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Publicado: 3 de abril de 2016 por Bill em A Vida
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Quem por acaso pudesse observar Jo nesse momento, de quatro, limpando o vomito do menino Eduardo, pingando de suor (nessa época do ano aqui faz um calor infernal e dona Beth proíbe que o ar condicionado seja ligado quando ela não está em casa), jamais poderia supor que ela é a maior heroína que esse mundo já viu.

E isso porque eu nem falei dos seus 50 e tantos anos, do quase nanismo, da magreza desconcertante ou da pele preta, para não deixar que seu preconceito diminuísse o tamanho dela.

Eu adoraria falar das muitas façanhas dessa senhora. Adoraria. Mas o tempo, por ora, me impede de fazê-lo. Vou me ater a narrar nosso encontro. Foi assustador. Espetacularmente assustador.

Foi assim, eu já trabalhava para dona Beth há uns 10 anos como empregada doméstica (odeio o nome dessa profissão, é como se fossemos bichinhos de estimação). Acompanhei toda a gravidez de dona Beth e até fiquei com ela quando do parto do menino Eduardo. Cuidei dessa criança como o filho que nunca tive e não sei quando, o menino Eduardo começou a agir estranho. Ele não queria dormir no quarto dele de jeito nenhum, nem com luz acesa. Ele abria um berreiro ensurdecedor, tanto que sua voz sumia depois de um tempo, e também se arranhava, chorando tanto que o rosto ficava todo inchado. Ninguém sabia o que fazer e doutor Carlos não suportava o barulho. Saia de casa para não fazer uma besteira. Ele e dona Beth discutiam muito por causa do menino Eduardo, porque doutor Carlos achava que a culpa era dela por sempre fazer tudo que a criança queria. Eu me sentia culpada, porque dona Beth quase não ficava com o filho, se o que o doutor Carlos dizia fosse verdade, a culpada era eu como não. Era por isso que eu achava que não conseguia largar dele. Tentava acalmá-lo de todas as formas possíveis e por fim acabamos arrumando um jeito. Eu fingia que o colocava pra dormir, mas depois de um tempo ele vinha pro meu quarto e antes de amanhecer eu o colocava na cama dele outra vez. Ficamos assim durante um ano e pouco até que eu quebrei a bacia limpando um armário. Daí que indiquei essa senhora Jo que tinha uma filha que estudava com a minha, e que de acordo com essa minha filha, passava por muitas dificuldades.

Disse a dona Beth que encontraria uma mulher de confiança pra tomar conta da casa na minha ausência. Pedi a minha filha que falasse com a senhora Jo, que queria entrevistá-la para um emprego temporário.

No outro dia, ela veio. Tenho que admitir que havia alguma coisa. É claro que não sabia o que era então, mas estava lá. Lembro nitidamente de sentir quando ela cruzou o vão da porta e ouvi a cortina de anéis de latinha tilintarem.

Era uma presença pesada, como se com ela o céu instantaneamente fosse coberto por nuvens negras e o ar ficasse carregado de estática.

Mas era uma senhora muito comum, absolutamente simplória, sendo sua característica mais marcante aparentar ser muito mais velha do que de fato era.

Pedi pra que se sentasse, já imaginando uma forma educada de dispensá-la, pois por mais que me condoesse seu estado, que conclui ser este o motivo das suas dificuldades, não poderia colocá-la na casa de dona Beth e do doutor Carlos sabendo que ela não daria conta do serviço.

Mas, inesperadamente, Jo se recusou a sentar e sua resposta foi ainda mais inesperada e francamente espantosa.

– Não, amiga. Muito obrigada. Mas eu não posso me dar o luxo de relaxar esta coluna. É ela que sustenta o mundo.

E continuou andando pela minha sala, bisbilhotando meus pertences e fotos de família dispostos na estante às minhas costas.

Desconcertada, e tentando voltar para o mundo real, onde as coisas são sólidas e previsíveis, decidi que Jo estava ficando caduca (então o verdadeiro motivo das suas dificuldades) e tentei falar honestamente.

– Minha filha deve ter falado pra senhora que a casa onde trabalho é bem grande.

– O mundo certamente é maior. Este é seu marido?

Ela me empurrou uma fotografia na cara.

– Sim. Ele morreu quando Ana tinha cinco anos.

– Sim, sim. Mas por que ele não está aqui?

– A senhora não me ouviu. Ele morreu.

Ela ficou me encarando com um olhar entre o deboche e o divertimento o que foi completamente absurdo para mim. Se a bacia me permitisse eu teria me levantado e mandado ela embora. Graças a deus que a bacia estava quebrada.

– Olha, infelizmente não acho que a senhora vá dar conta de…

– Senhora Rosana – ela me interrompeu empurrando minha cadeira de rodas para longe – você vai descansar no seu quarto até eu dar um jeito nessa sua sala, obviamente que a senhora não tem muito tempo para cuidar dela, e nesse estado será impossível fazê-lo. Imagino que sua filha deve ser tão preguiçosa quando minha Lúcia. Fique tranqüila. Eu vou dar um jeito em tudo. Descanse.

E fechou a porta do quarto as minhas costas.

Jo foi trabalhar na casa dos meu patrões porque cerca de uma hora depois, em que por 15 minutos eu fiquei batendo na porta do meu quarto, Jo me puxou para uma sala irreconhecível. Aquele foi o meu primeiro momento de transcendência. Jo me mostrou como ficamos quando nossa prioridade é o outro. Entrelinhas, Jo dizia para eu cuidar melhor de Ana.

Enfim, o caso é que mandei Jo para dona Beth sem maiores preocupações (confesso que tinha receio daquele jeito abusado dela). Nem consigo descrever o quanto me fez bem estar fora daquele lugar maldito. Já conseguia relaxar, até ria assistindo Casos de Família com Ana. Nós nunca ficamos tão amigas.

Um dia entretanto, Jo veio bater na minha porta de madrugada. Eu e minha filha abrimos a porta completamente espantadas e curiosas por tão inusitada visita. Mas isto nem se compara com o susto que levei quando vi o menino Eduardo nas costas de Jo. Quase cai pra trás. Foi Ana quem me segurou.

– Depressa suas molengas! Fechem a porta!

Ela jogou o menino Eduardo no sofá e correu pra cozinha. Eu e minha filha fechamos a porta e ficamos em pé no meio da sala, assustadas demais para fazer qualquer outra coisa.

Jo voltou com um pano molhado e colocou na testa do menino.

– Vem cá

– Eu? – Perguntei

– Não, o papa. Você, idiota! Vem, ajoelha aqui

Fiquei de joelhos ao lado do sofá.

– Você sabe o que fazer – disse ela me passando o pano molhado – Não deixe a febre subir. Eu tenho que ir lá salvá-lo.

– Salvar? Quem? O que aconteceu? – perguntei em pânico largando o pano, já temendo o pior.

– Idiota, o menino! O menino!

Ela abaixou pra pegar o pano e deu pra ouvir a coluna estalando de cima a baixo.

– Não deixe a febre subir – ela se sentou no outro sofá e fechou os olhos.

– Que porra é essa? – Ana falou.

– Ana – chamei – Vem cá, o Eduardo ta com febre, fica aqui com ele. Deixa eu resolver isso.

Levantei e chacoalhei a maluca até que ela abriu os olhos.

– Você vai me contar o que está acontecendo se não vou ligar pra policia – disse sem rodeios.

Jo quase chorou. Foi a primeira e única vez que a vi fraquejar.

– Ô menina tola. Tá certo. Você quer ouvir? Tudo bem.

Ela tirou um maço de cigarros do bolso do casaco, puxou um e o acendeu com um isqueiro puxado de outro bolso tão rápido que poderia ter sido mágica.

– Quando você passa muito tempo numa tempestade acaba se esquecendo de como o mar é, na verdade, muito tranqüilo. Você deve ter reparado como está se sentindo melhor, não? Desde que saiu do inferno?

– A casa?

– Sim, tenho certeza de que você sentia, foi por isso que desobedeceu seus patrões, você nunca acreditou que o medo do menino fosse só coisa de criança mimada.

– Não, nunca – a verdade era muito simples. Só era difícil demais lidar com ela.

– Eu não sei qual é a história do lugar. Praticamente todo lugar nesse mundo tem uma história sinistra. Acontece que dependendo do coração de quem reside, o lugar pode se tornar uma antena que sintoniza todo tipo de coisa hedionda e você não acreditaria nos horrores que vagam por aí a noite.

– Espíritos?

– Fantasmas, demônios. Há muitos nomes. O que você precisa saber é que o ódio assim como qualquer sentimento se reproduz e se alimenta de si mesmo. Há muito ódio no nosso mundo. E pessoas de coração vazio são o abrigo perfeito para acolher um rancor que há muito já esqueceu seu ressentimento. Seus patrões, Rosana, são tão ocos quanto esta madeira – envolta em fumaça escura, ela bate três vezes no tampo da mesa – O problema é que os maus, especialmente os maus, adoram uma vida virginal como a do seu menino. Ele sem duvida deve ter brincado com eles, mas logo deve ter visto o que eles são de verdade e se assustou. E é muito assustador mesmo. Alguns simplesmente não conseguem acordar.

– Mas o que ta acontecendo agora – pergunto ao lado do menino Eduardo, que aquém da febre sob controle, parecia ainda lutar contra ela.

– Eu não sei. Ele pode estar em qualquer lugar agora. Está fugindo certamente. Mas para que eles tomem o corpo dele, eles precisam do seu consentimento. Eles só vão parar de persegui-lo quando conseguirem isso. E na maioria das vezes a vítima nem sabe o que eles querem e, infelizmente querida, eles adoram se divertir com isso.

– Então vá ajudá-lo! Por favor! Ajude-o! Me desculpe por favor! Mas ajude-o! Ajude-o!

Jo sorri, cansada. E quando fecha os olhos, vejo uma lágrima escorrer pela pele seca e escura, sem qualquer emoção.

O outro mundo é um mundo de sombras, cheio de escadas, pontes, corredores soturnos e portas, tudo em tamanhos absurdos. Jo já é uma rastreadora experiente. Ela sente o cheiro da inocência no ar. Sobretudo, identifica o odor nauseabundo da salivação de quem está logo atrás dele. Nesse mundo, Jo tem asas. E ela voa rapidamente para onde o menino Eduardo tenta se esconder. Outrora, ele também tivera asas, mas os monstros já o depenaram por completo. O menino agora corre nu, em carne viva, chorando. O seu lance de sorte, se é que se pode falar em sorte do outro lado, é que essas criaturas costumam brigar entre si. Muitas delas já se conhecem. E há montanhas de ódio antigo sob eles. Mas Jo sabe que há um inimigo muito pior. Sabe que ele está dormindo, do contrário seria tarde demais. O homem de chapéu perto desse horror inominável é só uma formiguinha amarela. Mesmo assim, o homem de chapéu é um poderoso adversário e nota a presença de Jo. Ele grita pra sua turba de sombras e elas se reúnem em torno dele porque Jo é um inimigo em comum.

O segredo do poder de Jo é que ela aprendeu há muito, muito tempo, que o ódio não se combate com o ódio. É assim que Jo se entrega a eles. Mas no fim, depois de infinitas violências, é sua resiliência que triunfa. Seus agressores, exaustos, descansam. E a mutilada e deformada Jo segue em seu resgate. O menino Eduardo agora é um velhinho de asas curtas e olhos medrosos. Ele grita ao seu toque, mas Jo não deixa dúvidas do seu amor, e o menino a acolhe num abraço. É ele quem a carrega de volta para o meu lar, cruzando portas, escadas, pontes e corredores sem fim.

Tudo isso em apenas duas horas. Duas horas. Jo me disse que essas horas duram milênios lá.

Eles voltam e sem saber o que se passou, é para o menino que vão os meus cuidados.

Somente muitos anos depois, quando foi minha filha quem teve problemas com esse outro mundo,

que é esse, Jo insiste em dizer isso

“Aquele mundo só existe porque há colunas que o sustentam aqui”

é que ela me contou o que se passou. Jo é a maior heroína que esse mundo já viu. E quando finalmente me recuperei da cirurgia e pude voltar ao trabalho, eu a encontrei limpando o vomito do menino-velho Eduardo (ainda nauseado por tudo o que viveu, Jo diz que a mente inibe as memórias, mas que o corpo se lembra). E foi assim. Imagine, se você pudesse observar essa senhora limpando o chão nesse momento, será que você seria capaz de dizer que está diante da pessoa mais importante do mundo?

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Aconteceu de se encontrarem todos os sete juntos numa sala branca, sem saber porque ou como haviam parado ali.

Disse então uma criança com um ridículo chapéu vermelho depois de um tempo bastante longo de ausências.

Estou com fome.

Imediatamente um prato quente de arroz com feijão, bifes e batatas fritas se projetou a sua frente. O cheiro inundou a sala e o espanto tomou o lugar. Elas se levantaram e foram olhar o fenômeno de perto.

Uma pessoa que usava óculos de grau com hastes vermelhas perguntou:

Diga-me criança, quando disse que estava com fome, pensou neste prato que está a sua frente?

A criança hesitou um momento, e então respondeu:

Sim!

E se lançou sobre o prato comendo o bife com as mãos nuas.

Um outro que estava próximo a pessoa do óculos vermelho, falou:

Eu quero sair daqui.

