentos e psiquiatras e suas abordagens psicoterápicas usuais.

A proposta de Laing e Cooper constituía uma verdadeira afronta às teses defendidas pela Psiquiatria tradicional. Chega a espantar a distância entre as duas visões, enquanto o modelo tradicional reprimia as idéias delirantes por acreditar que só acentuava o estado esquizofrênico, Laing e Cooper estimulavam o uso da imaginação como forma de libertar o paciente da esquizofrenia.

A imaginação, tal qual a encontramos hoje em muitas pessoas, é distinta do que a pessoa considera ser a sua experiência racional de adulto, evoluída e sã. Não consideramos, pois a imaginação na sua verdadeira função, mas como um desregramento infantil, perturbador e prejudicial.[66]

O “tratamento” dentro dessa abordagem consistia mais de uma experiência em comunidade em que seus participantes eram companheiros de viagem e o terapeuta um “guia”. Tal é o grau de “antipsiquiatria” da proposta que reproduzo trecho do psiquiatra Cyrille Koupernik em Antipsiquiatria: Censo ou Contrassenso?[67]

Parece-me impensável, para não dizer criminoso, deixar evoluir os estados psicóticos sem intervenção alguma e, diga-se de passagem, todas as experiências de centros de acolhimento da loucura que chegaram ao meu conhecimento saldaram-se por fracassos que não podem ser imputados à má vontade das autoridades.[68]

Koupernik revela sua inteira contrariedade ao modelo empregado por Laing e Cooper no tratamento da esquizofrenia. Para ele, essa intervenção antipsiquiátrica não resulta em nenhum beneficio para o paciente, muito pelo contrário.

[…] é ingênuo e, em última instância, deveras perigoso deixá-lo [o esquizofrênico] prosseguir nessa singular viagem a que Laing chamou metanóia.[69]

Koupernik não dá pistas do que considera “perigoso”. Estaria se referindo ao esquizofrênico ou aos outros? Em que baseia essa argumentação? Talvez receie que dificulte-se a “cura” do paciente ou pior, recorde o trágico caso envolvendo um paciente de Basaglia que autorizado a sair matou um parente.[70]

Deixemos essas questões para mais tarde, por ora, concentremo-nos na antipsiquiatria, que Koupernik comenta: “Talvez seja uma palavra infeliz. Com efeito parece existir na França uma Antipsiquiatria, mas relativamente poucos antipsiquiatras”.[71]

Além de obviamente sugerir que há muitos críticos, mas poucas tentativas reais de efetivação, Cyrille Koupernik fala da dificuldade que os antipsiquiatras encontraram para implantar suas idéias, “todas as experiências de centros de acolhimento da loucura que chegaram ao meu conhecimento saldaram-se por fracassos que não podem ser imputados à má vontade das autoridades”.[72]

Mas se Koupernik procurava por “resultados positivos” dificilmente os encontraria, uma vez que a proposta da antipsiquiatria não era curar, pois, saliento, não se pode curar o que não está doente.

No livro O Mito da Doença Mental, Thomaz Szasz critica a confusão que a psiquiatria tradicional faz entre comportamento e doença cerebral, “o comportamento não é uma doença, não pode ser uma doença, apenas o corpo pode ter uma doença” [73], ele argumenta que o termo doença mental é por principio incoerente ao combinar um conceito médico e um conceito psicológico, mas que é popular porque legitima o uso da força psiquiátrica para controlar e punir desvios sociais.

Não levantaremos aqui a questão das internações arbitrárias, para vos poupar o trabalho dos desmentidos fáceis. Afirmamos que uma grande parte dos vossos pensionistas, perfeitamente loucos segundo a definição oficial, estão, eles também, arbitrariamente internados. Não admitimos que se freie o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico quanto qualquer outra seqüência de idéias e atos humanos.[74]

Diferentemente do que julga Koupernik, a proposta antipsiquiátrica consiste basicamente em acompanhar o louco sem subjugá-lo.

em nome dessa individualidade intrínseca ao homem, exigimos que sejam soltos esses encarcerados da sensibilidade, pois não está ao alcance das leis prender todos os homens que pensam e agem.[75]

No entender de Laing: “A pessoa catalogada a força como doente e especificamente como esquizofrênica é despojada de todos os seus direitos legais e humanos, de tudo o que possuía e de toda a liberdade de ação independente”.[76] Não se trata de cura, mas de compreensão: “Se conseguirmos começar a compreender a saúde e a loucura numa ótica existencial e social, poderemos ver claramente até que ponto todos estamos em confronto com os mesmos problemas e com os mesmos dilemas”.[77]

Cumpre destacar aqui a contribuição do livro de Gilles Deleuze e Félix Guattari, o Anti-Édipo[78], que fez da esquizofrenia não uma perda simbólica, uma falta no sentido clássico freudiano, mas uma “máquina desejante”, que produz o desejo, moldando-o às condições exigidas (no caso em relação ao capitalismo). O anti-Édipo na figura do esquizofrênico, desterritorializa o desejo, arrasta-o e o reproduz “numa nova Terra”.

É esta a nossa “doença”, a doença dos homens modernos.[79]

O psiquiatra Adam Phillips que formou-se psiquiatra nos fim dos anos 70, ressalta: “O que os psiquiatras e os antipsiquiatras dos anos 1960 e 1970 haviam reconhecido, de maneiras muito diferentes, era que havia em nossa cultura um enorme medo da loucura”.[80]

Talvez esse medo encontre eco na proposta anárquica de Basaglia, talvez seja a revolução espiritual defendida por Laing ou ainda simplesmente o terror diante do “estranho”.

A repressão dos atos anti-sociais é tão ilusória quanto inaceitável no seu fundamento. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vítimas individuais por excelência da ditadura social[81]

Acredito que Deleuze e Guattari iluminem um pouco essa questão quando referem-se ao que Artaud significou para a instituição psiquiátrica: “Artaud é a destruição da psiquiatria precisamente por ser um esquizofrênico e não por não o ser.”[82]

Se a psiquiatria é braço do sistema normativo da sociedade, Artaud é sua antítese, uma “espécie de parada incompreensível e bem levantada no meio de tudo no espírito”.[83]

3 UM DOENTE INVETERADO

Martin Esslin[84] em seu livro, Artaud, comenta que em 1937, após a “desastrosa” viagem a Bruxelas, onde desfez seu noivado, Artaud vai à Irlanda.

Quem sou eu?/ De onde venho?/ Sou Antonin Artaud / e basta eu dizê-lo/ como só eu o sei dizer e imediatamente / verão meu corpo atual / voar em pedaços / e se juntar / sob dez mil aspectos / notórios / um novo corpo / no qual nunca mais / poderão / me esquecer.[85]

Lá, ele espera por um evento cataclísmico. Acredita que na Irlanda estará protegido, pois sua bengala, presente de seu amigo René Thomaz, foi aquela usada por São Patrício para banir as serpentes que invadiram o país séculos atrás. Essa bengala era seu amuleto, seu “bastão mágico”. De acordo com os relatos, podemos imaginar sua figura insólita proferir um discurso apocalíptico e bradar a bengala lá no alto, dizendo-se Jesus Cristo. Sem dúvida, Artaud é louco.[86] Artifícios como fim do mundo, objetos sagrados e messias, tudo isso é loucura. Não perguntaremos o porquê de Artaud dizer-se Jesus Cristo, ele não é e tudo mais é loucura. Mas vamos supor que Artaud, embora ainda acreditasse nesses absurdos, não tenha mencionado nenhum cataclismo ou o poder de sua bengala ou sua divindade, se só apresentasse um semblante contraído, mudo, e não se desgarrasse da bengala nem por um instante. Provavelmente, Artaud seria tomado como uma pessoa excêntrica somente. Devemos nos perguntar: será essa “excentricidade” sintoma de algo mais profundo, inerente a sua pessoa, ou reflexo de um posicionamento político diante da normalidade? Esta pergunta feita às pressas constitui a espinha dorsal deste segundo arranjo. Então, antes de voltarmos à Artaud, precisamos esmiuçar a pergunta: o que é ser normal? E em seguida, problematizar a normalidade sob a ótica de Artaud: a crueldade.

