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Olá, eu sou o Bill. Sou formado em História pela UnB e estou começando o curso de Direito, também na UnB. No dia 20 de março, domingo, na praça da biblioteca nacional, eu participei de uma reunião e o que eu encontrei lá foi…

eu simplesmente preciso compartilhar com vocês. E não é só a idéia, mas também a forma, sua manifestação prática e por isso muitas vezes inapreensível e imprevisível. E todo esse movimento partiu de um grupo que eu, por puro preconceito, julgava ser impossível que pudesse partir. Impossível.

Pra falar disso, infelizmente, eu preciso falar de mim. Sim, infelizmente. Porque considero absolutamente necessário que vocês entendam as raízes do meu pensamento que acredita nesse movimento difuso, mas de potencial simplesmente inesgotável. Porque como eu tinha dito não é só a idéia, mas a forma com que ela se apresenta. E o horizonte radical e banal – banal! – pra onde ela aponta. Um aviso aos navegantes. A toupeira que só conhece as trevas do mundo subterrâneo quando por acaso se depara com a luz fica imediatamente cega. Então vamos lembrar da primeira frase do Guia do Mochileiro das Galáxias: NADA DE PÂNICO!

Eu sempre fui pobre e só muito recentemente minha família teve acesso a itens mais supérfluos de consumo, como televisões gigantes, geladeiras cabulosas e carros mais ou menos novos, quando não novos, zerinho de fabrica! Mas isso foi só recentemente. 20 anos atrás nossa situação era desesperadora. O pai trabalhava na sab e tinha sido demitido naquele processo de “demissão voluntária” do Fernando Henrique, ou foi do Itamar, não sei, mas foi nessa época ai. Esse pai era alcoólatra e extremamente machista a ponto de obrigar minha mãe a usar calças maiores (e a mãe já era meio gordinha), o tipo de pessoa que quando a esposa puxava os parabéns para uma criança, ele ficava dando beliscões nela em segredo. Vocês já podem imaginar. O pai espancava minha mãe. E um dia ela foi embora. De casa. Mas não das nossas vidas. Foi a mãe quem nos sustentou durante alguns anos. Eu, meu irmão, minha vó e o pai. Minha vó vendia dindin pra ajudar no pão de cada dia. Vocês sabem quanto era o salário mínimo nos anos 90, né? Pois então, era esse salário que sustentava cinco pessoas. Daí quando a mãe podia ficar com a gente no fim de semana, que a gente ia numa festa dos colegas de escola dela, pq ela voltou a estudar, (o pai a tinha proibido de continuar os estudos quando casaram), ta rolando lá a bagaceira do é o tchan e eu digo pra mãe, no meio dos amigos dela: Você ta dançando que nem uma galinha.

Esse é o tipo de pessoa que eu sou. Em essência, alguém que acredita em alguma coisa e é capaz de qualquer coisa por ela, até mesmo renegar a própria mãe. Mas vamos lá.

Passado algum tempo, nós fomos morar com ela, num barraquinho, um puxadinho da casa do meu avô, que morreu recentemente e que por tudo que fez com a minha mãe deve ta ardendo no inferno. Pra não me alongar muito, não vou falar do que ele fez com ela, mas conosco. Em síntese, pra vocês entenderem, meu vô era uma pessoa que saia para trabalhar, 6, 7 horas da manhã e desligava a chave de energia elétrica. Daí, minha mãe saia para trabalhar e eu, meu irmão e minha prima ficávamos sem luz até as 7, 8 ou 9 da noite quando ele voltava. Minha mãe conta, eu não lembro, devo ter bloqueado essa parte porque morro de medo dessas coisas, que ela dormia abraçadinha com a gente porque tinha medo que uma ratazana pudesse cair do teto e comer a gente vivo. Ela via as ratazanas circulando por entre o plástico que revestia as paredes de madeira do barraco.

Então foi essa a minha infância. Não é difícil entender meu ódio pelo mundo. Minha mãe vivia estressada com essa vida de merda, sem poder dar uma vida digna pros seus filhos, trabalhando que nem uma louca pra ganhar uma miséria. Ela sempre estava furiosa e super agressiva. Batia muito na gente.

E eu te entendo, mãe.Te entendo perfeitamente. Se você tivesse colocado um travesseiro na minha cara e me sufocado a noite, eu também entenderia. Você na verdade foi uma guerreira, uma heroína. Isso não apaga seus crimes. Mas é que suas vitimas te perdoam. Eu te amo de todo coração. Desculpa por entender tão tardiamente a senhora.

OK. Tai meu ódio. Minha mãe me batia e eu a amava e não entendia porque ela me batia ao mesmo tempo que entendia sim porque, as vezes, ela gritava que estava ficando LOUCA! Que não agüentava mais, que ela tinha vontade de pegar tudo e ir embora (e fala até hoje, menos, mas fala. Eu mudei, nós mudamos, mas também não foi tanto assim). Eu tinha raiva porque de certa forma eu conseguia compreender, com 11 anos, 12 anos, que se nossa vida fosse um pouquinho mais confortável materialmente a gente não teria todo aquele estresse inflando o barraco. E na adolescência, e mesmo depois, esse ódio se tornou em desprezo total e violento pela democracia. Não só pela minha vida. Eu ainda tinha a empatia de perceber que se tava ruim pra mim, fi, tava muito pior pra uma GALEERAAA. Eu lembro de uma reportagem do ratinho que ele chorava (não sei se por sensacionalismo, enfim) que mostrava uma agreste nordestino, onde o povo da região fazia uma mistura de farinha e barro porque não tinha nada pra comer.

Eu odiava a democracia. Era o véu que fazia a gente ficar quietinho enquanto a excrotidão rolava solta país afora. Eu a desprezava e até hoje isso, em parte, está dentro de mim.

Então, pouco antes de ingressar na UnB, no cursinho, eu era um coxinha de cabo a rabo. Quando saiu o negócio do mensalão e a mídia começou o processo golpista. Globo, tá gente? era praticamente a única fonte de informação que eu tinha. E foi uma lavagem cerebral. Eu lembro que quando saiu a capa da veja com o título: Lulalá e os 40 ladrões, eu recortei o nome dos 40 denunciados e coloquei na parede do meu quarto (parede de reboco, não de madeira, as coisas tinham começado a melhorar). Eu queria lembrar pra sempre do nome dos 40 desgraçados que tinham traído a esquerda e roubado milhões.

Corrupção.

Será que pode existir alguma coisa mais horrível para uma democracia capenga do que a corrupção? Po, já ta uma bosta dos infernos e ainda tem uma galera que rouba???

Não, esses 40 tinham que ser açoitados em praça publica como exemplo, era o que eu pensava, era o que eu desejava, era o que eu queria fazer se pudesse.

Gente, nessa época, no Orkut, eu tava num grupo que se chamava: Sou brasileiro, e já desisti (alusão a propaganda espetacular do primeiro governo lula). Eu não acreditava no Brasil e a bandeira nacional era meu único refugio. Vei, eu simplesmente não sei como esse troço ufanista funciona, mas sei lá, ta escrito ordem e progresso naquele pedaço de pano, e ai vc pensa, ah, se tivesse um pouco de ordem e progresso tava bom. Não sei, o negócio é que eu beijava a bandeira e se encontrasse algum petista defendendo o governo eu ia agredi-lx cabuloso, nunca fui de violência física, mas violência verbal era comigo mesmo. E olha só o meu loop fascista-cristão, eu insulto a pessoa, xingo ela, escrotizo até que ela me dá um soco. Aí, é ela quem ta errada e eu sou superior moralmente. Sim, 100% coxinha. #VemMeteoro.

Mas ai,

#EsperaMeteoro, espera

ai

no segundo semestre de 2007, eu passo de segunda chamada para o curso de História na UnB.

Foi um choque. Pensei que ia encontrar uma galera revolucionária e tals, que nada. Tudo coxinha, pior que eu. Pior que eu, dá pra acreditar? Porque pelo menos eu era pobre e queria fazer alguma coisa. A maioria do povo que encontrei só queria saber de cachaça, mulher e futebol. Falar em política numa mesa de bar para eles era uma heresia. Colei com a galera do serviço social. Ali a política era fulminante. Ia pro bar e discutia sobre o governo lula e a corrupção, a traição da esquerda. Mas eu ainda tinha um ódio sinistro dentro de mim.