Mas nada aconteceu.

Então uma voz rouca às costas desses falou:

Talvez, sejam só os desejos mais sinceros que possam ser realizados.

Eles se viraram para voz, a de óculos vermelho perguntou:

Ué, e tu? Porque não se levantou e veio até aqui verificar este negócio?

Ei, ela também não levantou.

Argumentou a voz apontando para uma pessoa que roncava alto.

A pessoa de óculos vermelho não gostou da resposta, disse:

Ora, por acaso não sente curiosidade? O prato surgiu do nada!

 

Tal qual vocês! Até onde eu sei, esse prato é tão curioso quanto vocês, ou eu mesmo…

A voz rouca olhou para as mãos como se nunca as tivesse visto antes e aparentava estar genuinamente espantado.

É verdade! Alguém gritou levando as mãos à cabeça.

Será que estamos mortos?

Todos olharam ao redor. Tudo era branco, tão branco que era impossível discernir o teto do chão ou das paredes, de fato, sequer era possível enxergar coisa alguma que não eles mesmos e suas sombras.

A pessoa de óculos vermelhos esticou os braços horizontalmente, avaliou alguma coisa e disse:

É muito estranho. Há luz neste lugar, mas não consigo detectar a fonte, é como se a luz simplesmente existisse como a escuridão existe e isso é impossível, pois se há luz, há uma fonte.

A pessoa com as mãos na cabeça falou:

Do que importa a física no inferno!

Ei, calma ae! Disse um outro de aspecto robusto com uma camisa vermelha estilo academia.

Quem disse que estamos no inferno? Fale por você! Ora, esse lugar é branco, não é? O céu é branco!

Mas que coisinha mais racista pra se dizer hein, disse uma pessoa não muito maior que a criança.

É verdade, concordou a de óculos vermelhos.

A pessoa com camisa tipo academia sorriu.

Que isso gente, todo mundo sabe que o céu é branco.

Mas se isto é o céu, disse a voz rouca andando de quatro, aonde está deus?

Isto não é o céu, disse a pessoa de óculos vermelhos.

Como você sabe? Perguntou a de mãos na cabeça.

Porque o céu não existe. Se estamos mortos, estamos, pronto.

Mas tem que haver algum propósito, argumentou a de camisa estilo academia

Tem? Ironizou óculos vermelhos.

Claro, interveio aquela que era pouco maior que a criança

olha, eu não gosto muito de você, esse ar de presunção me irrita, o outro nem disfarça o racismo, a criança não para de comer e nem sequer nos oferece uma batatinha, tu só fica de mãos na cabeça enquanto o outro só dorme e…

Todos procuraram pelo último dos sete e encontraram-na já pequeninha como se a sala branca simplesmente se estendesse pelo infinito.

MEUDEUSDOCÉU! – GRITOU COM AS MÃOS NA CABEÇA.

É O INFERNO! O INFERNO EU DISSE! OLHA! NÃO TEM FIM!

E a doida! completou a pouco maior que a criança rindo

Calma, calma! Vamos pensar! Você falou uma coisa interessante. Lembrei de uma peça do Sartre, o inferno são os outros. Talvez este lugar seja realmente o inferno…

A mãos na cabeça começou a chorar, o que fez a criança parar de comer.

Então é isso? Vociferou a camisa estilo academia

Vamos passar a eternidade aqui olhando um para a cara dos outros?

A mãos na cabeça chorava alto e a criança estava começando a querer chorar.

Bom, pelo menos não é o inferno de sartre strictu sensus.

Como assim? Quis saber a camisa de estilo academia.

Nunca leu o inferno são os outros? É que na peça as pessoas são incapazes de fechar os olhos. E são só três também. Ah! E o inferno deles é um hotel que eles nunca conseguem sair porque são incapazes de resolver seus problemas uns com os outros.

Nós somos sete, ou éramos começou a pouco maior que a criança olhando para onde tinham visto a doida se perder na brancura

acho que nós representamos os sete pecados capitais.

Ela apontou para a criança.

A gula.

Apontou para aquela que dormia.

Preguiça.

E eu, o que eu sou? Quis saber a camisa estilo academia.

Luxuria.

E porque?

Af, olha pra tu, aposto como se masturba olhando no espelho.

E desde quando vaidade é luxúria?

Você não é a vaidade, querida.

Ah, é claro, é você né?

Não, é a senhora arrogante de óculos vermelhos descolados.

Isso eu não posso negar, disse a de óculos vermelho

Mas e você, han? Inveja?

Não, to mais pra fúria.

Gente, gente, e eu? E eu?

Tu meu bem é a avareza, só pensa em ti.

A isso, ela abaixou as mãos da cabeça.

Se estamos no inferno mesmo, eu posso te matar sua filha da puta!

Então vem valentona, vem!

Puta não devia ser um xingamento, falou a óculos vermelho para ninguém.

Calma gente, tentou apaziguar a camisa de academia inutilmente porque as duas já estavam trocando socos e se atracando no chão que começava a ser pincelado de vermelho.

A criança então chorou alto e as duas pararam.

Uma delas levou as mãos a cabeça e correu para a criança tentando acalma-la.

Olha, começou a camisa de academia, to pensando aqui. Talvez isto seja um reality show, han? O que vocês acham? Alguém nos drogou e nos colocou aqui.

Ah, claro, porque você adora ser observada né?

Olha, você tá começando a me irritar também.

Ótimo, as duas brancas vão linchar a neguinha, quero novidade!

Espera, meditou a óculos vermelhos. Tem alguns padrões estranhos aqui. Todas nos somos mulheres.

Desculpa, mas você não é mulher, disse a de mãos na cabeça.

Sou o que eu quiser ser. Vejamos, uma transgênero, duas brancas, uma velha e uma halterofilista, três negras e uma criança com síndrome de down, este com certeza não é um reality show!

Tem uns realitys bem bizarros na TV paga.

Mas pra pagar uma produção dessa envergadura? Olha para essa sala! Esses canais underground não tem dinheiro pra pagar um cenário tão gigantesco! E aquele prato surgiu do nada, vocês viram!

Então nós fomos sequestrados por alienígenas! Desesperou-se a mãos na cabeça.

Pode ser, concluiu a óculos vermelhos.

Não, senhora arrogância, você tem razão. Somos um grupo heterogêneo demais. De certa forma, aqui estão representados os grupos mais marginalizados da sociedade. Vamos lá, a gente não tá fazendo nada mesmo, quem sabe existe alguma coisa por trás disso? não foi você quem disse que os personagens da peça não conseguiam sair porque não paravam de brigar? Vamos tentar conversar, então. Eu começo. Meu nome é Dona. Na verdade é Madonna, mas eu odeio esse nome. Foi o machista do meu pai que escolheu, enfim. Sou estudante de direito e sei lá, sou meio doidona, ceis já viram né?

Ok, sorriu a óculos vermelhos. Faltou um pouco de sororidade nas tuas atitudes miga, mas de boa. Eu sou Maria Almeida Alcântara. Sou trans desde que me entendo por gente, assumida desde os 15, quando fugi de casa. Sou formada em História, História da Arte e adoro literatura, tenho três especi, hum, acho que isso não é importante. Sou casada há nove anos, tenho duas filhas maravilhosa, uns vinte cachorros e… é isso.

Sou Vanessa, mas podem me chamar de vanessão, também tenho sobrenome Almeida, engraçado, né? Sou fisiculturista e luto muay thai nas horas vagas. Adoro surfar. E amo séries de TV.

Ah, sou Vitoria Conceição Prado… ann, fui professora de letras na PUC… tenho três filhos… e meu marido morreu no ano passado.

A criança olhava fixamente pro prato vazio.

E você, bebe? Perguntou vitoria.

Cristina, disse ela sem tirar os olhos do prato.

Ok, disse dona

A preguiça continua dormindo, mas pelo jeito parece ser uma moradora de rua. E aquela que foi embora, sei lá, parecia uma mina negra rica.

É, parecia, concordou Vanessão

Então é isso.

Elas ficaram em silencio meditando sobre o que tinham escutado.

Não adiantou porra nenhuma essa merda, falou vitoria.

É, não custava tentar, falou dona.

Escuta, ann, Maria, né? Que que você falou antes? Que eu fui sem soro… como é?

So-ro-ri-da-de. É um conceito sobre uma relação mais amistosa entre as mulheres. Tipo, na primeira oportunidade que tu teve tu já caçou briga com a senhora vitoria.

Ei, foi ela quem veio pra cima de mim!

Ok, então.

Quem merda hein, disse vanessão

Será que a gente vai ficar aqui pra sempre?

A gente podia tentar fazer que nem a doida, arriscou Maria.

Vei, essas horas a bicha ta louca atrás da gente. Olha, o inferno pode ser ruim, mas ficar sozinho eu acho que deve ser muito pior.

Concordo, disse Maria,

Eu também, disse vanessão

Mas eu não, falou vitoria

Eu não gosto de você sua putinha nojenta.

As mãos de dona se fecharam em punhos.

É. Você se acha especial né? Porque está aqui conosco, não é? Acha que é uma de nós? Você é só uma revolucionariazinha brincando no playgroud que nós deixamos você brincar, mas eu vou te dizer uma coisa, escute bem, os pretos são marginalizados por um motivo, imbecil.

E qual é?

Cala a boca, aconselhou Maria para ninguém.

Anda, fala, qual é o motivo?

Porque vocês ainda são símios, só por isso.

Elas se engalfinharam outra vez, e agora dona socava violentamente a boca de vitoria, que ria enlouquecidamente.

Você não pode me matar, sua gorila! Eu sou seu demônio e você é o meu! Nós vamos ficar aqui e dançar pra sempre.

Dona agarrou o crucifixo do pescoço dela e puxou.

Não! Devolve! Devolve!

Você não merece usar isso sua excrota do caralho! Cristo não dizia para amar o próximo?

Você não é meu próximo, imunda! Você esta mais próxima dos ratos do que de mim!

É, disse a voz da preguiça

Essa ideia de proximidade está defasada num mundo globalizado como nosso. Acho que ame o mais distante como você ama a si mesmo fica melhor

Mas você é

Você

É…

Como?

Ah, eu sai andando andando andando… ai vi que não ia dar em nada e tentei voltar, mas nunca consegui achar vocês.

Mas como é possível que você estivesse aí dormindo se você estava aqui com a gente conversando?

Não sei.

A preguiça bocejou longa e vagarosamente e aí, voltou a dormir.

Então espaço e tempo também não fazem sentido aqui, observou Maria.

Acho que nos podemos ser pensamentos, arriscou dona.

Pensamentos? Perguntou Maria.

É, sei lá, somos os desejos reprimidos de alguém.

Ou podemos ser os personagens de um livro como em um mundo de Sofia, falou Maria.

Ah, esse eu li! É verdade, pode mesmo.

Mas e se for, pra que estamos aqui? Perguntou vitoria

Bem, basicamente, a ideia de um livro é passar uma mensagem, disse Maria.

E que mensagem seria essa? Perguntou vanessão.

Ah vei, pode ser qualquer coisa! Disse dona

Não, lembra dos padrões? O nosso grupo dissonante.

Hum, e ai? Vai, tu é a senhora dos livros!

Bem, somos um grupo de pessoas marginalizadas, algumas menos, outras mais…

Talvez seja o lance do amor mesmo.

Hum?

De cristo. O lance que a doida falou. De amar o mais distante.

Ah, é. Mas, se fosse isso já teria acabado né?

Talvez já tenha, mas pra nós é eterno, lamentou vanessão

Se for assim, o pessoal lá da peça do inferno tá até hoje discutindo…

Mas tem uma coisa

O que? – perguntou vanessão esperançosa

Tem um livro do Dostoiévski que se chama o idiota. O idiota é como Jesus cristo seria tratado por nós, os egoístas. O idiota é uma figura amaldiçoada pelo bem, ele é simplesmente incapaz de rejeitar um desejo, por mais perverso ou injusto ou triste que seja. O idiota é a criança!

Hum, um pouco preconceituoso você não acha?

Só na mesma medida de quando a vitoria quis te ofender te chamando de filha da puta.

Dona sorriu e era um belo sorriso.

Então nós só temos que pedir a criança para nos tirar daqui?

Af vei

Falou a voz da preguiça

Sério mesmo? é isso que vocês vão pedir? de tudo que vocês podem fazer pelo mundo, é isso que vocês vão pedir? Preguiça de vocês, viu.

São quase 18 horas e os carros se amontoam como formigas em um dia de chuva. O anjo está aconchegado aos pés do velho, protegendo-se da garoa. Ele boceja esticando a língua o máximo que pode, tentando demonstrar todo o seu tédio. Lá em cima, ele vê a cabeça do velho irradiar uma luz vermelha. É o sinal, o anjo se levanta e acompanha o velho até aqueles grandes animais de ferro que resmungam parados. Ele escuta, um por um, os nós dos dedos dele baterem contra as janelas fechadas. Às vezes uma pequena fresta se abre e o velho diz: Não preciso do seu dinheiro nem pra limpar meu cu. E segue para outro carro. Vez ou outra alguém deixa a segurança metálica para empurrar o velho ou cuspir-lhe na cara. Tudo bem. O velho não se incomoda com isso. Pelo contrário. Enquanto limpa a saliva azeda do rosto, ele sorri. Para o anjo não existe uma palavra para descrever aquilo, mas é assim que podemos reconhecer. Faça o teste: tente insultá-lo. Você vai vê-lo sorrir, balançar o rabo e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder a sua agressão. Só vai continuar sorrindo daquele jeito estúpido.