2.1 INDISCRIÇÕES DE ANTONIN ARTAUD

No livro O que é loucura, João Freyze-Pereira[87] toma a etimologia da palavra normal no latim norma, para expor seu significado como “esquadro” e normalidade, normalis, como “perpendicular”, isto é, para um sentido mais abstrato, falar em normalidade é pressupor uma lógica vertical, normativa, que enquadra, delimita um sujeito. Pereira argumenta um caráter discriminatório da normalidade, tipificando-a por oposição ao seu horizonte não demarcado, “o sentido, a função e o valor de uma norma nascem apenas do fato de existir algo, estranho a ela, que não corresponde à exigência a que ela obedece.”[88] Nesta definição, normalidade e anormalidade são condicionantes da existência um do outro, ainda que essa relação não seja horizontal. Mas também já podemos antever um segundo nível em que essa relação acontece, quando podemos inverter a ótica do objeto para fazer da anormalidade base para a análise da sociedade, o que se tenciona fazer nos itens seguintes.[89]

Queremos crer que é por havermos conhecido mal a natureza da loucura, permanecendo cegos a seus signos positivos, que lhe foram aplicadas as formas mais gerais e mais diversas de internamento.[90]

No livro Psiquiatria e Antipsiquiatria, David Cooper apresenta um intrigante diagrama em que separa a loucura da normalidade de uma forma totalmente contra-sensual.

FIGURA 1

Ser normal é encaixar-se ao padrão mesmo que este não o suporte, é “dançar a música conforme a banda toca”. O paradoxo do sujeito são no modelo do Dr. Cooper é que ele fingiria dançar conforme o restante, mas em verdade estaria dançando outra música.Copper comenta que “desde o instante do nascimento, a maioria das pessoas progride através de situações de aprendizado social na família e na escola até atingir a normalidade social. A maioria das pessoas ficam desenvolvimentalmente paradas neste estado de normalidade. Algumas sucumbem durante este progresso e regridem ao que chamamos de loucura no diagrama. Outras, pouquíssimas, conseguem deslizar através do ponto de inércia […] para a sanidade (ω). Cabe notar que a normalidade está ‘distante’, em pólo oposto à loucura, mas também à sanidade mental.”[91] Assim, de acordo com Cooper, a normalidade é um encaixamento[92] da subjetividade às normas sociais e o sujeito são é aquele que consegue preservar sua subjetividade em meio à opressão normativa. Mais adiante, Cooper fala também de Artaud:

Houve longos diálogos entre Artaud e seus psiquiatras, nos quais Artaud defendeu sua crença de que era vítima de invocações vodu e seu direito de se isolar das outras pessoas. Em oposição a isso, o psiquiatra invocaria, com insistência, a necessidade, para Artaud, de se conformar com a sociedade. Mas, no momento crítico final do diálogo, vinha sempre a advertência: “Se falar de novo em enfeitiçamento, Sr. Artaud, levará 65 eletrochoques”. Há um sentido em que as afirmações delirantes de Artaud reproduziam uma profunda realidade da vida.[93]

E logo em seguida, comenta: “Não é excessivamente absurdo afirmar que com muita freqüência, é quando as pessoas começam a ficar mentalmente sadias que elas entram em um hospital de doenças mentais.”[94]

Podemos entender o ‘ser normal’ como a demarcação de um espaço comum não só de padrões comportamentais, mas também dos signos a que estão sujeitos, tornando tudo aquilo que eles tem de seu, como nosso. Se encararmos o homem como sujeito singular que se comunica e pensa em uma esfera de signos normalizados, o homem normal é aquele que reproduz inconscientemente a condição de ser unidimensional.[95]

Robert Donald Laing em A Psiquiatria em Questão atribui parte do interesse por Freud justamente por “ter compreendido e em larga medida demonstrado que a pessoa vulgar, normal não é mais que um fragmento amachucado e endurecido do que uma pessoa poder ser”.[96] E constata:

A alienação é a condição do homem normal.[97]

Ser normal é encaixar-se ao padrão mesmo que este não o suporte, é “dançar a música conforme a banda toca”. O paradoxo do sujeito são no modelo do Dr. Cooper é que ele fingiria dançar conforme o restante, mas em verdade estaria dançando outra música.

Ao final do primeiro capitulo, David Cooper aconselha:

Por enquanto, se alguém tiver de ficar louco, a tática de aprender em nossa sociedade é a da discrição.[98]

Peter Pál Pelbart fez um belíssimo trabalho em Razão e Desrazão, discutindo as teorias dos mais diferentes estudiosos para erguer um mosaico explicativo sobre a questão desse paradoxo estruturante entre normalidade e anormalidade. Comentando a polêmica que cercou o artigo da antropóloga Ruth Bendedict, diz: “A normalidade tem por único critério os traços dominantes da cultura em questão. Ruth Benedict complementa esse relativismo cultural com a hipótese da loucura como desvio em relação a essa norma.”[99] Tendo como referência o estudo de Georges Devereux, Essais d’etnopsyquiatrie génerale,que propõe uma análise etnopsiquiátrica de culturas primitivas com relação a suas manifestações (indivíduos) anormais, Duvereux, da mesma forma que Cooper elege uma sanidade certa, também ele define uma insanidade correta. “A tese de Devereux pode ser resumida numa fórmula simples: há maneiras corretas de ser louco, e de ser reconhecido como tal”.[100] Pelbart apropria-se de três conceitos apresentados por Devereux em que essas “maneiras corretas” acontecem, classificadas por desordens de natureza convencional (étnica e sagrada) e não convencional (idiossincrática).

A desordem étnica se utiliza de traços culturais para estruturar uma sintomatologia, a desordem sagrada é uma síndrome restitucional convencional referente a uma experiência sobrenatural originada num incidente psicótico, enquanto a desordem idiossincrática provém de um traumatismo não necessariamente recorrente na sociedade em questão, e portanto atípica, tanto na sua etiologia quanto na sua forma e evolução. Essa desordem insólita é estranha à psicopatologia da cultura em que aparece de modo que o louco, neste caso, vê-se obrigado a inventar seus sintomas, improvisando-os de acordo com suas necessidades. Não é raro que essa improvisação se dê a partir da deformação de certos itens culturais, ou até de uma deculturação, através da qual o indivíduo se exclui da cadeia de significações de sua cultura, privatizando sua existência a ponto de torná-la ininteligível para si e seu grupo. Às vezes a desordem idiossincrática pode tomar emprestados elementos do “modelo de inconduta”, ou até mesmo confundir-se com ele. (grifos do autor)[101]

Agora imagine elaborar uma peça de teatro baseada em um assassinato premeditado. Pouca atenção se dá aos diálogos, a peça é basicamente feita a gritos histéricos, vestuários extravagantes, música instrumental esquisita, pretensiosamente feia, atores contorcidos em um frenesi alucinante, quase bestial. É indecente, é indecoroso, é absurdamente insano. Mais da metade da platéia deixa o espetáculo, dos poucos que permaneceram, a maioria vaia. Alguns talvez até estivessem incertos quanto ao que acabaram de presenciar, mas na dúvida, ficaram calados, quando não fizeram coro às vaias. Se ali, alguém aplaudiu, suas palmas foram abafadas pela maioria ofendida. Esta peça chamada Les Cenci foi escrita e dirigida por Artaud e de acordo com Esslin foi um retumbante fracasso: “Na verdade, era o fim da luta de Artaud, iniciada ainda no começo da década de 20, para obter uma base normal de existência no quadro da sociedade constituída”.[102]