Ver gente branca, de olhos azuis, que mora no lago sul, falando que a gente devia pegar em armas e fazer a revolução!? (o que eu achava que era o único caminho possível) foi um choque classista violento demais para os meus pobres horizontes de mundo. Meu raciocínio era bem simplezinho:

vei, como uma pessoa que nunca sofreu o que eu sofri pode querer fazer a revolução?

Quem ela pensa que é?

E caso tenha coxinhas lendo, revolução pode ser uma coisa simples como pôr um basta na corrupção. Uma parada tão utópica quanto o comunismo, mas vamos lá.

Daí que eu comecei a me aproximar mais da galera da História e me entreguei as futilidades da vida universitária. Esquecer política, esquecer o ódio, esquecer dos problemas (que estavam diminuindo consideravelmente, lá em casa por exemplo a parede não era mais de reboco e minha mãe tinha conseguido comprar o primeiro carro de madame dela). O negócio era beber, beber até a morte. Fumar muito, rir muito. Ficar louco.

Recomendo que todo mundo em algum momento da vida se deixe levar por esse frenesi dionisíaco, é pesado? é, mas tem algum role meio mágico nessa parada. Os amigos que fiz ali estão no meu coração até hoje, mesmo os que eu não tenho mais contato.

A gente de vez em quando se reúne para jogar RPG

E falar sobre política, sim! Por horas e horas! (acho que a última foi sobre racismo, muito boa)

Enfim, em algum momento que não sei dizer qual, eu virei petista. Agora eu tinha acesso a uma serie de informações que me eram negadas.

Sabe, vou te dar um exemplo prático do role.

Quando a presidenta Dilma disse que a gravação ilegal revelava que o termo de posse era só para o caso do lula não poder vir a Brasília, pense o seguinte: onde está a trabalhadora e o trabalhador quando ela disse isso?

Tavam trampando, muito provavelmente, elas e eles não puderam ver a integra do discurso.

Daí esses trabalhadores chegam em casa e vêem a maravilha do jornal nacional, Willian bonner editando o discurso da presidenta e claramente debochando da explicação oficial.

Assim, eu particularmente achei uma desculpa bem esfarrapada também, mas qual é o papel de uma concessão pública? servir ao público! Não aos seus interesses privados! É preciso buscar intransigentemente a imparcialidade (eu sei que é impossível, to falando de tentar carai). Só que o sem-vergonha não faz isso! Ele passa a idéia para a trabalhadora e o trabalhador de que a presidenta num tem mais respeito por você e ainda que isso seja verdade, aqui vai:

WILLIAM BONNER NÃO SABE A VERDADE.

Em verdade, ninguém sabe, e o papel de alguém que serve ao publico, e era pra globo, veja só, servir ao público, ela serve aos interesses de seus donos, que podem simplesmente não gostar da cara da presidenta. O papel de uma concessão publica é buscar apresentar os dois (ou vários) lados e permitir que a pessoa forme a sua própria opinião a respeito.
Mas a globo não faz isso. E é um role sistemático. É dessa lavagem cerebral que eu tava falando.

NÃO TEM OUTRO LADO.

Olha ai meu ódio voltando. Mas ele conseguiu se acalmar, e pq? Porque o PT era governo e vei, além de acabar com essa desgraça que era a fome, o PT ainda ampliou o acesso a universidade pública, eu sou prova viva disso, entrei em 2007, criou pasta de igualdade racial, combate a violência domestica, pôs a marina silva no meio ambiente por um tempo, ciro gomes na transposição, gil na cultura e uma centena de coisas mais que não to lembrando agora. Meirmã, nem no sonho mais louco tu poderia sonhar com isso. Mas não foi de imediato, eu fui vendo isso aos poucos. Fiquei cego no inicio, mas se você não entrar em pânico, você acaba se acostumando com a luz.

Então estamos aqui, o golpe costurado em 2006, lá em 2006, ta ai outra vez. Agora eu já conheço história. Conheço a versão que me foi negada conhecer. Agora eu sei, e não é difícil entender porque eles não querem que a gente saiba. Porque é muito fácil você montar paralelos com o cenário atual e 64. fácil, fácil. As crises institucionais, o discurso contra corrupção, o medo do comunismo e seus espantalhos: se na época era cuba, união soviética, china, agora é foro de são Paulo, farcs, unicórnio, enfins.

Os golpistas de hoje aprenderam com 64. Os monopólios de comunicação e a plutocracia jamais permitiriam que os militares comandem novamente (há não ser que haja guerra civil).

E nós?

O que nós aprendemos com 64?

Democracia. Numa sociedade capitalista, são os ricos que detém o poder. São deles os meios de comunicação, são eles, seus filhos e parentes, que ocupam as maiores carreiras do funcionalismo público. Eles governam tudo. Por isso nossa democracia é essa coisinha tão frágil. Mas é democracia. Pense o seguinte. Pelo menos, eles tem o pudor de mover o corpo de um jovem negro para outro lugar porque sabe que isso é errado e ele pode ser eventualmente punido por seu assassinato. Numa ditadura, minha amiga, meu amigo, o jovem negro é deixado lá mesmo, no meio da praça, para que todo mundo veja e entenda o recado. (veja Cidade de Deus de novo). É essa a diferença. É pouca? Sem duvida. Mas é essa que temos e é nela, acredite se quiser, que tudo é possível, tipo, operário presidente da república ou uma mulher torturada pela ditadura militar ser comandante das forças armadas num país extremamente machista. Oxe, dá pra fazer altos roles. E é pela democracia que nós podemos denunciar esse genocídio da juventude negra, o feminicídio, a desigualdade social, etc.

Mas nada se faz, alguém diz entre triste e meio enraivecido comigo.

Mentira. É só que é muito pouco e lento porque é democracia. Democracia numa sociedade absurdamente desigual. Por isso a democracia é difícil, porque os atores tem forças diferentes. Você não tem a mesma força que o neto do Roberto Marinho. Ele tem muito mais poder. Mas uma democracia perseguida com inexorável resiliência pode um dia encontrar uma forma de horizontalizar essas diferenças, distribuindo pesos diferentes para atores diferentes. Quer um exemplo prático? COTAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS (Q pra mim nem é o modelo ideal, pq se se assume que a universidade pública não pode atender todo mundo, então que seja por sorteio, mas foi só um exemplo de como a democracia pode se efetivar sobre forças contrárias poderosíssimas).

Eu reconheço que tenho uma ligação mística com a democracia.

Lembre-se: NADA DE PÂNICO.

Lembra daquele negócio fascista que eu falei de provocar e depois de tomar porrada eu sair como superior? Isso é fundamentalmente cristão. É claro que é uma postura distorcida, mas no seu âmago é a busca da paz. Vc pode me provocar, vai fundo, mas se eu não reagir, independentemente do que vc faça comigo, eu sou melhor que você. Cristo era melhor que todo mundo, porque amava todo mundo e perdoava tudo aquilo que ele considerava errado. Coisas praticamente imperdoáveis para a sociedade da sua época, como o adultério por exemplo (o que é fichinha se vc pensar que os evangelhos afirmam que cristo foi capaz de perdoar os próprios torturadores). E o cara se sacrificou por esse ideal. Porque acreditava no amor de Deus Pai.

Morreu por porra nenhuma.

Deus não existia e a sociedade continuou uma bosta fumegante. Mas ainda que esse Deus católico possa não existir, a idéia de Cristo existe. É ela que ao longo do tempo fez as pessoas humanizarem umas as outras. Ou você acha que um bolsonaro da vida, se não fosse o dogma cristão, teria qualquer pudor de colocar um grilhão num negro e sabe-se lá o que mais? O que o impede de ser mais repulsivo do que ele é, é a moral cristã. Não que ele ame o próximo, esse canalha sequer deve saber o que é amor. Mas é essa moral que impede seus surtos fascistas. Dele e dos seus seguidores.

Não entre em pânico. Você não precisa acreditar nessa minha democracia maluca. Acredite na sua. Que seja sem amor. Se existir o respeito pelas diferenças tá tranqüilo, ta favorável.

Mas preciso dizer, pq eu preciso reencantar o mundo. Eu amo. Eu amo o bolsonaro, (não muito, mas eu tento, juro) porque sinto pena dele. Ele não sabe o que faz.

E esse sentimento em mim é pura democracia. Radical. Visceral. Incondicional. Ridícula. Absolutamente ridícula. Dá até pra imaginar o bolsonaro gargalhando disso.