Foi numa sexta-feira. Chuviscava serenamente. Os automóveis pareciam estar ainda mais bravos do que de costume. E aquele velho rabugento continuava a bater irritantemente com os nós dos dedos nas janelas fechadas e abafadas. Na maioria das vezes, o brilho vermelho acima da cabeça do velho se tornava verde antes de alguém ouvi-lo, mas aquele cara nem esperou a troca dos sinais. Por acaso, esse cara estava tendo o que as pessoas costumam chamar de “dia de cão”. O nome desse sujeito é Carlos.

Meniera, por favor. Ok. O senhor Meniera tinha muito orgulho do seu sobrenome, tinha uma sonoridade legal, era quase, digamos, imponente. Ele dizia para todo mundo que o sobrenome era de uma nobre família espanhola, muito embora quando criança tivesse escutado da avó que o sobrenome Meniera era de uma família de pé-rapados que ficaram conhecidos após saquear um navio da nobreza portuguesa que naufragara perto da costa brasileira. Isso lá na época das invasões napoleônicas. Mas esse Meniera fizera questão de não se lembrar disso. Até que sua filha fora presa roubando a casa de um vizinho. O senhor Meniera não podia conceber aquilo. Ele não era rico, é verdade, mas também não era pobre, de jeito nenhum. Era capitão de polícia na capital do país, local de melhor remuneração da corporação. Tinha uma casa de dois andares, com três quartos e uma suíte. Quatro banheiros. Quatro. Um deles com hidromassagem. Tinha um carro grande e dois outros populares. Estava financiando nesse momento uma casa de praia em segredo. Talvez até com um Jet-ski. Estava planejando fazer uma surpresa para a família. Estava.

O senhor Meniera se agarra ao volante observando as gotículas d’água escorregarem pelo pára-brisa. Só pode estar no sangue, pensava. Quando menor também dera de entrar na casa do vizinho, mas o senhor Meniera morava numa favela do Recife e o filho do vizinho vivia se gabando daquele supernitendo. Pensou nos irmãos, primos e tios presos. Isso. Só pode estar no sangue, repetia agarrado ao volante. É uma fase. Mas que dia!

Parecia que deus escolhera esse dia para castigá-lo, puni-lo com um único e fulminante golpe por todos os seus pecados. E eram muitos é claro. A começar pela mulher. Havia quatro anos que o senhor Meniera a traia. O senhor Meniera presenciara durante anos e anos os colegas comentando – e vangloriando-se, das diversas aventuras extraconjugais que mantinham. Sempre os julgou em silêncio. Sua devoção aos votos matrimoniais refletia-se no crucifixo pendurado no retrovisor. A pálida figura do senhor Meniera espiava do espelhinho aqueles olhos azuis avermelhados. O capitão estava chorando. Há quanto tempo não chorava? Desde a morte dele, diz sem titubear. Sim, outro pecado. Talvez o maior de todos. O senhor Meniera então pega o envelope branco em cima do painel e o amassa, com as duas mãos, amassa bem forte.

Logo pela manhã, nesse dia maldito, o chefe do seu pelotão dera pessoalmente o recado. A corregedoria irá investigar as denúncias de abuso de autoridade contra o capitão Meniera. Até a conclusão do inquérito disciplinar você está dispensado das suas funções. O senhor Meniera sabia que uma hora iria pagar pelos seus pecados, mas precisava ser tudo no mesmo dia? Hein, seu porra? O barulho longínquo de uma sirene o faz pensar naquela farda cinza. Estava matando aula para fumar um baseado com os amigos quando três policiais se aproximaram sorrateiramente e deram inicio ao festival de torturas. Jamais se esqueceria do cano frio do revólver encostado a nuca enquanto era estuprado. O senhor Meniera decidira que seria policial para impedir aquele tipo de atrocidade. E deus é testemunha de que nem um só dia deixou de tentar cumprir seu juramento secreto. Mas a vida é muito mais complicada do que um adolescente pode supor. As violências que o capitão sofreu nos seus primeiros anos de academia não se comparam com todo seu período de rebeldia civil. Com exceção do estupro, é claro, que era por si só uma exceção. Mas o senhor Meniera pensava nos pequenos delitos cotidianos e dizia para si: eles se sentem bem com isso, enquanto eu me sentir mal estarei salvo. O senhor Meniera se enxergava como um paladino da justiça. De verdade. Não estava ali para prender bandidos e traficantes, ou proteger os ricos e afortunados da violência social. O senhor Meniera vestira aquela farda para combater o mal. Lembra? Quando foi que ele parou de refletir sobre isso? Nem se lembra mais. Fora a tanto tempo aquilo. Agora o senhor Meniera é um policial barrigudo, de careca pronunciada, sem bigode ou ideais. Não era desiludido, não senhor. O senhor Meniera era um homem de fé. Só estava velho e cansado. Pare de chorar, capitão, diz enxugando as lágrimas. O estomago ruge faminto a espera do jantar. O senhor Meniera exaspera-se pela milésima vez com a lentidão do trânsito. Espreguiça-se. Tenta relaxar. Pensar em alguma coisa agradável. Repara num cartaz pintado a mão preso numa placa de sinalização. É uma pintura grotesca de uma árvore. Talvez a chuva tenha deformado o desenho, conforta-se o senhor Meniera. Mas se a intenção do autor fora pintar uma árvore horrível, ele tinha conseguido com louvor. Nunca houve árvore mais feia que aquela. Velha e garranchosa, seca e amarelada. O estomago torna a roncar. E o transito continua irremediavelmente atravancado. Tenta sintonizar uma rádio, mas só ouve estática. Amaldiçoa os céus e procura no porta-luvas algum cd. Nenhum. Aos poucos, o pensamento torna a concentrar-se na filha. Aquele monte de piercings, tatuagens e cortes e cores de cabelo malucos. Mas ele dizia que isso era uma fase. Seus colegas tinham enfrentado problemas parecidos. Logo ela iria criar juízo, ia perceber que se desfigurar daquela forma só chamava atenção para sua imaturidade e insegurança. A mulher protestava, mas o senhor Meniera respondia convicto: só existe aprendizado de verdade sozinho. Era um de seus lemas. Tinha nove ao todo. Todos dignos de serem tatuados. Mas agora o senhor Meniera se questionava. Será que deveria ter dito alguma coisa? Não. Ela jamais me escutaria. Sou a representação tirana do mundo adulto. Mas, e se o vizinho prestasse queixa? Valia a pena foder com seu futuro para aprender sobre a vida? Ele já vira centenas de jovens de classe média se perderem assim, sem mais nem menos. OS familiares ficavam perdidos, sem saber o que fazer. O senhor Meniera também os julgava. Imaginava que jamais passaria por uma situação como aquela. Mas aí estava… a forma como a filha o encarava, era nojo. Puro nojo. Também nesse dia a mulher soltara os cachorros. Usou maquiavelicamente os problemas da filha para despejar, bem, tudo. A depressão, a rotina, o sexo, o amor, as traições e eles… ah, o senhor Meniera descontou suas frustrações no carro, rasgando pela cidade afora. Por pouco não matou um ciclista desatento. O senhor Meniera esfrega as têmporas. Fome costuma dar-lhe uma dor de cabeça terrível. Ele respira fundo e se imagina deitado confortavelmente numa cadeira de praia, com uma sombrinha protegendo-o do sol forte e uma água de coco ao alcance da mão. Mas, repentinamente, o ar congela, para ser removido por uma ventania que dá lugar a um tsunami daqueles que a gente só viu na televisão. A cadeira é arrancada da bunda como um prego em analogia ao que aconteceu nesse dia. O senhor Meniera afunda, com toneladas de água esmagando seus pulmões. Vê, aturdido, aquele cartaz da árvore borrada passar por ele e mergulhar na escuridão. O senhor Meniera olha para o relógio e se surpreende com o horário. São quase seis. Agora é que essa porra não anda mesmo, xinga alto. E foi assim que aquele brilho vermelho dava lugar ao verde e o carro permanecia imóvel. Vermelho e verde e a porra do carro não andava mais de um metro. Vermelho e verde. Vermelho e verde. De novo. E de novo outra vez. TOC-TOC. Para completar a porra dum mendigo tinha aparecido e batia na janela do carro sem parar. O capitão foi surpreendentemente calmo ao agitar a mão num gesto de “estou sem troco, amigo”. Mas. TOC-TOC. A porra do mendigo não parava de bater. TOC-TOC. VERMELHO e VERDE. TOC-TOC. VERDE e VERMELHO. TOC VERMELHO. TOC VERDE. E nada. Nada. Até o estomago evitava incomodá-lo temendo sua fúria. Quando o mendigo bateu outra vez o capitão abriu a porta e sabe-se lá o que teria acontecido se o motoqueiro não tivesse reagido primeiro. A treta com o motoqueiro era coisa antiga. O velho e o motoqueiro se estranhavam a tempos e o motoqueiro prometera que se visse o velho por ali outra vez iria lhe dar uma surra pra ele nunca mais esquecer. O velho só sorriu mostrando-lhe o dedo do meio. Mas o motoqueiro falava serio. Esse era outro que também passava pelo seu dia de cão, mas por ora fiquemos com a causa do senhor Meniera, fôssemos retratar cada dia de cão presentes neste engarrafamento a humanidade não viveria o suficiente para ler este relato. Enfim, o motoqueiro avançou sobre o mendigo tirão.

– E ae, seu folgado do caralho?!! Te avisei pra não aparecer aqui, não avisei? Tira onda agora, vagabundo!

E acertou um soco bem no meio da garganta do velho que caiu, de joelhos. Ao que o motoqueiro emputecido respondeu com uma joelhada na cara. Nosso velho foi atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, sorria, é claro que sorria. Desse mundo cheio de ódio, de rancor, mágoa e desespero o velho queria levar tudo para o túmulo. E o capitão a tudo assistia, espantado demais para agir. Não com a violência do motoqueiro. Já vira aquilo centena, milhares de vezes. Ele mesmo teria feito algo parecido segundos atrás. Não. Era aquele sorriso maluco.

Há algo errado naquilo, você sabe, todos sabem. Quem nunca ouviu falar de Jesus Cristo? Mas presenciar aquilo acontecer era qualquer coisa demoníaca demais. Afinal, que tipo de espírito subjuga-se voluntariamente daquela forma? Ah, triste é a figura que sorri da ingratidão, da violência, do abandono, do escárnio, da tirania. O senhor Meniera contempla o estado deplorável daquele pobre homem como se espiasse um segredo proibido, uma indecência, algum ato de extrema vilania. Ele pensa no ímpeto revolucionário daquele coração… que triste é amar assim. Não existe tortura pior que essa, pois a mão que empurra o punhal contra suas costelas é sua, e você sabe disso. Talvez por isso doa tanto. Não há como conciliar amor e orgulho. Basta que o momento surja e, por mais insignificante que seja o confronto, você descartará seu orgulho com tanta facilidade que nem se dará conta da magnitude do ato perverso que atenta contra ti. Sim, pobre criatura que ama, teu corpo já não mais lhe pertence, você não pode mais controlar seu estado de espírito, não se engane, isso faz de tu um escravo. Escravo. Do mais vergonhoso tipo de escravidão. Daquele tipo que faz você se ajoelhar e rezar, deitar lágrimas, crente que um sinal, apenas um sinal, dissipará todos os males! Este é o mais ridículo dos escravos. Venera e amaldiçoa seu dono, porque o ama, não pode livrar-se dele. É um escravo sem correntes. Um cachorro que se deita a porta ansioso pela chegada do dono, cujo único deleite é lamber-lhe os sapatos. És uma figura tão deplorável esta que não se intimida com os chutes que lhe são desferidos a boca do estomago, não se importa com os olhares que fogem dos seus, nem tampouco com as palavras que voam como pedras a troçar do seu amor, e tudo porque ama! Tua única felicidade reside no reconhecimento do outro, daí o sofrimento, a angústia sem fim, claro, a realidade logo irá penetrar tão fundo que até os poucos dentes que lhe restam na boca serão sacudidos. Oh, tolo sonhador, engana-te, ludibria-se, reveste tua infelicidade de melancolia para lhe dar ares poéticos! Que mentira quixotesca dirá para si em seguida para suportar essa dor que lhe devassa o peito? Qualquer uma, simplesmente não importa. Esta triste figura é o tripulante desavisado daquele barco que está indo a pique. Agarrar-se-á a qualquer coisa.Que triste! Muito triste. E o capitão segura a arma. É preciso acordar. Então você tranca essa coisa naquele lugar da sua cabeça que é hermeticamente fechado, onde a árvore feia não pode ser vista. Ali, nem mesmo um tsunami, apesar de todo o poder de devastação, pode entrar. Pode perturbar, mas não entrar. Entrar nunca. Pois a única chave está bem segura na mão direita do capitão. Essa chave tem a forma de uma Colt .45 de uso restrito.

