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Voo insone

Publicado: 8 de setembro de 2013 por Bill em Tudo Mais
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Você passa tanto tempo sem dormir que não consegue mais separar realidade de sonho. Ainda mais quando vivemos num mundo que poderia muito bem ser a imaginação de um anão que conseguiu subir no pé de feijão e, sem encontrar a galinha dos ovos de ouro, pintou ovos comuns de dourado sem saber que o ouro nem dourado é. Estou sonhando. E o sonho é um pesadelo. A história é um pesadelo e o futuro é assustador. Teoricamente, se as coisas acontecem na minha cabeça, eu tenho controle sobre elas. Mas não. Não me arrisco a voar, e cair na realidade. Tenho medo do fim. É duro admitir isso. Mas tenho medo do fim. Meus olhos estão pesados. Será que posso dormir dormindo? Durmo e acordo. Não. Durmo somente. É difícil acordar sem estar dormindo. Ás vezes penso no significado de tudo isso e me vem aquela vontade louca de subir no prédio mais alto e pular. Pular não, voar. Dizem que não posso. Eu digo secretamente que não posso. Ora, ninguém sabe. Até eu pular a caixa de Schrödinger está fechada. O nosso bom senso diz que é impossível, mas eu já sonhei que fui uma galinha e nesse sonho todas as galinhas sabiam voar mas tinham se convencido do contrário. Quando eu vou parar de sonhar e voar?

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Com certeza você já viu um deles. No cinema, em uma festa qualquer, no engarrafamento das 18 horas. Pode até ser vizinho de um. São quase sempre médicos ou advogados por volta dos 40 anos. Fazem caminhada toda manhã, mesmo nos feriados e fins de semana. Às vezes em companhia do cachorro. Costumam morar em residência própria, vestir-se casualmente e ter carros esportivos. Eles seguem um padrão de propósito para divertir-se conosco. São irritantemente simpáticos e asseados, o que provoca uma situação curiosa. Faça o teste: tente cumprimentar um deles. Você vai vê-lo sorrir desagradavelmente, balançar a cabeça e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder totalmente ao seu cumprimento. Só vai continuar sorrindo. É assim que podemos identificá-los. Quanto a mim, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta sobre sua última ceia.

Minha irmã começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas. O cara era um doutor. Minha irmã o conheceu quando um de seus alunos passou mal e ela o levou ao hospital. Ainda posso ouvi-la se derretendo sobre ele “Tão prestativo, tão atencioso, nunca tinha conhecido um médico assim!” A idiota da minha irmã sempre foi muito carente, lembro que ela se apaixonou por um amigo meu só porque ele a ajudou com as compras. Chegaram a namorar por um tempo. Quem sabe se esse meu amigo não fosse um imbecil, eles ainda estariam juntos e, bem, evitado o pior.

Acompanhei minha irmã marcar encontros com o tal médico, recebendo flores e cestas de café da manhã com bilhetinhos cafonas de amor prometido. O babaca nem imaginava que com uma caixa de bombons já teria ganhado o coração dela. As flores, as promessas de amor, o namoro, tudo foi muito rápido pro meu gosto. Eu não conhecia muitos médicos, mas conhecia muitos homens e aquela atenção toda que o médico dispensava a minha irmã me incomodava bastante. Minha irmã não era um sinônimo de beleza, nem passava perto. Tirando meu amigo como namorado, ela só teve outro caso quando ainda era adolescente e vestia calças quatro números menor. Minha irmã era linda sabe, bonita mesmo, mas de um jeito diferente, de um jeito que essas revistas sobre celebridades não entendem. Daí, um médico aparece do nada e saca que ela é uma mulher maravilhosa com uns quilinhos a mais? Difícil crer, mas podia ser só ciúmes de irmão protetor. E era o que ela me dizia sempre que eu criticava as atitudes do doutorzinho. Acabou que ela conseguiu me convencer de que não havia nada de errado, eles tinham se apaixonado e só. Em verdade, eu sentia um aperto no peito toda vez que ela atendia o celular, o que não podia ser outra coisa senão ciúmes. Era preciso deixar de implicância e apoiá-la, por mais doloroso que isso fosse.

Foi num jantar de domingo que minha irmã decidiu apresentá-lo à família. O pai tratou de fazer as compras mais caras da vida, a mãe o melhor jantar que já preparara e minha irmã nunca tinha arrumado a casa tão bem. Quando acordei naquele dia e encontrei os preparativos para o jantar, a mágoa engolfou-me. Não podia desamarrar a cara para toda aquela bobagem. Só levei duas garotas para casa em toda a vida e minha mãe escorraçou uma delas de casa logo pela manhã. Agora pro doutor tinha até champanhe, acredita? Não podia deixar de me repreender pelos meus pensamentos. Ora, e daí que o tratamento fosse diferente? Tratava-se da minha irmã e não de mim. Mas quando a mãe ralhou comigo por não me aprontar com mais cuidado para receber o convidado, soltei os cachorros.

