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Quando David Fincher lançou o clássico “Clube da luta” em 1999, plateias do mundo inteiro ficaram chocadas. Nunca, até ali (e ainda hoje, não?), um filme hollywoodiano tinha sido tão subversivo ao capitalismo. Até a ameba mais unicelular sacou que os socos trocados no filme eram uma espécie de busca pelo sentido da vida (“sentir” a vida). E essa é só a mais básica das constatações.

Raymond k. Hessle

Sim, senhor

Você foi pra faculdade, Raymond?

Sim, senhor

E o que diabos você está fazendo trabalhando numa loja de merda dessas?

Eu… eu tive que largar a faculdade, senhor! Tive que largar para trabalhar!

E você fazia que curso?

Ah… biologia, senhor.

OK. Então escute bem, Raymond, porque eu só vou dizer uma vez. Você não é o seu emprego. Você não é quanto dinheiro você tem no banco. Você não é o carro que você dirige. Você não é o conteúdo da sua carteira. Você não é as calças cáqui que veste. Você não é um caixa de loja. Você é toda merda ambulante do mundo. Amanhã Raymond, você não voltará para cá, você irá terminar seu curso de biologia. Se você voltar a essa loja mais uma vez na sua vida, eu juro que vou encher o seu cu de balas, você ouviu bem, Raymond?

Sim, senhor.

Então vá! Vá Forrest, vá!

Amanhã será o dia mais bonito da vida de Raymond K. Hessle. Seu café da manhã terá um gosto melhor do que qualquer outra refeição que você e eu jamais tivemos

Nos créditos finais ficamos sabendo que o filme é baseado num romance de mesmo nome, de um tal de Chuck Palahniuk. Da noite para o dia, um pacato jornalista de Washington se torna uma celebridade.

Inspire. Inspire fundo. Esta estória deve levar o tempo que você consegue segurar sua respiração e um pouco mais...

Não por coincidência, em Sobrevivente, o seu livro seguinte a Clube da Luta, o personagem principal Tender Branson também se torna uma celebridade instantânea. Essa transformação acontece tão bruscamente que é preciso voltar algumas páginas pra ter certeza de que não deixamos escapar nada. Chuck revela os tão cobiçados segredos das celebridades para se menterem sempre tão bonitos, magros e jovens. Tudo é uma farsa dolorosa. Para ser uma celebridade Tender precisa ser mais alto, então toma hormonios para crescer, o que exige uma série de medicamentos para conter os efeitos colaterais, como a perda de cabelo. Mas ficar careca não tem problema, se seu cabelo é ruim mesmo. Você não come, você assobia. Você não mastiga, você aspira. Sujeitos as mais terríveis tecnicas estéticas, quando Tender Branson sobe ao palco para falar ao seu público cativo, ele é tudo, menos o velho Tender.

Na trama uma comunidade religiosa radical tem como habito enviar seus filhos para trabalhar fora para que esses enviem seu dinheiro e sustentem a comunidade, para isso eles recebem treinamento militar de como cuidar de uma casa, aprendem tudo de etiqueta y outras cositas más.

É quando acontece um suicídio em massa na comunidade, os membros que estão do lado de fora são instruídos a cometer suicídio também, os que não o fazem são chamados de sobreviventes. A história é contada sob o ponto de vista de um desses sobreviventes, Tender Branson. O livro todo é uma gravação dele. O que nós estamos lendo são registros da caixa preta do voo 2039, que caiu em algum lugar da Austrália.

A história de Tender é recheada de acontecimentos absurdos, mas esse Tender Branson, dos personagens de Chuck, é o menos perturbado. Veja bem, Tender é um cara bem normal, se você não souber de antemão que ele pertencia a uma religião de fanáticos que se mataram todos. É sério, digamos que você cruzasse com ele na rua, talvez desse uma segunda olhada por conta das grossas costeletas, mas nada mais. Tender não se veste como os outros sobreviventes e não gosta de falar neles. Há uma passagem muito interessante do livro quando ele está em um ônibus que um cara fica fazendo piada dos fiéis da Igreja do Credo, Tender ri bem alto, estaria tentando disfarçar seu desconforto ou temia ser reconhecido? No fim dessa cena, quando o cara das piadas levanta:

Sem nem mesmo pensar, digo o nome dele.

Adam. Adam Branson.

O piadista diz: “Eu te conheço de algum lugar?”

E eu digo, não.

A fila avança alguns passos, levando-o para mais longe, e ele diz: “Nós não crescemos
juntos?”

E eu digo, não.

De pé, à porta do ônibus, ele grita: “Você não é meu irmão?”

E eu grito, não.

E ele se vai.

Lucas, capítulo 22, versículo 34: 

“… três vezes tu negarás que me conheces.”

Acho que podemos afirmar com uma certa margem de certeza que Tender tinha deixado seu passado de fiel da Igreja do Credo para trás. Como se sua religião tivesse sido enterrada junto deles.

Mas é aí que as certezas acabam. Se no Clube da Luta tudo é muito bem resolvido no ato final. Em Sobrevivente quase tudo se constitui numa interrogação.

Vamos lá:

1. Adam Branson

Adam é o nome dado ao primogênito da família. Adam será aquele que continuará na comunidade. Irá ter muitos filhos e um dia se tornará ancião. Tender é o nome dado a todo o resto (para as meninas também é assim, só que com Author e Biddy). O caso particular do nosso Tender  é que ele nasceu só uns segundos depois do seu irmão, eram gêmeos. A assistente social que cuida do caso de Tender, pergunta a ele se ele não sente raiva, rancor, algum ressentimento por ter sido injustiçado. Tender explica que não via como injustiça, mas como as coisas eram, nada mais.