O motoqueiro chutava o estomago do velho. Duas. Três vezes. Só parou quando o anjo mordeu-lhe a perna. O motoqueiro caiu e o anjo instintivamente voou sobre a jugular. Provavelmente o capacete e a jaqueta de couro seriam suficientes para lhe preservar a integridade física, mas o capitão Meniera decidiu não arriscar e atirou contra o animal. O anjo soltou um frêmito ganido quando a bala alojou-se entre suas costelas. Foi aí que o velho parou de sorrir. Quão perigoso pode ser o amor? E o velho chora. Tem chorado muito ultimamente. O vira-lata ferido se aproxima e lhe lambe o sangue e as lágrimas da bochecha.

Enquanto isso o motoqueiro tenta se explicar ao policial. As pessoas na rua dividem-se quanto a questão. Alguns defendem o velho, outros o motoqueiro. Uns poucos questionam o tiro dado no cachorro. A discussão cresce entre buzinas e destemperos. Mas aos ouvidos do senhor Meniera jaz um silêncio absoluto. Tudo o que vê é aquele gesto de carinho na calçada enlameada. É tudo tão simplório e banal. As pessoas não vêem, mas nós vemos. O senhor Meniera chora. Ele tem chorado muito ultimamente. Não sabe porquê. Há algo naquele gesto que faz o senhor Meniera se arrepender profundamente de não ter estado ali antes, a descoberto, sob a chuva e o amor incondicional daqueles dois idiotas.

É tudo tão calmo aqui, murmura. E o senhor Meniera está calmo, em paz. Sem precisar imaginar uma casa de praia ou estar atrás de um volante a 200 por hora. Ele recolhe o revólver e pega o cachorro no colo, colocando-o no carro. Faz o mesmo com o velho. O senhor Meniera gira o volante e passa por cima do meio-fio pegando a estrada paralela, quase atropelando o motoqueiro e a multidão que se juntava no local.

Um anjo costuma ter uma aparência muito desagradável, tão desagradável que te faz ficar sob a chuva, admirando-a.

Com certeza você já viu um deles. No cinema, em uma festa qualquer, no engarrafamento das 18 horas. Pode até ser vizinho de um. São quase sempre médicos ou advogados por volta dos 40 anos. Fazem caminhada toda manhã, mesmo nos feriados e fins de semana. Às vezes em companhia do cachorro. Costumam morar em residência própria, vestir-se casualmente e ter carros esportivos. Eles seguem um padrão de propósito para divertir-se conosco. São irritantemente simpáticos e asseados, o que provoca uma situação curiosa. Faça o teste: tente cumprimentar um deles. Você vai vê-lo sorrir desagradavelmente, balançar a cabeça e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder totalmente ao seu cumprimento. Só vai continuar sorrindo. É assim que podemos identificá-los.

Minha irmã começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas. O cara era um doutor. Minha irmã o conheceu quando um de seus alunos passou mal e ela o levou ao hospital. Ainda posso ouvi-la se derretendo sobre ele “Tão prestativo, tão atencioso, nunca tinha conhecido um médico assim!” A idiota da minha irmã sempre foi muito carente, lembro que ela se apaixonou por um amigo meu só porque ele a ajudou com as compras. Chegaram a namorar por um tempo. Quem sabe se esse meu amigo não fosse um imbecil, eles ainda estariam juntos e, bem, evitado o pior. Acompanhei minha irmã marcar encontros com o tal médico, recebendo flores e cestas de café da manhã com bilhetinhos cafonas de amor prometido. O babaca nem imaginava que com uma caixa de bombons já teria ganhado o coração dela. As flores, as promessas de amor, o namoro, tudo foi muito rápido pro meu gosto. Eu não conhecia muitos médicos, mas conhecia muitos homens e aquela atenção toda que o médico dispensava a minha irmã me incomodava bastante. Minha irmã não era um sinônimo de beleza, nem passava perto. Tirando meu amigo como namorado, ela só teve outro caso quando ainda era adolescente e vestia calças quatro números menor. Minha irmã era linda sabe, bonita mesmo, mas de um jeito diferente, de um jeito que essas revistas sobre celebridades não entendem. Daí, um cara aparece do nada e saca que ela é uma mulher maravilhosa com uns quilinhos a mais? Difícil crer, mas podia ser só ciúmes de irmão protetor. E era o que ela me dizia sempre que eu criticava as atitudes do doutorzinho. Acabou que ela conseguiu me convencer de que não havia nada de errado, eles tinham se apaixonado e só. Em verdade, eu sentia um aperto no peito toda vez que ela atendia o celular, o que não podia ser outra coisa senão ciúmes. Era preciso deixar de implicância e apoiá-la, por mais doloroso que isso fosse.

Foi num jantar de domingo que minha irmã decidiu apresentá-lo à família. O pai tratou de fazer as compras mais caras da vida, a mãe o melhor jantar que já preparara e minha irmã nunca tinha arrumado a casa tão bem. Quando acordei naquele dia e encontrei os preparativos para o jantar, a mágoa engolfou-me. Não podia desamarrar a cara para toda aquela bobagem. Só levei duas garotas para casa em toda a vida e minha mãe escorraçou uma delas de casa logo pela manhã. Agora pro doutor tinha até champanhe, acredita? Não podia deixar de me repreender pelos meus pensamentos. Ora, e daí que o tratamento fosse diferente? Tratava-se da minha irmã e não de mim. Mas quando a mãe ralhou comigo por não me aprontar com mais cuidado para receber o convidado, soltei os cachorros.

– Essa roupa estava muito boa quando a tia Carol casou.

O pai avançou sobre mim no mesmo instante:

– Se não quer trocar essa roupa mulambenta, ótimo! Mas faça o favor de não sair do seu quarto!

A mãe se aproveitou da truculência do pai e se aproximou para dizer:

– Você só trouxe vadias para essa casa! Respeite sua irmã e vista algo melhor já!

Mesmo resmungando, troquei de roupa. Embora a raiva provocasse meus olhos, eu não queria me comportar como uma criança e de birra, sentar maltrapilho à mesa estragando o esforço que meus pais e minha irmã faziam para que nossa casa parecesse a casa de outra família. Tentei trocar o ressentimento pela felicidade da minha irmã. Mas à mesa, enquanto ensaiávamos o jantar, a raiva tornou a atormentar-me. Não podia suportar a mãe dizer coisas que não dizia, falar de um jeito que não falava, sentar dura na cadeira e não refastelar-se como de costume. Novamente, o sarcasmo foi mais rápido que o bom-senso.

– Mãe, por que você não para de imitar o Robocop?

– E você podia parar de ser esse nojento insuportável antes que eu te bote pra fora! – berrou o pai, levantando-se.

– Gente, por favor, que isso… – tentava acalmar minha irmã, o que só ressaltava seu caráter condescendente. Quando a partida começava, só terminava com um ganhador. Normalmente eu jogava para perder, mas era o melhor jogador da família.

– Eu só não consigo entender pra quê esse circo? Vocês nem conhecem o cara!

– Mas você também não – intrometeu-se minha irmã na briga, pegando-me desprevenido. Aquele seu olhar peculiar de desculpas devassando-me por dentro.

– Eu sei, eu sei, é que… – calei-me. Embora em meu íntimo eu pudesse apreciar uma certa satisfação em insultá-la, ela não merecia isso. Bem sabia que era capaz de fazê-la chorar com três palavras minhas. Mas não queria acabar com sua noite. Não, aquela era a noite dela e não seria um cretino que nem eu a estragá-la. Abaixei a cabeça e segui o script.

Assim ele chegou. E todos os meus mais terríveis pressentimentos mostraram-se de fato, ciúmes bobos. Era um cara absolutamente normal. Enquanto todos vestiam suas melhores roupas para o jantar, ele aparecia casual, esbanjando simplicidade. Os cabelos meio grisalhos, os óculos grandes fora de moda. Tudo no maldito doutor denunciava suas boas intenções. Minha mãe certa vez disse que o diabo é cheio de boas intenções. Uma vez que eles atravessam o consolo da porta, você despede-se da vida. Depois de muitas apresentações, palavras polidas e outras amenidades do tipo, descarreguei meus preconceitos e aproximei-me estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas o doutor só manteve seu sorriso pregado na cara enquanto minha mão pairava seca no ar. Por um momento a cena congelou-se. Encarei-o, desafiando a não apertar minha mão e surpreendi-me dele não ceder. Eu era muito bom nesses joguinhos, mas ali estava um adversário a altura. Ia devolver-lhe o sorriso em resposta, quando senti um frio correr pela espinha e assobiar-me à nuca. Algumas pessoas ouvem o badalar da morte, diria Maria muitos anos depois. Os sinos daquela noite nunca mais me permitiram uma noite sossegada. Escute com atenção agora, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Toda a gordura que acumulamos durante a vida dissolve-se num instante. Parece que o cálcio abandona nossos ossos e diminuímos, somos crianças outra vez diante de um terror desconhecido. Com curiosidade mórbida olhamos embaixo da cama e encaramos o que vivia lá. Esse bicho-papão é assustador porque estava lá o tempo todo, disfarçado de pelúcia, brincando com você, vigiando, divertindo-se. Naquele dia eu morri, não da forma literal, mas como uma lata de molho de tomate que é aberta e despejada na pia porque está fora do prazo de validade. As pessoas que sobreviveram costumam identificá-los pela forma de sorrir. Quando seus lábios se crisparam, de uma simples animosidade, a cena revelou-se sem cortinas ou preâmbulos. Nós éramos ratos, ratos que tinham colocado um felino dentro da sua toca. Não um gato domesticado preguiçoso, mas um leopardo, um caçador tão habituado a morte quanto os ratos aos buracos. Não há receitas do que fazer. Em primeiro lugar porque se você está vivo é porque ele quer que você esteja vivo. Normalmente, as pessoas só percebem a morte quando ela finca os dentes com força na sua carne. Mas há alguns que vêem a morte se aproximar. Eu vi, mas não pude acreditar. Há algo dentro da gente que imobiliza nossas ações. Aquele gaguejar nervoso, a língua seca, uma coceira num lugar impossível, um tique qualquer. De repente você sente os olhos sujos e não consegue parar de piscar. Você pensa na sua vida. Na porra do molho de tomate azedo. Nossa existência se agita diante da morte e a morte é como uma tempestade. O barco foi a pique, marujo. E o oceano é profundo e frio.

Pode-se dizer que um sobrevivente é alguém que viu a morte e continuou. Não tem muito tempo, ouvi a história de um sobrevivente que trabalhava como jardineiro na casa de um deles. Perto do Natal, o patrão por meio da empregada convidou ele e a família para um almoço. Ele contou-me que não queria ir, que não gostava da casa do patrão, tinha qualquer coisa de muito estranha no lugar, que ele não sabia explicar. Mas a esposa fez questão de ir. Assim, ele e a família entraram na toca do lobo. Contou-me que o patrão os recebeu muito bem, disse estar muito feliz por ter companhia na noite de Natal e sorriu-lhes com gosto. Ah sim, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia. Fiquei sabendo que esse sobrevivente não aguentou. Isso é muito comum entre os sobreviventes. Poucos conseguem continuar. Não os julgo. Não se pode matar aquilo que não tem vida. Depois da última ceia, não vivemos mais, nós morremos. Sobreviver é pouco a pouco tornar-se um deles. Se possível, uma coisa pior que eles. Como posso condená-los por não se transformar em algo assim?

Você sobrevive e é acusado de tudo que sua legislação penal puder oferecer. Com sorte, você é condenado a pena de morte pública. Em alguns lugares, porém, sua dor perdura. Você é mandado para a cadeia e lá passa o diabo antes de alguém se cansar e matá-lo. Mas se você têm forças para fugir, então você será procurado. Será o criminoso mais procurado do país. Sua foto estará estampada em todos os jornais, farão programas de TV sobre você, convidarão psicólogos, psicoterapeutas e qualquer oportunista que apareça para tentar explicar porque alguém faria aquilo que você fez. Pessoas xingarão seu nome, cuspiram no seu retrato, amaldiçoarão seus dias. Velhinhas irão rezar para que você queime no inferno. Queime seu desgraçado miserável! Passado um tempo, o mundo se esquece de você, mas você está morto de qualquer forma. Essa alma, ou seja lá o que for que possuímos quando vivos que não precisa de motivos para existir, bem, essa coisa é levada por eles. Tudo o que lhe resta são lembranças amargas da vida. Você está morto, e tudo a sua volta são vultos etéreos e sinistros. Para continuar você precisa encontrar um motivo.

Eu costumo classificar os sobreviventes pelos seus motivos. Alguns sobreviventes dedicam seu continuar a provar sua inocência. Até hoje ninguém conseguiu fazer isso. O motivo beira a estupidez da obviedade. Provar sua inocência seria provar a existência deles. As pessoas não estão preparadas para saber e não querem estar. Talvez por isso somente alguns possam vê-los e mesmo assim quando eles querem ser vistos. Se alguém me falasse deles antes da última ceia, eu também não acreditaria. Nem em um milhão de anos. A meu ver, continuar por um motivo desses é um desperdício de vontade. Mesmo que fosse possível provar a existência deles, você não pode viver outra vez. Esses sobreviventes são chamados de inocentes.

