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A ideologia vive

Publicado: 2 de maio de 2011 por Bill em o Universo
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Oposição vive momento de crise de identidade

A “notícia” estampada nos jornais de todo o país anunciava a debandada de boa parte dos deputados e vereadores do PSDB e do DEM para o recém-criado PSD de Gilberto Kassab. Partido esse que sob o comando do prefeito paulista, apóia o governo federal e o governo paulista, postura rejeitada pelo partido que, até pouco tempo atrás, Kassab fazia parte.

Pergunto. Que crise é essa se a oposição há 20 anos governa o estado mais rico do país? Sem falar em Minas, Goiás, etc. O próprio DEM que muitos já anunciavam sua extinção conquistou os governos de Santa Catarina e Rio Grande do Norte, melhor resultado que em 2006 quando ganhou somente no Distrito Federal, que embora abrigue a capital do Brasil tem pouca relevância do ponto de vista eleitoral. Se a vida política se garante sobre resultados eleitorais, a oposição vai muito bem obrigado.

Por que Kassab deixa o DEM quando a legenda vive seu melhor momento desde 2002?

A tal crise vem de outra ordem.

No plano nacional, o PSDB se juntou ao DEM, na época PFL, para formar o bloco parlamentar do governo. Em 94, tudo foi às mil maravilhas, o milagre do plano real brilhava nos olhos da classe média que podia ir às compras tranquilamente desde sabe-se-lá-deus-quando. As eleições de 98 estavam garantidas. Aí começou um movimento que é muito comentado, mas pouco discutido em suas consequências efetivas. O governo aprovou mesmo sob protesto ferozes da oposição a emenda da reeleição para presidente da República. Era o golpe branco de FHC. Um golpe não na oposição ou mesmo na República, alterar a Constituição em seus regimes eleitorais por mais que doa o coração faz parte do jogo. O golpe desferido por FHC atingiu sobretudo seu próprio partido. Há quem apressadamente argumente que o PSDB não tinha um político a altura do ex-presidente e que havia a ameaça do PT. Balela. Em 98 foi oba-oba, o PT nem chegou a fazer sombra ao PSDB. O caso é que Fernando em vez de pensar no futuro do partido, logo, em seu sucessor, decidiu que seria ele a colher os louros  depois que seu governo teve que sacrificar inúmeros investimentos para dar conta do arroucho fiscal que o plano real exigia. Era a hora da bonança e seria ele, Fernando Henrique Cardoso, pseudo-mentor do Plano Real, quem colheria os frutos tão duramente plantados. Foi um desastre. A política implantada mostrou-se incapaz de promover o crescimento econômico, os louros nunca viriam porque a lógica do plano Real mostrou-se perversa até mesmo para seus formuladores. Calcada em redução dos gastos públicos e juros altíssimos, muitos economistas, árduos defensores do Real, tentavam explicar por que o Brasil não podia crescer ainda.

Um assalto na calada da noite. As privatizações marcaram a fogo a memória do brasileiro. 

O problema do PSDB partiu da sua cartilha neoliberal. Uma resposta aparentemente simples dada a extensão da crise, mas é um tremendo engano achar que sua resolução é fácil, justamente porque o problema não é. Se José Serra tivesse comandado a legenda (ele é fraco demais para isso por N fatores), o PSDB teria um perfil bem diferente deste visto agora. Aliás, sem um perfil definido, o partido vive uma crise ideológica (que pode ser traduzida como uma crise de identidade), pois suas crenças mostraram-se erradas. Tal crise não é resultado de três eleições presidenciais consecutivas perdidas, mas simum sintoma de que algo está errado, afinal, o discurso não está convencendo. Convicção, esse é o problema.

Cardoso acreditava na política liberal, ele não acreditava no Brasil.

Para complicar ainda mais a confusão ideológica que o PSDB atravessa, o PT abraçou um espectro considerável dos gentis conservadores ao flexibilizar ou mesmo negligenciar bandeiras históricas do partido como o repúdio aos juros absurdos praticados pelo BC na época (e ainda hoje muito acima da média). Oportunismo, para os mais reacionários; pragmatismo, para os petistas e traição, para os ex-petistas.

Pragmatismo ou traição?