Mas é ridícula tal qual Dostoievski imaginou o sonho do homem ridículo.

Estou concluindo, mas antes permitam-me uma pequena digressão. Alguém já assistiu formiguinhaz? É um ótimo filme, quase um tratado sociológico e filosófico sobre o individuo e a coletividade que coloca no povão a sustentação da sociedade, mesmo que esse povão possa ser facilmente descartado quando se tem vontade. Mas a melhor imagem motivacional ficou com uma outra animação da época, com o mesmo tema, vida de inseto. Quando um gafanhoto deixa cair uma semente sobre a cabeça de outro gafanhoto e pergunta: doeu? Ao ouvir um “não” risonho, o líder dos gafanhotos despeja milhares de sementes em cima dele, soterrando-o.

No dia 20 de março, domingo, na praça da biblioteca nacional, eu participei de uma reunião e o que eu encontrei lá foi isso. Nós. Juntos. A força. Mas não a turba fascista. Democracia.

O evento era organizado pela Luisa Oliveira e o Franklin Rabelo, dois, para mim, notórios ex-militantes do PSTU. A Luisa eu conheci na ocupação da reitoria e o Franklin por causa do grupo fascista enrustido da UnB no facebook.

Vei, eu comentei com uma amiga: Eu vou nesse evento para ouvir. É a galera do PSTU vei, os caras só querem saber das suas vivencias, democracia zero, super potencial fascista.

E lá, mesmo com toda pressão da militância do PSTU, outras pautas surgiram em defesa da democracia, contra o golpe (que o PSTU acredita que não existe pq para eles é só a direita se estapeando, e pior, o PT por sua história na esquerda ainda desmobiliza as bases, avaliação muito válida). Mas, inacreditavelmente, para o meu preconceito chulo e reducionista da humanidade, a galera aceitou as opiniões contrárias e aceitou construir um movimento juntos.

Olha, vou te contar, to arrepiado até agora.

Pq eu admiro vocês. Vocês são tudo que eu quero ser, mas tenho preguiça. A galera que organiza, que se dispõe a perder o fim de semana, que faz de um tudo pelo que acredita. Vei, se tu coloca democracia num negócio desses, então, não tem limites. Pq o único limite da democracia é a própria democracia.

Democracia pra mim é como aquela montanha de ouro que o tio patinhas mergulha. O dinheiro é o sonho dele. A democracia é o meu. Sei que nada sei, e é por isso que eu preciso te ouvir. Nada me deixa mais feliz do que te ouvir e ver outras pessoas se juntarem para fazer o mesmo. Procurar entender. Talvez discordar. Refletir, quiça profundamente. Ouvir outra vez. Democracia é o nirvana orgásmico pra mim.

E aqui vai o que eu quero propor. É bem banal, mas eu espero q vc pense com um pouco mais de seriedade do que eu mesmo consegui fazer aqui (sou sagitariano, não resisto a piadas).

A frente única tai, decidida lá no dia 20, só que eu quero lançar o conceito de DEMOCRACIA PLENA, RADICAL, VISCERAL, INCONDICIONAL E RIDICULA.

O que é isso, bill? (eita brisa pesada)

Agora todos serão ouvidos (não todos né? Quem quiser falar, a gente não tem a vida toda pra perder numa assembléia).

Oxe, vei, isso ja existe doidão, foi o que rolou lá inclusive.

To ligado, mas a questão aqui é Todos. Numa perspectiva fundamentalista.

A maioria prevalecerá? bem, sim. Mas nós da esquerda sabemos que uma democracia não se faz sem respeito as minorias, as diferenças. E nós somos capazes de viver isso. De colocar isso em pratica. Porque nós respeitamos a democracia.

Dia 20 não me deixa mentir.

Mas ela precisa ser também visceral. Radical. Incondicional. Mas sem ilusões, esta será a democracia mais ridícula de todas. Mas também será a única verdadeiramente plena. É preciso levar a democracia para todos os âmbitos da nossa vida. Como? Eu tenho minha ideia, a gente pode se encontrar e discuti-la, que tal?

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Aconteceu de se encontrarem todos os sete juntos numa sala branca, sem saber porque ou como haviam parado ali.

Disse então uma criança com um ridículo chapéu vermelho depois de um tempo bastante longo de ausências.

Estou com fome.

Imediatamente um prato quente de arroz com feijão, bifes e batatas fritas se projetou a sua frente. O cheiro inundou a sala e o espanto tomou o lugar. Elas se levantaram e foram olhar o fenômeno de perto.

Uma pessoa que usava óculos de grau com hastes vermelhas perguntou:

Diga-me criança, quando disse que estava com fome, pensou neste prato que está a sua frente?

A criança hesitou um momento, e então respondeu:

Sim!

E se lançou sobre o prato comendo o bife com as mãos nuas.

Um outro que estava próximo a pessoa do óculos vermelho, falou:

Eu quero sair daqui.

Mas nada aconteceu.

Então uma voz rouca às costas desses falou:

Talvez, sejam só os desejos mais sinceros que possam ser realizados.

Eles se viraram para voz, a de óculos vermelho perguntou:

Ué, e tu? Porque não se levantou e veio até aqui verificar este negócio?

Ei, ela também não levantou.

Argumentou a voz apontando para uma pessoa que roncava alto.

A pessoa de óculos vermelho não gostou da resposta, disse:

Ora, por acaso não sente curiosidade? O prato surgiu do nada!

 

Tal qual vocês! Até onde eu sei, esse prato é tão curioso quanto vocês, ou eu mesmo…

A voz rouca olhou para as mãos como se nunca as tivesse visto antes e aparentava estar genuinamente espantado.

É verdade! Alguém gritou levando as mãos à cabeça.

Será que estamos mortos?

Todos olharam ao redor. Tudo era branco, tão branco que era impossível discernir o teto do chão ou das paredes, de fato, sequer era possível enxergar coisa alguma que não eles mesmos e suas sombras.

A pessoa de óculos vermelhos esticou os braços horizontalmente, avaliou alguma coisa e disse:

É muito estranho. Há luz neste lugar, mas não consigo detectar a fonte, é como se a luz simplesmente existisse como a escuridão existe e isso é impossível, pois se há luz, há uma fonte.

A pessoa com as mãos na cabeça falou:

Do que importa a física no inferno!

Ei, calma ae! Disse um outro de aspecto robusto com uma camisa vermelha estilo academia.

Quem disse que estamos no inferno? Fale por você! Ora, esse lugar é branco, não é? O céu é branco!

Mas que coisinha mais racista pra se dizer hein, disse uma pessoa não muito maior que a criança.

É verdade, concordou a de óculos vermelhos.

A pessoa com camisa tipo academia sorriu.

Que isso gente, todo mundo sabe que o céu é branco.

Mas se isto é o céu, disse a voz rouca andando de quatro, aonde está deus?

Isto não é o céu, disse a pessoa de óculos vermelhos.

Como você sabe? Perguntou a de mãos na cabeça.

Porque o céu não existe. Se estamos mortos, estamos, pronto.

Mas tem que haver algum propósito, argumentou a de camisa estilo academia

Tem? Ironizou óculos vermelhos.

Claro, interveio aquela que era pouco maior que a criança

olha, eu não gosto muito de você, esse ar de presunção me irrita, o outro nem disfarça o racismo, a criança não para de comer e nem sequer nos oferece uma batatinha, tu só fica de mãos na cabeça enquanto o outro só dorme e…

Todos procuraram pelo último dos sete e encontraram-na já pequeninha como se a sala branca simplesmente se estendesse pelo infinito.

MEUDEUSDOCÉU! – GRITOU COM AS MÃOS NA CABEÇA.

É O INFERNO! O INFERNO EU DISSE! OLHA! NÃO TEM FIM!

E a doida! completou a pouco maior que a criança rindo

Calma, calma! Vamos pensar! Você falou uma coisa interessante. Lembrei de uma peça do Sartre, o inferno são os outros. Talvez este lugar seja realmente o inferno…

A mãos na cabeça começou a chorar, o que fez a criança parar de comer.

Então é isso? Vociferou a camisa estilo academia

Vamos passar a eternidade aqui olhando um para a cara dos outros?

A mãos na cabeça chorava alto e a criança estava começando a querer chorar.

Bom, pelo menos não é o inferno de sartre strictu sensus.

Como assim? Quis saber a camisa de estilo academia.