Artaud surge, na leitura que Pelbart faz de Devereux, como um louco idiossincrático, empurrado pela sociedade à loucura “das sociedades modernas, ditas de solidariedade mecânica, que produzem a loucura de tipo esquizofrênico”[103]. Um sujeito que é valorizado por nossa sociedade na medida em que se constitui um símbolo dos contravalores burgueses. A arte de Artaud é inglória, incompreendida, corajosa e honesta. Ela é valorizada pela sua desvalorização. “o homem moderno é esquizóide fora dos muros manicomiais, e esquizofrênico no interior deles. O modelo de comportamento esquizóide é valorizado pelo social, e constitui a base estrutural da atitude esquizofrênica. O esquizofrênico intensifica e concentra traços de comportamento típicos da civilização que o rodeia.”[104]

Dois anos depois do espetáculo Les Cenci sair de cartaz, voltamos com Artaud para à Irlanda, em Dublin. Ele sai à noite e envolve-se numa confusão até hoje mal esclarecida. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, só se sabe que Artaud foi deportado naquele mesmo dia para a França e que lá chegou em uma camisa-de-força.

Da bengala de São Patrício nunca mais teve noticias.

2.2 CRUELDADE PARA LIBERDADE

Em Ideologia da Sociedade Industrial, Herbert Marcuse aponta a irracionalidade da sociedade, acusando o capitalismo de ser um sistema destruidor “do livre desenvolvimento das necessidades e faculdades humanas”[105], ele acredita que o irracional aumento da produtividade e da destruição e a subserviência e/ou apatia às decisões superiores provocaram “uma forma de perpetuar as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes” levando ao que chama de “sociedade unidimensional”, em que a dinâmica da vida moderna se dá pela impotência do individuo.

Na realidade, nem a utilização dos controles políticos em vez dos controles físicos, nem a mudança no caráter do trabalho pesado, nem a assimilação das classes ocupacionais, nem a igualação na esfera do consumo compensam o fato de as decisões sobre a vida e a morte, sobre a segurança pessoal e nacional, serem tomadas em lugares sobre os quais os indivíduos não tem controle algum. Os escravos da civilização industrial desenvolvida são escravos sublimados, mas são escravos porquanto a escravidão é determinada não pela obediência ou pela dureza do trabalho, mas pela condição de ser um mero instrumento e pela redução do homem à condição de coisa.[106]

Pelbart comenta que por isso, para Devereux, a esquizofrenia é “praticamente incurável”, pois é a sociedade ocidental a fonte constante de alimentação dos “sintomas” esquizofrênicos, uma vez que a “[…] penalização da autonomia do homem, com o sentimento de se estar cada vez mais ‘possuído’, ‘manipulado’, ‘dependente’ de forças que escapam ao nosso controle — e legitimação exclusiva dos antíconformismos estandartizados, que não passam de um conformismo a mais.”[107] Se retomarmos o conceito de David Cooper sobre normalidade, quando ‘ser normal’ implica em ser uma coisa, podemos compreender o surto psicótico como uma tentativa desesperada de libertação ou ainda de descoisificação.

Importante frisar que essa ruptura não é voluntária, mas forçada, acontece de fora para dentro, é um universo de terror contínuo e cumulativo, tal qual um copo que se enche até a borda e não transborda. O corpo deixa de “ser copo” para explodir em milhares de fragmentos desconexos que se organizam numa violenta tentativa de interrupção, paradoxalmente, da liberdade alheia: “[…] precisamos entendê-lo [o termo violência] como a ação corrosiva da liberdade de uma pessoa sobre a outra.”[108]

Na peça Les Cenci, Artaud expõe uma sociedade claustrofóbica, palco dos mais absurdos atos de violência, em que seus cidadãos: amigos, pais, filhos e irmãos, são pessoas angustiadas e terríveis, mas normais, bizarramente normais. É com essa visão da sociedade que Artaud irá propor uma nova e subversiva forma de fazer teatro: a crueldade.

O teatro é a guilhotina, a forca, as trincheiras, o forno crematório ou o hospital psiquiátrico. A crueldade: os corpos massacrados.[109]

Para Artaud, havia um teatro refém da normalidade, comportando-se como uma marionete da sociedade, onde dramas e comédias eram farsas cênicas que, por vezes, denunciavam algum sintoma, mas nunca desciam as profundezas do homem. “[…] pode-se dizer que, neste momento, há dois tipos diferentes de teatro: um espúrio, fácil e falso, freqüentado por burgueses, militares, gente de boa renda, lojistas, comerciantes de vinhos, professores de aquarela, aventureiros, prostitutas e ganhadores do Prix de Rome, que acontece na sala de Sacha Guitry, nos boulevares e na Comédie Française; outro, que encontra abrigo em qualquer lugar, mas que é concebido como a realização das mais puras aspirações da humanidade”[110]. O teatro era mais que personagens ou histórias, paródias da realidade. O teatro tinha um duplo. Era preciso desse teatro para revelar a crueldade da sociedade em seu âmago, o próprio ser humano, expor seu espírito, os corpos massacrados, e reinventar a vida.

Não é a mente ou aos sentidos da platéia que nos dirigimos, mas a sua existência inteira. À dele e à nossa.[111]

Artaud acreditava que a vida é crueldade[112], mas também, que “nossa incapacidade total de reagir e mesmo de viver como a consciência super-aguda da crueldade da existência faz de nós um gado totalmente pronto para guerra e o massacre”. Ou seja, Artaud acusa a hipocrisia da sociedade burguesa[113], por isso sua proposta na forma de uma arte que, segundo José Teixeira Coelho[114], “desperte todos os conflitos possíveis dentro do homem, os conflitos que o homem comum, normal, ignora”[115]

Crueldade significa extirpar pelo sangue e através do sangue a deus, o acidente bestial da anormalidade humana inconsciente, onde quer que se encontre.[116]

Em seu Artaud, Coelho dedica um capítulo inteiro para discutir a relação entre arte e sociedade, onde afirma que o Teatro da Crueldade “é uma carnificina, uma onda destruidora – mas se nesse processo se desencadeiam forças negras, essas forças não são as do teatro, mas as da vida, duplo do teatro. […] É um teatro perigoso, sem dúvida. É que o homem nessa vida sufocada pela cultura, castrado pela cultura, perdeu o sentido do perigo da existência, quer dizer, passou a ter medo de correr o risco de enfrentar-se o tempo todo para descobrir-se e afirmar-se”[117]. Assim também o é para David Cooper e seu conceito de encaixamento, ele diz que vivemos trocando de caixas ao longo da vida até chegarmos à última delas, o caixão.[118]

Pela crueldade, pelo sangue, era assim que Artaud planejava arrancar das suas caixas os homens massacrados, pois é a sociedade a verdadeira anomalia, o acidente bestial da anormalidade. Crueldade para liberdade, liberdade para refazer a vida, refazer o homem: “O homem é enfermo porque é mal construído. Temos que nos decidir a desnudá-lo para raspar esse animalúculo que o corrói mortalmente”.[119]

E para tanto, somente mergulhando na linguagem corporal e simbólica, entre signo e significado para se chegar à fonte da crueldade e reclamar os corpos massacrados pela sociedade oca, unidimensional: “Quando tiverem conseguido um corpo sem órgãos, então o terão libertado dos seus automatismos e devolvido sua verdadeira liberdade.”[120]

Um corpo sem órgãos. Sem grilhões. Sem texto. Do palco para a realidade, onde ator e autor se confundem. Esse é o Teatro da Crueldade, a própria vida de Artaud: “Nada jamais conseguirá igualar meus gritos de homem ocupado com refazer sua vida.”[121]