– Essa roupa estava muito boa quando a tia Carol casou.

O pai avançou sobre mim no mesmo instante:

– Se não quer trocar essa roupa mulambenta, ótimo! Mas faça o favor de não sair do seu quarto!

A mãe se aproveitou da truculência do pai e se aproximou para dizer:

– Você só trouxe vadias para essa casa! Respeite sua irmã e vista algo melhor já!

Mesmo resmungando, troquei de roupa. Embora a raiva provocasse meus olhos, eu não queria me comportar como uma criança e de birra, sentar maltrapilho à mesa estragando o esforço que meus pais e minha irmã faziam para que nossa casa parecesse a casa de outra família. Tentei trocar o ressentimento pela felicidade da minha irmã. Mas à mesa, enquanto ensaiávamos o jantar, a raiva tornou a atormentar-me. Não podia suportar a mãe dizer coisas que não dizia, falar de um jeito que não falava, sentar dura na cadeira e não refastelar-se como de costume. Novamente, o sarcasmo foi mais rápido que o bom-senso.

– Mãe, por que você não para de imitar o Robocop?

– E você podia parar de ser esse nojento insuportável antes que eu te bote pra fora! – berrou o pai, levantando-se.

– Gente, por favor, que isso… – tentava acalmar minha irmã, o que só ressaltava seu caráter condescendente. Quando a partida começava, só terminava com um ganhador. Normalmente eu jogava para perder, mas era o melhor jogador da família.

– Eu só não consigo entender pra quê esse circo? Vocês nem conhecem o cara!

– Mas você também não – intrometeu-se minha irmã na briga, pegando-me desprevenido. Aquele seu olhar peculiar de desculpas devassando-me por dentro.

– Eu sei, eu sei, é que… – calei-me. Embora em meu íntimo eu pudesse apreciar uma certa satisfação em insultá-la, ela não merecia isso. Bem sabia que era capaz de fazê-la chorar com três palavras minhas. Mas não queria acabar com sua noite. Não, aquela era a noite dela e não seria um cretino que nem eu a estragá-la. Abaixei a cabeça e segui o script.

Então ele chegou e todos os meus mais terríveis pressentimentos mostraram-se de fato, ciúmes bobos. Era um cara absolutamente normal. Enquanto todos vestiam suas melhores roupas para o jantar, ele aparecia casual, esbanjando simplicidade. Os cabelos meio grisalhos, os óculos grandes fora de moda. Tudo no maldito doutor denunciava suas boas intenções. Mas uma vez que eles atravessam o consolo da porta, você despede-se da vida. Depois de muitas apresentações, palavras polidas e outras amenidades do tipo, descarreguei meus preconceitos e aproximei-me estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas o doutor só manteve seu sorriso pregado na cara enquanto minha mão pairava seca no ar. Por um momento a cena congelou-se. Encarei-o, desafiando a não apertar minha mão e surpreendi-me dele não ceder. Eu era muito bom nesses joguinhos, mas ali estava um adversário a altura. Ia devolver-lhe o sorriso em resposta, quando senti um frio correr pela espinha e assobiar-me à nuca. Algumas pessoas ouvem o badalar da morte, diria meu anjo muitos anos depois. Os sinos daquela noite nunca mais deixariam que eu tivesse uma noite tranqüila.

Toda a gordura que acumulamos durante a vida dissolve-se num instante. Parece que o cálcio abandona nossos ossos e diminuímos, somos crianças outra vez diante de um terror desconhecido. Com curiosidade mórbida olhamos embaixo da cama e encaramos o que vivia lá. Esse bicho-papão é assustador porque estava lá o tempo todo, disfarçado de ursinho de pelúcia, brincando com você, vigiando, preparando-se.

As pessoas que sobreviveram a eles costumam identificá-los pela forma de sorrir. E de fato, quando seus lábios se crisparam, de uma simples animosidade, a cena revelou-se sem cortinas ou preâmbulos. Nós éramos ratos, ratos que tinham colocado um felino dentro da sua toca. Não um gato domesticado preguiçoso, mas um leopardo, um caçador tão habituado a morte quanto os ratos aos buracos. Não há receitas do que fazer. Em primeiro lugar porque se você está vivo é porque ele quer que você esteja vivo. Normalmente, as pessoas só percebem a morte quando ela finca os dentes com força na sua carne. Mas há alguns que vêem a morte se aproximar. Eu vi, mas não pude acreditar. Há algo dentro da gente que imobiliza nossas ações. É aquele trava-língua, uma coceira, um estalar de dedos. Você pensa na família, no emprego, nos amigos, na vida, em você. Sobretudo em você. E é nesse momento que conhecemos essa pessoa que somos. Nossa existência se agita diante da morte e a morte é uma tempestade. O barco foi a pique, marujo. Abandonar navio! Ou você encara a morte ou foge, de qualquer forma, você deixará tudo para trás. Essa é a verdadeira morte. Um sobrevivente é alguém que viu a morte e continuou.