Depois vêm os fugitivos, como aquele jardineiro. São aqueles que escapam da última ceia e continuam fugindo. Fugir é de longe o motivo mais doloroso de todos para continuar, porque nem motivo é de verdade. Os fugitivos são os mais numerosos, eles estão em todo lugar. Você pode encontrá-los dormindo sob cobertores finos e fedidos em algum terminal rodoviário ou embaixo de um viaduto. Ainda sim, para reconhecê-los, é preciso uma boa colheitadeira para desfazer-se da barba esculpida por sujeira, restos de comida e uns bons anos de submundo, isso se não tiverem desfigurado o rosto. Existem outros, mas dentre eles quero destacar os devotos. São aqueles que continuam para se tornar parte deles.

Por muito tempo eu também fui um fugitivo, pensei estar só. Não sabia a respeito de outros sobreviventes. Na verdade você passa bastante tempo somente fugindo, escondendo-se do mundo. Você tenta dizer a si mesmo que não fez aquilo, mas o apresentador de TV cospe de raiva quando bate na mesa e grita que pessoas como eu mereciam a cadeira elétrica. Com toda aquela propaganda dizendo que você é um psicopata, você acaba acreditando que realmente fez aquilo. Você bebe até desmaiar todos os dias. Talvez amanhã você acorde desse pesadelo. Mas o outro dia só traz mal-estar, uma dor de cabeça horrível e o desespero de ainda estar ali. Aí você percebe que não pode esquecer, então vai pirando. E pira. Você pode encontrá-los falando sozinhos por aí. Caçoarem de você. Correrem da própria sombra. Pular de um viaduto para o asfalto, de algum edifício, cruzar uma rodovia bastante movimentada com os olhos fechados. Ou continuarem se escondendo. Você fica escondido até encontrar um anjo.

3

O velho não dorme. Um sobrevivente de verdade só dorme desmaiado. Fica de pé, olhando a noite escorrer pela janela gradeada da Casa de Recuperação Vitória em Cristo. Ele gosta de ficar ali e sentir o vento noturno sacudir seus cabelos brancos. De vez em quando chora, noutras ri. As lembranças… as terríveis lembranças só trazem perda. Todas as lembranças são eu. Mesmo agora. O maldito eu. Não fosse o eu eles não poderiam me atingir. Eles… os malditos olhos! E se eu choro, o velho chora, impotente. Eu o vejo agora, segurando a grade da janela com força, rindo, com o rosto coberto de lágrimas numa caricatura do personagem esquizofrênico, ele pensa: Ridículo! Tudo se trata de você!

– Quer um cigarro, velho?

Quem interrompe nossas dores é o menino Lúcio. O velho limpa as lágrimas do rosto, mas se interrompe a meio caminho. Esconder as lágrimas era um cuidado da sua vida ceosa. Não, pensa, Lúcio precisa ver isso. Lúcio se parece com o velho. Lúcio sempre foi um bom menino, mesmo sendo aquele garoto de bochechas grandes e rosadas que está sempre no colo de alguém. Esse bom menino era muito quieto e sabia sorrir corretamente. Lúcio era o típico garoto prodígio. Foi, se não me engano, o primeiro aprovado do vestibular no curso de medicina da USP. Você pode imaginar o ritmo de estudos desse garoto: mais de 10 horas por dia! Esse menino passou mais tempo estudando que dormindo, você acredita? Sua cabeça funciona a mil com triângulos, números e palavras estranhas como autóctones. Com tanta informação não foi difícil para Lúcio chegar a razão deles. Antes da sua casa ser demolida, havia em uma das paredes o cálculo da vida. Existência igual a vida vezes tempo. Simples. Aniquilador. Tudo se resume a vida vezes o tempo. Sim, é simples, nós sabemos disso. Mas você não está vendo, não de verdade. Veja, o conceito de vida é muito simples, é um estado de consciência binário. Vivo ou morto. Assim, sendo 1 ≥ v ≥ 0, podemos quantificar nossa vida numa escala de 0 a 1. Por exemplo. Eu carrego aqui comigo 14 coisas. Então sou v/14. Mas isso sou eu, você pode adicionar o que quiser. Enfim, não interessa. Porque o tempo é sempre xis, e enquanto xis numa equação faz sentido, na vida xis não possui significado algum, isto é, zero. E tudo multiplicado por zero é zero. Isso, nada. Absolutamente nada. Pela matemática, Lúcio foi capaz de enxergar aqueles primeiros olhos, os olhos vazios que dividiram nossa existência. Imagine um sujeitinho muito peludo que tem seus vermes subtraídos por um outro sujeitinho peludo. Esse sujeito sente alguma coisa. Raiva. Tristeza. Decepção. Seja o que for, esse algo é 1. Esse sujeito vira ser quando torna v/1. Lúcio travou. Não havia porque continuar num mundo em que o sentido da existência consiste em dividir a vida. Mas no mundo deles uma engrenagem parada compromete todo o sistema. E todos os olhos caíram sobre Lúcio. Ele foi obrigado a negar. Foi aí que Lúcio começou a fugir. Como muitos, ele encontrou refúgio nas drogas, qualquer droga, mesmo açúcar. Vejo quilos e quilos de açúcar entupindo suas artérias ou qualquer outra porcaria que usasse para fracionar sua vida, quanto mais diluído estivesse menor era a experiência do nada. Mas agora Lúcio é um devoto. Um devoto é o tipo mais detestável de sobrevivente, é aquele olho que espia por uma fresta, um milésimo de segundo apenas, e se arrepende amarga e eternamente por ter olhado. No entanto, apesar de sua mediocridade exasperante, também é aquele por quem mais sentimos compaixão porque são eles as verdadeiras vítimas desse mundo. Repito, porque vocês persistem em não querer me dar ouvidos. Os devotos são as verdadeiras vítimas desse mundo. São como galinhas, aves que não podem voar mesmo tendo asas. Ora, quem pode condená-los? O que nos enoja é o que os motiva: a fé. Então Lúcio passou a chamar “E” de doença, deu-lhe um desses substantivos complicados com sufixo ‘-fobia’ porque o sufixo implica em tratamento, e tratamento em cura. Ah, todo devoto é, no fundo, no fundo, um inocente. Ou “E=0”.

– Obrigado, menino.

Nós, digo, o velho e o menino Lúcio, fumam juntos. Eles gostam de ficar ali, recebendo os primeiros raios de sol pela janela gradeada.

– Esse é o melhor sol do dia, comenta o menino Lúcio.

– É sim, concorda o velho com um aceno de cabeça, e completa: Você sabe que vai me matar, não é?

– Essa conversa de novo?

– Quero prepará-lo.

– Vá se fuder, porra. Sou um fiel servo de Cristo, agora.

– Sim, mas não se pode dizer que os carrascos de Cristo não eram seus adoradores.

– Ok, e por que é que eu ia querer te matar?

– Circunstâncias, você saberá quando a hora chegar.

O menino, um rapaz com seus quase trinta anos, obesidade mórbida, três tipos de câncer, cego, traga o cigarro com força antes de falar.

– Olha, velho, na boa. Você ta maluco, por que não aceita isso?

– É o que eles querem que você acredite, é importante, para mantê-lo vivo.

– É? E por que “eles” – Lúcio levanta os dedos para fazer o sinal das aspas  – iriam querer me manter vivo se sou só um problema pra eles?

– Ora, não banque o tolo pois a tolice de verdade não é cínica. Você sabe, sabe disso melhor do que eu, faz parte do propósito deles. Ouça, muitas pessoas morrem nesse mundo, muitas estão morrendo agora, agora mesmo, quem é você nisso tudo? Não, não, não faça essa cara, não faça que nem eles, você se parece com eles, mas não é, sabe disso. Você quebrou o ovo de um ganso, mas é uma galinha. Eles não podem reconhecer seu pensamento galináceo. Não podem. O pensamento deles é perfeito, uniforme. Não podem aceitar uma rasura como você. Porque não existem rasuras nesse mundo. Você é um número irreal. É um problema simplesmente, e um problema precisa ser resolvido ou, pelo menos, isolado. Mas deixá-lo morrer não, isso seria como reconhecer a existência do insondável, do xis, então, a dúvida: O que os olhos tanto vêem? Qual é o propósito desse deus se não for absoluto? A sua morte é uma declaração de cegueira do deus deles, enquanto sua vida é um teste de fé.

– Velho., vejo Lúcio segurar meu rosto com as duas mãos bem firmes, as marcas da sua última ceia me encarando com rancor. Ouço-o dizer que esse é o caminho da morte quando diz: Você é completamente maluco. Ele larga meu rosto, dá uma última tragada e joga o cigarro ainda aceso pela janela.

O velho eu cai de joelhos, cansado. Sim, eu sou louco. E esse é o caminho da morte. O velho pendura-se a janela para poder se levantar, termina seu cigarro e caminha para o refeitório aos passos de um moribundo. Lá, encontra os mais variados tipos de sobrevivente. Desespera-se pela maioria, são devotos, quase todos. Há um silêncio assustador no refeitório permeado por momentos de intensa gritaria. Explico. Apesar de ser possível ouvir os três ventiladores no teto girando suas pás, é preciso falar alto para ser ouvido, assim, a gritaria começa logo que o primeiro sobrevivente chega e pede seu café. “Um café, por favor”. Eles fingem não ouvi-lo e talvez esse fingimento seja tão honesto que eles de fato não o escutem de verdade. “UM CAFÉ, PELAMOR DE DEUS!”, aí o café é servido, com um sorriso. Não se esqueça do sorriso. É assim que você pode identificá-los. PRÓXIMO. Silêncio. GRITARIA. Silêncio. GRITARIA. SILÊNCIO. O velho entra na fila.

– Não vai tapar os ouvidos, velho?

Esta é Amanda. Amanda não gostaria que falasse de seus atributos físicos, porque consideraria isto machista. Amanda não gosta de ser vista como mulher, isto no sentido da identidade, como se ao dizer “mulher” você soubesse quem é Amanda. “A utilização cultural dos sexos parece servir unicamente para inferiorizar a mulher diante do homem. Mas isso, claro, só faz sentido porque nosso deus é feminista”. Amanda é uma feminista de formação. Aos 50, levava uma aposentadoria tranquila lecionando História como convidada em várias universidades do país até sua última ceia, um prato de violências tão brutais que ela ficou paraplégica. Amanda é uma fugitiva. Como todo bom sobrevivente, ela desenvolveu uma teoria muito interessante para legitimar sua fuga. Diz que somos personagens de uma história que pretende explorar a questão da existência colocando-nos em situações-limite. Para ela, nada mais somos que os pensamentos de um deus que tenta expiar as desgraças que o atormentam ao mesmo tempo em que há a crença mal formulada de que se pode passar qualquer lição valiosa para o mundo. Assim, todas essas nossas angustias e sofrimentos são apenas elementos de uma narrativa inspirada nas mais bizarras tolices cristãs dostoiévskianas. Mas o mais importante é que o enredo baseia-se em uma espécie de competição. Aquele de nós que chegar a uma conclusão satisfatória para ele, porá ponto final à história. Perguntei a ela se essa era sua conclusão. Sim, respondeu, mas parece que não sou a personagem principal da história. Amanda está sempre interessada no que o velho faz porque acha que ele é a personagem principal dessa história.

– Não vou tapar os ouvidos. Eu cansei de fugir.

– Todo sobrevivente diz isso. Sempre significa outra forma de fuga. Palavras suas., comenta Amanda a partir de um caderninho vermelho de páginas quase pretas.

– De novo isso?

– Claro. Estou documentando. É histórico isso, sabia? Você ri, mas eu vejo a dor no seu sorriso, senhor.

– Você vê? O que você vê, Amanda?

– Vejo a personificação da identidade cristã, os sonhos de uma humanidade esfacelada, alguns farelos que reluzem ao sol, cheios, não, transbordantes de esperança, é lindo, trágico, ridiculamente cômico em sua coragem cafona, é o velho discurso do amor, dos dentes tortos e sujos às mãos enrugadas e trepidantes. Neste cenário barbaramente simplório, vejo o coração deste mundo bater mais alto.

– Você devia anotar as coisas que diz também.

Amanda encara o velho por um momento e então se lembra de anotar o que ele acabara de dizer. Chega a vez do velho na fila. Ele quer café com leite, mas não grita por café com leite. Eles fingem não vê-lo, então o velho estica a mão para se servir.

– VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO., diz um deles. DIGA O QUE VOCÊ QUER E EU LHE SERVIREI.

– Eu disse, mas vocês estão surdos para tudo o que dizemos.

– OI? COMO É?

– Escutem, irmãos!, o velho se vira para o refeitório. Ouçam essa oração, é um canto que irá falar aos seus corações.

– Ei velho! O que você está cochichando aí? Saí da frente, estamos com fome!

– O seu estômago pode esperar, amigo, isso é importante., Amanda grita empinando sua cadeira de rodas para frente do velho. Ouçam! Ouçam!

Há um deus que rege nossas vidas, que nos diz o que fazer, o que comer, que hora levantar e que hora deitar. É o tempo e o tempo somos nós. Esse deus possui mil olhos, vigilantes, sedentos. Olhos que me encaram agora, sim, vocês. Vocês são os olhos desse deus, sua voz e sua mão pesada. Por que estamos aqui? Não são essas paredes que nos seguram, somos nós!

– FILHO! FILHO!, este é o pastor B. VOCÊ ESTÁ POSSUÍDO POR UM DEMÔNIO! DESÇA DAÍ, OUÇA A RAZÃO!