O teatro artaudiano é o lugar para soltar esse grito pela vida. Porém, as pretensões de Artaud não se realizam da maneira esperada. Talvez o público não estivesse preparado para presenciar os gritos de Artaud, ou ainda, Artaud não estivesse preparado para dá-los. Seja como for, a peça Les Cenci foi, na bilheteria, um fracasso, o que segundo Esslin, teria prejudicado sensivelmente sua carreira de diretor. “Ninguém jamais estaria novamente disposto a permitir-lhe realizar o que era tido como suas idéias extravagantes e nada práticas.[122]

Daí em diante, Artaud será arremessado em uma espiral de depressão[123], drogas[124] e falta de dinheiro[125]. Solitário e desiludido consumia mais drogas, e sem dinheiro para as drogas, afundava-se mais e mais na solidão. “Na verdade, era o fim da luta de Artaud, iniciada ainda no começo da década de 20, para obter uma base normal de existência no quadro da sociedade constituída”[126]. É nesse momento que Artaud escreve a Jean-Louis Barrault e diz:

A tragédia do palco não me basta mais, vou transportá-la para minha vida.[127]

Coelho escreve que Artaud conseguiu seu intento “[fez] a vida ser penetrada pela arte, soldar a arte tão fisiologicamente à vida, de modo a ser quimérico pretender isolar uma da outra”.[128] Artaud então decide encarnar o seu teatro, teatro como duplo da própria vida, viver a crueldade para alcançar a liberdade. Mas que liberdade é essa? Quando Marcuse fala em sociedade unidimensional, ele critica o discurso de liberdade do capitalismo.

[…] temos que liberdade econômica passou a ser liberdade de economia – de ser controlado pelas forças e relações econômicas; liberdade de luta cotidiana pela existência, de ganhar a vida. Liberdade política significaria libertação do individuo da política sobre a qual ele não tem controle eficaz algum.[129]

Nunca se discute liberdade de ser, entende-se a vida como a existência unidimensional e não como escolha de existência. É em protesto a essa sociedade homogeneizante da experiência humana, asfixiante da singularidade, escravocrata do pensar e do agir, normal, que Artaud, após o infeliz tropeço de Les Cenci, decide cruzar o Atlântico: “Eu vim para o México fugido da civilização européia, produto de sete ou oito séculos de cultura burguesa. Movido pelo ódio contra essa civilização e essa cultura.”[130]

Por fim, retomamos a pergunta feita lá no início desse item: Será a loucura de Artaud sintoma de algo mais profundo, inerente a sua pessoa, ou reflexo de um posicionamento político diante da normalidade?

Pense na bengala que se perdeu.[131] Essa bengala era mais que um pedaço de madeira bem trabalhado, sua funcionalidade é ambivalente e simbólica. Tal qual a hóstia simboliza o corpo de Cristo e é permitido, necessário, comê-lo, assim também podemos ver na bengala o corpo de São Patrício, uma perna; ao mesmo tempo, que é uma extensão de Artaud como um braço; e um Artaud inteiramente diferente; simboliza a luta contra o Mal quando sua existência evoca as serpentes, serpentes corruptoras do homem, do homem-serpente; simboliza a paixão de Artaud quanto ao seu destino trágico e sagrado[132]; naturaliza o mito ao passo que mistifica o real. Talvez tenham visto um louco e na bengala uma arma nas mãos de um louco, e não posso dizer que estivessem errados, mas daí teríamos que destruir todas as bengalas desse mundo.

Muito provavelmente, a bengala não pertenceu a São Patrício, embora, Artaud acreditasse que sim, para além do sentido de propriedade. Acreditasse que com ela espantaria as serpentes mais uma vez. Mas se houve uma época em que homens como Artaud tinham o privilégio da dúvida, na sociedade que emerge do século XIX só se pode, quando muito, duvidar. Jamais ser a dúvida: “O Poeta é admissível – desde que não acredite no que faz, desde que seja diferente do que diz ser.” (grifo do autor)[133]

Revisitemos a peça Les Cencis. A encenação de uma vendetta[134] entre pai e filho. Quem poderá julgar o parricídio?[135] Quem pode entender a dor de uma infância rompida? Quem pode condenar um assassino que cresceu alimentado pelo ódio de uma violência sem fim? Artaud deixa a pergunta pairando sobre a platéia: Como podemos julgar quando somos nós que condenamos?

Tragédias como a dos Cencis acontecem a todo instante. Está nas esquinas, nos becos escuros, nos copos quase vazios, nas páginas dos jornais, na língua musculosa das beatas, nos olhos curiosos de uma criança, na mão que afaga manchada de sangue. Artaud exaspera-se com o comodismo burguês, hipócrita e complacente. Seu teatro luta contra essa conformidade que recai confortavelmente sobre os ombros de todos os homens. Ora, quem mais poderia representar esse teatro se não o próprio Artaud? A loucura é seu ensaio da crueldade:

Abandonai as cavernas do ser. Vinde o espírito se revigora fora do espírito.[136]

Quando Artaud suprime as barreiras entre o palco e a vida, ele está propondo uma nova forma sociedade, uma sociedade sem mentiras.

Basta de jogos de palavras, de artifícios da sintaxe, de malabarismos formais; precisamos encontrar – agora – a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, senão um guia para o espírito perdido em seu próprio labirinto.[137]

A normalidade, essa prisão, cruel por encaixar o homem, ceifar inconscientemente parte dessa condição trágica que é viver.[138] Artaud então grita, não por socorro, mas por liberdade, liberdade para mostrar a crueldade daquele homem que ousa olhar para dentro de si e espiar sua existência de um plano vertical. Se acusam esse pensamento de doença, então, doente sim, um doente inveterado. Pena que “Desgraçadamente para a doença, a medicina existe.”[139]

4 A SUICIDADE DA SOCIEDADE

Depois de ler um artigo em que um psiquiatra afirmava ser Van Gogh um esquizofrênico do tipo degenerado, Artaud visitou a mostra de Van Gogh no museu de l’Orangerie e de lá voltou para escrever esse Van Gogh.[140]  E antes de mais nada: “Não, Van Gogh não era louco.”[141]

Para Artaud, loucura é a sociedade encarar Van Gogh assim.

num mundo onde se come todos os dias vagina cozida à la sauce vert ou sexo de recém-nascido espancado e colérico, / tal como é colhido do sexo materno. / E isto não é uma imagem, mas um fato abundante e cotidianamente repetido e observado em toda a terra.[142]

Quem pode julgar Van Gogh quando “só no delírio consegue encontrar uma saída para as coerções que a vida lhe preparou?[143] A tragédia que acomete o louco é seu “gênio incompreendido”, esse interdito anti-social, que lhe proporciona um lugar desprivilegiado no mundo e que, paradoxalmente, também é sua afirmação existencial.

porque Van Gogh era uma dessas naturezas dotadas de lucidez superior, que lhes permite, em todas as circunstância, enxergar mais longe infinita e perigosamente mais longe que o real imediato e aparente dos fatos.[144]

Em verdade, um autêntico alienado.

E o que é um autêntico alienado? / É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isso é socialmente entendido, a compuscar uma certa idéia superior da honra humana.[145]

A defesa dessa ‘ideia superior’ mencionada por Artaud surge da reivindicação de uma condição singular. “O que a história da loucura nos revela, pondo em questão toda a cultura ocidental moderna, é que o louco é excluído porque insiste no direito à singularidade e. portanto, à interioridade.”[146] Quando reivindicada, essa condição pode romper com os padrões lógicos da linguagem, não limitar-se ao circunstante, não aceitar a realidade dada.