Fato é que essa guinada do PT sob o comando do ex-presidente Lula para a centro-esquerda desnorteou completamente o PSDB muito mais do que não ter uma raiz na sociedade, pois embora ela não tenha sido tão ramificada (ou profunda) quanto a do PT, é preconceito afirmar que não tiveram uma. Tiveram sim, só que bem diferente daquela do Partido dos Trabalhadores. Mas sinceramente, isso não significa muita coisa. As raízes da UDN eram muito profundas e eles também ficaram muito desnorteados quando Vargas nos anos 50 voltou (como ele mesmo prefetizou) “nos braços do povo”, que tal qual o PT (ou seria o contrario?), tinha uma ideologia mais fluida, (dificílima de combater, pois os dogmas são relativizados) e ainda que se possa argumentar que seu governo não era de esquerda, há de se admitir que Getúlio contrariava muitos interesses da direita que convenhamos era (ainda é) muito mais poderosa do que a esquerda.

José Serra na campanha presidencial sabia qual era o melhor caminho para o PSDB, enterrar o passado (esquecer, ou fingir que esqueceu, os erros, isto é, o apoio a política de FHC) e começar tudo de novo. Se tivesse conseguido se eleger, provavelmente quem estaria em crise agora seria o PT. Pegue o artigo do ex-presidente Cardoso tentando mostrar um caminho ao partido, um caminho que respeitasse o seu legado e no entendimento dele, o próprio partido. Já diria minha vózinha “muito ajuda quem não atrapalha”. O PSDB passa por uma crise justamente porque tem em tese uma ideologia social-democrata, mas praticou no governo FHC a liberal-democracia. Aí vem o ex-presidente dizer que deveriam parar de falar para as grandes multidões e se voltar para um público mais restrito, daí a confusão ideológica. Muitos dentro do partido acreditam na social-democracia e viram por 8 anos os petistas governarem do jeito que eles deveriam ter governado. A critica ao artigo do ex-presidente também é partidária. Esquecer o “povão”? Que social-democracia é essa que vira às costas para as massas? O ex-presidente Cardoso insiste em ser lembrado quando já devia ter se despedido da vida política, como ele mesmo fez com suas idéias.

Façamos um exercício mental especulativo. Imaginem que o resultado do segundo turno de 2010 tivesse sido diferente (lembrem-se da pequena diferença do segundo turno). Então veríamos o ex-presidente Lula tentando recuperar o ânimo dos derrotados não é mesmo? Tendo que responder a perguntas do tipo: O pragmatismo funcionou? Por que o ex-presidente Lula do auge de seus mais de 80% de aprovação não conseguiu eleger o sucessor? A tese da direita de que Lula é louco por holofotes iria pesar no debate. Teria o ex-presidente escolhido propositalmente um candidato mais fraco para que sua imagem não fosse eclipsada? Colocar a figura do ex-presidente em xeque, sem dúvida seria o o inicio de uma crise que poderia devastar o partido, já tencionado pela variedade de tendências ideológicas dos seus membros (muitos não engoliram até hoje a escolha de Henrique Meirelles para o BC). Afinal, a opção pela flexibilidade ideológica provou-se errônea. Percebam como o que ocorre com o PSDB é justamente isso, o partido perdeu seu líder ideológico e ficou desnorteado. Muitos dentro do PT fazem cara feia para a política macroeconômica adotada, mas aceitam porque confiam no Lula. Como muitos do PSDB confiaram em Fernando. Só para fechar nossa viagem imaginativa, e fixar uma diferença importante, pense em Lula sendo questionado internamente pela derrota, mas gozando de alto prestígio Brasil afora.

Em 2002, o povo estava insatisfeito com o governo, os próprios tucanos não tinham esperanças de vitória. Em 2006, apostaram no repúdio da população aos sucessivos escândalos de corrupção, deixando a ideologia em segundo plano. O vencedor da disputa interna foi Geraldo Alckmin, um político bem mais identificado com os ideais puritanos da direita do que José Serra. Nas eleições de 2006, o que marcou não foram as acusações de corrupção de Alckmin, mas principalmente sua falta de convicção em defender o legado do governo FHC, sabia que os erros da gestão tucana eram indefensáveis, mas o que fazer? Essa pergunta martelava o rosto de Alckmin nos debates.

Em 89 o PIG (apelido cartunesco dado à mídia conservadora) era capaz de eleger um presidente.

No dia 14 foi ao ar no Jornal Nacional a edição do debate presidencial entre Lula e Collor

Em 2010, José Serra se lança não somente candidato para presidente da República, mas fundador de um novo pensamento no PSDB. Reconhecia os êxitos da gestão petista e considerava que poderia fazer melhor. O que não podia era defender o ex-presidente Cardoso. Se ganhasse, FHC seria enterrado definitivamente. No entanto, Serra não conseguiu desfazer a impressão deixada pelos tucanos no governo federal. A crise do sistema financeiro mundial mostrou que o Estado mínimo bancado pelo FMI e que o PSDB aceitou de bom grado, estava terrivelmente errado. Não que os brasileiros não soubessem disso, mas a crise salientou a diferença abismal que separava os dois governos.