E aqui há um link com o Clube da Luta, quando Tyler diz:

Você passa a vida toda represando. Você represa o ódio pelo seu pai sacana. O ódio pelos colegas mais fortes da escola. O ódio pela aquela garota que te desprezou. Do seu chefe, da sua mulher, dos seus filhos. Mas um dia a represa arrebenta e a merda toda sai rolando, cagando tudo por onde passa.

Será que Adam Brenson é a represa arrebentada de Tender, assim como era Tyler Durden?

Na cultura do Credo, seu nome mostrava a todos a quem você pertencia. Tender ou Biddy. Adam ou Author. Ou Elder.  Seu nome determinava como seria sua vida. Se você fosse uma Biddy, podia sonhar que um dia isso (tornar-se uma Author) poderia acontecer com você. Se você fosse um Tender, você não sonhava.

Acho que Chuck tenta nos confundir justamente porque sabia que para os leitores do Clube da Luta seria fácil fazer esse tipo de comparação. Então ele mistura personagens reais com representações do protagonista. Existiu um Adam Tender, mas ele morreu. Então Adam é aquilo do qual Tender foi privado. Era o irmão que lhe contava do mundo maldito “lá fora”. O irmão era o perfeito idiota, pois nada do que contava era verdade. Mas o irmão também era a lembrança amarga (e represada) de que ele devia ter cometido suicídio. O irmão personifica o Tender da Igreja do Credo, o Tender que obedecia cegamente as ordens dos anciões, o Tender que era o aluno mais aplicado das aulas. Seria Adam uma representação distorcida de Tender, um Tender muito puto com a idiotice do mundo?

Tender logo no inicio do livro diz que não é um assassino,  o avião que ele sequestrou vai cair, mas ele já deixou todos os passageiros em um aeroporto a caminho da Austrália.

Mas esse mesmo Tender é o Tender que atendia os telefonemas de pessoas pedindo por ajuda e ele dizia: se mate.

O que eu acho? Acho que Adam Tender ligava para os outros sobreviventes e dizia para eles se matarem.

A assistente social de Tender lhe diz que suspeita que exista uma pessoa assassinando os sobreviventes “só que ele faz de uma maneira que pareça ser suicídio, sabe. Você não precisa de muitos na verdade, quando um ou dois morrem, aí acontece um efeito cascata e os sobreviventes acham que chegou a hora e começam a se matar”

E por que Adam (o verdadeiro, se é que existe), mataria a assistente social? A sua “missão” não é com os sobreviventes? Acho que é porque a assistente incomodava Tender, ela era uma pessoa muito próxima a ele, quase uma amiga (o que já era desconfortável), sabia de muita coisa que poderia incriminá-lo e, acima de tudo, ela parecia uma daquelas pessoas que ligavam para Tender pedindo conselhos. No fim, é como se Adam Tender tivesse feito um favor a assistente social.

2. Fértil

Certo dia Tender recebe a ligação de um cara que diz não suportar mais sua vida, pois sabe tudo o que vai acontecer e está de saco cheio disso. Ele pede a opnião de Tender. Sua resposta? “Se mate”

Então, Tender confere o obituário no jornal e descobre onde foi enterrado mais um suicidado seu. No cemitério ele encontra Fértil, a irmã do cara que ele aconselhou a se suicidar. Essa personagem é mais complicada que Adam, pois é quase certo deduzir que o verdadeiro Adam (se é que ele existiu, falarei disso mais tarde) já está morto. No caso de Fértil, parece que ela existe mesmo. E de fato, podemos fazer alguns recortes na história, onde podemos identificar pelo menos duas “Fértil”. Uma doce e gentil moça e uma outra devassa e meio malvada. Tender descreve o encontro com a Fértil que ele encontrou no cemitério como muito agradável onde eles passearam e conversaram por mais de uma hora. Mas no dia seguinte, dentre os vários conselhos de “se mate”, ele reconhece estar falando com Fértil.  Segue o diálogo:

Há muitas boas razões para viver, digo a ela, e espero que ela não peça uma lista. Pergunto se não há ninguém que também esteja sofrendo com a morte do irmão dela. Talvez um velho amigo do irmão que possa apoiá-la nessa tragédia.

“Na verdade, não.”

Pergunto se ninguém mais vai ao túmulo do irmão dela.

“Não.”

Pergunto, ninguém? Ninguém mais coloca flores no caixão? Nem mesmo um amigo?

“Não.”

Ficou claro que deixei uma boa impressão.

“Não”, ela diz. “Espere. Tem um cara meio estranho.”

Ótimo. Eu sou estranho. Pergunto, como assim, estranho?

“Lembra daquelas pessoas, daquele culto, que se mataram todas?”, ela comenta. “Faz uns sete, oito anos. A cidade inteira, eles foram para a igreja e beberam veneno, e o FBI encontrou todos de mãos dadas, no chão, mortos. Esse cara me fez lembrar deles. Nem tanto pela roupa ridícula, mas pelo cabelo, que era como se ele mesmo tivesse cortado de olhos fechados.”

Foi há dez anos, e só tenho vontade de desligar.

2 Crônicas, capítulo 21, versículo 19: 

“… saíram-lhe as entranhas…”

“Alô,” ela diz. “Você ainda está aí?”