– Que razão, pastor? A sua? Esse deus não é real, sinta! É absurdamente simples. Dispa-se de qualquer vontade, não deseje nenhuma explicação racional, aceite o NADA, simplesmente porque nada faz sentido. É só uma escolha. Uma aposta no vácuo. Uma única verdade fundamental: não existe verdade. Somos surdos para o universo. Deus é só um grito desesperado diante do silêncio., alguém grita lá no fundo do refeitório. Isso, prossegue o velho, mas pense comigo, se não existe verdade, se nada existe, podemos fazer tudo, inclusive a verdade, ouçam! O poder só existe quando estamos juntos em espírito, quando minha voz toca seus ouvidos. São Vocês, Vocês são Deus. Vocês são Jesus Cristo. Isso, Jesus que significa Juntos e Cristo que quer dizer Muitos, Milhares e Infinitos. Houve uma época que Muitos se levantaram. Todos eles se achavam deus e reuniram-se para salvar o mundo. Morreram os coitados. Todos eles. Foram crucificados pelo cu ao contrário do que diz nossa candura histórica hipócrita. Era um sinal, o cu.

– CHEGA! TIREM-NO DAÍ! AGORA!

Ordena a senhora A., fundadora e gerente da Casa de Recuperação Vitória em Cristo. É quando um milhão de mãos agarram o velho e o jogam no chão do refeitório. O velho sente o peito esvaziar-se quando um ou dois joelhos esmagam suas costas. De baixo o velho observa com espanto seus irmãos tomando o café da manhã tranquilamente como se tudo aquilo fosse a coisa mais banal do mundo. O velho chora. E começa a rir.

– Vejam irmãos! Muitas são as mãos que me seguram! Vejam, está diante de vocês! Estendam suas mãos e verão, são vocês, seus olhos! Lembrem-se, os mesmos olhos que salvam são os olhos que condenam. Lembrem-se, Juntos, Muitos foram assassinados! Esse deus matou suas irmãs e irmãos também, assim como tias, tios, avós e pais e mães! Matou seus filhos e os filhos deles também! E depois queimou! Queimou tudo porque corria o boato de que eles podiam se levantar do tumulo!

– FAÇAM ELE CALAR A BOCA!

– Nunca se viu pira maior na história! Sua fumaça parecia vir de um vulcão! O céu ficou negro por três primaveras e aquela foi a noite mais longa da história do mundo! Não se pôde dormir direito com o cheiro da morte! Esse inverno acabou despertando os outros, que olhavam para o céu negro espantados com suas lágrimas!

– Larguem ele seus trogloditas!, Amanda avança sobre os homens que estão sobre o velho. Ela acerta a cadeira na cabeça de um deles, que se levanta furioso. O pastor B intervém pedindo calma. A senhora A tenta puxar Amanda para longe da confusão, mas ela se vira e morde a mão da mulher.

– ELA TAMBÉM ESTÁ POSSUÍDA, PASTOR!

– PARE MINHA FILHA!, o pastor B grita se interpondo entre Amanda e o velho.

– Saia da frente, pastor! Estão machucando ele!, quando o pastor se vira, Amanda aproveita para passar por ele, mas o pastor logo percebe seu movimento e segura a cadeira, que vira com a força, derrubando Amanda.

– Vamos, Amanda, mostre para eles a sua força, a força de deus! esguicha o velho.

– Não posso! Amanda grita, o rosto coberto de lágrimas.

– Você pode! Sabe que pode!

Amanda se lembra dos seus filhos, lembra do marido torturando-os. Amanda diz pra si mesmo que essas lembranças não são suas. É uma ficção tudo isso e o velho é a chave! Então Amanda estica os braços e solta um urro enorme que muitos diriam depois que foi algo como EU POSSO TUDO NESSA PORRA! ou NADA EXISTE NESSA PORRA!, ela dobra os joelhos e cambaleante, põe-se de pé. O pastor joga as mãos sobre a cabeça de Amanda e começa a rezar um pai nosso. Ela cai de joelhos.

O velho ia gritar alguma coisa, mas a chave de braço que aperta seu pescoço finalmente deixa seus pulmões vazios e ele desmaia.

A MORTE PODE ESPERAR 2

Publicado: 5 de novembro de 2013 por Bill em A Vida, o Universo, Tudo Mais
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Vejo um velho descer com uma pequena e suja trocha amarrada as costas. Dentro dela há 14 pertences. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só dá pra usar mais uma vez, uma toalha mofada com o número 42 bordado em vermelho que ele roubara ainda molhada de um varal, uma camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção com folhas da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma velha calça jeans, um caderno, um lápis, uma faca, pouco mais da metade de um sanduíche de presunto enrolado em guardanapos, uma pequena garrafa de cachaça de caju, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. Esse velho caminha pela praia. Não se sente feliz. Não importa quão lindo seja o quadro pintado pelo sol. Não importa que carinhos a brisa lhe faça. Esse velho pode até sorrir, mas quem vê seu sorriso se ressente de imediato, é como encontrar lixo espalhado pela praia. Desagradável. Desnecessário. O velho logo vai embora, sabe que não é bem-vindo. Deus, em que lugar ele é? Oh, DEUS DE MIL OLHOS que tudo vê, tudo sabe, deixe-me em paz! 

Posso ouvir os passos a suas costas, sombras que se movimentam sozinhas, noites terrivelmente barulhentas, que ficam sussurrando um horror qualquer seu, que seja, um único medo indizível, irracional, tão profundamente enraizado no seu espírito que chega a consumi-lo, devagar, mas inexoravelmente, retorcendo sua medula espinhal, até quando você se dá conta das manchas escuras envolta dos olhos e se pergunta qual foi a última vez que dormiu…

E você continua fugindo.

Ah! vida miserável essa! que se compraz com as sombras, com a sujeira, com a indiferença por que dela não lhe vem censura. Mas de que adianta? conquanto a consciência posta olhares neste corpo moribundo mesmo na escuridão! Sim! A consciência! Seja lá o que diabo for isso! É o que nos separa deles, por isso torturamo-nos em fuga ainda que seja simplesmente impossível fugir de si mesmo. É a fuga uma ilusão, mas a ilusão que nos permite continuar. Assim nos embriagamos até o raiar da morte. Todos os dias. Flertamos com a morte para, quem sabe, possa ela um dia nos levar por acidente, é uma forma de derrotar o deus de mil olhos, ilusória é verdade, mas o que não é? Sobreviver é ter a morte por sombra, o fugitivo é aquele louco que corre da própria sombra. Uma sombra fundi-se com outra. Esse velho não tem lugar. Enquanto caminha sonha com uma vida passada. Escute com atenção agora. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

E estou na minha velha casa. Meu pai está no chão em uma poça de sangue, minha mãe está embaixo de mim, a boca escancarada, os olhos vazios. Não vejo minha irmã. Sinto uma dor e um movimento de sobe e desce. Ah, é o doutorzinho. Ele está em cima de mim, está comendo a porra do meu cu. O cano frio do revolver está grudado no meu rosto. Sinto medo, um medo terrível. Um medo sem nome. Estou cagado. Cagado de medo, literalmente. Ele come meu cu cagado. Louco de merda. Sinto o calor do esperma irradiar-se pelas minhas pregas. O filha da puta geme, satisfeito.

– Cara, você tem um cu melhor que o dá tua irmã, falo sério. Porra!

Uma parte de mim, uma parte antiga de mim, está espantada, absurdamente espantada com a violência, com o terror, com o sadismo, não consigo me mover, todo o corpo dói, retesado. E ele fica sorrindo. O desgraçado sorri diante do meu medo, está feliz! O cara acabou de matar toda minha família e está sorrindo! Que tipo de pessoa pode fazer isso? Sinto um frio e ao mesmo tempo um calor escorrer pelas pernas, estou mijando. Além de cagão, eu sou a porra dum mijão!

– Ah merda! Mas que merda! – ele grita pulando às gargalhadas

Eu me odeio. Como eu me odeio. Que espécie de homem eu sou? Por que eu não paro de tremer, levanto e arranco o sorriso desse bosta mesmo que antes ele me acerte um tiro no peito? Por quê? Ele sobe as calças, afivela o cinto com cuidado. Se aproxima de mim e me beija na testa. Deve ter me acertado a cabeça com o revolver também porque apago instantaneamente. Acordo. Estão todos mortos! Mortos! Subo aos tropeços até meu quarto, apanho algumas coisas, 14 coisas na verdade, e fujo, corro dali pra nunca mais voltar. Em algum momento, os vizinhos vão desconfiar, suspeito que a primeira a notar seja Dona Silvana, incherida e fofoqueira como é, não deve demorar a estranhar o sumiço da gente, logo o fedor vai se espalhar pela rua, o telefone vai ficar tocando e tocando, tocando até cair, os cachorros vão latir de fome. Aí, alguém, dona Silvana provavelmente, liga pra polícia. Queria ter deixado uma carta colada por um imã na geladeira para quem descobrisse os corpos:

Minha mãe e irmã e o pai estão mortos. Foram torturados e assassinados pelo doutor que namorava minha irmã. Não sei porque ele me deixou viver. Acho que é uma brincadeira. Seja como for, volto quando o encontrar.

Quisera estar calmo para deixar um bilhete. Minhas mãos mal conseguiam parar de tremer para assoar o nariz. Não… Tudo que fiz foi fugir. Estou correndo agora. Meu peito dói pelo esforço. E meu cu dói pra porra também! Mal consigo continuar a corrida. Estou chorando, não, estou rindo, e chorando. Sou um covarde. Não pude proteger minha família, muito pelo contrário, eu o ajudei a matá-los. Tudo pela sobrevivência. Talvez a evolução possa explicar isso, mas não é suficiente para aplacar a revolução em minha alma. Ainda que a covardia seja um instinto de sobrevivência, isso não me faz menos covarde. Faz-me mais covarde ainda. Animais fogem do seu predador. Animais. Eu entreguei meus pais e minha irmã para me salvar. Eu os matei. Sinto o gosto salgado das lágrimas misturada ao suor que escorre da minha tez. Corro, tento fugir do passado, dessas memórias, da dor, da culpa, do ódio, da humilhação, da impotência. Sinto nojo. Repulsa. Lembro de quando criança. Um menino tomou a bicicleta da minha irmã e tivemos que voltar a pé para casa. Lembro do meu vizinho que apanhou na escola, lembro dele me pedir ajuda chorando e eu fingir que não ouvi. Era meu melhor amigo, eu ia a sua casa todo dia jogar supernintendo. Lembro do pai colocando a minha irmã de castigo por me bater. Ela me bateu porque eu a espiava no banho. Ela não contou pra ele, nunca contou para ninguém. Lembro do meu chefe passando um esporro em uma colega de trabalho, lembro dele olhar para mim e piscar. Lembro da minha noiva trepando com meu chefe. Lembro da minha mãe dizendo que estava tudo bem, que ia ficar tudo bem enquanto eu a violentava. Lembro de um negão dizer que isso acontece no mundo todo, o tempo todo. Somos um bando de covardes. Uma legião enorme de bunda-moles. Lembro de um amigo que foi aleijado por uma bala perdida. Posso ver sua cadeira de rodas desenhada nas nunvens esparsas da manhã. Não pensamos nessas coisas, fingimos que não é conosco. Você abre um jornal pela manhã enquanto bebe um café bem quente e lê sobre um casal de velhinhos, espancados até a morte pela neta, uma mocinha de 13 anos. Na mesma página há uma foto grande de um acidente de carro. A legenda diz: motorista bêbado se irrita com batida e espanca até a morte responsável pelo acidente. Você lê mais abaixo que uma criança saiu para comprar pão, você vê fotos das imagens feitas pela câmera da padaria, na foto você vê um homem se aproximar. Eles saem juntos. A menina é estuprada tão violentamente que seu hímen é rompido, ela também é espancada até a morte. No final dessa página, o jornalista constata a falta de investimentos em segurança pública. E é assim que acaba. Entre o café e uma enxurrada de noticias está você, alguém que não tem nada a ver com aquilo. Não foi você que fez o café, não foi você que moeu os grãos, não foi a pessoa que os colheu, nem quem plantou. Você dobra o jornal e sorve um último gole do café, você reclama que está muito forte. E o mundo segue adiante entre cafés, assassinatos e imobilidade. Mas a morte nunca para nesse mundo, sua sede de sangue é inesgotável. É um monstro gigante, o deus deles, está aí, por todo o canto. Pra onde quer que se olhe lá está aquela boca escura, infinita e minúscula, com tantos olhos quanto estrelas. Sedento. Eu sei que ele está lá, mesmo de dia, sei que o sol é só um disfarce, um botão de ouro numa lapela negra. Você pode ouvi-lo se parar para escutar. Ouça-o, chupando, sugando, tragando tudo por uma fenda tão pequena que nem a luz é capaz de atravessar. Sinto sua fome. Insaciável. Terrível. O apetite macabro que devora amor, compaixão, empatia. Que nos torna essas coisas duras, vazias. Eu vejo agora. Sou aquele cara acorrentado que se liberta e vai para além das sombras. Oh, luz das trevas! Antes fosse cego! Vejo a obediência cega das formigas operárias ao DEUS DE MIL OLHOS, seus mais crédulos fiéis. Essas formigas fazem de conta que o Shopping não é uma Igreja, que as Compras não são Dízimos, que o Consumo não é uma Fé, que o Trabalho não é um Sacerdócio, que o Dinheiro não leva o nome de Deus. Esse monstro não rasteja pelos esgotos, não esconde-se em becos escuros ou espreita agachado no mato alto. Ele está aí, ao seu lado, esperando, eles gostam de brincar antes da refeição. Eles não querem seu dinheiro, não querem seus sapatos bonitos, nem sua roupa cara, o deus deles não liga para essas coisas. Esse monstro quer seu desespero, sua dor, sua felicidade. Esse monstro pode ser um casal de velhinhos, um simpático doutor ou uma garotinha. É tudo uma grande piada macabra. Não existe felicidade, mas eles a inventaram para que o sofrimento pudesse existir. O café é despejado na pia e um grito se escuta. Um avental cai manchado de sangue na cozinha impecavelmente branca. Em seguida você desdobra o jornal novamente. É assim no mundo todo. Um grito a noite. São seus vizinhos brigando novamente. Eles gritam o tempo todo. Amanhã a policia irá recolher os corpos e você pode chorar suas mortes. Aponte um revólver para suas cabeças e vai vê-los implorarem pela vida de joelhos. São pessoas boas, pode consultar seus parentes e amigos e conhecidos. Provoque o medo e você vai ver um espetáculo de horror. Você escuta sobre o desastre de um avião que caiu na Patagônia, lê que os sobreviventes comeram os corpos dos mortos. O que você não lê e você não quer ler, é que nem todos que foram comidos tinham morrido em decorrência da queda. Carne congelada não é agradável. Esse monstro gosta de se divertir antes das refeições. Você pode ver seus tentáculos passeando, sossegados. Pessoas honestas, maridos e mulheres fiéis, adolescentes cristãos. Eles irão se despedaçar, comer-lhe as entranhas, farão de tudo para perpetuar o que chamam de vidas, porque Pandora fechou o último dos terrores em sua caixa. Nós não nascemos, não crescemos. Só comemos e comemos a espera da morte. Nossos corpos jazem quentes em residências de janelas blindadas, muros altos com cercas elétricas e câmeras de segurança. Acreditamos em um deus justo num mundo de injustiça. Uma ilusão, para viver, para continuar, para justificar o sofrimento, suportá-lo e, principalmente, negligenciar a dor. Vamos à igreja cultuar a morte de um homem pregado na cruz. Não foi deus que espancou, cuspiu e zombou dele até a morte. Foi você, você tem o poder de matar. Por que não usar esse poder? Por que devemos oferecer o outro lado da face? Esse é o caminho dos devotos. Devotos são aqueles que sobrevivem até se tornar um olho de deus, um anjo.