Mas a psiquiatria nasceu da turba plebéia de seres que quiseram conservar o mal na fonte da doença e que, assim, extirparam de seu próprio nada uma espécie de guarda suíça para deter em seu nascedouro o impulso de rebelião reivindicador que está na origem de todo gênio.[147]

Até que ponto a normalização das sociedades é capaz de cercear o pensar? Será que a similaridade dos comportamentos, das rotinas humanas, dos conhecimentos partilhados, pode banalizar a realidade a ponto de engessar o pensamento, de desqualificar o “eu humano”?

Van Gogh não morreu de um estado de delírio próprio, / e sim por ter servido corporalmente de campo a um problema em torno do qual, desde suas origens, se debate o espírito iníquo desta humanidade, / que é o da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre um e outro. / E onde fica nesse delírio o lugar do eu humano?[148]

Quando acusa-se de loucura Van Gogh ou Artaud ou Gérard de Nerval, a coletividade taxa pejorativamente, ridiculariza, deslegitima-se um discurso, silencia-o. A imposição do rótulo loucura escarnece a voz do outro de sentido, isolando-o, negando sua humanidade.

Não foi para este mundo, / não foi nunca para esta terra que nós todos sempre trabalhamos, / lutamos, / gritamos de horror, de fome, de miséria, de ódio, de escândalo e de nojo, / que fomos todos envenenados, / ainda que tenhamos sido todos por ela enfeitiçados, / e que nos tenhamos enfim suicidado, / uma vez que não somos todos, como o pobre Van Gogh, suicidas da sociedade![149]

4.1 PERICULOSIDADE E INSANIDADE: PARA PÔR FIM AO JULGAMENTO DE DEUS

Só há uma razão para atacar o ópio. Aquela do perigo que seu uso acarreta ao conjunto da sociedade. / Acontece que este perigo é falso.[150]

Artaud critica a política das drogas, mas podemos nos apropriar dessas palavras para problematizar também a questão do perigo que se imputa ao sujeito insano.

Em Leviatã, Thomas Hobbes, na procura de um significado para a existência das sociedades, elaborou o conceito de ‘contrato social’. Nesse contrato, o cidadão aceita obedecer às regras da sociedade e, em contrapartida, o Estado se compromete a zelar pela ordem. Uma vez que a relação baseia-se no cumprimento das normas sociais, a normalidade como forma de interação social passa a ser garantia da manutenção da ordem. Assim, se inserirmos um sujeito que não compartilha dessas prerrogativas naturalizadas, então aí, teremos um perigo para a sociedade.

Em suma, numa sociedade que tem horror ao diferente, que reprime a diversidade do real à uniformidade da ordem racional-científica, que funciona pelo princípio da equivalência abstrata entre seres que não têm denominador comum, a loucura é um ameaça sempre presente.[151]

Enquanto um crime é a infração direta da ordem (em sua esfera institucional), a loucura, por seu potencial subversivo da normalidade, corrompe o princípio de ordem.

Heliogábalo é um anarquista nato, carregando com dificuldade sua coroa; os atos reais são atos de um anarquista nato, inimigo público da ordem, inimigo da ordem pública.[152]

Este é Heliogábalo, o anarquista coroado, que não era romano, mas sírio[153] e que tentou derrubar os deuses, a religião e a ideologia da metrópole, implantando as crenças e signos da sua terra natal. Heliogábalo que tornou homem e mulher um. Um corpo sem órgãos, gritou Artaud.

À luz de sua ingenuidade, a psicanálise viu acertadamente que toda loucura se enraíza em alguma sexualidade perturbada; mas isto só tem sentido na medida em que nossa cultura, por uma escolha que caracteriza seu Classicismo, colocou a sexualidade na linha divisória do desatino. Em todos os tempos, e provavelmente em todas as culturas, a sexualidade foi integrada num sistema de coações; mas é apenas no nosso, e em data relativamente recente, que ela foi dividida de um modo tão rigoroso entre a Razão e o Desatino, e logo, por via de conseqüência e degradação, entre a saúde e a doença, o normal e o anormal.[154]

E é esse tipo de perigo que a loucura representa. Leia bem. Pois a literatura histórica tem se furtado a explorar a questão.

ANARQUIA.

Numa vida cuja cronologia é impossível, mas na qual os historiadores que narram detalhadamente suas crueldades, que não têm data, vêem um monstro, vejo uma natureza de uma plasticidade prodigiosa, que sente a anarquia dos fatos e se insurge contra os fatos.[155]

Imagine Heliogábalo renascido em Marselha no ano de 1896 da Era Cristã. Imagine sua reencarnação, um anarquista sem coroa. Este Heliogábalo na tentativa de entender o mundo, admira-se com a enorme distância entre ele e a língua, invariavelmente, via-se como um bobo ao tentar articular essa distância.[156] Imagine um cego que tente enxergar, um mudo tentando falar, este é Heliogábalo reencarnado. Então o anarquista sem coroa é iluminado pela simplicidade das coisas, somos todos cegos e mudos para esse mundo, falamos de sombras e nelas acreditamos haver mais do que nossas mãos possam tocar. Diria Artaud: “é contra o invisível mesmo que nós lutamos.”[157]

Ora, neste mundo de cegos todos somos reis. Este é o gênio que encenará as sombras do absurdo e fará da crueldade a arma para sacudir as pessoas desse transe. Mas este anarquista iluminado é como todos iluminados o são, ingênuo. Da normalidade como tradição e da tradição para a normalidade, as sombras são verdades e as verdades, vejam só, são verdades por si só e é loucura atacá-las. Então Heliogábalo reencarnado é rejeitado e mais uma vez, não a última, perde a coroa ainda fresca na cabeça. Ele somente renascerá em outra terra, donde sai como revolucionário coroado. Passa a fazer das sombras da verdade suas sombras e da sua vida a própria chama para afastá-las. Não é uma revolução comum, ela não comunga coletividade, não se pauta pelos outros, é uma revolução estritamente espiritual e por isso mesmo, ainda mais revolucionária.

Isto é insano em todos os sentidos da palavra. A língua se presta a conversação, mas dela Heliogábalo revolucionário mostrou o totalitarismo. Para prová-lo, teve Heliogábalo reencarnado a cabeça mutilada para que nela nenhuma coroa pudesse repousar. Outrora ridicularizado, Heliogábalo tornou-se temido. Podem chamar suas coroas de surto, dizer que o mal é feito para o bem, nada disso exclui o rio que este homem sozinho se propôs inverter. Arrastado pela correnteza enfurecida é esse Heliogábalo preso, amaldiçoado, torturado, violentado, inferiorizado, morto. Dele nasce outro Heliogábalo, dentre tantos outros, o único velho. Esta é uma das sombras de Antonin Artaud. Se fossemos dar um nome a essa sombra seria discurso.

Tomemos então por objeto o discurso de Artaud. Primeiro devemos notar que o discurso busca associar-se a outros para poder expressar-se, ele toma e é tomado por outros para poder se firmar. Foucault diz que “em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, disfarçar a sua pesada e temível materialidade”.[158] Como exemplo, Foucault saca a loucura: “Penso na oposição da razão e da loucura. Desde os arcanos da Idade Média que o louco é aquele cujo discurso não pode transmitir-se como o dos outros.”[159] Podemos entender o processo da segregação do louco como uma forma de proteger as estruturas de poder, excluindo e absorvendo o discurso destoante, expurgando-lhe de conteúdos desagradáveis. Essa segregação pelo discurso não é causa nem efeito de uma ou mais mentes malignas empenhadas em fazer desse mundo ‘o’ seu mundo. Não, este mundo, ‘o’ mundo é causa e efeito de uma implicação histórica: a moral. Como pretendi demonstrar na primeira parte da monografia, para falar de loucura sem incorrer em erros conceituais, é preciso trazer à luz seu alicerce sagrado, a moral. Quando ouvimos ou falamos em loucura sem esta preocupação, subterraneamente estamos introjetando e reproduzindo o discurso moral histórico.

