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Projeto de Monografia

A hipótese sustentada pelo projeto pretende desconstruir a autoridade médica sobre o louco tratando-o como um problema social [1]. Por meio da vida e obra de Antonin Artaud (1937-46), questionaremos a noção de doença mental e, inclusive, o próprio conceito de loucura ao identificar e problematizar seus determinantes sociais [2]. E, concomitante, pela análise da relação louco/sociedade, estudaremos uma pseudo-periculosidade manifesta pela loucura. Por que a sociedade isola o louco? A sociedade teme o louco? Seria todo louco potencialmente violento ou seu isolamento justifica-se pelo tratamento? Afinal, que tipo de perigo o louco representa?

O projeto irá trabalhar basicamente com as obras surrealistas de Artaud, artista francês que passou boa parte da vida internado em manicômios, em especial àquelas que faziam oposição à psiquiatria como o livro Van Gogh, o suicidado pela sociedade. Nesse livro, de título sugestivo (le suicidé de la société), Artaud resgata a memória do famoso pintor, para quem era “um pobre ignorante concentrado a não se enganar”, acusando a sociedade de provocar sua morte.

[Van Gogh] não se suicidou num gesto de loucura,

no transe de não consegui-lo, mas, pelo contrário, acabara de consegui-lo e de descobrir o que ele era e quem ele era,

quando a consciência geral da sociedade, para puni-lo por ter se desvencilhado dela,

o suicidou. (ARTAUD: 1974, 40)

Para Artaud, Van Gogh transcendia aquilo de que a maioria dos poetas são reféns (Artaud era poeta e roteirista de teatro), sua pintura não se deixava sufocar pelo quadro, tal qual comumente acontecia às letras. Não, suas obras eram uma inquietação do banal, subvertendo o cotidiano em sua calmaria, “bombas atômicas, cujo ângulo de visão, ao lado de todas as outras pinturas polêmicas à época, foi capaz de abalar gravemente o conformismo”. Ele encontra em Van Gogh, não somente um artista admirável, mas um ‘sintoma’ da dor, ele que também esteve internado em vários manicômios, ambos vítimas de “uma sociedade deteriorada [que] inventou a psiquiatria para se defender das indagações de certas mentes superiores, cuja capacidade de adivinhar a incomodava.” Mas Van Gogh, acima de tudo, que não se deixou oprimir pela violência dessa sociedade que, acomodada ao normal apega-se a tradição, chama de louco o novo, o abstrato, a reinvenção, a crítica, “com o propósito de lançar ao descrédito certas revelações capitais”.

1.            Loucura, sociedade e perigo

"A Nau dos Loucos"

A experiência clássica da loucura nasce. A grande ameaça surgida no horizonte do século XV se atenua, os poderes inquietantes que habitavam a pintura de Bosch [3] perderam sua violência. Algumas formas subsistem agora transparentes e dóceis, formando um cortejo, o inevitável cortejo da razão. A loucura deixou de ser, nos confins do mundo, do homem e da morte, uma figura escatológica [..] Esse mundo do começo do século XVII é estranhamente hospitaleiro para com a loucura (FOUCAULT: 1972, p 48) 

No inicio do período renascentista, a loucura teve a existência extremamente implicada com a razão, de tal modo que podia ser até uma forma da razão se manifestar. Para muitos renascentistas, a loucura era a “força viva e secreta da razão” (idem, p. 31) Foucault estranha essa constatação obviamente pelo contraste com a realidade, já que a Idade Clássica acabou por conferir aos loucos o lugar de segregação que durante a Idade Média fora reservado aos leprosos.

A loucura, cujas vozes a Renascença acaba de libertar, cuja violência porém ela já dominou, vai ser reduzida ao silêncio pela era clássica através de um estranho golpe de força (idem, 49).

Descartes, através da sua dúvida metódica, mostra a razão pura como meio de se chegar à ‘verdade’, alocando a loucura ao lado do sonho e de todas as formas de erro. Para ele, um ser que cogita (pensa) não pode estar louco. Para que se agisse efetivamente em relação a este elemento estranho à sociedade e agora também à razão, seria necessário identificá-lo. Mediante a observação do seu comportamento junto aos outros, a identificação do estranho se deu na qualidade de um desvio social [4]. Foucault chama o período em que se decidiu confinar e apartar aqueles que eram considerados desviantes de a ‘Grande Internação do século XVI’. Os espaços físicos, sociais e ideológicos que os leprosos ocupavam foram gradativamente preenchidos pelos mais variados tipos marginais “uma mesma pátria aos pobres, aos desempregados, aos correcionários e aos insanos” (idem, p. 50). Assim, realizou-se uma verdadeira ‘limpeza’ urbana, com o intuito de preservar as cidades  dos que maculavam a ordem pública.