Estou, respondo. Algo mais?

“Nada mais” ela diz. “Ele só estava na catacumba do meu irmão com um ramalhete de

flores.”

Veja, eu digo a ela. É de uma pessoa bondosa assim que precisa procurar nesta crise.

“Acho que não”, ela retruca.

Pergunto se é casada.

“Não.”

Está saindo com alguém?

“Não.”

Então conheça melhor esse cara, digo a ela. Deixe que a perda que vocês dois sofreram os una. Isso poderia ser um novo romance para ela.

“Acho que não”, ela diz. “Para começar, você não viu esse cara. Puxa, sempre me perguntei se meu irmão era homossexual, e esse cara esquisito com flores na mão só confirma minhas suspeitas. Além disso, ele não era lá muito atraente.”

Lamentações, capítulo 2, versículo 11:

“… turbada está a minha alma, o meu coração se derramou de angústia…”

Eu digo, talvez se ele fizer um novo corte de cabelo, você poderia ajudá-lo. Dar um banho de loja nele.

“Acho que não”, ela fala. “Esse cara é feio demais. Ele tem um cabelo horroroso, com costeletas que chegam quase até a boca. Não é como os caras que usam barba para esconder um queixo duplo ou porque não têm as maçãs do rosto. Esse cara não tem nada que se salve. E ainda por cima é bicha.”

Essa que fala ao telefone com Tender, acredito eu, é a Fértil Tender, uma representação da sua sexualidade reprimida (os tender são virgens). Os fiéis da Igreja do Credo não podem se importar com coisas tão desprezíveis quanto a beleza. Mas fica evidente ao longo do livro que Tender quer ser mais bonito e acredito que as criticas da Fertil Tender sejam suas próprias criticas reprimidas, assim como o desejo sexual dela, algo que jamais é mencionado quando ele se encontra com Fértil Hollis (a verdadeira).

É bastante improvável que esses personagens sejam reais o tempo todo. Adam com certeza aparece e desaparece ao sabor do autor. Já Fértil parece ser real em alguns encontros com Tender, mas acho que aquela Fértil que fala com ele no telefone e a que lhe faz previsões do futuro no final, não são reais. Tomemos o encontro no banheiro. Tender está sentado em uma privada afoito, totalmente confuso e solitário. Aí surge em cada lado do box, as respectivas figuras de Fértil e Adam. Ali, os dois combinam seu plano com Tender. Não é absolutamente irreal essa cena? Não era Adam que queria matá-lo? Fértil não tinha lhe dito que não faria mais  previsões pra ele?

OK. Mas por que diabos alguém produz duas outras personalidades? Chuck já disse que todos seus personagens são vítimas da solidão. A dupla ou tripla personalidade pode ser uma forma de lidar com o desespero da solidão. Há também o problema do sentido da vida que o capitalismo não consegue responder pela sua produção mecânica de sociedade. Você limpa, recolhe, lava. Você levanta, toma café, dá aula, deita e dorme. É incrível quando você percebe que seus melhores momentos de lazer são perdidos pela raiva de estar preso num engarrafamento ou esperando pelo ônibus ou ainda inquieto na cama, insone. São horas preciosas em que você pode relaxar. Não há nada pra se fazer, só relaxar. Mas você não relaxa, porque o relógio trabalha contra você, quando é você que se recusa a atirar o relógio na lixeira, pois por mais que vc confira as horas a cada minuto, o engarrafamento não se dissolverá, nem o ônibus nem insônia passarão. É você que está atrasado e não o relógio. Então você fica estressado no seu único momento livre, nesse limbo que existe entre a casa e o trabalho. Você dirá que é mentira, pois nós temos o fim de semana para relaxar. Mas você dorme de cansaço, que na maioria das vezes nem é cansaço físico, é cansaço mental, de uma vida angustiante, sem sentido. Você acha que estou sendo muito pessimista? Então você olha ao redor, agora. Se as pessoas não estiverem dormindo, estarão no trabalho. E dormir não é só deitar na cama, é se esticar no sofá e assistir a um programa ruim na televisão, é ir para um bar e encher a cara a tal ponto que no outro dia você olha pro espelho depois de escovar os dentes, com a cabeça latejando e se pergunta: cara, por que eu bebi tanto? E você vai represando essas coisas. Um insulto no trabalho, um calcanhar ferido, uma pessoa mal educada que lhe serve um café azedo que você toma por educação e por educação você não rebate aquele insulto do trabalho e você fica tão acostumado a aceitar as coisas como ela são (Tender Branson) que aceita a ferida no calcanhar como uma punição, um castigo sabe-se lá do quê assim como as bebedeiras do fim de semana.

Como eu disse anteriormente, o mais impressionante de tudo é que Tender Branson é um cara  comum, muito comum. Ao contrário do que Fértil Tender lhe diz, o Tender verdadeiro não corta o cabelo como um fiel desde que deixou o Credo. É verdade que é ele mesmo quem corta seu cabelo, mas ele é muito mais cuidadoso no corte do que fora seu irmão Adam. Ele também não usa as roupas tradicionais dos fiéis (imagino se chegou a usar mesmo antes do suicidio coletivo). Com uma costeleta à la Ramon Barroncas, no máximo Tender renderia uma segunda olhada se vc cruzasse com ele na rua, não mais que isso. Existem Tender Bransons por toda parte, limpando sua casa, servindo o café naquela lanchonete, o cobrador do 110. Eles estão lá, todos os dias. Você desconhece que eles façam parte de um culto fundamentalista, mesmo quando todos nós fazemos parte de um. E no dia em que ele se levantar e descarregar o tambor do 38 que ele tinha escondido no armário da cozinha em quem estiver ao seu redor, você verá no jornal na manhã seguinte que esse Tender tinha o estranho costume de rezar o tempo todo, então tudo estará bem e você poderá dormir tranquilo. Era só um louco, o mundo continua normal como sempre foi. Se assim como a assistente social você tentar compreender Tender pelo que ele foi e não pelo que ele é, então você também não entenderá porque ele sequestrou o avião, uma inversão de reflexão muito instigante, porque desde o inicio nós sabemos que Tender fez isso, mas até chegar lá, você estará tão perdido quanto ele.