Lembro de vê-lo caminhar num passo bêbado, cantando uma música do Raul:

Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
Ele disse: Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado
Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado!

Provavelmente foi o cansaço que o fez ditar num banco de parada. Às vezes, um sobrevivente joga a sobrevivência pelos ares. O sono o abraçou assim que se esticou no banco, de onde estava pude ouvir seu ronco leonino, e por isso não escutei, e nem ele, o carro derrapando ali perto. Ou pior, ouviu, ouviu e ficou lá, fraco demais, cansado demais, esperançoso talvez, quem sabe a morte veio me buscar? Nessas ocasiões um fugitivo confunde-se com um inocente. Deve ter escutado vozes masculinas em timbres tiquetaqueados, alguns risos. Deve ter pensado: Merda, fudeu. Escuta alguma coisa ininteligível. Mais risos. Sente um líquido escorrer pelo rosto. É vodca, provavelmente. Odeio vodca. Ouço um deles reclamar que estão desperdiçando bebida e, logo após, gargalhadas e soluços, no instante em que um líquido quente e fedorento jorra-lhe na cara. Depois outro e mais outro. Os filhas da puta mijam às gargalhadas. Então, ele abre os olhos, sente-os arder por causa da urina. Lentamente, formas escuras dão lugar a três rostos jovens e bonitos. São só garotos, penso, com seus dezesseis, dezessete anos, fumando seus cigarros, andando de skate, enchendo a cara, matando aula, assistindo TV, namorando… como eu até… e lá estava ele, o desgraçado, sorrindo seu sorriso de merda. Os cabelos meio grisalhos, óculos grandes fora de moda. Estão se divertindo. Todos eles. Ouço o som de sucção, sutil, brutal em sua invisibilidade.

Lembro. Estou em casa outra vez, agora na cozinha, estou rindo. Por quê? Ah sim, a mãe. A mãe e a irmã gritam enquanto faço chacota da situação, era fim de mês e sem dinheiro, a mãe tinha decidido matar uma galinha nossa. Era assim, quando pequenos, ganhávamos um pintinho para cuidar, cuidávamos com carinho e depois de crescidos, em algum momento, faca na goela. Eu já tinha me acostumado com isso, mas minha irmã não. Era a Miudinha dela que ia ser passada na faca aquele dia. E ela chorava. Como sempre. Minha irmã chorava por tudo, era incrível isso. Então, a graça da coisa era minha mãe, velha e gorda correndo atrás da galinha e minha irmã soltando gritinhos de “não! Por favor! Deixa ela em paz, mãe!” E ás vezes para mim: “Seu escroto! Você acha é graça não é?” Eu sempre ficava espantado com a capacidade da minha irmã de dizer obviedades. É claro que eu achava graça. Muito embora não veja graça alguma na cena agora. Eu lembro dela. Da galinha. A Miudinha. Fui eu que lhe dei esse nome. Posso vê-la agora, acuada, os olhos pequenos, molhados, medrosos. Fui eu que a capturei depois da mãe me passar uma sova. Fui eu que a entreguei a mãe. Eu. Eu vi seu pescoço ser riscado a faca, vi asas e pés balançarem em desespero. Vi a vida afogar-se em sangue. Lembro das risadas se cansarem aos dentes, dos lábios secos, da língua dura. Sonhei com Miudinha depois. Os olhinhos molhados como jabuticabas maduras presas a boca do pai, as órbitas sendo chupadas com gosto, da cabeça dela esticando a pele da barriga do pai por dentro do estomago, dela abrir o bico e cacarejar qualquer coisa em galinhez, depois se rir, um riso horrível, de morte. Lembro de ter passado aquela noite mais tempo debruçado sobre o vaso sanitário do que na cama.

Imagino eles jogarem a gasolina sobre aquele sobrevivente. Penso no que ele fará: caso seja um inocente, vai se ajoelhar e suplicar pela vida? Ou é um fugitivo clássico e tentará correr? Ou, simplesmente, vai deixar-se ficar e queimar? Porra, era uma maneira muito triste de morrer. Você sente o calor escaldante derreter sua pele em um segundo, um segundo apenas da mais pura dor e então não sente mais nada. Você ainda está queimando, queimando mesmo, e é antes afogar-se que queimar, você rola pelo chão e vê pedaços seus espalhados pelo asfalto, fumegando. Se você tentar levantar, vai ver a massa gordurosa de pele e músculos escorrerem pelo seu braço como se fosse uma vela gigante derretendo. Vai sentir o rosto se liquefazer, as pálpebras escorregarem, as narinas fecharem momentaneamente, os lábios incharem e explodirem. As orelhas caírem com um ploc. Reze para morrer ali mesmo, reze, reze para não sobreviver a isso. Tudo o que restará de você então será um retrato da dor.

Não sei como aconteceu ao certo, quando dei por mim, já estava agarrado à perna de um deles, com os dentes cravados nela. A força da mandíbula era tão grande, que os dentes tinham rasgado os jeans do garoto sem esforço e arrancado um generoso naco de carne. Enquanto uivava de dor, um outro chutou-lhe o estomago, a costela quebrada deve ter girado dentro dele quando agarrou outra perna e avançou sobre a virilha. Ali também mordeu. Os dentes passaram fácil pelo short de surfista e arrancou com gosto parte do seu pênis e uma das suas bolas. O sangue jorrou quente sobre o rosto e esse sobrevivente sorriu. Que estava fazendo? Que olhar era aquele? O sorriso… Lembro de Tom e Jerry, o meu desenho favorito. Vejo nitidamente o rato marrom sorver com gosto a sopa da morte preparada pelo gato para logo em seguida engasgar. O gato às gargalhadas. Talvez aqueles garotos tivessem acordado cedo para ir à escola, tomado banho quente, escovado os dentes depressa e combinado no intervalo das aulas de tomar uma e depois, quem sabe, espancar um mendigo. Ou ainda não tivessem combinado nada, mas quando o viram ali, deitado no meio da rua, sei lá, era uma afronta a felicidade. Depois da última ceia, todos sentem o seu cheiro, o cheiro do vômito do DEUS DE MIL OLHOS. O devoto é aquele que aprende a ruminar.

Um gritou: Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos
Eu disse: Claro, pois não, mas o que é que eu fiz?
Se é documento eu tenho aqui…
Outro disse: Não interessa, pouco importa, fique aí
Eu quero é saber o que você estava pensando
Eu avalio o preço me baseando no nível mental

O último deles pega um pedaço de ferro, mas quando vê esse sobrevivente levantar com a cara coberta de sangue e cuspir um dos ovos do amigo, sai correndo. O veneno também corre nas veias dele, Jerry. Ao longe você escuta uma sirene. Eu fujo, não sei o que procuro, mas não está ali, não naquele sorriso, eu preciso encontrar um outro motivo. Porque dia menos dia, um sobrevivente cansa de fugir.

Cuidado brother, cuidado sábio senhor
É um conselho sério pra vocês
Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês
Ah! Metrô linha 743

E desde então esse velho tem procurado. Encontrou um grupo de estudantes que brigavam por causa de uma treta qualquer. O velho largou sua trouxinha suja no chão e correu para eles. Disse:

– Poxa, vamos conversar pessoal?

Um jovem o encarou com desconfiança e deboche:

– E o que você tem com isso, velho?

– Eu? Eu não sou ninguém. Só vi muitas brigas na minha vida, muitas, e todas essas brigas são porque nos tornamos reféns do eu. Achamos que estamos em primeiro lugar e por isso brigamos. Brigamos porque queremos provar nosso valor. Ah! O orgulho! Como deixar de lado o eu, quando o outro joga seu eu sobre você? Podemos aceitar a injustiça de uma alteridade interferir sobre nossa vontade? Sabem o que fiz? Fugi. Não poderia enfrentar o eu. Tive que deixá-lo, ele e a todos que me lembravam dele.

– Velho, tu tá é doido…

– Sim. Corro pelo mundo fugindo de mim. Pois eu fui a causa de todas as desgraças do mundo. Ah, se eu pelo menos conseguisse deixar o orgulho de lado. Não posso! Não com eles que são parte de mim… Espere, deixe-me fazer entender. Ouça. Por que estão brigando? Não, não. Não importa o motivo. A questão é que vocês se colocam um acima do outro, como se nesse mundo houvesse verdade quando a única verdade que existe é aquela proferida. Deixe que ele vença, deixe! Ajoelhe-se! Beije seus pés!

E o velho se atira aos pés do menor dos rapazes, agarrando-se a suas pernas, tentando beijá-las. O rapaz se assusta e instintivamente lhe acerta o joelho na cara. Nosso velho é atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, agora ele via o sol, o mar, podia sentir a brisa lhe massagear o corpo. O velho chora de felicidade. Ele se atirou mais uma vez sobre o jovem. Os outros jovens começaram a rir e o rapaz se sentiu humilhado e ridicularizado por aquele mendigo e partiu pra cima dele. Pelo menos três socos conseguiu desferir antes de ser segurado pelos outros jovens. Alguns minutos depois o lugar estava vazio, há não ser pelo velho que ficou deitado na calçada, olhando pro céu. Pode existir coisa mais perigosa que o amor? Veja o estado desse pobre homem. Nada possui no mundo. Nem mesmo orgulho próprio. Nem mesmo um eu, porque eu não posso mais o sê-lo, tudo que posso fazer é observá-lo, torcer por ele, rir e chorar. Vejo que logo a tristeza lhe irá penetrar a carne, com tanta força que até os dentes serão sacudidos. Um vira-lata se aproxima e lhe lambe o sangue na bochecha. O velho então chora, mais uma vez, não a última. Levanta-se, mesmo querendo ficar deitado, deitado pra nunca mais se levantar. Mas levanta. Pega sua trouxinha e retira o sanduíche de presunto enrolado em guardanapos. Joga o presunto pro cachorro e come o pão com salada e tomate azedos. Depois de comer, o cachorro segue seu caminho. Ninguém se interrompe pelo nosso velho. Ele retira o maço de cigarros e a caixinha de fósforos da mochila, pega um cigarro e um fósforo. Tenta acendê-lo, mas o vento apaga a chama antes que ele consiga tragar. O velho se enfurece. Atira maço e fósforo para longe e grita. Grita com toda a força. O orgulho ainda está lá, junto a sombra do eu, remoendo-se, gemendo, envenenando, agonizando, sofrendo, implorando…

Pare de me machucar. Pare. Pare.

– E é onde estou agora.

– O senhor foi recolhido no dia 24 de junho do ano passado, correto?

– Sim, acho que sim. Tanto faz.

– O que tem achado das instalações e do atendimento desse instituto psicossocial?

– Você ouviu o que eu disse? Eu disse para você prestar a atenção porque você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia, e ele só conta essa história uma única vez.

– Senhor, por favor. Sem divagações. Tente responder as questões.