O cenário muda quando nos fins do século XVIII, inspirados por ideais iluministas [5], crescem os protestos e denúncias contra as internações arbitrárias dos loucos. Questionam-se as práticas de confinamento indistinto dos loucos juntos a outros marginalizados e as torturas que lhes eram infringidas. Começava a construção de uma nova abordagem, com a criação de asilos especificamente destinados aos loucos, que já não eram mais mantidos acorrentados. Tratava-se da chamada Primeira Revolução Psiquiátrica, liderada pelo médico francês Philippe Pinel [6]. Esse movimento criou uma distinção entre os loucos e os infratores comuns, passou-se a acreditar que a loucura era algum mal, uma espécie de doença que impedia os homens de raciocinar corretamente. A ciência transformou a loucura numa patologia, revestindo-a de lepra. O louco então passou a ser um paciente e a loucura um caso de tratamento. Como veremos adiante, isolado e vítima de terríveis métodos de tratamento, fica difícil crer que no inicio das reformas tentou-se humanizar o louco.

Em Leviatã, Thomas Hobbes, na procura de um significado para a existência das sociedades, elaborou o conceito de ‘contrato social’. Nesse contrato, o cidadão aceita obedecer às regras da sociedade e, em contrapartida, o Estado se compromete a zelar pela ordem, ou seja, garantir que cada um vai cumprir com sua palavra. Uma vez que a relação baseia-se no cumprimento das normas sociais, a normalidade como forma de interação social passa a ser garantia da manutenção da ordem. Assim, se inserirmos um sujeito que não compartilha dessas prerrogativas naturalizadas como normais, então aí, teremos um perigo para a sociedade [7]. Enquanto um crime é a infração direta da ordem (em sua esfera institucional), a loucura, por seu potencial subversivo da normalidade, corrompe o princípio de ordem [8].

Como analisa Foucault em seu ensaio A evolução da noção do individuo perigoso na Psiquiatria Legal do séc XIX, a metáfora do contrato social de Hobbes evoluiu ao longo do século XVIII para a compreensão de um ‘organismo social’, em que “o médico deve ser o técnico do corpo social”. Ele traça um paralelo entre essa ideia de sociedade saudável com a noção contemporânea de responsabilidade civil [9] para determinar o potencial de periculosidade do sujeito que será julgado não mais pelos seus atos, mas sobre aquilo que ele é, a sua natureza (p 24). A partir disso, Foucault faz os seguintes questionamentos: “Há indivíduos intrinsecamente perigosos? Como é possível reconhecê-los e como podemos reagir a sua presença?” Para este projeto, em essência, qualquer individuo pode ser potencialmente perigoso, por isso o perigo da loucura não está no louco em si, mas nas outras perguntas feitas por Foucault.

[…] o grande assassinato monstruoso, sem motivo nem antecedente, a irrupção súbita da contranatureza na natureza é então a forma singular e paradoxal sob a qual se apresenta a loucura criminal ou o crime patológico (p 26)

O paradoxo apontado por Foucault reside na sutil particularidade de que a loucura existe somente no ato do crime, o que a psiquiatria do séc. XIX chamou de monomania homicida. Um sujeito que não pode ser responsabilizado pelos seus atos, pois sua loucura não é consciente, nem controlável quando manifesta. Aí reside a “periculosidade” do individuo, pois seu crime é ininteligível, ou seja, impossível de ser previsto. A única forma de prevenção é o isolamento. Mas este sujeito não é um criminoso comum, ele é sobretudo louco, não pode ser punido por algo que independe a sua vontade. Não há nesse procedimento necessariamente a intenção de cura, de recuperar o louco e reintegrá-lo a sociedade, mas somente de preservação social. Foucault estranha esse entendimento, pois o que a reforma psiquiátrica do séc. XVIII despendeu grande esforço em separar, a Psiquiatria Criminal tratou de atar novamente: a figura do louco a do infrator. Soma-se o papel do Estado como zelador da ordem, a questão do direito civil e o problema da saúde pública para determinar o potencial risco de um individuo à sociedade, em que o louco é a figura estranha a própria lógica do sistema. Afinal, o ato determina a loucura do crime e não o contrário, pois até a execução do delito o “louco” não era identificável. Se para uma questão criminal não há como fazer a ligação entre ato e autor, como explicar essa sanha moral sobre a loucura no século XX?

2.            Poder, discurso e o lugar do louco

Para este projeto será considerado louco, todo aquele desvio social que for objeto de estranhamento. O excêntrico, o pirado, o frito, estranho será aquele que não agir de acordo, ser anormal perante o restante da sociedade. O trabalho somente irá tratar da manifestação social da loucura; seus desdobramentos pelo estranhamento tanto no plano coletivo quanto singular, isto é, ser estranho ao mundo e estranhar o mundo.