Nunca leu o inferno são os outros? É que na peça as pessoas são incapazes de fechar os olhos. E são só três também. Ah! E o inferno deles é um hotel que eles nunca conseguem sair porque são incapazes de resolver seus problemas uns com os outros.

Nós somos sete, ou éramos começou a pouco maior que a criança olhando para onde tinham visto a doida se perder na brancura

acho que nós representamos os sete pecados capitais.

Ela apontou para a criança.

A gula.

Apontou para aquela que dormia.

Preguiça.

E eu, o que eu sou? Quis saber a camisa estilo academia.

Luxuria.

E porque?

Af, olha pra tu, aposto como se masturba olhando no espelho.

E desde quando vaidade é luxúria?

Você não é a vaidade, querida.

Ah, é claro, é você né?

Não, é a senhora arrogante de óculos vermelhos descolados.

Isso eu não posso negar, disse a de óculos vermelho

Mas e você, han? Inveja?

Não, to mais pra fúria.

Gente, gente, e eu? E eu?

Tu meu bem é a avareza, só pensa em ti.

A isso, ela abaixou as mãos da cabeça.

Se estamos no inferno mesmo, eu posso te matar sua filha da puta!

Então vem valentona, vem!

Puta não devia ser um xingamento, falou a óculos vermelho para ninguém.

Calma gente, tentou apaziguar a camisa de academia inutilmente porque as duas já estavam trocando socos e se atracando no chão que começava a ser pincelado de vermelho.

A criança então chorou alto e as duas pararam.

Uma delas levou as mãos a cabeça e correu para a criança tentando acalma-la.

Olha, começou a camisa de academia, to pensando aqui. Talvez isto seja um reality show, han? O que vocês acham? Alguém nos drogou e nos colocou aqui.

Ah, claro, porque você adora ser observada né?

Olha, você tá começando a me irritar também.

Ótimo, as duas brancas vão linchar a neguinha, quero novidade!

Espera, meditou a óculos vermelhos. Tem alguns padrões estranhos aqui. Todas nos somos mulheres.

Desculpa, mas você não é mulher, disse a de mãos na cabeça.

Sou o que eu quiser ser. Vejamos, uma transgênero, duas brancas, uma velha e uma halterofilista, três negras e uma criança com síndrome de down, este com certeza não é um reality show!

Tem uns realitys bem bizarros na TV paga.

Mas pra pagar uma produção dessa envergadura? Olha para essa sala! Esses canais underground não tem dinheiro pra pagar um cenário tão gigantesco! E aquele prato surgiu do nada, vocês viram!

Então nós fomos sequestrados por alienígenas! Desesperou-se a mãos na cabeça.

Pode ser, concluiu a óculos vermelhos.

Não, senhora arrogância, você tem razão. Somos um grupo heterogêneo demais. De certa forma, aqui estão representados os grupos mais marginalizados da sociedade. Vamos lá, a gente não tá fazendo nada mesmo, quem sabe existe alguma coisa por trás disso? não foi você quem disse que os personagens da peça não conseguiam sair porque não paravam de brigar? Vamos tentar conversar, então. Eu começo. Meu nome é Dona. Na verdade é Madonna, mas eu odeio esse nome. Foi o machista do meu pai que escolheu, enfim. Sou estudante de direito e sei lá, sou meio doidona, ceis já viram né?

Ok, sorriu a óculos vermelhos. Faltou um pouco de sororidade nas tuas atitudes miga, mas de boa. Eu sou Maria Almeida Alcântara. Sou trans desde que me entendo por gente, assumida desde os 15, quando fugi de casa. Sou formada em História, História da Arte e adoro literatura, tenho três especi, hum, acho que isso não é importante. Sou casada há nove anos, tenho duas filhas maravilhosa, uns vinte cachorros e… é isso.

Sou Vanessa, mas podem me chamar de vanessão, também tenho sobrenome Almeida, engraçado, né? Sou fisiculturista e luto muay thai nas horas vagas. Adoro surfar. E amo séries de TV.

Ah, sou Vitoria Conceição Prado… ann, fui professora de letras na PUC… tenho três filhos… e meu marido morreu no ano passado.

A criança olhava fixamente pro prato vazio.

E você, bebe? Perguntou vitoria.

Cristina, disse ela sem tirar os olhos do prato.

Ok, disse dona

A preguiça continua dormindo, mas pelo jeito parece ser uma moradora de rua. E aquela que foi embora, sei lá, parecia uma mina negra rica.

É, parecia, concordou Vanessão

Então é isso.

Elas ficaram em silencio meditando sobre o que tinham escutado.

Não adiantou porra nenhuma essa merda, falou vitoria.

É, não custava tentar, falou dona.

Escuta, ann, Maria, né? Que que você falou antes? Que eu fui sem soro… como é?

So-ro-ri-da-de. É um conceito sobre uma relação mais amistosa entre as mulheres. Tipo, na primeira oportunidade que tu teve tu já caçou briga com a senhora vitoria.

Ei, foi ela quem veio pra cima de mim!

Ok, então.

Quem merda hein, disse vanessão

Será que a gente vai ficar aqui pra sempre?

A gente podia tentar fazer que nem a doida, arriscou Maria.

Vei, essas horas a bicha ta louca atrás da gente. Olha, o inferno pode ser ruim, mas ficar sozinho eu acho que deve ser muito pior.

Concordo, disse Maria,

Eu também, disse vanessão

Mas eu não, falou vitoria

Eu não gosto de você sua putinha nojenta.

As mãos de dona se fecharam em punhos.

É. Você se acha especial né? Porque está aqui conosco, não é? Acha que é uma de nós? Você é só uma revolucionariazinha brincando no playgroud que nós deixamos você brincar, mas eu vou te dizer uma coisa, escute bem, os pretos são marginalizados por um motivo, imbecil.

E qual é?

Cala a boca, aconselhou Maria para ninguém.

Anda, fala, qual é o motivo?

Porque vocês ainda são símios, só por isso.

Elas se engalfinharam outra vez, e agora dona socava violentamente a boca de vitoria, que ria enlouquecidamente.

Você não pode me matar, sua gorila! Eu sou seu demônio e você é o meu! Nós vamos ficar aqui e dançar pra sempre.

Dona agarrou o crucifixo do pescoço dela e puxou.

Não! Devolve! Devolve!

Você não merece usar isso sua excrota do caralho! Cristo não dizia para amar o próximo?

Você não é meu próximo, imunda! Você esta mais próxima dos ratos do que de mim!

É, disse a voz da preguiça

Essa ideia de proximidade está defasada num mundo globalizado como nosso. Acho que ame o mais distante como você ama a si mesmo fica melhor

Mas você é

Você

É…

Como?

Ah, eu sai andando andando andando… ai vi que não ia dar em nada e tentei voltar, mas nunca consegui achar vocês.

Mas como é possível que você estivesse aí dormindo se você estava aqui com a gente conversando?

Não sei.

A preguiça bocejou longa e vagarosamente e aí, voltou a dormir.

Então espaço e tempo também não fazem sentido aqui, observou Maria.

Acho que nos podemos ser pensamentos, arriscou dona.

Pensamentos? Perguntou Maria.

É, sei lá, somos os desejos reprimidos de alguém.

Ou podemos ser os personagens de um livro como em um mundo de Sofia, falou Maria.

Ah, esse eu li! É verdade, pode mesmo.

Mas e se for, pra que estamos aqui? Perguntou vitoria

Bem, basicamente, a ideia de um livro é passar uma mensagem, disse Maria.

E que mensagem seria essa? Perguntou vanessão.

Ah vei, pode ser qualquer coisa! Disse dona

Não, lembra dos padrões? O nosso grupo dissonante.

Hum, e ai? Vai, tu é a senhora dos livros!

Bem, somos um grupo de pessoas marginalizadas, algumas menos, outras mais…

Talvez seja o lance do amor mesmo.

Hum?

De cristo. O lance que a doida falou. De amar o mais distante.

Ah, é. Mas, se fosse isso já teria acabado né?

Talvez já tenha, mas pra nós é eterno, lamentou vanessão

Se for assim, o pessoal lá da peça do inferno tá até hoje discutindo…

Mas tem uma coisa

O que? – perguntou vanessão esperançosa

Tem um livro do Dostoiévski que se chama o idiota. O idiota é como Jesus cristo seria tratado por nós, os egoístas. O idiota é uma figura amaldiçoada pelo bem, ele é simplesmente incapaz de rejeitar um desejo, por mais perverso ou injusto ou triste que seja. O idiota é a criança!