Estamos na meia infância da história. Sem propósito ou lugar. Não temos uma grande guerra, nem uma grande depressão. Nossa grande guerra é espiritual. Nossa grande depressão é nossas vidas

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

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Projeto de Monografia

A hipótese sustentada pelo projeto pretende desconstruir a autoridade médica sobre o louco tratando-o como um problema social [1]. Por meio da vida e obra de Antonin Artaud (1937-46), questionaremos a noção de doença mental e, inclusive, o próprio conceito de loucura ao identificar e problematizar seus determinantes sociais [2]. E, concomitante, pela análise da relação louco/sociedade, estudaremos uma pseudo-periculosidade manifesta pela loucura. Por que a sociedade isola o louco? A sociedade teme o louco? Seria todo louco potencialmente violento ou seu isolamento justifica-se pelo tratamento? Afinal, que tipo de perigo o louco representa?

O projeto irá trabalhar basicamente com as obras surrealistas de Artaud, artista francês que passou boa parte da vida internado em manicômios, em especial àquelas que faziam oposição à psiquiatria como o livro Van Gogh, o suicidado pela sociedade. Nesse livro, de título sugestivo (le suicidé de la société), Artaud resgata a memória do famoso pintor, para quem era “um pobre ignorante concentrado a não se enganar”, acusando a sociedade de provocar sua morte.

[Van Gogh] não se suicidou num gesto de loucura,

no transe de não consegui-lo, mas, pelo contrário, acabara de consegui-lo e de descobrir o que ele era e quem ele era,

quando a consciência geral da sociedade, para puni-lo por ter se desvencilhado dela,

o suicidou. (ARTAUD: 1974, 40)

Para Artaud, Van Gogh transcendia aquilo de que a maioria dos poetas são reféns (Artaud era poeta e roteirista de teatro), sua pintura não se deixava sufocar pelo quadro, tal qual comumente acontecia às letras. Não, suas obras eram uma inquietação do banal, subvertendo o cotidiano em sua calmaria, “bombas atômicas, cujo ângulo de visão, ao lado de todas as outras pinturas polêmicas à época, foi capaz de abalar gravemente o conformismo”. Ele encontra em Van Gogh, não somente um artista admirável, mas um ‘sintoma’ da dor, ele que também esteve internado em vários manicômios, ambos vítimas de “uma sociedade deteriorada [que] inventou a psiquiatria para se defender das indagações de certas mentes superiores, cuja capacidade de adivinhar a incomodava.” Mas Van Gogh, acima de tudo, que não se deixou oprimir pela violência dessa sociedade que, acomodada ao normal apega-se a tradição, chama de louco o novo, o abstrato, a reinvenção, a crítica, “com o propósito de lançar ao descrédito certas revelações capitais”.

1.            Loucura, sociedade e perigo

"A Nau dos Loucos"

A experiência clássica da loucura nasce. A grande ameaça surgida no horizonte do século XV se atenua, os poderes inquietantes que habitavam a pintura de Bosch [3] perderam sua violência. Algumas formas subsistem agora transparentes e dóceis, formando um cortejo, o inevitável cortejo da razão. A loucura deixou de ser, nos confins do mundo, do homem e da morte, uma figura escatológica [..] Esse mundo do começo do século XVII é estranhamente hospitaleiro para com a loucura (FOUCAULT: 1972, p 48) 

No inicio do período renascentista, a loucura teve a existência extremamente implicada com a razão, de tal modo que podia ser até uma forma da razão se manifestar. Para muitos renascentistas, a loucura era a “força viva e secreta da razão” (idem, p. 31) Foucault estranha essa constatação obviamente pelo contraste com a realidade, já que a Idade Clássica acabou por conferir aos loucos o lugar de segregação que durante a Idade Média fora reservado aos leprosos.

A loucura, cujas vozes a Renascença acaba de libertar, cuja violência porém ela já dominou, vai ser reduzida ao silêncio pela era clássica através de um estranho golpe de força (idem, 49).

Descartes, através da sua dúvida metódica, mostra a razão pura como meio de se chegar à ‘verdade’, alocando a loucura ao lado do sonho e de todas as formas de erro. Para ele, um ser que cogita (pensa) não pode estar louco. Para que se agisse efetivamente em relação a este elemento estranho à sociedade e agora também à razão, seria necessário identificá-lo. Mediante a observação do seu comportamento junto aos outros, a identificação do estranho se deu na qualidade de um desvio social [4]. Foucault chama o período em que se decidiu confinar e apartar aqueles que eram considerados desviantes de a ‘Grande Internação do século XVI’. Os espaços físicos, sociais e ideológicos que os leprosos ocupavam foram gradativamente preenchidos pelos mais variados tipos marginais “uma mesma pátria aos pobres, aos desempregados, aos correcionários e aos insanos” (idem, p. 50). Assim, realizou-se uma verdadeira ‘limpeza’ urbana, com o intuito de preservar as cidades  dos que maculavam a ordem pública.