O conceito de estranhamento nos é precioso porque fornece uma ambiguidade da qual o louco é costumeiramente fiador, na medida em que tal estranhamento pode, ao mesmo tempo, ser reivindicado e imposto. O louco, em diversos casos, não é alguém que se reconhece louco, louca é a sociedade por encará-lo assim. Paradoxalmente, o sujeito ao ser chamado de louco, pode reclamar a loucura como atestado de sua lucidez “[…] num mundo onde se come todos os dias vagina cozida à la sauce vert ou sexo de recém-nascido espancado e colérico, tal como é colhido do sexo materno. E isto não é uma imagem, mas um fato abundante e cotidianamente repetido e observado em toda a terra” (ARTAUD: 1974, 27). A tragédia da loucura, a imposição de um lugar desprivilegiado no mundo, também é sua afirmação existencial. Negar a loucura, seria negar a singularidade, a casticidade da alienação autêntica. “E o que é um autêntico alienado? É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isso é socialmente entendido, a compuscar uma certa ideia superior da honra humana” (idem, 32).

A defesa dessa “ideia superior” mencionada por Artaud, surge da reivindicação de uma condição singular. “O que a história da loucura nos revela, pondo em questão toda a cultura ocidental moderna, é que o louco é excluído porque insiste no direito à singularidade e. portanto, à interioridade.” (PEREIRA: 1984, p.102). Quando reivindicado, o estranhamento pode romper com os padrões lógicos da linguagem, não limitar-se ao circunstante, não aceitar a realidade dada. Se para o louco não há cercas (para o pensar), se não aquelas colocadas por ele, perto dele não podemos ficar sem sentirmo-nos perturbados, como se sua cerca nos convidasse a pulá-la, desafiando a fronteira da sanidade. Ao questionar as cercas da normalidade, a loucura desnaturaliza a realidade, tornando tudo objeto de reflexão [10]. O que nos leva a inquirir: até que ponto a normalização das sociedades é capaz de cercear o pensar? Será que a similaridade dos comportamentos, das rotinas humanas, dos conhecimentos partilhados, pode banalizar a realidade a ponto de engessar o pensamento, de desqualificar o ‘eu humano’?

Van Gogh não morreu devido a uma condição delirante,

e sim por haver chegado a ser corporalmente o campo de ação de um problema em cujo redor se debate, desde suas origens, o espírito iníquo desta humanidade,

o predomínio da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre um ou outro.

Onde está, nesse delírio, o lugar do eu humano? (ARTAUD: 1974, 39)

O estudo da loucura nos oferece um atrativo inédito justamente por ser a síntese da estranheza nesse mundo que aparenta estar em crescente padronização coletiva. Do café da manhã ao boa noite, da moda à opinião pública, a vida urbana provocou uma massificação intensa do cotidiano (que foi acelerada pelo fenômeno da globalização) [11]. E nisso, o desvio social é o ponto de inflexão, estranhando e estranhado. Quando acusa-se um desvio social de loucura, a coletividade taxa pejorativamente, ridiculariza, tenta-se deslegitimar um discurso, emudecê-lo se possível. A imposição do rótulo loucura desqualifica o estranhamento singular, escarnece a voz do outro de sentido e desestimula o diálogo, isolando-o, negando sua humanidade. Nesse extremo, seja como doente ou infrator, o louco se torna um rejeitado, assumindo por completo seu peculiar papel transgressor, deixando de lado a caricatura. O louco encarna o suicida.

Não foi para este mundo,

não foi para esta terra que nós todos sempre trabalhamos, lutamos, gritamos de horror, de fome, de miséria, de ódio, de escândalo e de nojo,

que fomos todos envenenados, ainda que tenhamos sido todos por ela enfeitiçados,

e que nos tenhamos enfim suicidado, uma vez que não somos todos, como o pobre Van Gogh,

suicidados pela sociedade! (idem, 75)

Há nessa relação louco/sociedade um jogo de forças, no qual o discurso do louco está em franca inferioridade. O poder no discurso foucaultiano pode ser considerado como o modo de pensar e agir do sujeito perante a sociedade em que vive, mas também pode ser entendido, em um âmbito mais abrangente, como o sistema que garante a “circulação” das relações de poder nesta sociedade, criando verdades e determinando o pensamento dos indivíduos, uma vez que o poder não está concentrado nas instituições (embora este exerça um grande poder), mas na hegemonia de um discurso ideológico, na força que tem sobre os demais.

O poder emana da sociedade que sustenta o discurso. Foucault diz em outro ensaio intitulado de A ordem do discurso que “em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, disfarçar a sua pesada e temível materialidade” (1971, 2). As produções discursivas são constantemente vigiadas e cerceadas, de modo a lhes expurgarem o que possuem de perigoso, que possa ser danoso às estruturas do poder, garantindo-se, desta forma, como o único discurso legítimo e evitando uma possível perda de forças.