Enquanto FHC some, Lula aparece.

Agora fique atento ao comportamento eleitoral do brasileiro na última eleição diante da seguinte sentença: O neoliberalismo é uma ideologia definitivamente fracassada (pelo menos atualmente). Então a escolha concentra-se em Plínio do PSOL, garantia de Estado forte, mas muito radical para o gosto da maioria; Marina Silva, ex-petista, seu perfil deixa dúvidas quanto ao seu esquerdismo, logo a possibilidade de um Estado fraco; Dilma do (pelo) PT, garantia de Estado forte, mas muitas atitudes denotam sua proximidade com a direita e José Serra, que também é garantia de Estado forte só que não deixa dúvidas do seu vínculo com a direita. Essa foi a cisão nas eleições de 2010.

Abaixo um esquema de como fica o ciclo ideológico brasileiro ultimamente:

Ciclo ideológico dos partidos brasileiros

PV e PMDB agregam diferentes matizes, por isso são de centro, embora isso seja uma simplificação didática e altamente questionável. PT e PSDB são puxados para o centro por conta de seus respectivos candidatos, ainda que tenham uma identificação ideológica diferente destes. Repare na tensão que existe. Enquanto o PT é puxado pela direita, o PSDB é atraído pela esquerda.

Embora o terrorismo religioso tenha conquistado muitos votos para o PSDB, foi o fato de Dilma e Serra terem perfis muito próximos um do outro que provocou o racha eleitoral. Só que a batalha de Serra era muito mais difícil que a de Dilma, enquanto ele tinha que lutar contra o fantasma de FHC, Dilma tinha o escudo enorme e reluzente do ex-presidente Lula, por isso o tucano jogou sujo, aceitando a baixaria que seus aliados insulavam, para que driblasse a desconfiança dos mais conservadores (contingente considerável) com a chantagem ideológica de que ao contrário de Lula, Dilma não teria legitimidade dentro do PT para conter as alas mais radicais. Sem dúvida o grande erro de estratégia de Serra. Ao tentar conquistar o apoio dos conservadores que votaram em Marina, o PSDB polarizou ideologicamente a disputa, que era tudo o que o PT mais queria. Ora, sem mais, era só confrontar os 8 anos do PT com o do PSDB. Até para quem tinha votado em Serra no primeiro turno recuou diante do radicalismo do tucano, afinal, ficou fácil identificar a ideologia dominante no PSDB.

Sem propostas diferentes, o discurso caiu na baixaria

Mas, e agora? Serra sai derrotado da disputa e não tem legitimidade para traçar o caminho a ser seguido pelo partido, embora seja a sua, a idéia mais acertada. Talvez por isso tenha cruzado os braços diante do surgimento do PSD encabeçado por Kassab, legenda que certamente iria enfraquecer a oposição. De duas uma: ou o ex-governador pretende ingressar na legenda para escapar do passado maldito do PSDB ou aproveitar o enfraquecimento da legenda tucana e tomar as rédeas da situação. Um aviso importante para a oposição: Serra conseguiu 40 milhões de votos no segundo turno, mas enquanto FHC era colocado de lado no programa eleitoral do partido, a figura de Lula era no mínimo respeitada quando não enaltecida. Numa análise apressada e descuidada pode parecer personalismo, mas a meu ver Lula é claramente uma escolha ideológica do eleitorado brasileiro. Ironicamente, quando temos um novo partido social-democrata sendo criado, muitos apontam a falência do sistema político brasileiro pelo aspecto unitário de busca eleitoral sem perfil ideológico. Pode ser, mas para mim, tal conclusão é redutora e cínica da realidade. O PSD surge para atender carências ideológicas que DEM e PSDB não são capazes de suprir, seja por vícios ideológicos ou por interesses particulares de alguns caciques. Quando o PDS não se coloca como oposição, é uma posição pragmática sim, mas que não deixa de ser ideológica. Afinal o PT agora representa a social-democracia e para se opor a esse projeto ou você é socialista ou liberal e nós já sabemos, pelo menos no plano nacional, a preferência ideológica do brasileiro.

 

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido, flamenguista, mineiro, sagitariano, petista, boêmio, metaleiro, tonto, divertido y dulce… um comunista pero no mucho. Ξέρω ότι δεν ξέρω τίποτα, em outras palavras: boa noite bill!

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