No século XX, esse discurso ganha outra camada, pois passa a desenrrolar-se diante e ante o conceito de insanidade. Acontece que o termo “insanidade” sombreia de tal forma esse discurso, que dele quase nada vemos da moral histórica, embora ainda esteja lá quando circunscrevemos a loucura dentro de um espectro de amoralidade. E é por isso que não importa com quais palavras se pinte a loucura, se singularidade, esquizofrenia, psicose ou histeria, esse discurso será sempre louco, é a própria palavra que o diz.

A cruzada que Artaud empreende enfim é contra o discurso ‘são’. Um discurso capaz de prender e torturar aqueles que dele divergirem publicamente.

Se tomarmos o discurso de Artaud como uma tentativa de rasgar a colcha de retalhos que encobre o Espírito (pensamento/corporalidade), perto dele não podemos ficar sem sentirmo-nos perturbados, como se nos convidasse a cruzar a fronteira da “sanidade”, rasgar o Espírito-são. Ao questionar as cercas da normalidade, Artaud desnaturaliza e anarquiza a realidade dada, seu discurso torna-se perigoso por fim, pois é assim que o vemos surgir sem a âncora da loucura.

A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade.[160]

Como analisa Foucault em A evolução da noção do individuo perigoso na Psiquiatria Legal do séc XIX, a metáfora do contrato social de Hobbes evoluiu ao longo do século XVIII para a compreensão de um ‘organismo social’, em que “o médico deve ser o técnico do corpo social”. Ele traça um paralelo entre a ideia de sociedade saudável com a noção contemporânea de responsabilidade civil[161] para determinar o potencial de periculosidade do sujeito que será julgado não mais pelos seus atos, mas sobre aquilo que ele é, a sua natureza: “Ele é responsável já que apenas por sua existência ele é criador de risco, mesmo que não seja culpado já que não preferiu, com toda liberdade, o mal ao bem.”[162]

A partir disso, Foucault faz os seguintes questionamentos:

Há indivíduos intrinsecamente perigosos? Como é possível reconhecê-los e como podemos reagir a sua presença?[163]

Quem pode julgá-los sem prover de onipotência? As inquietações de Foucault só revelam o quanto é insidiosa a sanha da sociedade ocidental em se proteger quando é sob sua asa que vive o verdadeiro louco: o monstro masturbador incorrigível[164], asco da hipocrisia burguesa que assassina, masturba-se e entope os presídios com seus filhos bastardos. Que teme o esquizoanarquista, esse louco que vomita todos os jogos sexuais, os vícios, as mentiras, as poucas migalhas, que destila a linguagem vazia e lhe dá forma inversa, que não guarda discrição, que transcende os modelos de inconduta, que perturba a paz enquanto a felicidade está por trás de vitrines nos shoppings, no conforto de uma cerca elétrica e cães ferozes, pois de dentro não se o lá fora.[165]

E lá fora,

por mais delirante que possa parecer tal afirmação, a vida presente se mantém em sua velha atmosfera de estupro, de anarquia, de desordem, de delírio, de desregramento, de loucura crônica, de inércia burguesa, de anomalia psíquica (porque não foi o homem, mas o mundo que se tornou anormal), de assumida desonestidade e de insigne hipocrisia, de sórdido desprezo por tudo que mostre raça, / de reivindicação de uma ordem inteiramente baseada na efetivação de uma primitiva injustiça, / de crime organizado enfim.[166]

Isto é nocivo – continua Artaud – porque a consciência doente tem a esta altura interesse capital em não se livrar da doença.

Artaud apropria-se da idéia de uma enfermidade moral e acusa a consciência da sociedade, mas contra ela pouca coisa pode fazer, é Don Quixote lançando-se contra os moinhos de vento. Enquanto a sociedade alheia a história da doença mental, aos GRITOS desses doentes que recusam tratamento, aos leprozários que criaram os psiquiatras e não os “loucos”, alheia, enfim, aos seus moinhos de vento, é essa sociedade que julga o comportamento de Artaud errado e o pune na intenção de corrigi-lo, [167] tornando-o cativo por mais de 9 anos.[168]

 já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer.

A.A.


[1] Do latim in– (negat) + sanus ‘são’, de ‘boa saúde’. Adj. 1. Louco, demente, maluco, doido; 2. Fig. Árduo, difícil, trabalhoso, fatigante.

[2] FOUCAULT, Michel. Doença Mental e Psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975, p. 69.

[3] Para não conceituar previamente o louco como doente.

[4] É consideravelmente emprobecedor afirmar que Artaud foi surrealista, por exemplo. Mais correto estaria dizer que o surrealismo foi Artaud. Com efeito, Artaud era figura estranha mesmo entre os amigos mais próximos do movimento e dele saiu (ou foi expulso?) quando Breton anunciou o alinhamento dos surrealistas franceses com a URSS de Stálin.

[5] Idem, ibidem, p. 61.

[6] Sabemos? Esta pergunta é uma chave de leitura do último item. Por enquanto, fiquemos com a frase de Santo Agostinho sobre o tempo: “Se ninguém me perguntar, eu o sei, se o quiser explicar a quem me fez a pergunta, já não sei.”

[7] ESSLIN, Martin. Artaud. São Paulo: Ed. Cultrix, 1978, p. 8.

[8] COELHO, José Teixeira. Antonin Artaud. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1982, p. 12.

[9] FOUCAULT, Michel. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 583.

[10] ESSLIN, Martin. op. cit, p. 8.

[11] Substância a base de ópio.

[12] Pelbart foi professor de Filosofia na PUC-SP.

[13] ARTAUD, Antonin. “Carta aos Médicos-chefes dos Manicômios” In: Escritos de um louco. Internet: p. 53.

[14] Entende-se por desvio social àquele ao qual se atribui a causa de um mal estar social devido a uma condição que lhe é inerente baseado numa média.

[15] FOUCAULT, Michel. Doença… op. cit, p. 52.

[16] Idem, ibidem, p. 53.

[17] PELBART, Peter Pál. Da clausura do fora ao fora da clausura: Loucura e desrazão. São Paulo: Editora Brasiliense, 1989, p. 17.

[18] Idem, ibidem, p. 42.

[19] Idem, ibidem, p. 40.

[20] Idem, ibidem, p. 43.

[21] A pintura de Bosch é uma sátira à sociedade medieval que fora tomada pela “loucura”.

[22] FOUCAULT, Michel. A História… op. cit, p. 48.

[23] Idem, ibidem, p. 31.

[24] Idem, ibidem, p. 54.

[25] Idem, ibidem, p. 49.

[26] Idem, ibidem, p. 50.

[27] Idem, ibidem, p. 89.

[28] Idem, ibidem, p. 55.

[29] Idem, ibidem, p. 89.

[30] Idem, ibidem, p. 55.

[31] Idem, ibidem, p. 89.

[32] Idem, ibidem, p. 546.

[33] Idem, ibidem, p. 546.

[34] Sobre a periculosidade do louco, ver o item 4.

[35] FOUCAULT, Michel. Doença… op. cit, p. 52.

[36] Idem, ibidem, p. 57.

[37] FOUCAULT, Michel. A História da… op. cit, p. 522.

[38] Entre os mais lembrados, Philippe Pinel, na França, e Samuel Tuke, na Inglaterra.

[39].FOUCAULT, Michel. Doença… op cit, p. 57.

[40] Idem, ibidem, p. 58.

[41] Idem, ibidem, p. 58.

[42]FOUCAULT, Michel. A História da… op. cit, p. 547.

[43] Idem, ibidem, p. 548.

[44] FOUCAULT, Michel. Doença… op. cit, p. 59.

[45] ARTAUD, Antonin. op. cit, p. 52.