Hum, um pouco preconceituoso você não acha?

Só na mesma medida de quando a vitoria quis te ofender te chamando de filha da puta.

Dona sorriu e era um belo sorriso.

Então nós só temos que pedir a criança para nos tirar daqui?

Af vei

Falou a voz da preguiça

Sério mesmo? é isso que vocês vão pedir? de tudo que vocês podem fazer pelo mundo, é isso que vocês vão pedir? Preguiça de vocês, viu.

Isso foi compartilhado 500 mil vezes no facebook. Não resisti.

12 Páginas de uma Revista Francesa (France Football) que resumem o Brasil em todos os sentidos:

Ok, vamos ver com funciona uma lavagem cerebral. Digo isso pq tenho conhecimento de causa. Já fui fascista de esquerda. Típico produto desta lavagem cerebral. Você passa a odiar o país em que vive, todo mergulhado ele em corrupção, e você, o incorruptível, é o único que vê a VERDADE, e ou se organiza politicamente na oposição com um discurso raivoso ou começa a destruir e a sabotar tudo pq tudo e todos são farinha do mesmo saco, menos vc.

– Apesar do lema brasileiro: “Ordem e Progresso”, o que menos se vê na preparação deste mundial, é Ordem ou Progresso. É claro! Quem escolheu esse lema? É interessante pensar em Ordem e Progresso num dos países mais desiguais do mundo. Ordem para que os pobres não se rebelem e Progresso para que eles tenham esperança.

– A FIFA não pediu o Brasil para sediar a Copa, foi o Brasil que procurou a FIFA e fez a proposta. Que Brasil? Há vários brasis. Um deles não gostou nada nada da falta de discussão quanto a sediar um evento caríssimo e fútil. E falo isso como petista.

– A corrupção no Brasil é endêmica, do povo ao governo. Repito: o brasil é um dos países mais desiguais do mundo, como não ser corrupto quando a própria sociedade promove a corrupção? Se vc acha que ver todos os dias dezenas de pessoas dormindo na rua e continuar indo pro trabalho ou pra escola não é corrupção, eu peço encarecidamente que você reflita sobre esse conceito.

– A burocracia é cultural, tudo precisa ser carimbado, gerando milhões para os Cartórios. Disso não posso falar, sou pobre, nunca precisei ir num cartório na minha vida.

– Tudo se desenvolve a base de propinas. Atire a primeira pedra o país capitalista em que isso não ocorre. O que ocorre é que há uma parcela significativa da classe média que está descontente com o governo e credita os males do país a corrupção desse governo. Quer ver? olha o tópico seguinte.

– Todo o alto escalão do governo Lula está preso por corrupção, mas os artistas e grande parte da população acham que eles são honestos, e fazem campanhas para recolher dinheiro para eles. Viu?

– Hoje, tudo que acontece de errado no Brasil, a culpa é da FIFA, antes era dos EUA, já foi de Portugal, o brasileiro não tem culpa de nada. Ele fala isso pq credita os males do país a “população burra que não tem culpa de ser burra, mas é mesmo assim” que votou no governo lula.

– O Brasileiro dá mais importância ao futebol do que à política. Porra, futebol (o esporte em geral) é bem mais legal que política, em que país não é assim? Eu respondo, os países chatos.

– O Brasileiro elege jogadores de futebol para cargos públicos. Isso é piada, né? E Ronald Reagan? não foi jogador, mas era uma celebridade como tal, o que sabia de política? Ora, sei lá, se voto em um candidato é pq me identifico com ele, não é essa a idéia de REPRESENTAÇÃO? Mas esse é o velho discurso de autoridade, como se o fato do cara nunca ter ido a escola o desqualificasse para representar quem quer que seja. NOTA: esse cara obviamente não se sente representado pelo governo lula. 

– Romário (ex-Barcelona) é hoje deputado. Aproveita o descontentamento com a Copa para se auto-promover, mas nunca apresentou um projeto de lei sobre saúde ou educação. Sua meta é dar ingresso da Copa para pobre(como se essa fosse a prioridade para um pobre brasileiro). Romário é um dos deputados mais atuantes da Câmara. Sem mais.

– O Deputado mais votado do Brasil é um palhaço analfabeto e banguela, que faz uma dança ridícula, com roupas igualmente ridículas, e seu bordão é: “pior que está não fica”. É, essa pessoa realmente detesta uma das caras do brasil.

– Em uma das músicas deste palhaço analfabeto ele diz: “Ele é ladrão mas é meu amigo!”, Isso traduz bem o espírito do Brasileiro (http://letras.mus.br/tiririca/176533/ ) Concordo.

– Brasileiros se identificam com analfabetos. Mentira. Eu me identifico, mas quem compartilha isso no face não.

– A carga tributária do Brasil é altíssima maior que a da França, e os serviços públicos são péssimos comparáveis aos do Congo. Ah, quem me dera viver na França onde não se tributa consumo, mas renda… ai de mim!

– Mas o Brasileiro médio pensa que ele mora na Suíça. Quem está lá, na verdade, é a FIFA. Oi?

– Há um dito popular que diz que “Deus é brasileiro”. Concordo.

– A FIFA, como imagem institucional, busca não associar-se a ditaduras. Tanto que excluiu a África do Sul na época do Aparthaid e, ao contrário do COI, recusou a candidatura da China, apesar das ótimas condições que o país oferecia. Mas o Brasil, sede da Copa, vive um caso de amor com ditaduras. Tipo, venezuela e irã, hum, já deu pra perceber que não foi um jornalista estrangeiro que escreveu esse artigo, né?

– O Brasil pleiteava uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, para sentar-se ao lado França, mas devido ao seu alinhamento com ditaduras, a França já se manifestou contrariamente. É, a FRANÇA, como se EUA e CHINA não fossem contra tb. Quem apoia a candidatura brasileira é a Alemanha, que quer entrar tb, e é a ALEMANHAAAA.

– A Presidente Brasileira parece estar alienada da realidade e diz que será o melhor mundial de todos os tempos, isso, melhor que o do Japão, dos EUA, da França, da Alemanha. (http://www.youtube.com/watch?v=urmR5fXMJu8 Pronto. Virou profeta que nem a presidente.

– Só ela pensa assim, na FIFA se fala em maior erro estratégico da história da Instituição. Desconheço os bastidores da fifa.

Continua…

3

O velho não dorme. Um sobrevivente de verdade só dorme desmaiado. Fica de pé, olhando a noite escorrer pela janela gradeada da Casa de Recuperação Vitória em Cristo. Ele gosta de ficar ali e sentir o vento noturno sacudir seus cabelos brancos. De vez em quando chora, noutras ri. As lembranças… as terríveis lembranças só trazem perda. Todas as lembranças são eu. Mesmo agora. O maldito eu. Não fosse o eu eles não poderiam me atingir. Eles… os malditos olhos! E se eu choro, o velho chora, impotente. Eu o vejo agora, segurando a grade da janela com força, rindo, com o rosto coberto de lágrimas numa caricatura do personagem esquizofrênico, ele pensa: Ridículo! Tudo se trata de você!

– Quer um cigarro, velho?