Há em nossa sociedade outro princípio de exclusão: não já um interdito, mas uma partilha e uma rejeição (grifo meu). Penso na oposição da razão e da loucura. Desde os arcanos da Idade Média que o louco é aquele cujo discurso não pode transmitir-se como o dos outros. (idem)

Desta forma, podemos entender o processo da segregação do louco como uma forma de proteger as bases das estruturas de poder, excluindo o discurso destoante, que pode ser considerado perigoso. Assim, o discurso “louco” é todo aquele que se encontra numa posição contrária à corrente do pensamento coletivo. É aquele que não aceitou a vontade de verdade imposta pelo poder e que pode tentar lutar com as verdades da sociedade de sua época.

Mas o recorte espaço-temporal pelo qual iremos problematizar a vida de Artaud (e, ato contínuo, a de Van Gogh) compõe mero pretexto para uma análise social mais abrangente, em que estudos do movimento que ficou conhecido como antipsiquiatria nos ajudarão a compreender melhor o espaço da loucura [12]. O Dr Thomaz Szasz, psiquiatra e professor na State University of New York, um dos expoentes do movimento, critica a confusão que a psiquiatria tradicional faz entre comportamento e mente “é por isso que os psiquiatras frequentemente chamam um transtorno mental de transtorno comportamental. Mas o comportamento não é uma doença, não pode ser uma doença, apenas o corpo pode ter uma doença” [13]. Em seu livro O Mito da Doença Mental, ele argumenta que o termo ‘doença mental’ é por principio incoerente ao combinar um conceito médico e um conceito psicológico, mas que é popular porque legitima o uso da força psiquiátrica para controlar e limitar desvios sociais. Para essa questão, faremos uso das principais teorias da psicologia do desenvolvimento cognitivo [14] para montar um mosaico da evolução do pensamento ocidental, à construção de uma identidade normativa. Isto nos ajudará a pensar historicamente o lugar de Artaud e refletir sobre nossa constituição sócio-cultural, concentrando-nos em identificar os mecanismos de repressão social da singularidade e do discurso.

Nessa configuração, Antonin Artaud é a peça desconexa do quebra-cabeça social. Uma peça curiosa, que não apresenta deformidade visível. Estudá-la, acredito, pode nos levar a compreender melhor o restante das peças sociais. Ausente, claro, da pretensão de encaixá-las, pois um dos pressupostos deste projeto é que todas as arestas são redondas, sendo o louco a única peça que recusasse a parecer quadrada.

3.            Estruturação

 

Introdução – Uma breve história da loucura

Faremos um panorama da loucura em perspectiva histórica buscando personagens que tenham sido alvo de estranhamento desde a Idade Antiga à contemporaneidade.

Capitulo 1 – Artaud

a.       O que é ser normal?

 Apresentação de Antonin Artaud pela problematização do conceito de normalidade.

 b.     A sociedade ordenada

Análise da sociedade francesa vivida por Artaud no séc. XX: a ascensão dos princípios burgueses, os efeitos da industrialização e a consolidação da nova ordenança social.

Capítulo 2 – A doença de Artaud

 a.     Doença

Problemas da autoridade médica sobre a loucura; a relação de Artaud com o Dr. Fedière, responsável pelo seu caso em Rodez.

 b.     Um problema social?

Apresentação do livro de Artaud sobre Van Gogh e a compreensão da loucura como um problema social nos estudos de Thomaz Szass e Robert D. Laing

Capítulo 3 – O suicidado pela sociedade

 a.     As cercas

A repressão e a exposição da singularidade na vida e obra de Artaud e Van Gogh

 b.     O perigo social da loucura

Por que o louco é um individuo perigoso socialmente?

NOTAS:

[1] O psiquiatra Ronald D. Laing (1927-1989) advogou uma inteligibilidade social dos sintomas ditos psicóticos, procurando no contexto social as perturbações existenciais do paciente.

[2] Pressupõem-se determinantes sociais, o que não exclui a singularidade de cada ser.

[3]   A pintura de Bosch é uma sátira à sociedade medieval que fora tomada pela “loucura”.

[4] Entende-se por desvio social àquele ao qual se atribui a causa de um mal estar social devido a uma condição que lhe é inerente. Para este projeto será considerado um desvio social qualquer individuo marginalizado.

[5] “Um dos constantes esforços do século XVIII consistiu em ajustar a velha noção jurídica de sujeito de direito com a experiência contemporânea do homem social. Entre ambas, o pensamento político do Iluminismo postula ao mesmo tempo uma unidade fundamental e uma reconciliação sempre possível sobre todos os conflitos de fato. Estes temas conduziram silenciosamente à elaboração da noção de loucura e à organização das práticas que lhe dizem respeito” FOUCAULT, M. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 146.

[6] http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/2330/233016510014.pdf

[7] “Em suma, numa sociedade que tem horror ao diferente, que reprime a diversidade do real à uniformidade da ordem racional-cientifica, que funciona pelo princípio da equivalência abstrata entre seres que não têm denominador comum, a loucura é um ameaça sempre presente” PEREIRA, J. A. F. O que é loucura? São Paulo: Ed Brasiliense, 1984, p.102.

