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Em busca da identidade

Publicado: 15 de julho de 2011 por Bill em o Universo
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A NEGAÇÃO DA MISCIGENAÇÃO
como mito fundador brasileiro 
 
O que nos faz brasileiros?

As evocações dos beats aos mitos de liberdade dos fundadores da América em confronto direto com a política imperialista dos Estados Unidos no pós-Guerra, constituíram a motivação para analisar alguns mitos que cercam nossa identidade e sua dialética com as contradições da realidade brasileira.

O mito, a realidade e o homem

O termo grego mytos significa dizer falar, contar. Do apogeu do racionalismo grego até o início deste século, o mito é o resultado do questionamento humano sobre o universo e sobre o próprio ser. Na sociedade contemporânea, com o predomínio da explicação cientifica do mundo, mito passou a significar algo falso, inventado. Mas é um erro pressupor que por esta conotação o mito não influencie no cotidiano, na sociedade como um todo. Em algumas culturas, mito significa verdade, mais que isso: a verdade mais profunda e perene. Significa história verdadeira, tão mais verdadeira quanto é revelação primordial, modelo das atividades e instituições humanas. É exemplar e sagrada: só pode ser recitada, cantada ou dançada em ocasião solene, o que lhe dá o caráter de santidade. O acesso a seu relato é reservado aos que já se submeteram a uma iniciação. Só se compreende o mito pelo próprio mito. Quando as investidas não o destroem, no mínimo seu crivo de análise passa despercebido por ele. Pois, muito mais que a razão e a ciência, o mito está encarregado de conter, por uma espécie de “razão engajada”, aquilo que deve ser encarado como o plenamente humano.

Luz divina ou uma bola de fogo gigante no espaço?

O mito é a maneira de vida que a ciência, embora almeje, jamais será. E se a ciência pretende transformar-se num modo de vida, como pode bem nos parecer na civilização altamente tecnicista de hoje, só o será miticamente. A ciência só destrói um mito criado por outro: o de si mesma. E, como por um paradoxo inesperado, vemo-nos hoje diante de uma tarefa cada vez mais inadiável: a de desmascarar o mito da ciência. Para a razão, o mito, na acepção que proponho, é um modo de sentir dimensões da realidade, inatingíveis racionalmente, dando-lhes significado e consistência.

Partindo então da explicação do mito, deve-se estabelecer a relação do mito com a identidade e desta, com a realidade. Como um todo, pode-se considerar que o mito está inserido na cultura de um povo. A identidade é compreendida enquanto construção social que produz efeitos sociais. Esta construção é elaborada de forma dinâmica e multidimensional. A questão da identidade se dá na medida da importância e do significado do mito, criando uma especificidade para determinado povo. Como narrativa de um acontecimento primordial, o mito é considerado formador e ordenador do comportamento humano, no sentido de explicar a realidade atual através da explicação do tempo primordial, com o objetivo de satisfazer necessidades religiosas e as aspirações morais. A necessidade de compreender a realidade presente  faz com que o homem contemporâneo, que se beneficia do avanço tecnológico para o seu conforto pessoal e sucesso profissional, busque no mito a razão de ser de sua existência, para suprir o vazio que existe na sua vida no que diz respeito à sua própria memória cultural.  Existe ou ocorre uma recuperação do valor existencial, da linguagem simbólica, comum ao mito, ao sonho e à arte. Refutando o senso comum, o mito não seria um pensar insuficiente ou ingênuo, uma crença falsa, mas exporia a própria atividade criadora e imaginativa, a transcendência do viver imediato.

O ‘Destino Manifesto’ dos portugueses

A consagração da "paz racial" pelos portugueses

O mar era a última fronteira a ser desbravada
Só o mais valente se lançava ao desconhecido
Quando naquela terra chegamos, maravilhados ficamos
Tamanha beleza e esplendor
Cores exóticas, figuras curiosas e um sol abrasador”
 

O homem não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e idéias, de tal modo que o mito, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é a repetição de si mesmo. O primeiro dos mitos fundadores da nossa história, na expressão de Sérgio Buarque de Holanda, é a “visão do paraíso”. Diários de bordo e cartas dos navegantes referem-se às terras brasileiras falando da formosura de suas praias imensas, da grandeza e variedade de seus arvoredos e animais, da fertilidade de seu solo e da inocência de suas gentes que “não lavram nem criam (…) e andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos”, como se lê na Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei Don Manuel Sobre o Achamento do Brasil. Nesses relatos, o Brasil é sempre descrito como um imenso jardim, uma espécie de Éden: a vegetação é luxuriante e bela (flores e frutos perenes), aqui reina a primavera eterna contra o também eterno outono do mundo. O verde da bandeira brasileira representa a inesgotável riqueza natural do solo pátrio. O mesmo fenômeno pode ser observado no Hino Nacional, que canta mares mais verdes, céus mais azuis, bosques com mais flores e nossa vida de “mais amores”. O gigante está “deitado eternamente em berço esplêndido”, isto é, na Natureza como paraíso ou berço do mundo, e é eterno em seu esplendor.