O cenário muda quando nos fins do século XVIII, inspirados por ideais iluministas [5], crescem os protestos e denúncias contra as internações arbitrárias dos loucos. Questionam-se as práticas de confinamento indistinto dos loucos juntos a outros marginalizados e as torturas que lhes eram infringidas. Começava a construção de uma nova abordagem, com a criação de asilos especificamente destinados aos loucos, que já não eram mais mantidos acorrentados. Tratava-se da chamada Primeira Revolução Psiquiátrica, liderada pelo médico francês Philippe Pinel [6]. Esse movimento criou uma distinção entre os loucos e os infratores comuns, passou-se a acreditar que a loucura era algum mal, uma espécie de doença que impedia os homens de raciocinar corretamente. A ciência transformou a loucura numa patologia, revestindo-a de lepra. O louco então passou a ser um paciente e a loucura um caso de tratamento. Como veremos adiante, isolado e vítima de terríveis métodos de tratamento, fica difícil crer que no inicio das reformas tentou-se humanizar o louco.

Em Leviatã, Thomas Hobbes, na procura de um significado para a existência das sociedades, elaborou o conceito de ‘contrato social’. Nesse contrato, o cidadão aceita obedecer às regras da sociedade e, em contrapartida, o Estado se compromete a zelar pela ordem, ou seja, garantir que cada um vai cumprir com sua palavra. Uma vez que a relação baseia-se no cumprimento das normas sociais, a normalidade como forma de interação social passa a ser garantia da manutenção da ordem. Assim, se inserirmos um sujeito que não compartilha dessas prerrogativas naturalizadas como normais, então aí, teremos um perigo para a sociedade [7]. Enquanto um crime é a infração direta da ordem (em sua esfera institucional), a loucura, por seu potencial subversivo da normalidade, corrompe o princípio de ordem [8].

Como analisa Foucault em seu ensaio A evolução da noção do individuo perigoso na Psiquiatria Legal do séc XIX, a metáfora do contrato social de Hobbes evoluiu ao longo do século XVIII para a compreensão de um ‘organismo social’, em que “o médico deve ser o técnico do corpo social”. Ele traça um paralelo entre essa ideia de sociedade saudável com a noção contemporânea de responsabilidade civil [9] para determinar o potencial de periculosidade do sujeito que será julgado não mais pelos seus atos, mas sobre aquilo que ele é, a sua natureza (p 24). A partir disso, Foucault faz os seguintes questionamentos: “Há indivíduos intrinsecamente perigosos? Como é possível reconhecê-los e como podemos reagir a sua presença?” Para este projeto, em essência, qualquer individuo pode ser potencialmente perigoso, por isso o perigo da loucura não está no louco em si, mas nas outras perguntas feitas por Foucault.

[…] o grande assassinato monstruoso, sem motivo nem antecedente, a irrupção súbita da contranatureza na natureza é então a forma singular e paradoxal sob a qual se apresenta a loucura criminal ou o crime patológico (p 26)

O paradoxo apontado por Foucault reside na sutil particularidade de que a loucura existe somente no ato do crime, o que a psiquiatria do séc. XIX chamou de monomania homicida. Um sujeito que não pode ser responsabilizado pelos seus atos, pois sua loucura não é consciente, nem controlável quando manifesta. Aí reside a “periculosidade” do individuo, pois seu crime é ininteligível, ou seja, impossível de ser previsto. A única forma de prevenção é o isolamento. Mas este sujeito não é um criminoso comum, ele é sobretudo louco, não pode ser punido por algo que independe a sua vontade. Não há nesse procedimento necessariamente a intenção de cura, de recuperar o louco e reintegrá-lo a sociedade, mas somente de preservação social. Foucault estranha esse entendimento, pois o que a reforma psiquiátrica do séc. XVIII despendeu grande esforço em separar, a Psiquiatria Criminal tratou de atar novamente: a figura do louco a do infrator. Soma-se o papel do Estado como zelador da ordem, a questão do direito civil e o problema da saúde pública para determinar o potencial risco de um individuo à sociedade, em que o louco é a figura estranha a própria lógica do sistema. Afinal, o ato determina a loucura do crime e não o contrário, pois até a execução do delito o “louco” não era identificável. Se para uma questão criminal não há como fazer a ligação entre ato e autor, como explicar essa sanha moral sobre a loucura no século XX?

2.            Poder, discurso e o lugar do louco

Para este projeto será considerado louco, todo aquele desvio social que for objeto de estranhamento. O excêntrico, o pirado, o frito, estranho será aquele que não agir de acordo, ser anormal perante o restante da sociedade. O trabalho somente irá tratar da manifestação social da loucura; seus desdobramentos pelo estranhamento tanto no plano coletivo quanto singular, isto é, ser estranho ao mundo e estranhar o mundo.