[8] Cf discurso no segundo tópico

[9] “A punição não terá por finalidade punir um sujeito de direito que terá voluntariamento infringido a lei; ela terá o papel de diminuir, na medida do possível, o risco de criminalidade representado pelo individuo em questão” (p 22).

[10] O modelo de pensamento proposto é inspirado naquele apresentado em A Vida do Espírito de Hannah Arendt.

[11] Herbert Marcuse, um dos grandes representantes da Escola de Frankfurt, define a sociedade industrial como “[…] uma forma de perpetuar as relações sociais, uma manifestação do pensamento e dos padrões de comportamento dominantes” MARCUSE, H. A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 57.

[12] Aqui faremos o caminho reverso: o desvio social representado pelo louco nos ajudará a compreender a sociedade.

[13] http://www.abc.net.au/rn/allinthemind/stories/2009/2530830.htm#transcript

[14] As teorias de Skinner, Piaget, Vygotski e Wallon que versam sobre comportamento, processo cognitivo, relações sócio-culturais e afetivas nos ajudarão a enxergar melhor as “cercas” do pensamento ocidental.

BIBLIOGRAFIA:


FOUCAULT, M. A História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978.

                          . A ordem do discurso. 7 ed. São Paulo: Loyola, 2001.

                          . Doença Mental e Psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.

                          . Ética, Sexualidade, Política: Ditos & Escritos. Organizado por Manoel Barros da Motta. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

MARCUSE, H. A Ideologia da Sociedade Industrial: O Homem Unidimensional. 4 ed. Rio de Janeiro: Zahar,  1999.

PELBERT, P. P. Da clausura do fora ao fora da clausura: Loucura e Desrazão. São Paulo: Brasiliense, 1989.

PEREIRA, J. A. F. O que é loucura? São Paulo: Brasiliense, 1984.

PIAGET, J. Seis Estudos de Psicologia. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1998.

SZASZ, T. Ideologia e Doença Mental: Ensaios sobre a desumanização psiquiátrica do homem. 2 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.
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No dia 15 de janeiro, Rogério foi trabalhar como fazia todas as segundas-feiras desde os 9 anos. Mas aquele era um dia diferente pra Rogério. Não que algo no mundo estivesse diferente, não, o galo cantara naquela manhã normalmente e sua mulher tinha preparado o café como sempre fizera. Era Rogério que estava diferente. Sua cabeça voava pelas calçadas estreitas, divagando a velocidade da luz. Milhões e milhões de pensamentos chocando-se uns nos outros, cada um provocando uma supernova de puro espanto e terror. Não que Rogério não gostasse de sonhar. Sonhava sempre, sempre que podia e quando não podia. A cabeça de Rogério era seu paraíso secreto. Lá, ele podia ser quem ele quisesse ser. Um ator famoso, um bom cantor, até um super-herói. Rogério não gostava de ser encaixotador. Não existia grandes encaixotadores no mundo. Encaixotar nunca será como compor uma bela música, nem escrever um best-seller. Para encaixotar não é preciso pensar. É só colocar, dobrar e lacrar. Colocar, dobrar e lacrar. Colocar, dobrar e lacrar. É como andar, uma vez em movimento, pode-se andar de olhos fechados. Rogério pensava em quão tola era sua vida. Acordar, trabalhar, comer, dormir, ir a Igreja aos domingos. A vida de Rogério era um verdadeiro processo de encaixotamento. Rogério estava sendo dobrado constantemente, e fechado, fechado para ser aberto e jogado no lixo. Rogério era uma caixa descartável. Todos os encaixotadores eram. Menos ainda, pois na caixa de Rogério não havia a frase “cuidado, frágil”. E Rogério era frágil. Sentia fragilidade todos os dias, antes mesmo dos 9 anos.  Por que alguns homens tinham que ser mais fortes que outros? Rogério fora criado rente ao cabresto. Homem não chora, homem não reclama. Ordem é pra ser cumprida, dizia o pai. Só de pensar na desgraça do pai, Rogério cerrava os dentes. O que aquele abestado sabia da vida afinal? Um covarde que se dobrou a vontade dos outros e fez o mesmo com os filhos e a mulher.

Bestando de novo Zézinho?? Assim não dá meu filho!

Rogério olhou a procura do pai, mas só viu o gerente da fábrica com sua camisa social branca bem passada de mangas dobradas. Tinha uma mão na cintura e um olhar impaciente e contrito, com raiva e pena de Rogério ao mesmo tempo.

Olha só Rogério, você é um ótimo funcionário, talvez o melhor dessa fábrica, juro. Mas encaixotar exige uma certa atenção, você opera uma máquina que pode cortar sua mão fora, entende? E se você corta um dedo hein meu filho? Como vai ser? Vai ficar encostado que nem aquele presidente safado?