Quem interrompe nossas dores é o menino Lúcio. O velho limpa as lágrimas do rosto, mas se interrompe a meio caminho. Esconder as lágrimas era um cuidado da sua vida ceosa. Não, pensa, Lúcio precisa ver isso. Lúcio se parece com o velho. Lúcio sempre foi um bom menino, mesmo sendo aquele garoto de bochechas grandes e rosadas que está sempre no colo de alguém. Esse bom menino era muito quieto e sabia sorrir corretamente. Lúcio era o típico garoto prodígio. Foi, se não me engano, o primeiro aprovado do vestibular no curso de medicina da USP. Você pode imaginar o ritmo de estudos desse garoto: mais de 10 horas por dia! Esse menino passou mais tempo estudando que dormindo, você acredita? Sua cabeça funciona a mil com triângulos, números e palavras estranhas como autóctones. Com tanta informação não foi difícil para Lúcio chegar a razão deles. Antes da sua casa ser demolida, havia em uma das paredes o cálculo da vida. Existência igual a vida vezes tempo. Simples. Aniquilador. Tudo se resume a vida vezes o tempo. Sim, é simples, nós sabemos disso. Mas você não está vendo, não de verdade. Veja, o conceito de vida é muito simples, é um estado de consciência binário. Vivo ou morto. Assim, sendo 1 ≥ v ≥ 0, podemos quantificar nossa vida numa escala de 0 a 1. Por exemplo. Eu carrego aqui comigo 14 coisas. Então sou v/14. Mas isso sou eu, você pode adicionar o que quiser. Enfim, não interessa. Porque o tempo é sempre xis, e enquanto xis numa equação faz sentido, na vida xis não possui significado algum, isto é, zero. E tudo multiplicado por zero é zero. Isso, nada. Absolutamente nada. Pela matemática, Lúcio foi capaz de enxergar aqueles primeiros olhos, os olhos vazios que dividiram nossa existência. Imagine um sujeitinho muito peludo que tem seus vermes subtraídos por um outro sujeitinho peludo. Esse sujeito sente alguma coisa. Raiva. Tristeza. Decepção. Seja o que for, esse algo é 1. Esse sujeito vira ser quando torna v/1. Lúcio travou. Não havia porque continuar num mundo em que o sentido da existência consiste em dividir a vida. Mas no mundo deles uma engrenagem parada compromete todo o sistema. E todos os olhos caíram sobre Lúcio. Ele foi obrigado a negar. Foi aí que Lúcio começou a fugir. Como muitos, ele encontrou refúgio nas drogas, qualquer droga, mesmo açúcar. Vejo quilos e quilos de açúcar entupindo suas artérias ou qualquer outra porcaria que usasse para fracionar sua vida, quanto mais diluído estivesse menor era a experiência do nada. Mas agora Lúcio é um devoto. Um devoto é o tipo mais detestável de sobrevivente, é aquele olho que espia por uma fresta, um milésimo de segundo apenas, e se arrepende amarga e eternamente por ter olhado. No entanto, apesar de sua mediocridade exasperante, também é aquele por quem mais sentimos compaixão porque são eles as verdadeiras vítimas desse mundo. Repito, porque vocês persistem em não querer me dar ouvidos. Os devotos são as verdadeiras vítimas desse mundo. São como galinhas, aves que não podem voar mesmo tendo asas. Ora, quem pode condená-los? O que nos enoja é o que os motiva: a fé. Então Lúcio passou a chamar “E” de doença, deu-lhe um desses substantivos complicados com sufixo ‘-fobia’ porque o sufixo implica em tratamento, e tratamento em cura. Ah, todo devoto é, no fundo, no fundo, um inocente. Ou “E=0”.

– Obrigado, menino.

Nós, digo, o velho e o menino Lúcio, fumam juntos. Eles gostam de ficar ali, recebendo os primeiros raios de sol pela janela gradeada.

– Esse é o melhor sol do dia, comenta o menino Lúcio.

– É sim, concorda o velho com um aceno de cabeça, e completa: Você sabe que vai me matar, não é?

– Essa conversa de novo?

– Quero prepará-lo.

– Vá se fuder, porra. Sou um fiel servo de Cristo, agora.

– Sim, mas não se pode dizer que os carrascos de Cristo não eram seus adoradores.

– Ok, e por que é que eu ia querer te matar?

– Circunstâncias, você saberá quando a hora chegar.

O menino, um rapaz com seus quase trinta anos, obesidade mórbida, três tipos de câncer, cego, traga o cigarro com força antes de falar.

– Olha, velho, na boa. Você ta maluco, por que não aceita isso?

– É o que eles querem que você acredite, é importante, para mantê-lo vivo.

– É? E por que “eles” – Lúcio levanta os dedos para fazer o sinal das aspas  – iriam querer me manter vivo se sou só um problema pra eles?

– Ora, não banque o tolo pois a tolice de verdade não é cínica. Você sabe, sabe disso melhor do que eu, faz parte do propósito deles. Ouça, muitas pessoas morrem nesse mundo, muitas estão morrendo agora, agora mesmo, quem é você nisso tudo? Não, não, não faça essa cara, não faça que nem eles, você se parece com eles, mas não é, sabe disso. Você quebrou o ovo de um ganso, mas é uma galinha. Eles não podem reconhecer seu pensamento galináceo. Não podem. O pensamento deles é perfeito, uniforme. Não podem aceitar uma rasura como você. Porque não existem rasuras nesse mundo. Você é um número irreal. É um problema simplesmente, e um problema precisa ser resolvido ou, pelo menos, isolado. Mas deixá-lo morrer não, isso seria como reconhecer a existência do insondável, do xis, então, a dúvida: O que os olhos tanto vêem? Qual é o propósito desse deus se não for absoluto? A sua morte é uma declaração de cegueira do deus deles, enquanto sua vida é um teste de fé.

– Velho., vejo Lúcio segurar meu rosto com as duas mãos bem firmes, as marcas da sua última ceia me encarando com rancor. Ouço-o dizer que esse é o caminho da morte quando diz: Você é completamente maluco. Ele larga meu rosto, dá uma última tragada e joga o cigarro ainda aceso pela janela.

O velho eu cai de joelhos, cansado. Sim, eu sou louco. E esse é o caminho da morte. O velho pendura-se a janela para poder se levantar, termina seu cigarro e caminha para o refeitório aos passos de um moribundo. Lá, encontra os mais variados tipos de sobrevivente. Desespera-se pela maioria, são devotos, quase todos. Há um silêncio assustador no refeitório permeado por momentos de intensa gritaria. Explico. Apesar de ser possível ouvir os três ventiladores no teto girando suas pás, é preciso falar alto para ser ouvido, assim, a gritaria começa logo que o primeiro sobrevivente chega e pede seu café. “Um café, por favor”. Eles fingem não ouvi-lo e talvez esse fingimento seja tão honesto que eles de fato não o escutem de verdade. “UM CAFÉ, PELAMOR DE DEUS!”, aí o café é servido, com um sorriso. Não se esqueça do sorriso. É assim que você pode identificá-los. PRÓXIMO. Silêncio. GRITARIA. Silêncio. GRITARIA. SILÊNCIO. O velho entra na fila.

– Não vai tapar os ouvidos, velho?

Esta é Amanda. Amanda não gostaria que falasse de seus atributos físicos, porque consideraria isto machista. Amanda não gosta de ser vista como mulher, isto no sentido da identidade, como se ao dizer “mulher” você soubesse quem é Amanda. “A utilização cultural dos sexos parece servir unicamente para inferiorizar a mulher diante do homem. Mas isso, claro, só faz sentido porque nosso deus é feminista”. Amanda é uma feminista de formação. Aos 50, levava uma aposentadoria tranquila lecionando História como convidada em várias universidades do país até sua última ceia, um prato de violências tão brutais que ela ficou paraplégica. Amanda é uma fugitiva. Como todo bom sobrevivente, ela desenvolveu uma teoria muito interessante para legitimar sua fuga. Diz que somos personagens de uma história que pretende explorar a questão da existência colocando-nos em situações-limite. Para ela, nada mais somos que os pensamentos de um deus que tenta expiar as desgraças que o atormentam ao mesmo tempo em que há a crença mal formulada de que se pode passar qualquer lição valiosa para o mundo. Assim, todas essas nossas angustias e sofrimentos são apenas elementos de uma narrativa inspirada nas mais bizarras tolices cristãs dostoiévskianas. Mas o mais importante é que o enredo baseia-se em uma espécie de competição. Aquele de nós que chegar a uma conclusão satisfatória para ele, porá ponto final à história. Perguntei a ela se essa era sua conclusão. Sim, respondeu, mas parece que não sou a personagem principal da história. Amanda está sempre interessada no que o velho faz porque acha que ele é a personagem principal dessa história.

– Não vou tapar os ouvidos. Eu cansei de fugir.

– Todo sobrevivente diz isso. Sempre significa outra forma de fuga. Palavras suas., comenta Amanda a partir de um caderninho vermelho de páginas quase pretas.

– De novo isso?

– Claro. Estou documentando. É histórico isso, sabia? Você ri, mas eu vejo a dor no seu sorriso, senhor.

– Você vê? O que você vê, Amanda?

– Vejo a personificação da identidade cristã, os sonhos de uma humanidade esfacelada, alguns farelos que reluzem ao sol, cheios, não, transbordantes de esperança, é lindo, trágico, ridiculamente cômico em sua coragem cafona, é o velho discurso do amor, dos dentes tortos e sujos às mãos enrugadas e trepidantes. Neste cenário barbaramente simplório, vejo o coração deste mundo bater mais alto.