O conceito de estranhamento nos é precioso porque fornece uma ambiguidade da qual o louco é costumeiramente fiador, na medida em que tal estranhamento pode, ao mesmo tempo, ser reivindicado e imposto. O louco, em diversos casos, não é alguém que se reconhece louco, louca é a sociedade por encará-lo assim. Paradoxalmente, o sujeito ao ser chamado de louco, pode reclamar a loucura como atestado de sua lucidez “[…] num mundo onde se come todos os dias vagina cozida à la sauce vert ou sexo de recém-nascido espancado e colérico, tal como é colhido do sexo materno. E isto não é uma imagem, mas um fato abundante e cotidianamente repetido e observado em toda a terra” (ARTAUD: 1974, 27). A tragédia da loucura, a imposição de um lugar desprivilegiado no mundo, também é sua afirmação existencial. Negar a loucura, seria negar a singularidade, a casticidade da alienação autêntica. “E o que é um autêntico alienado? É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isso é socialmente entendido, a compuscar uma certa ideia superior da honra humana” (idem, 32).

A defesa dessa “ideia superior” mencionada por Artaud, surge da reivindicação de uma condição singular. “O que a história da loucura nos revela, pondo em questão toda a cultura ocidental moderna, é que o louco é excluído porque insiste no direito à singularidade e. portanto, à interioridade.” (PEREIRA: 1984, p.102). Quando reivindicado, o estranhamento pode romper com os padrões lógicos da linguagem, não limitar-se ao circunstante, não aceitar a realidade dada. Se para o louco não há cercas (para o pensar), se não aquelas colocadas por ele, perto dele não podemos ficar sem sentirmo-nos perturbados, como se sua cerca nos convidasse a pulá-la, desafiando a fronteira da sanidade. Ao questionar as cercas da normalidade, a loucura desnaturaliza a realidade, tornando tudo objeto de reflexão [10]. O que nos leva a inquirir: até que ponto a normalização das sociedades é capaz de cercear o pensar? Será que a similaridade dos comportamentos, das rotinas humanas, dos conhecimentos partilhados, pode banalizar a realidade a ponto de engessar o pensamento, de desqualificar o ‘eu humano’?

Van Gogh não morreu devido a uma condição delirante,

e sim por haver chegado a ser corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate, desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade,

o predomínio da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre um ou outro.

Onde está, nesse delírio, o lugar do eu humano? (ARTAUD: 1974, 39)

O estudo da loucura nos oferece um atrativo inédito justamente por ser a síntese da estranheza nesse mundo que aparenta estar em crescente padronização coletiva. Do café da manhã ao boa noite, da moda à opinião pública, a vida urbana provocou uma massificação intensa do cotidiano (que foi acelerada pelo fenômeno da globalização) [11]. E nisso, o desvio social é o ponto de inflexão, estranhando e estranhado. Quando acusa-se um desvio social de loucura, a coletividade taxa pejorativamente, ridiculariza, tenta-se deslegitimar um discurso, emudecê-lo se possível. A imposição do rótulo loucura desqualifica o estranhamento singular, escarnece a voz do outro de sentido e desestimula o diálogo, isolando-o, negando sua humanidade. Nesse extremo, seja como doente ou infrator, o louco se torna um rejeitado, assumindo por completo seu peculiar papel transgressor, deixando de lado a caricatura. O louco encarna o suicida.

Não foi para este mundo,

não foi para esta terra que nós todos sempre trabalhamos, lutamos, gritamos de horror, de fome, de miséria, de ódio, de escândalo e de nojo,

que fomos todos envenenados, ainda que tenhamos sido todos por ela enfeitiçados,

e que nos tenhamos enfim suicidado, uma vez que não somos todos, como o pobre Van Gogh,

suicidados pela sociedade! (idem, 75)

Há nessa relação louco/sociedade um jogo de forças, no qual o discurso do louco está em franca inferioridade. O poder no discurso foucaultiano pode ser considerado como o modo de pensar e agir do sujeito perante a sociedade em que vive, mas também pode ser entendido, em um âmbito mais abrangente, como o sistema que garante a “circulação” das relações de poder nesta sociedade, criando verdades e determinando o pensamento dos indivíduos, uma vez que o poder não está concentrado nas instituições (embora este exerça um grande poder), mas na hegemonia de um discurso ideológico, na força que tem sobre os demais.

O poder emana da sociedade que sustenta o discurso. Foucault diz em outro ensaio intitulado de A ordem do discurso que “em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, disfarçar a sua pesada e temível materialidade” (1971, 2). As produções discursivas são constantemente vigiadas e cerceadas, de modo a lhes expurgarem o que possuem de perigoso, que possa ser danoso às estruturas do poder, garantindo-se, desta forma, como o único discurso legítimo e evitando uma possível perda de forças.

Há em nossa sociedade outro princípio de exclusão: não já um interdito, mas uma partilha e uma rejeição (grifo meu). Penso na oposição da razão e da loucura. Desde os arcanos da Idade Média que o louco é aquele cujo discurso não pode transmitir-se como o dos outros. (idem)

Desta forma, podemos entender o processo da segregação do louco como uma forma de proteger as bases das estruturas de poder, excluindo o discurso destoante, que pode ser considerado perigoso. Assim, o discurso “louco” é todo aquele que se encontra numa posição contrária à corrente do pensamento coletivo. É aquele que não aceitou a vontade de verdade imposta pelo poder e que pode tentar lutar com as verdades da sociedade de sua época.