Foi naquele instante que tudo aconteceu, todo o universo correu pelos sulcos de Rogério, penetrando e destruindo cada caudilho de certeza que construira até ali. Encaixotar era uma terapia, como num passeio ao zoológico, deixava Rogério livre para imaginar ser quem ele não era. E quem era Rogério? Pai? Marido? Um encaixotador? Rogério imaginava-se como um astro as vezes, formas diferentes de caixotes, mas caixas enfim. Tudo era uma grande caixa que encerrava outra caixa que encerrava outra caixa. Mas era uma caixa que se lacrava por dentro. Nós lacramos nossa existência.

Rogério pôs a mão embaixo da máquina de dobrar papelão e puxou a alavanca de prensar. A violência da dor da mão sendo destroçada deixou as pernas de Rogério bambas e por um instante sua consciência assobiou querendo desmaiar. Rogério ficou surpreso por se manter de pé, mais surpreso ainda por permanecer consciente de si, do que tinha feito e de quem era. A dor não o enlouquecera, mas Rogério não era mais normal tampouco. Rogério tinha rompido um lacre. Arrancou o que tinha sobrado da mão, matando um grito de dor do peito e mais um vacilo das pernas. Admirou a pasta de sangue e osso que tinha se formando onde antes tinha uma mão calombada por 29 anos de trabalho ininterrupto. Podia ter esmagado a esquerda em vez da direita, pensou Rogério.

Respirou fundo, sentia-se fraco, mas muito bem consigo, como numa manhã de domingo. Segurou o cotoco da mão e olhou em volta, surpreendendo-se com o chefe desmaiado ali perto. A camisa social branca amarrotada pela queda.

Rogério debruçou-se sobre o chefe e beijou-lhe a testa. Sentou-se a seu lado e ficou observando o sangue criar uma pequena poça a seu lado. Tinha que parar o sangramento, morrer depois da ressurgir seria uma ironia trágica na vida desse Zézinho. Mas antes de ir ao hospital, escreveu no chão da fábrica com seu sangue a seguinte frase:

Não fosse amanhã, que dia agitado hoje seria?

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

PS: A inspiração para esse texto veio deste post aqui: http://linguaepistolar.blogspot.com/search?q=rato

PSS: E a frase é uma homenagem a pessoa que faz meus dias mais agitados

Como todo bom contador de histórias, vou começar pelo final do título. O título é uma brincadeira com um jogo de palavras orbitando em volta do anacronismo e do historiador.

O papel higiênico do historiador se dá na limpeza das fontes. O anacronismo é a primeira peneira que o historiador fará uso para atestar credibilidade à um documento. Mas também é preciso depurar o anacronismo de suas boçalidades e cinismos. O anacronismo é uma ferramenta útil sim, mas carregada de perfídia. Ora, porque encarar algo tão caro ao historiador como algo tão perverso? Este é o cerne da questão. O anacronismo surgiu para ajudar os historiadores  a olhar para o passado, alertá-lo de que o seu “eu” é diferente do objeto. Seja um personagem histórico, seja um período como um todo, o anacronismo possibilita ao historiador reconhecer seus limites, o quão distante ele pode estar da verdade de qualquer acontecimento passado. Mas a utilização que os historiadores fazem do anacronismo hoje diferem em muito desse ideal.

O papel higiênico do historiador é a crítica das fontes

Lembro-me da minha primeira aula de História que tive na UnB. Todos os alunos sentados, meio rígidos de ansiedade ou porque não estavam acostumados com as cadeiras do ensino público. Atentos, ou melhor, hipnotizados por aquela figura que se posiciona no fim da sala, sorvendo cada palavra do professor. Lá pelas tantas alguém ousa levantar a mão. A resposta? Não poderia ser outra se não: você está incorrendo num erro comum aos que estão começando a estudar História, respondeu o professor. Era o tal anacronismo, embora o professor não tivesse nomeado o erro. Ser anacrônico é o maior pecado que um historiador pode cometer, falar dele é sinal de sabedoria, nomeá-lo é uma blasfêmia. Quando a aula acabou percebi que alguma coisa naquilo me incomodou. Ora, antes do professor explicar eu não havia concordado com o questionamento do garoto? Havia, e de acordo com o professor eu estava pensando do jeito errado. “Nós nunca poderemos entender o que eles realmente queriam dizer” – lembro-me exatamente de suas palavras. Sim, algo me incomodava e ia crescendo a medida que eu pensava no assunto.

Nós nunca poderemos entender o que eles realmente queriam dizer

O professor falou da imensa distância temporal que nos separava. Certo. E eu concordo com isso, então por que eu me sentia como se minhas costas estivessem coçando num lugar que eu não conseguia alacançar?