– Você devia anotar as coisas que diz também.

Amanda encara o velho por um momento e então se lembra de anotar o que ele acabara de dizer. Chega a vez do velho na fila. Ele quer café com leite, mas não grita por café com leite. Eles fingem não vê-lo, então o velho estica a mão para se servir.

– VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO., diz um deles. DIGA O QUE VOCÊ QUER E EU LHE SERVIREI.

– Eu disse, mas vocês estão surdos para tudo o que dizemos.

– OI? COMO É?

– Escutem, irmãos!, o velho se vira para o refeitório. Ouçam essa oração, é um canto que irá falar aos seus corações.

– Ei velho! O que você está cochichando aí? Saí da frente, estamos com fome!

– O seu estômago pode esperar, amigo, isso é importante., Amanda grita empinando sua cadeira de rodas para frente do velho. Ouçam! Ouçam!

Há um deus que rege nossas vidas, que nos diz o que fazer, o que comer, que hora levantar e que hora deitar. É o tempo e o tempo somos nós. Esse deus possui mil olhos, vigilantes, sedentos. Olhos que me encaram agora, sim, vocês. Vocês são os olhos desse deus, sua voz e sua mão pesada. Por que estamos aqui? Não são essas paredes que nos seguram, somos nós!

– FILHO! FILHO!, este é o pastor B. VOCÊ ESTÁ POSSUÍDO POR UM DEMÔNIO! DESÇA DAÍ, OUÇA A RAZÃO!

– Que razão, pastor? A sua? Esse deus não é real, sinta! É absurdamente simples. Dispa-se de qualquer vontade, não deseje nenhuma explicação racional, aceite o NADA, simplesmente porque nada faz sentido. É só uma escolha. Uma aposta no vácuo. Uma única verdade fundamental: não existe verdade. Somos surdos para o universo. Deus é só um grito desesperado diante do silêncio., alguém grita lá no fundo do refeitório. Isso, prossegue o velho, mas pense comigo, se não existe verdade, se nada existe, podemos fazer tudo, inclusive a verdade, ouçam! O poder só existe quando estamos juntos em espírito, quando minha voz toca seus ouvidos. São Vocês, Vocês são Deus. Vocês são Jesus Cristo. Isso, Jesus que significa Juntos e Cristo que quer dizer Muitos, Milhares e Infinitos. Houve uma época que Muitos se levantaram. Todos eles se achavam deus e reuniram-se para salvar o mundo. Morreram os coitados. Todos eles. Foram crucificados pelo cu ao contrário do que diz nossa candura histórica hipócrita. Era um sinal, o cu.

– CHEGA! TIREM-NO DAÍ! AGORA!

Ordena a senhora A., fundadora e gerente da Casa de Recuperação Vitória em Cristo. É quando um milhão de mãos agarram o velho e o jogam no chão do refeitório. O velho sente o peito esvaziar-se quando um ou dois joelhos esmagam suas costas. De baixo o velho observa com espanto seus irmãos tomando o café da manhã tranquilamente como se tudo aquilo fosse a coisa mais banal do mundo. O velho chora. E começa a rir.

– Vejam irmãos! Muitas são as mãos que me seguram! Vejam, está diante de vocês! Estendam suas mãos e verão, são vocês, seus olhos! Lembrem-se, os mesmos olhos que salvam são os olhos que condenam. Lembrem-se, Juntos, Muitos foram assassinados! Esse deus matou suas irmãs e irmãos também, assim como tias, tios, avós e pais e mães! Matou seus filhos e os filhos deles também! E depois queimou! Queimou tudo porque corria o boato de que eles podiam se levantar do tumulo!

– FAÇAM ELE CALAR A BOCA!

– Nunca se viu pira maior na história! Sua fumaça parecia vir de um vulcão! O céu ficou negro por três primaveras e aquela foi a noite mais longa da história do mundo! Não se pôde dormir direito com o cheiro da morte! Esse inverno acabou despertando os outros, que olhavam para o céu negro espantados com suas lágrimas!

– Larguem ele seus trogloditas!, Amanda avança sobre os homens que estão sobre o velho. Ela acerta a cadeira na cabeça de um deles, que se levanta furioso. O pastor B intervém pedindo calma. A senhora A tenta puxar Amanda para longe da confusão, mas ela se vira e morde a mão da mulher.

– ELA TAMBÉM ESTÁ POSSUÍDA, PASTOR!

– PARE MINHA FILHA!, o pastor B grita se interpondo entre Amanda e o velho.

– Saia da frente, pastor! Estão machucando ele!, quando o pastor se vira, Amanda aproveita para passar por ele, mas o pastor logo percebe seu movimento e segura a cadeira, que vira com a força, derrubando Amanda.

– Vamos, Amanda, mostre para eles a sua força, a força de deus! esguicha o velho.

– Não posso! Amanda grita, o rosto coberto de lágrimas.

– Você pode! Sabe que pode!

Amanda se lembra dos seus filhos, lembra do marido torturando-os. Amanda diz pra si mesmo que essas lembranças não são suas. É uma ficção tudo isso e o velho é a chave! Então Amanda estica os braços e solta um urro enorme que muitos diriam depois que foi algo como EU POSSO TUDO NESSA PORRA! ou NADA EXISTE NESSA PORRA!, ela dobra os joelhos e cambaleante, põe-se de pé. O pastor joga as mãos sobre a cabeça de Amanda e começa a rezar um pai nosso. Ela cai de joelhos.

O velho ia gritar alguma coisa, mas a chave de braço que aperta seu pescoço finalmente deixa seus pulmões vazios e ele desmaia.

A ideia de desenvolvimento me dá dor de barriga porque, para fazer uma analogia, é como se o desenvolvimento estivesse para um país como a educação está para o vestibular. Infelizmente, é assim que a maioria dos países planejam seu futuro, uma meta medíocre do meu ponto de vista.

É tornar a experiência da vida num evento burocrático. Sério, não sei como vcs não se espantam com isso.

Do jeito que eu vejo as coisas não haveria sistema, não haveria alguma coisa exterior a mim que guiasse minha existência, de certa forma, o capitalismo comporta isso em algumas camadas, e acho que foi exatamente isso que Marx viu quando pensou numa sociedade comunista em que as pessoas não seriam mais governadas, governariam. Não seriam metas de inflação, nem crescimento do PIB as pautas políticas, seria: o que eu vou comer amanhã? Com quem? O dinheiro não é o problema, nem o lucro necessariamente, mas a estrutura colossal criada para a defesa de privilégios que se perpetua, os famosos burgueses que hoje são tanto os donos dos meios de produção quanto uma cúpula burocrática estatal. O socialismo foi uma tentativa de acabar com esses privilégios por uma “ditadura do proletariado”, em que Marx colocou a força como a única forma capaz de se contrapor aos poderes quase que ilimitados desses “burgueses”, vimos que na prática essa ideia produziu coisas tenebrosas, tanto quanto o sistema que se propôs derrubar. E é aí que entra minha inquietação: eu sei que o capitalismo é ruim por conta da defesa desses privilégios, NADA do que vc me dirá irá mudar o fato de que as pessoas nascem materialmente desiguais no capitalismo, e que mesmo quando ao longo da vida se possa subir a pirâmide social, o meu sucesso só legitima a existência do fracasso.

Nós limpamos sua casa, recolhemos seu lixo, fazemos sua segurança, quando vc envelhece limpamos até seu cu, por que nós ganhamos menos?

Nós limpamos sua casa, recolhemos seu lixo, cuidamos dos seus filhos, fazemos sua segurança, quando vc envelhece limpamos até seu cu. Por que nós ganhamos menos?

No entanto, aquilo que Marx pensou como solução ao sistema fracassou estrondosamente, bem, está na hora de pensar outra coisa não? O que? Não sei. Mas uma coisa eu posso dizer que aprendi com Marx, a revolução não se faz pela força.

A questão é a democracia

Publicado: 25 de abril de 2013 por Bill em Tudo Mais
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Eu teria calma antes de julgar esse projeto pois o limite entre Judiciário e Legislativo não é tão evidente assim, ele não brota da natureza nem é enviado por deus, a ocasião do projeto parece bastante oportunista, mas qual não é? Vide o caso recente de discussão sobre maioridade penal.  A discussão agora foi provocada pela decisão do STF de prender imediatamente os deputados condenados no processo do mensalão, decisão essa que não foi unanime, muito pelo contrário, o resultado foi 5 a 4 – quatro ministros entenderam que, apesar da perda dos direitos políticos, caberia à Câmara deliberar sobre a cassação do mandato. Os demais – que venceram a votação – entenderam que a decisão do Supremo é definitiva e não precisará passar por deliberação da Câmara.