Mas o recorte espaço-temporal pelo qual iremos problematizar a vida de Artaud (e, ato contínuo, a de Van Gogh) compõe mero pretexto para uma análise social mais abrangente, em que estudos do movimento que ficou conhecido como antipsiquiatria nos ajudarão a compreender melhor o espaço da loucura [12]. O Dr Thomaz Szasz, psiquiatra e professor na State University of New York, um dos expoentes do movimento, critica a confusão que a psiquiatria tradicional faz entre comportamento e mente “é por isso que os psiquiatras frequentemente chamam um transtorno mental de transtorno comportamental. Mas o comportamento não é uma doença, não pode ser uma doença, apenas o corpo pode ter uma doença” [13]. Em seu livro O Mito da Doença Mental, ele argumenta que o termo ‘doença mental’ é por principio incoerente ao combinar um conceito médico e um conceito psicológico, mas que é popular porque legitima o uso da força psiquiátrica para controlar e limitar desvios sociais. Para essa questão, faremos uso das principais teorias da psicologia do desenvolvimento cognitivo [14] para montar um mosaico da evolução do pensamento ocidental, à construção de uma identidade normativa. Isto nos ajudará a pensar historicamente o lugar de Artaud e refletir sobre nossa constituição sócio-cultural, concentrando-nos em identificar os mecanismos de repressão social da singularidade e do discurso.

Nessa configuração, Antonin Artaud é a peça desconexa do quebra-cabeça social. Uma peça curiosa, que não apresenta deformidade visível. Estudá-la, acredito, pode nos levar a compreender melhor o restante das peças sociais. Ausente, claro, da pretensão de encaixá-las, pois um dos pressupostos deste projeto é que todas as arestas são redondas, sendo o louco a única peça que recusasse a parecer quadrada.

3.            Estruturação

 

Introdução – Uma breve história da loucura

Faremos um panorama da loucura em perspectiva histórica buscando personagens que tenham sido alvo de estranhamento desde a Idade Antiga à contemporaneidade.

Capitulo 1 – Artaud

a.       O que é ser normal?

 Apresentação de Antonin Artaud pela problematização do conceito de normalidade.

 b.     A sociedade ordenada

Análise da sociedade francesa vivida por Artaud no séc. XX: a ascensão dos princípios burgueses, os efeitos da industrialização e a consolidação da nova ordenança social.

Capítulo 2 – A doença de Artaud

 a.     Doença

Problemas da autoridade médica sobre a loucura; a relação de Artaud com o Dr. Fedière, responsável pelo seu caso em Rodez.

 b.     Um problema social?

Apresentação do livro de Artaud sobre Van Gogh e a compreensão da loucura como um problema social nos estudos de Thomaz Szass e Robert D. Laing

Capítulo 3 – O suicidado pela sociedade

 a.     As cercas

A repressão e a exposição da singularidade na vida e obra de Artaud e Van Gogh

 b.     O perigo social da loucura

Por que o louco é um individuo perigoso socialmente?

NOTAS:

[1] O psiquiatra Ronald D. Laing (1927-1989) advogou uma inteligibilidade social dos sintomas ditos psicóticos, procurando no contexto social as perturbações existenciais do paciente.

[2] Pressupõem-se determinantes sociais, o que não exclui a singularidade de cada ser.

[3]   A pintura de Bosch é uma sátira à sociedade medieval que fora tomada pela “loucura”.

[4] Entende-se por desvio social àquele ao qual se atribui a causa de um mal estar social devido a uma condição que lhe é inerente. Para este projeto será considerado um desvio social qualquer individuo marginalizado.

[5] “Um dos constantes esforços do século XVIII consistiu em ajustar a velha noção jurídica de sujeito de direito com a experiência contemporânea do homem social. Entre ambas, o pensamento político do Iluminismo postula ao mesmo tempo uma unidade fundamental e uma reconciliação sempre possível sobre todos os conflitos de fato. Estes temas conduziram silenciosamente à elaboração da noção de loucura e à organização das práticas que lhe dizem respeito” FOUCAULT, M. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 146.

[6] http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/2330/233016510014.pdf

[7] “Em suma, numa sociedade que tem horror ao diferente, que reprime a diversidade do real à uniformidade da ordem racional-cientifica, que funciona pelo princípio da equivalência abstrata entre seres que não têm denominador comum, a loucura é um ameaça sempre presente” PEREIRA, J. A. F. O que é loucura? São Paulo: Ed Brasiliense, 1984, p.102.

[8] Cf discurso no segundo tópico

[9] “A punição não terá por finalidade punir um sujeito de direito que terá voluntariamento infringido a lei; ela terá o papel de diminuir, na medida do possível, o risco de criminalidade representado pelo individuo em questão” (p 22).

[10] O modelo de pensamento proposto é inspirado naquele apresentado em A Vida do Espírito de Hannah Arendt.

[11] Herbert Marcuse, um dos grandes representantes da Escola de Frankfurt, define a sociedade industrial como “[…] uma forma de perpetuar as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes” MARCUSE, H. A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 57.

[12] Aqui faremos o caminho reverso: o desvio social representado pelo louco nos ajudará a compreender a sociedade.

[13] http://www.abc.net.au/rn/allinthemind/stories/2009/2530830.htm#transcript

[14] As teorias de Skinner, Piaget, Vygotski e Wallon que versam sobre comportamento, processo cognitivo, relações sócio-culturais e afetivas nos ajudarão a enxergar melhor as “cercas” do pensamento ocidental.

BIBLIOGRAFIA:


FOUCAULT, M. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978.

                          . A ordem do discurso. 7 ed. São Paulo: Loyola, 2001.

                          . Doença Mental e Psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.

                          . Ética, Sexualidade, Política: Ditos & Escritos. Organizado por Manoel Barros da Motta. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

MARCUSE, H. A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional. 4 ed. Rio de Janeiro: Zahar,  1999.