[46] FOUCAULT, Michel. A História da… op. cit, p. 194.

[47] FOUCAULT, Michel. Doença… op. cit, p. 49.

[48] Idem, ibidem, p. 9.

[49] FOUCAULT, Michel. A História da… op. cit, p. 169.

[50] FOUCAULT, Michel. Doença… op. cit, p. 23.

[51] PELBART, Peter Pál. op. cit, p. 203.

[52] Idem, ibidem, p. 203.

[53] ARTAUD, Antonin. op. cit, p. 52.

[54] Idem, ibidem, p. 52.

[55] Optei pelo uso do verbo “reclamar” pela sua dupla funcionalidade; pode-se ao reclamar reivindicar algo ou protestar de algo. Artaud reclama seus 6 anos de reclusão. E Artaud reclama dos seus 6 anos de reclusão. Porém, para a segunda função, cabe aqui enunciar alguns verbos correlatos: injuriar, ofender, vituperar, profanar, execrar, vilipendiar, vociferar, GRITAR.

[56] Idem, ibidem, p. 52.

[57] ARTAUD, Antonin. Van Gogh: O suicida da sociedade. 2 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p. 53.

[58] Jean-Paul Chartier, ex-interno do Hospital Psiquiátrico de Vinatier (Lião) In: KOUPERNIK,Cyrille (org). Antipsiquiatria: Censo ou Contrassenso? Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976, p. 49.

[59] Laing afirmou que foi a partir da leitura que Artaud fez de Van Gogh que seus questionamentos a cerca da psiquiatria começaram.

[60] KOUPERNIK,Cyrille (org). Antipsiquiatria: Censo ou Contrassenso? Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976, p. 24.

[61] COOPER, David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. Rio de Janeiro: Editora Perspectiva, 1982, p. 6.

[62] SZASZ, Thomas Stephen. O Mito da Doença Mental. Circulo do Livro: São Paulo, 1974, p. 9.

[63] LAING, Ronald Donald. A psiquiatria em questão. Editorial Presença: Portugal, 1979, p. 9.

[64] Interessante notar o parentesco da abordagem de Cooper daquela apresentada por Sartre na peça Entre Quatro Paredes, na qual três pessoas são presas num quarto de hotel pela eternidade, sem poder dormir ou mesmo fechar os olhos. Fadadas a discutir para sempre, um deles saca a frase: o inferno são osoutros. Essa tese da “esquizofrenia” gerada pelo relacionamento humano, atrelada a definição de Jean-Claude Arfouilloux em que a sociedade “esmaga” o individuo, cria a perspectiva da sociedade como “motor” das contradições culturais e potencializador dos conflitos por meio de suas instituições. O mesmo entendimento poder ser depreendido dos escritos de Artaud.

Nesse sentido, esclarece a dúvida levantada por Arfouilloux: “não me sinto em condições de afirmar que sejam capazes, por si sós, [os fatores sociais, econômicos e políticos] de causar a loucura”. Cf. KOUPERNIK,Cyrille (org). op. cit, p. 25.

[65] COOPER, David. op. cit, p. 22.

[66] LAING, Ronald Donald. op. cit, p. 30.

[67] Livro organizado por Koupernik que reuniu sete psiquiatras para discutir a validade das criticas da Antipsiquiatria.

[68] KOUPERNIK,Cyrille (org). op. cit, p. 24.

[69] Idem, ibidem, p 163.

[70] Quanto à primeira hipótese, é possível que Koupernik aflija-se pela situação do paciente e pela angústia de seus familiares, ainda que a rigor, “perigoso” implique precauções a serem tomadas. Por isso, mais, ou menos explicitamente, ambas hipóteses sugerem a possibilidade do despertar de um ser violento, um louco que estaria tão distante desse mundo a ponto de deixar sua humanidade para trás, tornando-se um homem primitivo, obediente cego de seus instintos, incontrolável, imprevisível.

Poderíamos argumentar o teor absurdo de se imputar a todos os loucos o potencial acesso homicida quando assassinato, longe de ser um caso isolado, é ato corriqueiro da vida moderna, mas possivelmente Koupernik protestaria contra a interpretação dada a sua colocação, acusando-a de mera ilação, mas o adjetivo está lá. Se questionarmos os pressupostos da Psiquiatria tradicional, veremos os esqueletos morais legados pelo século XIX na fala de Koupernik, e o que poderia ser receio transformasse em temor. “Do quê?” faz-se necessário perguntar. Suicídio? Ou a idéia de suicídio? Estaria aí subentendido que o louco ao perder o valor pela sua vida poderia perder pela vida dos outros também?

[71] KOUPERNIK, Cyrille(org).Op. cit, p. 24.

[72] Idem, ibidem, p. 15.

[73] Informação disponível em http://www.abc.net.au/rn/allinthemind/stories/2009/2530830.htm#transcript. Acessado em 09 de novembro de 2011.

[74] ARTAUD, Antonin. Escritos… op. cit, p. 52.

[75] Idem, ibidem.

[76] LAING, Ronald Donald. op. cit, p. 113.

[77] Idem, ibidem, p. 124.

[78] Atente-se a provocação do título, já que é o mito de Édipo o maior pilar teórico de toda a psicanálise.

[79] DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia 1. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 136.

[80]PHILLIPS, Adam. Louco para ser normal. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2008, p. 10.

[81] ARTAUD, Antonin. Escritos… op. cit, p. 53.

[82] DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Op. cit, p. 140.

[83] Idem, ibidem, p. 140.

[84] Esslin é capaz de, numa mesma frase, rasgar elogios a Artaud e condená-lo por seu “fanatismo”. No mais, seu trabalho é um esforço cuidadoso para refazer os passos de Artaud.

[85] ARTAUD, Antonin. Escritos… op. cit, p. 33.

[86] A seguir, veremos que o ‘louco’ faz oposição ao ‘normal’ por sua “indiscrição”, daí o título deste item.

[87] Pereira foi professor de Psicologia na Universidade de São Paulo.

[88] PEREIRA, João Augusto Freyze. O que é Loucura. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1984, p. 21.

[89] Foucault questiona essa lógica em que o louco é analisado pela sociedade, subvertendo seu sentido, propondo uma análise além do “olhar clínico”. “[…] nossa sociedade não quer reconhecer-se no doente que ela persegue ou que encerra; no instante mesmo em que ela diagnostica a doença, exclui o doente.” – Cf. FOUCAULT, Michel. Doença… op. cit, p. 51.

[90] FOUCAULT, Michel. A História da… op. cit, p. 124.

[91] COOPER, David. op. cit, p. 33.

[92] A idéia de encaixamento denota um plano de ‘cerceamento da liberdade’, grosso modo, simplesmente normalidade.

[93] Idem, ibidem, p. 51.

[94] Idem, ibidem, p. 51.

[95] Mais no subitem seguinte. Por enquanto, basta dizer que esse ser unidimensional naturaliza os condicionantes da sua existência como “normalidade”.

[96] LAING, Ronald Donald. op. cit, p. 24.

[97] Confira um pouco da ironia refinada de Laing: “A sociedade tem o homem normal em grande estima. Ensina as crianças a perderem-se, a tornarem-se absurdas, isto é, a serem normais (para a sociedade). De há cinqüenta anos a esta parte, os homens normais mataram cerca de cem milhões dos seus semelhantes, igualmente normais.” – Cf. Idem, ibidem, p. 26.

[98] COOPER, David. op. cit, p. 52.

[99] PELBART, Peter Pál. op. cit, p. 181.

[100] Idem, ibidem, p. 173.

[101] Idem, ibidem, p. 177.

[102] ESSLIN, Martin. op. cit, p. 42.

[103] PELBART, Peter Pál. op.cit, p. 178.

[104] Idem, ibidem, p. 179.

[105] MARCUSE, Herbert. A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 14.