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Nesse caso especifico, até onde vai o poder judiciário? Não seria a decisão do povo superior às competências técnicas do judiciário quando é esse povo a razão da existência de tais instituições? Há o pressuposto de que o judiciário deve “proteger o povo de si mesmo”, como no caso da união homoafetiva que muito provavelmente não teria sido aprovada no Congresso, este pressuposto evoca outro que é a ideia de que “o povo” não sabe o que é bom pra ele. Caímos numa questão moral e é nela que devemos basear nossa análise quando o Legislativo deseja a submissão de algumas decisões do STF: o Legislativo tem caráter eminentemente representativo, não seria a ele que caberia a decisão final? Mais: nesse projeto caso haja discordância entre Judiciário e Legislativo, dá-se a consulta popular, então, em última instancia, quem tem o poder é a população. O questionamento desse projeto analisando todas as questões implícitas não é de tão fácil resposta, pois os limites não difusos para não dizer impossível pois o conceito de democracia não comporta a separação de poderes, pois o “governo do povo” é regido pelo povo, então passamos a trabalhar com o conceito de democracia representativa, ok, o povo é representado democraticamente (isso sem falar em ficha limpa, proporcionalidade, etc) mas não uma instancia como o Executivo (apenas parcialmente eleito) e Judiciário (apenas parcialmente eleito e somente indiretamente).

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Tratando especificamente desse projeto, pois as implicações do conceito de democracia na sociedade atual são infinitas, afinal, que democracia queremos? É do povo a palavra final? ou esse povo não está preparado? ou até mesmo nunca estará, será sempre refém de acontecimentos circunstanciais, de paixões, de moralismo, etc? Não é ao povo que a sociedade devia servir?

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Ou uma vez que esse povo não exista, sendo também ele uma invenção assim como o conceito de democracia, a sociedade não deve servir ao brado popular que vincula-se ao desejo da maioria, mas sim equalizar todos os interesses? Seria o Judiciário o palco dessas equações? Sabemos que o senso comum é destrutivo e nem preciso entrar muito em detalhes, basta dizer que para ser comum ele afasta o incomum, o diferente. Mas aí também não seria vivermos sob o regime daquela sociedade preconizada por Platão em A República onde os homens seriam governados por reis filósofos? Quão distantes estamos disso se a última decisão sobre as coisas é do Judiciário?

Ladrão! Preto! Gay! Nordestino!

Ladrão! Preto! Baitola! Nordestino!

Não sei qual é o caminho, mas uma resposta fácil como dizer que o projeto é um golpe deveria pelo menos ser vista com ressalvas e levar a sério essa discussão sobre os poderes, pois nós precisamos  deixar claro para quem, para quê e como a sociedade funciona. Esse projeto é um bom começo, pena que a opinião pública já enterrou o debate.

Ao entrar no Facebook deparei-me com a seguinte imagem:

Um ficha suja...

Um ficha suja…

Por onde começar? País do pão e circo… sim… futebol, samba, bolsa-família, tudo leva a crer que esse é o país da farra e da vagabundice, onde a seriedade fica em segundo plano, em que o povo prefere viver de esmola a trabalhar e que, por consequência, políticos como o da foto (o senador Renan Calheiros, de Alagoas) conseguem se eleger ano após ano, mesmo em meio a enxurrada  de denuncias de corrupção. Mas, deixe sua raiva de lado, esqueça o que a mídia veicula sobre esse político, e sobre os políticos em geral, esqueça disso tudo só até este post terminar, não vai durar muito, prometo, e se ainda assim, depois, você continuar a olhar para essa foto e dela fazer o mesmo juízo, dou minha missão por encerrada e juro nada mais escrever a respeito.

Respire e conte até três.

Abra seu Facebook e veja as imagens compartilhadas a respeito da eleição da presidência do Senado. Olhe para a imagem que abre este post. Leia atentamente. Quem é o culpado pela catástrofe dessa eleição em última e primeira instancia? A última frase da foto responde essa pergunta quase isentando o político de culpa, pois ele é “ficha suja”, nem sequer devia estar lá, se está, não é sua culpa. Escorre pelas beiradas desse discurso um ácido antidemocrático tão cáustico que cega essas ditas pessoas “esclarecidas” sobre um pequeno, mas fundamental pacto da civilização moderna ocidental: o sufrágio universal. Vamos lembrar que somente com a constituição de 1988 o Brasil reconheceu o direito de voto aos analfabetos. O golpe completa em 2014 50 anos e vemos o mesmo discurso acerca da população brasileira “ignorante e burra” demais para votar. A imagem é bem clara, exigi sem rodeios a volta do voto censitário pois pobre não sabe votar. Lê-se claramente que pobre é refém da barriga, pobre é preguiçoso, pobre é burro e isso diz tudo que precisamos saber. Pressupõe esse discurso que uma pessoa educada sabe votar melhor. Mas o que é melhor? Por muito tempo o melhor estava concentrado nas mãos do Rei, ele sabia o que era melhor, o povo acreditava nisso, e os nobres e os clérigos se aproveitavam disso. Mas algo mudou desde então. Alguns começaram a questionar o fato do poder ser de poucos e que esses detinham o saber, a clarividência do “melhor”, onde seus melhores argumentos estavam no fato desse “melhor” ser melhor só para uns bem poucos mesmo.

"Se o povo não tem pão que comam brioches"

“Se o povo não tem pão que comam brioches”

Quem pode guiar-nos para o “melhor”? Platão imaginou uma sociedade governada por filósofos, será? Poderão alguns homens saberem o que é melhor para os outros? Você. Você sabe o que é melhor para si? Quantas decisões são tomadas diariamente e nos arrependemos delas quase no instante em que a tomamos? Quem de nós pode nunca errar? A civilização ocidental não encontrou resposta para isso, mas da dúvida elaborou um modelo, um modelo que serve a todos os homens, sem fazer juízo de valor sobre “melhor” ou “pior”, eis a democracia, uma ideia absolutamente original, e incomoda como estamos a ver, que como prática, tem suas falhas, mas dessas falhas nenhuma delas é a de que um homem detém poder absoluto para dizer o que é ou não, todos seus julgamentos são alvo de julgamento posterior e só assim pode-se imaginar algo próximo a isso que chamamos de justiça. Justiça, leia bem, nem melhor, nem pior, justiça somente. Você deve estar a alvoroçar-se, mas controla sua fúria e diz num timbre que aparenta calmaria: “Mas tudo isso não exclui o fato de que Renan é corrupto”.

É mesmo? Quem é você para o julgar? Pensei cá modestamente que tivéssemos instituições para fazer esse tipo de julgamento, estou errado? Agora você deixa a paciência de lado e expõe-se sem censuras: “São instituições corruptas também! TCU, TJ, todos seus membros são escolhidos pelos corruptos! Todos são corruptos!”

Você só acredita nas instituições quando lhe convém, quando elas prescrevem da sua receita de “melhor”. Com o ficha limpa você pensou que não veria mais esses políticos corruptos, mas eles estão lá e sua única saída é xingar a população de ignorante e burra. É amigo, sinto dizer, mas isso é democracia, não adianta xingar os alagoanos, os baianos, os cearenses  os maranhenses, os piauienses, eles votam em quem quiser e nem sua tentativa tola de impedi-los de votar funciona tão bem quanto acreditava. Aprenda a conviver com isso, pois se você reparar, esse seu discurso de “povo ignorante e burro” chama alguém, uma alguém especial, um líder supremo, um homem que sabe o que é melhor, detentor da justiça e da verdade. Continue a chamar esse homem e quando ele vier não adianta chorar e muito menos pedir para que os burros e ignorantes te salvem, eles serão os primeiros a te atirar à fogueira e rir-se de tu queimando, não esqueça, você fez de tudo para que eles te vissem como inimigo.

Quem é o palhaço?

Quem é o palhaço

Se o palhaço é alguém que provoca risadas, ao olhar para ti, não tenho dúvidas, estou a morrer de rir. É pena, essa risada me entristece.