PELBERT, P. P. Da clausura do fora ao fora da clausura: Loucura e Desrazão. São Paulo: Brasiliense, 1989.

PEREIRA, J. A. F. O que é loucura? São Paulo: Brasiliense, 1984.

PIAGET, J. Seis Estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.

SZASZ, T. Ideologia e Doença Mental: Ensaios sobre a desumanização psiquiátrica do homem. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

No dia 15 de janeiro, Rogério foi trabalhar como fazia todas as segundas-feiras desde os 9 anos. Mas aquele era um dia diferente pra Rogério. Não que algo no mundo estivesse diferente, não, o galo cantara naquela manhã normalmente e sua mulher tinha preparado o café como sempre fizera. Era Rogério que estava diferente. Sua cabeça voava pelas calçadas estreitas, divagando a velocidade da luz. Milhões e milhões de pensamentos chocando-se uns nos outros, cada um provocando uma supernova de puro espanto e terror. Não que Rogério não gostasse de sonhar. Sonhava sempre, sempre que podia e quando não podia. A cabeça de Rogério era seu paraíso secreto. Lá, ele podia ser quem ele quisesse ser. Um ator famoso, um bom cantor, até um super-herói. Rogério não gostava de ser encaixotador. Não existia grandes encaixotadores no mundo. Encaixotar nunca será como compor uma bela música, nem escrever um best-seller. Para encaixotar não é preciso pensar. É só colocar, dobrar e lacrar. Colocar, dobrar e lacrar. Colocar, dobrar e lacrar. É como andar, uma vez em movimento, pode-se andar de olhos fechados. Rogério pensava em quão tola era sua vida. Acordar, trabalhar, comer, dormir, ir a Igreja aos domingos. A vida de Rogério era um verdadeiro processo de encaixotamento. Rogério estava sendo dobrado constantemente, e fechado, fechado para ser aberto e jogado no lixo. Rogério era uma caixa descartável. Todos os encaixotadores eram. Menos ainda, pois na caixa de Rogério não havia a frase “cuidado, frágil”. E Rogério era frágil. Sentia fragilidade todos os dias, antes mesmo dos 9 anos.  Por que alguns homens tinham que ser mais fortes que outros? Rogério fora criado rente ao cabresto. Homem não chora, homem não reclama. Ordem é pra ser cumprida, dizia o pai. Só de pensar na desgraça do pai, Rogério cerrava os dentes. O que aquele abestado sabia da vida afinal? Um covarde que se dobrou a vontade dos outros e fez o mesmo com os filhos e a mulher.

Bestando de novo Zézinho?? Assim não dá meu filho!

Rogério olhou a procura do pai, mas só viu o gerente da fábrica com sua camisa social branca bem passada de mangas dobradas. Tinha uma mão na cintura e um olhar impaciente e contrito, com raiva e pena de Rogério ao mesmo tempo.

Olha só Rogério, você é um ótimo funcionário, talvez o melhor dessa fábrica, juro. Mas encaixotar exige uma certa atenção, você opera uma máquina que pode cortar sua mão fora, entende? E se você corta um dedo hein meu filho? Como vai ser? Vai ficar encostado que nem aquele presidente safado?

Foi naquele instante que tudo aconteceu, todo o universo correu pelos sulcos de Rogério, penetrando e destruindo cada caudilho de certeza que construira até ali. Encaixotar era uma terapia, como num passeio ao zoológico, deixava Rogério livre para imaginar ser quem ele não era. E quem era Rogério? Pai? Marido? Um encaixotador? Rogério imaginava-se como um astro as vezes, formas diferentes de caixotes, mas caixas enfim. Tudo era uma grande caixa que encerrava outra caixa que encerrava outra caixa. Mas era uma caixa que se lacrava por dentro. Nós lacramos nossa existência.

Rogério pôs a mão embaixo da máquina de dobrar papelão e puxou a alavanca de prensar. A violência da dor da mão sendo destroçada deixou as pernas de Rogério bambas e por um instante sua consciência assobiou querendo desmaiar. Rogério ficou surpreso por se manter de pé, mais surpreso ainda por permanecer consciente de si, do que tinha feito e de quem era. A dor não o enlouquecera, mas Rogério não era mais normal tampouco. Rogério tinha rompido um lacre. Arrancou o que tinha sobrado da mão, matando um grito de dor do peito e mais um vacilo das pernas. Admirou a pasta de sangue e osso que tinha se formando onde antes tinha uma mão calombada por 29 anos de trabalho ininterrupto. Podia ter esmagado a esquerda em vez da direita, pensou Rogério.

Respirou fundo, sentia-se fraco, mas muito bem consigo, como numa manhã de domingo. Segurou o cotoco da mão e olhou em volta, surpreendendo-se com o chefe desmaiado ali perto. A camisa social branca amarrotada pela queda.

Rogério debruçou-se sobre o chefe e beijou-lhe a testa. Sentou-se a seu lado e ficou observando o sangue criar uma pequena poça a seu lado. Tinha que parar o sangramento, morrer depois da ressurgir seria uma ironia trágica na vida desse Zézinho. Mas antes de ir ao hospital, escreveu no chão da fábrica com seu sangue a seguinte frase:

Não fosse amanhã, que dia agitado hoje seria?

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

PS: A inspiração para esse texto veio deste post aqui: http://linguaepistolar.blogspot.com/search?q=rato

PSS: E a frase é uma homenagem a pessoa que faz meus dias mais agitados