A resposta veio em outra aula algum tempo depois, quando uma situação como aquela se repetiu, mas dessa vez o professor em questão conseguiu esmiuçar mais um pouco a respeito do “erro comum”. Um estalo, parecia desenho animado com uma lampada acendendo sobre minha cabeça. Ora, se nunca poderemos entender o que realmente eles queriam dizer, então o que estamos fazendo aqui? Não é justamente entender o que eles queriam dizer de fato? A resposta é tão irônica e safada que não posso deixar de esboçar um sorriso enquanto escrevo. Em outras palavras o que o professor da minha primeira aula quis dizer foi o seguinte:

Embora nós nunca possamos entender o que eles realmente queriam dizer, se fosse possível, eu estaria muito mais perto de conseguir isso do que vocês

De fato, estou sorrindo agora. Obviamente, o professor não diria algo assim abertamente, mesmo porque às vezes a coisa está tão intranhada que ele nem se apercebe disso. A questão é que a resposta não está – a meu ver – errada em qualquer dos sentidos mencionados, há não ser por um problema de implicidade.

Acredito mesmo que nós nunca poderemos entender o que “eles” queriam dizer, não em seu sentido absoluto pelo menos e também reconheço que pelos anos de estudo se pudessemos fazer tal coisa seria o professor aquele que estaria provavelmente mais próximo disto.

provavelmente…

Há uma passagem em o Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams, que gostaria que vocês lessem:

Um dia, um aluno encarregado de varrer o laboratório depois de uma festa particularmente ruim, desenvolveu o seguinte raciocínio:

Se uma tal máquina (gerador de improbabilidade infnita) é praticamente impossível, então logicamente  se trata de uma improbabilidade finita. Assim, para criar um gerador de improbrabilidade infinta é só calcular exatamente o quanto ele é improvavel, alimentar esta cifra no gerador de improbabilidades finitas, dar-lhe uma xicará de chá pelando… e ligar!

Foi o que fez, e ficou surpreso ao descobrir que havia conseguido criar o ambicionado gerador de improbabilidade infinita a partir do nada.

Ficou ainda mais surpreso quando, logo após receber Prêmio da Extrema Engenhosidade concedido pelo Instituto Galáctico, ser linchado por uma multidão exaltada de físicos respeitáveis, que finalmente se deram conta de que a única coisa que eram realmente incapazes de suportar era um estudante metido a besta.

Somos historiadores e em vez de complicados teoremas, trabalhamos normalmente com dicotomias como rupturas e continuidades. Ainda assim, apesar das diferenças, há pontos em comum que perpassam o ambiente acadêmico em si. Aquele apontado por esse texto é o da Hierarquia do Conhecimento. E para impedir que essa hierarquia seja desrespeitada os historiadores inventaram e/ou se apropriaram de um mecanismo muito eficaz: o Inominável Senhor dos Erros Históricos, o Anacronismo.

O anacronismo, e nós chegamos no meio do título, quando usado para a manutenção da Hierarquia do Conhecimento funciona como uma venda nos olhos dos historiadores iniciantes. Costuma embaçar a visão do estudante e impedi-lo de pensar por si mesmo. Por isto devemos recorrer aos Grandes Autores, Senhores do Conhecimento Que Quase Chegaram Lá Na Verdade Absoluta. Se pensamos algo diferente deles seremos execrados publicamente. Também, como pode um estudante estúpido contradizer um longo e detalhado estudo sobre os costumes romanos?

Cegos pelo conhecimento milenar

Gostaria agora de contar uma historinha dessas que nos mandam por e-mail.

Era uma vez numa praia, um garoto correndo pela areia, pegando as estrelas-do-mar e atirando-as de volta às águas. Nisto, um velho está sentado por ali há algum tempo, acompanhado o trabalho incansável do garoto. Ele levanta-se e vai até o menino.

“Ei rapaz! Venha, venha. Deixe-me falar contigo”

Quando o garoto se aproxima o velho diz:

“Não percebe o quão inútil é isto que está fazendo?”

O garoto pensa um pouco e responde:

“Não, o que é?”

“Jogue esta estrela-do-mar que está na sua mão e verá”

O garoto obedece e joga a estrela no mar. Eles ficam parados por um tempo e o menino olha intrigado para o velho que olha paciente para o mar.

Então, uma onda trás de uma vez só três estrelas-do-mar ao longo da praia.

“Vê? A cada uma que você atira de volta o mar traz outras três. Elogiável o seu esforço em ajudar as probres criaturas, mas observe: o mar ao contrário de você, não se cansa nunca e continuará a trazer estrelas-do-mar indenpendente do seu esforço. Entendeu? Não faz diferença.”

O velho lhe dirige um olhar bondoso quando o mar coloca uma estrela-do-mar bem aos pés do garoto. O garoto a pega e a atira de volta.

“Fez diferença para essa”

O velho da historinha do alto de sua sabedoria tomou no dizer de um amigo meu uma bela duma catracada. Não que ele estivesse errado veja só. O velho estava simplesmente olhando em outra direção. Enquanto mirava seus pensamentos na lógica da vida, o garoto que nada entendia de lógica olhou para a estrela-do-mar.