Não tem muito tempo, ouvi a história de um sobrevivente que trabalhava como jardineiro na casa de um deles. Perto do Natal, o patrão por meio da empregada convidou ele e a família para um almoço. Ele contou-me que não queria ir, que não gostava da casa do patrão, tinha qualquer coisa de muito estranha no lugar, que ele não sabia explicar. Mas a esposa fez questão de ir. Assim, ele e a família entraram na toca do lobo. Contou-me que o patrão os recebeu muito bem, disse estar muito feliz por ter companhia na noite de Natal e sorriu-lhes com gosto. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia. Fiquei sabendo que esse sobrevivente não aguentou. Isso é muito comum entre os sobreviventes. Poucos conseguem continuar. Não os julgo. Não se pode matar aquilo que não tem vida. Depois da última ceia, não vivemos mais, nós morremos. Sobreviver é pouco a pouco tornar-se um deles. Se possível, uma coisa pior que eles. Como posso condená-los por não se transformar em algo assim?

Você sobrevive e é acusado de tudo que sua legislação penal puder oferecer. Com sorte, você é condenado a pena de morte pública. Em alguns lugares, porém, sua dor perdura. Você é mandado para a cadeia e lá passa o diabo antes de alguém se cansar e matá-lo. Mas se você têm forças para fugir, então você será procurado. Será o criminoso mais procurado do país. Sua foto estará estampada em todos os jornais, farão programas de TV sobre você, convidarão psicólogos, psicoterapeutas e qualquer oportunista que apareça para tentar explicar porque alguém faria aquilo que você fez. Pessoas xingarão seu nome, cuspirão no seu retrato, amaldiçoarão seus dias. Velhinhas irão rezar para que você queime no inferno. Queime seu desgraçado miserável! Passado um tempo, o mundo se esquece de você, mas você está morto de qualquer forma. Essa alma. ou seja lá o que for que possuímos quando vivos que não precisa de motivos para existir, bem, essa coisa é levada por eles. Tudo o que lhe resta são lembranças amargas da vida e o terror da morte, os eventos da sua última ceia. Você está morto, e tudo a sua volta são fantasmas. Para continuar você precisa encontrar um motivo.

Eu costumo classificar os sobreviventes pelos seus motivos. Alguns sobreviventes dedicam seu continuar a provar sua inocência. Até hoje ninguém conseguiu fazer isso. O motivo beira a estupidez da obviedade. Provar sua inocência seria provar a existência deles. As pessoas não estão preparadas para saber e não querem estar. Talvez por isso somente alguns possam vê-los e mesmo assim quando eles querem ser vistos. Se alguém me falasse deles antes da última ceia, eu também não acreditaria. Nem em um milhão de anos. A meu ver, continuar por um motivo desses é um desperdício de vontade. Mesmo que fosse possível provar a existência deles, você não pode viver outra vez. Esses sobreviventes são chamados de inocentes.

Depois, vêm os fugitivos, como o jardineiro. São aqueles que escapam da última ceia e continuam fugindo. Talvez pelo movimento inercial de fuga ser semelhante ao viver, fugir é de longe o motivo mais doloroso de todos para continuar, porque nem motivo é de verdade. Os fugitivos são os mais numerosos, eles estão em todo lugar. Você pode encontrá-los dormindo sob cobertores finos e fedidos em algum terminal rodoviário ou embaixo de um viaduto. Ainda sim, para reconhecê-los, é preciso uma boa colheitadeira para desfazer-se da barba esculpida por sujeira, restos de comida e uns bons anos de submundo, isso se não tiverem desfigurado o rosto. Existem outros, mas dentre eles quero destacar os devotos. São aqueles que continuam para se tornar parte deles.

Por muito tempo eu também fui um fugitivo, pensei estar só. Não sabia a respeito de outros sobreviventes. Na verdade você passa bastante tempo somente fugindo, escondendo-se do mundo. Você tenta dizer a si mesmo que não fez aquilo, mas o apresentador de TV cospe de raiva quando bate na mesa e grita que pessoas como eu mereciam a cadeira elétrica. Com toda aquela propaganda dizendo que você é um psicopata, você acaba acreditando que realmente fez aquilo. Você bebe até desmaiar todos os dias. Talvez amanhã você acorde desse pesadelo. Mas o outro dia só traz uma dor de cabeça horrível. Aí você percebe que não pode esquecer, então vai pirando. E pira. Você pode encontrá-los falando sozinhos por aí. Caçoarem de você. Correrem da própria sombra. Pular de um viaduto para o asfalto, de algum edifício, cruzar uma rodovia bastante movimentada com os olhos fechados. Ou continuarem se escondendo. Você fica escondido até ELES te encontrarem.