– Ok. O que eu acho desse lugar? É branco demais. Querem disfarçar o terror, mas os olhos de DEUS são brancos! e estão aqui, estão olhando para mim agora!

O velho se assusta, pois os olhos da assistente social são muito parecidos com os que sua irmã tinha. Levanta aos gritos e  a deixa, ali, sentada e aturdida. Outro doido de pedra, pensa.

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Com certeza você já viu um deles. No cinema, em uma festa qualquer, no engarrafamento das 18 horas. Pode até ser vizinho de um. São quase sempre médicos ou advogados por volta dos 40 anos. Fazem caminhada toda manhã, mesmo nos feriados e fins de semana. Às vezes em companhia do cachorro. Costumam morar em residência própria, vestir-se casualmente e ter carros esportivos. Eles seguem um padrão de propósito para divertir-se conosco. São irritantemente simpáticos e asseados, o que provoca uma situação curiosa. Faça o teste: tente cumprimentar um deles. Você vai vê-lo sorrir desagradavelmente, balançar a cabeça e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder totalmente ao seu cumprimento. Só vai continuar sorrindo. É assim que podemos identificá-los. Quanto a mim, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta sobre sua última ceia.

Minha irmã começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas. O cara era um doutor. Minha irmã o conheceu quando um de seus alunos passou mal e ela o levou ao hospital. Ainda posso ouvi-la se derretendo sobre ele “Tão prestativo, tão atencioso, nunca tinha conhecido um médico assim!” A idiota da minha irmã sempre foi muito carente, lembro que ela se apaixonou por um amigo meu só porque ele a ajudou com as compras. Chegaram a namorar por um tempo. Quem sabe se esse meu amigo não fosse um imbecil, eles ainda estariam juntos e, bem, evitado o pior.

Acompanhei minha irmã marcar encontros com o tal médico, recebendo flores e cestas de café da manhã com bilhetinhos cafonas de amor prometido. O babaca nem imaginava que com uma caixa de bombons já teria ganhado o coração dela. As flores, as promessas de amor, o namoro, tudo foi muito rápido pro meu gosto. Eu não conhecia muitos médicos, mas conhecia muitos homens e aquela atenção toda que o médico dispensava a minha irmã me incomodava bastante. Minha irmã não era um sinônimo de beleza, nem passava perto. Tirando meu amigo como namorado, ela só teve outro caso quando ainda era adolescente e vestia calças quatro números menor. Minha irmã era linda sabe, bonita mesmo, mas de um jeito diferente, de um jeito que essas revistas sobre celebridades não entendem. Daí, um médico aparece do nada e saca que ela é uma mulher maravilhosa com uns quilinhos a mais? Difícil crer, mas podia ser só ciúmes de irmão protetor. E era o que ela me dizia sempre que eu criticava as atitudes do doutorzinho. Acabou que ela conseguiu me convencer de que não havia nada de errado, eles tinham se apaixonado e só. Em verdade, eu sentia um aperto no peito toda vez que ela atendia o celular, o que não podia ser outra coisa senão ciúmes. Era preciso deixar de implicância e apoiá-la, por mais doloroso que isso fosse.

Foi num jantar de domingo que minha irmã decidiu apresentá-lo à família. O pai tratou de fazer as compras mais caras da vida, a mãe o melhor jantar que já preparara e minha irmã nunca tinha arrumado a casa tão bem. Quando acordei naquele dia e encontrei os preparativos para o jantar, a mágoa engolfou-me. Não podia desamarrar a cara para toda aquela bobagem. Só levei duas garotas para casa em toda a vida e minha mãe escorraçou uma delas de casa logo pela manhã. Agora pro doutor tinha até champanhe, acredita? Não podia deixar de me repreender pelos meus pensamentos. Ora, e daí que o tratamento fosse diferente? Tratava-se da minha irmã e não de mim. Mas quando a mãe ralhou comigo por não me aprontar com mais cuidado para receber o convidado, soltei os cachorros.

– Essa roupa estava muito boa quando a tia Carol casou.

O pai avançou sobre mim no mesmo instante:

– Se não quer trocar essa roupa mulambenta, ótimo! Mas faça o favor de não sair do seu quarto!

A mãe se aproveitou da truculência do pai e se aproximou para dizer:

– Você só trouxe vadias para essa casa! Respeite sua irmã e vista algo melhor já!

Mesmo resmungando, troquei de roupa. Embora a raiva provocasse meus olhos, eu não queria me comportar como uma criança e de birra, sentar maltrapilho à mesa estragando o esforço que meus pais e minha irmã faziam para que nossa casa parecesse a casa de outra família. Tentei trocar o ressentimento pela felicidade da minha irmã. Mas à mesa, enquanto ensaiávamos o jantar, a raiva tornou a atormentar-me. Não podia suportar a mãe dizer coisas que não dizia, falar de um jeito que não falava, sentar dura na cadeira e não refastelar-se como de costume. Novamente, o sarcasmo foi mais rápido que o bom-senso.

– Mãe, por que você não para de imitar o Robocop?

– E você podia parar de ser esse nojento insuportável antes que eu te bote pra fora! – berrou o pai, levantando-se.

– Gente, por favor, que isso… – tentava acalmar minha irmã, o que só ressaltava seu caráter condescendente. Quando a partida começava, só terminava com um ganhador. Normalmente eu jogava para perder, mas era o melhor jogador da família.

– Eu só não consigo entender pra quê esse circo? Vocês nem conhecem o cara!

– Mas você também não – intrometeu-se minha irmã na briga, pegando-me desprevenido. Aquele seu olhar peculiar de desculpas devassando-me por dentro.

– Eu sei, eu sei, é que… – calei-me. Embora em meu íntimo eu pudesse apreciar uma certa satisfação em insultá-la, ela não merecia isso. Bem sabia que era capaz de fazê-la chorar com três palavras minhas. Mas não queria acabar com sua noite. Não, aquela era a noite dela e não seria um cretino que nem eu a estragá-la. Abaixei a cabeça e segui o script.

Então ele chegou e todos os meus mais terríveis pressentimentos mostraram-se de fato, ciúmes bobos. Era um cara absolutamente normal. Enquanto todos vestiam suas melhores roupas para o jantar, ele aparecia casual, esbanjando simplicidade. Os cabelos meio grisalhos, os óculos grandes fora de moda. Tudo no maldito doutor denunciava suas boas intenções. Mas uma vez que eles atravessam o consolo da porta, você despede-se da vida. Depois de muitas apresentações, palavras polidas e outras amenidades do tipo, descarreguei meus preconceitos e aproximei-me estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas o doutor só manteve seu sorriso pregado na cara enquanto minha mão pairava seca no ar. Por um momento a cena congelou-se. Encarei-o, desafiando a não apertar minha mão e surpreendi-me dele não ceder. Eu era muito bom nesses joguinhos, mas ali estava um adversário a altura. Ia devolver-lhe o sorriso em resposta, quando senti um frio correr pela espinha e assobiar-me à nuca. Algumas pessoas ouvem o badalar da morte, diria meu anjo muitos anos depois. Os sinos daquela noite nunca mais deixariam que eu tivesse uma noite tranqüila.

Toda a gordura que acumulamos durante a vida dissolve-se num instante. Parece que o cálcio abandona nossos ossos e diminuímos, somos crianças outra vez diante de um terror desconhecido. Com curiosidade mórbida olhamos embaixo da cama e encaramos o que vivia lá. Esse bicho-papão é assustador porque estava lá o tempo todo, disfarçado de ursinho de pelúcia, brincando com você, vigiando, preparando-se.

As pessoas que sobreviveram a eles costumam identificá-los pela forma de sorrir. E de fato, quando seus lábios se crisparam, de uma simples animosidade, a cena revelou-se sem cortinas ou preâmbulos. Nós éramos ratos, ratos que tinham colocado um felino dentro da sua toca. Não um gato domesticado preguiçoso, mas um leopardo, um caçador tão habituado a morte quanto os ratos aos buracos. Não há receitas do que fazer. Em primeiro lugar porque se você está vivo é porque ele quer que você esteja vivo. Normalmente, as pessoas só percebem a morte quando ela finca os dentes com força na sua carne. Mas há alguns que vêem a morte se aproximar. Eu vi, mas não pude acreditar. Há algo dentro da gente que imobiliza nossas ações. É aquele trava-língua, uma coceira, um estalar de dedos. Você pensa na família, no emprego, nos amigos, na vida, em você. Sobretudo em você. E é nesse momento que conhecemos essa pessoa que somos. Nossa existência se agita diante da morte e a morte é uma tempestade. O barco foi a pique, marujo. Abandonar navio! Ou você encara a morte ou foge, de qualquer forma, você deixará tudo para trás. Essa é a verdadeira morte. Um sobrevivente é alguém que viu a morte e continuou.

Não tem muito tempo, ouvi a história de um sobrevivente que trabalhava como jardineiro na casa de um deles. Perto do Natal, o patrão por meio da empregada convidou ele e a família para um almoço. Ele contou-me que não queria ir, que não gostava da casa do patrão, tinha qualquer coisa de muito estranha no lugar, que ele não sabia explicar. Mas a esposa fez questão de ir. Assim, ele e a família entraram na toca do lobo. Contou-me que o patrão os recebeu muito bem, disse estar muito feliz por ter companhia na noite de Natal e sorriu-lhes com gosto. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia. Fiquei sabendo que esse sobrevivente não aguentou. Isso é muito comum entre os sobreviventes. Poucos conseguem continuar. Não os julgo. Não se pode matar aquilo que não tem vida. Depois da última ceia, não vivemos mais, nós morremos. Sobreviver é pouco a pouco tornar-se um deles. Se possível, uma coisa pior que eles. Como posso condená-los por não se transformar em algo assim?

Você sobrevive e é acusado de tudo que sua legislação penal puder oferecer. Com sorte, você é condenado a pena de morte pública. Em alguns lugares, porém, sua dor perdura. Você é mandado para a cadeia e lá passa o diabo antes de alguém se cansar e matá-lo. Mas se você têm forças para fugir, então você será procurado. Será o criminoso mais procurado do país. Sua foto estará estampada em todos os jornais, farão programas de TV sobre você, convidarão psicólogos, psicoterapeutas e qualquer oportunista que apareça para tentar explicar porque alguém faria aquilo que você fez. Pessoas xingarão seu nome, cuspirão no seu retrato, amaldiçoarão seus dias. Velhinhas irão rezar para que você queime no inferno. Queime seu desgraçado miserável! Passado um tempo, o mundo se esquece de você, mas você está morto de qualquer forma. Essa alma. ou seja lá o que for que possuímos quando vivos que não precisa de motivos para existir, bem, essa coisa é levada por eles. Tudo o que lhe resta são lembranças amargas da vida e o terror da morte, os eventos da sua última ceia. Você está morto, e tudo a sua volta são fantasmas. Para continuar você precisa encontrar um motivo.

Eu costumo classificar os sobreviventes pelos seus motivos. Alguns sobreviventes dedicam seu continuar a provar sua inocência. Até hoje ninguém conseguiu fazer isso. O motivo beira a estupidez da obviedade. Provar sua inocência seria provar a existência deles. As pessoas não estão preparadas para saber e não querem estar. Talvez por isso somente alguns possam vê-los e mesmo assim quando eles querem ser vistos. Se alguém me falasse deles antes da última ceia, eu também não acreditaria. Nem em um milhão de anos. A meu ver, continuar por um motivo desses é um desperdício de vontade. Mesmo que fosse possível provar a existência deles, você não pode viver outra vez. Esses sobreviventes são chamados de inocentes.

Depois, vêm os fugitivos, como o jardineiro. São aqueles que escapam da última ceia e continuam fugindo. Talvez pelo movimento inercial de fuga ser semelhante ao viver, fugir é de longe o motivo mais doloroso de todos para continuar, porque nem motivo é de verdade. Os fugitivos são os mais numerosos, eles estão em todo lugar. Você pode encontrá-los dormindo sob cobertores finos e fedidos em algum terminal rodoviário ou embaixo de um viaduto. Ainda sim, para reconhecê-los, é preciso uma boa colheitadeira para desfazer-se da barba esculpida por sujeira, restos de comida e uns bons anos de submundo, isso se não tiverem desfigurado o rosto. Existem outros, mas dentre eles quero destacar os devotos. São aqueles que continuam para se tornar parte deles.

Por muito tempo eu também fui um fugitivo, pensei estar só. Não sabia a respeito de outros sobreviventes. Na verdade você passa bastante tempo somente fugindo, escondendo-se do mundo. Você tenta dizer a si mesmo que não fez aquilo, mas o apresentador de TV cospe de raiva quando bate na mesa e grita que pessoas como eu mereciam a cadeira elétrica. Com toda aquela propaganda dizendo que você é um psicopata, você acaba acreditando que realmente fez aquilo. Você bebe até desmaiar todos os dias. Talvez amanhã você acorde desse pesadelo. Mas o outro dia só traz uma dor de cabeça horrível. Aí você percebe que não pode esquecer, então vai pirando. E pira. Você pode encontrá-los falando sozinhos por aí. Caçoarem de você. Correrem da própria sombra. Pular de um viaduto para o asfalto, de algum edifício, cruzar uma rodovia bastante movimentada com os olhos fechados. Ou continuarem se escondendo. Você fica escondido até ELES te encontrarem.