[106] MARCUSE, Herbert. op. cit, p. 49.

[107] PELBART, Peter Pál. op. cit, p. 215.

[108] COOPER, David. op. cit, p. 36.

[109] ARTAUD, Antonin. Escritos… op. cit, p. 35.

[110] ARTAUD, Antonin apud ESSLIN, Martin. op. cit, p. 72.

[111] ARTAUD, Antonin. Escritos… op. cit, p. 63.

[112]A crueldade não é acrescentada a meu pensamento. Ela sempre viveu nele, mas me faltava tomar consciência. Eu emprego o nome de crueldade no sentido cósmico de rigor, de necessidade implacável, no sentido gnóstico de turbilhão de vida que devora as trevas, no sentido dessa dor de necessidade implacável fora da qual a vida não saberia se exercitar. O bem é desejado, ele é resultado de um ato, o mal é permanente.” ARTAUD, Antonin. Linguagem e vida. São Paulo: Ed. Perspectiva, p. 103.

[113] Daí seu conceito de “alienação autentica” para designar aqueles tidos como loucos a exemplo de Van Gogh.

[114] Coelho foi professor na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

[115] COELHO, José Teixeira. op. cit, p. 83.

[116] ARTAUD, Antonin. “Para pôr fim ao julgamento de Deus” In: Escritos… op. cit, p. 41.

[117] COELHO, José Teixeira. op. cit, p 84.

[118] “Desde o ventre de que nascemos à caixa da família, da qual progredimos para dentro da caixa da escola. Quando saímos da caixa da escola, já nos tornamos tão condicionados a viver numa caixa, que, daí em diante, erigimos nossa própria caixa, uma prisão, um receptáculo em nossa volta… até que, finalmente, com alívio, somos introduzidos no caixão ou no forno crematório.” Cf. COOPER, David. Op.cit, p. 35.

[119] ARTAUD, Antonin. “Para pôr fim ao julgamento de Deus” In: Escritos… op. cit, p. 42.

[120] Idem, ibidem.

[121] Idem, ibidem.

[122] ESSLIN, Martin. op. cit, p. 42.

[123] Depressão não como patologia, mas como um sentimento de solidão profunda.

[124] Artaud foi aconselhado a usar algumas drogas para aliviar as freqüentes dores de cabeça que sentia. Cocaína e ópio, majoritariamente.

[125] É importante ressaltar suas dificuldades financeiras. Em uma sociedade movida pela troca do dinheiro, não possuí-lo, é, por exemplo, ser privado de freqüentar a Champs-Elyssez.

[126] ESSLIN, Martin. op. cit, p. 42.

[127] Idem, ibidem, p. 42.

[128] COELHO, José Teixeira. op. cit, p. 83.

[129] MARCUSE, Herbert. op. cit, p. 26.

[130] ARTAUD, Antonin. Escritos… op. cit, p. 71.

[131] Perdida, suicidada.

[132] Como Antonin Nalpas (sobrenome da mãe) apontou mais tarde, esse Artaud Cristo.

[133] COELHO, José Teixeira. op. cit, p. 30.

[134] Valho-me da palavra italiana por sua complexidade. Grosseiramente falando, vingar-se é um estado de vigília eterna.

[135] Que está além da tipificação penal.

[136] ARTAUD, Antonin. Carta aos poderes. Porto Alegre: Editorial Villa Martha, p. 9.

[137] Idem, ibidem, p. 21.

[138] Artaud acusa o homem normal de fundamentalismo. Esse homem não aceita ter sua condição desafiada. Foi assim com Sócrates, depois Jesus, São Francisco, Copérnico, Galileu, Hordelin, Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval, Van Gogh, Artaud, entre outros.

[139] ARTAUD, Antonin. “Segurança Pública” In: Escritos… op. cit, p. 48.

[140] Publicado em setembro de 1947, Van Gogh, le suicitè de la societè recebeu o um importante prêmio literário francês apenas alguns meses antes de Artaud ser encontrado morto em seu quarto agarrado a um sapato.

[141] ARTAUD, Antonin. Van Gogh… op. cit, p. 29.

[142] Idem, ibidem, p. 27.

[143] Idem, ibidem, p. 53.

[144] Idem, ibidem, p. 55.

[145] Idem, ibidem, p. 32.

[146] PEREIRA, João Augusto Freyze. op. cit, p. 102.

[147] ARTAUD, Antonin. Van Gogh… op. cit. p. 53.

[148] ARTAUD, Antonin. Van Gogh… op. cit, p. 39.

[149] Idem, ibidem, p. 74-75.

[150] ARTAUD, Antonin. “Segurança Pública” In: Escritos… op. cit, p. 47.

[151] PEREIRA, João Augusto Freyze. op. cit, p. 102.

[152] ARTAUD, Antonin. Heliogábalo o el anarquista coroado. Librodot, p. 39.

[153] Recordo Artaud, francês de descendência grega.

[154] FOUCAULT, Michel. A História da… op. cit, p. 101-102.

[155] ARTAUD, Antonin. Heliogábalo… op. cit, p. 40.

[156] Ver as cartas de Artaud a Jacques Rivière.

[157] ARTAUD, Antonin. Linguagem… op cit, p. 37.

[158] FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p. 8-9.

[159] Idem, ibidem, p. 9.

[160] ARTAUD, Antonin. “O suicídio é uma solução?” In: Escritos… op. cit, p. 46.

[161] “A punição não terá por finalidade punir um sujeito de direito que terá voluntariamente infringido a lei; ela terá o papel de diminuir, na medida do possível, o risco de criminalidade representado pelo individuo em questão.” FOUCAULT, Michel. “A evolução da noção do individuo perigoso na Psiquiatria legal do século XIX” In: Ética, sexualidade, política. Manoel Barros da Motta (Org). Ditos e Escritos. Vol. V, 2ª Ed, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p. 22.

[162] Idem, ibidem, p. 22.

[163] Idem, ibidem, p. 23.

[164] Junção do “monstro humano”, o “individuo a ser corrigido” e a “criança masturbadora” – Cf. FOUCAULT Michel. Los Anormales. 4 ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007.

[165] Sarcasmo.

[166] FOUCAULT, Michel. Ética… op. cit, p. 27-28.

[167] Com a voz do louco silenciada pela “doença”, a sociedade torna-se onipotente sobre esses homens e a loucura passa a ser crime no tribunal de Deus.

[168] Foucault expressou seu temor na possibilidade de a sociedade vier a “autorizar o direito a intervir sobre os indivíduos em função do que eles são.” Cf. Ética… op. cit, p. 28. Mas tal sociedade já existe, Foucault mesmo a documentou e há inúmeras provas de suas arbitrariedades. Artaud é uma delas, condenado arbitrariamente. A história pode absolver Artaud, mas quem pode condenar a suicidade da sociedade? Quem pode pôr fim ao julgamento de Deus?

REFERÊNCIAS

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AGRADECIMENTOS

A todos que me aturaram, que me deram palmadas nas costas, aquelas palavrinhas de incentivo e até mesmo os olhares de desprezo. Tudo isso me fez chegar aqui. Agradeço em especial à Dona Glaucia, minha mãe, uma mulher que continua guerreira, mas bem diferente daquela que encontrei 20 anos atrás. E também ao meu orientador Daniel, sem o qual não teria visto porque continuar na Academia.

Hesitei em fazer esses agradecimentos e é por isso que nele não me alongo, pois fico pensando: do que agradeço? Afinal, estas linhas foram escritas ao custo do sofrimento de Artaud, foi pela sua desgraça que atravessamos o Rubicão e chegamos até aqui, parece-me absurdamente egoísta e hipócrita agradecer sobre seus gritos. Mas como é à memória de Artaud que este trabalho dedica-se, peço que perdoe minha cretinice.