Em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre inicia seu livro com um rasgado elogio aos portugueses. Já no primeiro parágrafo lemos: Quando em 1532 se organizou econômica e civilmente a sociedade brasileira já foi depois de um século inteiro de contato dos portugueses com os trópicos; demonstrada na Índia e na África sua aptidão para a vida tropical. A explicação para o sucesso do português no Brasil é explicado, segundo Freyre, pelo seu passado étnico, de povo indefinido entre a Europa e a África. Uma população meio cristã, meio sarracena, e que em ambos contava parentes, amigos, simpatias de crenças ou de costumes. Freyre fala na capacidade para a miscigenação que haveria no português: a miscigenação foi o processo pelo qual os portugueses compensaram-se da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga escala. É sobre esse mito fundador comentado por Freyre que as raízes de uma identidade brasileira crescerão.

Macunaíma fica branco, loiro e de olhos azuis

Assim, sorridentes, os povos indígenas conviveram com os europeus
 
 
 
Matando nossos deuses, destruindo nossas histórias, envergonhando nossas tradições
Acostumados as batalhas estávamos
Mas não conhecíamos uma guerra que se luta sem armas”
 

O segundo elemento na produção do mito fundador é ainda mais idealizado que o primeiro. O índio brasileiro que se tem retratado no imaginário popular, assemelha-se mais a um índio norte-americano com sua pena na cabeça e dizendo “Hao!”. Porém, com certo esforço, podemos encontrar um índio mais pelado, pintado e com cabelos lisos em cuia. Seu espírito é selvagem, mas sua índole é pura, intocada pela corrupção dos homens modernos. Essa imagem romantizada de índio é, sobretudo, uma contribuição de dois grandes escritores nacionalistas, Gonçalves Dias e José de Alencar. Juntos, encarregaram-se de criar/evocar esse mito, tentativa de afirmação de uma identidade genuinamente brasileira, distante da gênese européia atrelada ao passado colonial e, consequentemente, a Portugal.  Mas não só de lirismo, o índio tornou-se o mito que conhecemos.

Finca-se a bandeira brasileira em terras indigenas

Com o aval da ciência por meio Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB, os povos indígenas ganham contornos científicos. O século XIX instaura uma nova consciência histórica e determina aquilo que se deveria entender por história que, no caso brasileiro, promoveu a institucionalização do debate e delineamento de uma proposta de “Nação brasileira”. Neste quadro, coube ao IHGB o projeto de escrita da história de uma nação em processo de consolidação. O próprio Gonçalves Dias ganharia vaga entre os membros da instituição. No projeto etnográfico do IHGB, os diferentes povos indígenas não poderiam ser mais enumerados, mas inseridos dentro de um sistema que compreendesse a unidade indígena, sistema este que deveria também ser explicado nos termos de uma história nacional. E tal necessidade de sistematização haveria de ser cumprida tanto no eixo temporal, como no eixo espacial. Assim, o índio foi resgatado para ser retratado como um símbolo, construído de forma imponente, como um cavaleiro medieval, cheio de qualidades, virtudes e valores europeus.

Vergonha nacional

Procura-se escrava. Boa recompensa

Avaliaram meu porte, da largura dos ombros aos dedões dos pés
Fui arrancado de minha terra e vendido tal qual se vende um porco
Os doentes eram jogados no mar ainda vivos
Foram tantos, tantos, que anseio o dia em que a maré virá negra dos corpos enfermos
Dos poucos que aqui chegaram, menos resistiram
Essa terra devia ser negra, se não é, tamanho crime perpetrado”

Já para o terceiro elemento da matriz do mito fundador, o IHGB não foi tão condescendente. Para os abolicionistas a escravidão era um assunto tabu, as reações de uma elite conservadora eram demasiadas violentas para um confronto aberto. Assim, coube aos historiadores escravocratas a missão de representar o negro na fundação do Brasil.

Zumbi venceu algumas batalhas, mas a verdadeira guerra é silenciosa

O que se passou no Instituto Histórico é um ótimo parâmetro para entender a conjuntura em que a participação do negro na história foi construída no imaginário popular. A coisificação da pessoa negra deu ensejo ao nascimento de um mito negativo, com base na opressão, nos trabalhos forçados, que alimentaram e desencadearam uma série de movimentos de libertação escravagista, sempre mal vista pelos senhores de engenho. Esse momento de relutância dos escravos e que se transformou com o passar dos anos no mito da sua representação social: o negro com sinonímia de mal trabalhador, o típico malandro carioca. Muitos dos adjetivos que qualificavam o negro de forma pejorativa resultam da resistência dos seus antepassados à escravidão: nada realizava além do necessário. Daí ser considerado preguiçoso. Assim a cozinheira jamais executava satisfatoriamente o serviço da arrumadeira, caso isso lhe fosse dado a fazer. Tantas outras formas de relutância ao poder senhorial foram desenvolvidas pelos escravos, com o escopo de evitar que seus filhos tivessem o mesmo destino de servidão, e conseqüentemente, causar prejuízos aos seus donos. Os suicídios e as fugas representavam a manifestação da vingança contra todo regime colonialista escravista. Daí também, que as resistências mais radicais, o assassinato de seus donos por exemplo, conferia ao negro insubmisso outra característica pejorativa relacionada à marginalidade social. Tudo isso sob o véu do mito da miscigenação.