Este é o verdadeiro anacronismo, aquele que nos impede de enxergar o outro, mesmo quando ele não está há mil anos de distância, mas bem aqui na nossa frente falando algo que você acredita ser absurdo, mas não dar sequer uma chance de realmente ouvir o que ele está dizendo. E como um vírus esse preconceito vai se espalhando entre os próprios estudantes, que passam a condenar as perguntas dos colegas mais novos. E aqui vamos para a última parte que na verdade é o início do título: o anacronismo como mordaça do historiador.

Quando conseguimos espiar por baixo da venda do anacronismo, ainda assim há um grilhão tão assustador quanto o segundo. A mordaça do anacronismo nos impede de emitir nossas opiniões.

Aprendi quando calouro que preciso me calar!

Só recentemente consegui conversar seriamente com um amigo a respeito do comunismo. Isto porque eu tenho mania de dizer que Jesus foi um comunista. Esse amigo meu fica louco quando digo isso.

Como você pode dizer uma coisa dessas?! A palavra comunismo está carregada de significados contemporâneos que são impossíveis de serem aplicados no passado”

Por causa do anacronismo até então ele nunca ouvira o que eu realmente tinha a dizer sobre o assunto. Era engraçado quando isso acontecia porque nós discutimos centenas de coisas triviais e minha opinão sempre é levada em conta. Menos quando discutimos sobre comunismo. Aí eu tenho que me calar porque sou anacrônico, isto é, burro. Quando falo de Cristo ser comunista, é porque enxergo semelhanças essenciais no que o comunismo traça como ideal de humanidade e nas coisas que Cristo dizia (ou pelos menos que dizem que esse tal de Cristo falou).

Certa vez um jovem interpelou Jesus e lhe pediu que lhe ensinasse o caminho para o Reino dos Céus. Jesus lhe disse que seguisse os mandamentos e amasse ao próximo como a si mesmo. Ao que o jovem responde:

Transcrição de parte do capítulo 19, em Mateus:

20. Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda?

21. Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me

22. E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades

23. Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus

24. E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus

Ora, pode haver algo mais comunista que isso? É o desejo latente pela igualdade. O olhar severo para com pessoas de muitas posses, não porque fossem pessoas más, mas simplesmente porque as coisas materiais não significam absolutamente nada na vida – leia-se Vida Eterna –  do homem, mas mais que isso. E é aqui que está o comunismo: o homem está tão apegado às suas posses que pode escolhe-las a entrar no Reino dos Céus. Não estou dizendo que pelo fato de Jesus ter sido carpinteiro isso faz dele um proletário. O que quero provocar é a reflexão para além da pura interpretação religiosa. Se Jesus descesse dos Céus neste momento tal qual ele é descrito na Bíblia, diria para os homens que dessem ao capital o que fosse do capital, pois o tamanho da sua conta bancária mesmo para as pessoas boas pode ser uma barreira para a compreensão do que é realmente importante.

Como funciona o anacronismo aqui? Comunismo foi um termo inventado por Marx. Jesus não viveu no tempo de Marx. Na Galiléia não havia indústrias e consequentemente não havia proletariado para fazer uma revolução e instaurar o socialismo, logo o comunismo é impraticável na época de Jesus, uma vez que segundo Marx, é preciso primeiro ter um regime socialista para se chegar ao comunismo.

É mais ou menos isso. Engraçado é que até mesmo quem odeia Marx sabe isso de có. Mas quem falou em Marx? Quem falou em indústrias, proletariado e socialismo? Querem atribuir um sentido às minhas palavras que não são minhas. Mas eu não tenho direito de pensar, Marx já pensou por mim. A partir de momento que o comunismo deixou os pensamentos de Marx , saltou sobre sua lingua e atravessou por entre seus dentes o comunismo não mais o pertencia.

O bom anacronismo é capaz de identificar isso. Um dos pressupostos do anacronismo é que as palavras não permanecem imutáveis ao longo do tempo, elas são antes construções culturais de uma sociedade. Os conceitos estão constantemente sendo apropriados e reapropriados para explicar as múltiplas e escorregadias realidades. Engessar um conceito é se apropriar do pensamento alheio impedindo-o de se expressar por meio de metáforas que muito provavelmente vão soar anacrônicas num primeiro momento.

Os anacronistas fetichistas adoram acusar os marxistas de serem anacrônicos por não seguirem a linha do raciocinio de Marx. Imagine então pensar a sociedade hoje tal como Marx pensava há um século, quando é o próprio anacronismo que indica a reformulação conceitual.

Se o anacronismo então serve para amordaçar, cegar e me deixar a deriva dos tormentos da reclusão, então eu prefiro limpar a bunda com ele.

Vá à merda Anacronismo!

Como todo bom contador de histórias eu comecei o título pelo fim, fui ao começo e tornei ao fim.

 

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, petista, boêmio, metaleiro muy eclético, tonto, divertido y dulce… um comunista pero no mucho. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!