O retrato disforme do Brasil

A cultura dominante se impõe coercitivamente sobre outras culturas e os grupos dominados terminam por absolver a inferioridade, ou seja, a escravidão produz a imagem negativa, que possivelmente os negros e, em certa medida, os índios também, ao longo dos séculos, introjetaram de si mesmos. Há um comprometimento da identidade, logo que, o homem assimila costumes da raça superior para ser aceito pela sociedade. Se é difícil enfrentar uma guerra que se luta sem armas, o que dizer de uma guerra invisível?

O que resta da cultura indígena?

 Que tem eu pra falar?
Meu povo está morto
Esses que aí estão, que parecem conosco,
são herança da nossa vergonha
Usam jeans, falam no celular, andam de picape
Se ainda falam nossa língua, já dela esqueceram metade, metade do significado
logo deixarão de falar
 

No mito estadunidense de liberdade, há um desequilíbrio causado pelos beats ao reclamarem o mito como real. No caso brasileiro dá-se o contrário, o mito é negado. A identidade do mestiço brasileiro entra em crise quando percebemos hierarquias imutáveis ao longo dos séculos.

Alguns grilhões são invisíveis
Não compreendo
Vejo negros cercados
Sitiados em morros, amontoados em barracos, em cadeias
Vejo crianças chorando, com fome
Posso vê-las crescendo e terem filhos com fome também
Por que não se revoltam?
Na minha época também não andávamos com algemas nas mãos”
 

Aí, tem-se um processo curioso, de reinterpretação do mito fundador. As origens passam a ser evocadas, não pelo discurso dominante, mas por apropriações marginais que vão re-configurando o imaginário popular. O jeitinho brasileiro, tão desprezado pela elite, passa a ter uma conotação de auto-afirmação diante do explorador. O samba passa a ser exaltado, assim como o futebol. No âmbito acadêmico inicia-se uma produção critica da história nacional, há uma verdadeira subversão de valores, revestida de legitimidade cientifica. Os guetos, as aldeias, os morros, os quilombos, todos vivem um resgate histórico. As diferenças acentuam-se mais e mais, desconstruindo o mito da democracia racial e cultural.

A imagem do português, que exercia uma posição ímpar no processo de construção da identidade brasileira, pois, ao mesmo tempo que era um vínculo com a Europa, era também uma afronta a soberania, agora passa a ser negada de vez. Ridicularizada, vaiada. O mal que antes se imputava a escravidão, joga-se sobre os ombros portugueses.

Eu é que tinha que ta chorando! Eu! Olha só como sou retratado no imaginário brasileiro! Sou burro, estúpido, ganancioso, egoísta, quando tudo o que eu queria era aventura. Eu tive uma mulher indígena, sabe? Tive sim. Tive um escravo também e o libertei. Mas como fiquei nos livros de História? O Vilão! Eu sou o maldito vilão dessa história!”

As imagens do passado aparecem deformadas, falsificadas e colocadas a serviço de tendências posteriores. Essa é a dialética: passado e presente numa composição única e contínua, num entrelaçamento entre memória e discurso. Assume-se a divisão artificial construída entre mito e realidade, como entidades isoladas uma da outra. A realidade é tão produto do mito, quanto o mito é da realidade. À medida que a sociedade desenvolve novos espaços para segmentos antes mudos, embora não imóveis, evidencia-se o desequilíbrio de identidade. Portanto, o processo de formação da identidade individual e coletiva é fruto de um reconhecimento que se conquista pela ação consciente e organizada de um grupo que reivindica esse reconhecimento e essa valorização. Esse reconhecimento é conquistado e não concedido.

A identidade não é algo dado, mas uma condição forjada a partir de determinados elementos históricos e culturais, sendo sua eficácia momentânea, enquanto fator que instrumentaliza a ação, e será maior quanto mais estiver associada a uma dimensão emocional da vida social. Eis aí a questão chave para o entendimento da noção de construção identitária: a dimensão política enquanto fator de aglutinação em torno de uma determinada identidade tal como no caso dos beats. A identidade emerge quando sujeitos políticos se constituem, e nesse sentido, permite a criação de um nós, que leva a uma ação política. Essa re-significação passaria, pois, por uma apropriação interpretativa desses elementos, de modo a negá-los numa ideologia diferenciada e por isso, combativa.

Ficamos olhando a figura grotesca do português curvado sob o peso do machado cravado entre seus olhos ainda atônitos.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, petista, boêmio, metaleiro muy eclético, tonto, divertido y dulce… um comunista pero no mucho. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!