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Quando David Fincher lançou o clássico “Clube da luta” em 1999, plateias do mundo inteiro ficaram chocadas. Nunca, até ali (e ainda hoje, não?), um filme hollywoodiano tinha sido tão subversivo ao capitalismo. Até a ameba mais unicelular sacou que os socos trocados no filme eram uma espécie de busca pelo sentido da vida (“sentir” a vida). E essa é só a mais básica das constatações.

Raymond k. Hessle

Sim, senhor

Você foi pra faculdade, Raymond?

Sim, senhor

E o que diabos você está fazendo trabalhando numa loja de merda dessas?

Eu… eu tive que largar a faculdade, senhor! Tive que largar para trabalhar!

E você fazia que curso?

Ah… biologia, senhor.

OK. Então escute bem, Raymond, porque eu só vou dizer uma vez. Você não é o seu emprego. Você não é quanto dinheiro você tem no banco. Você não é o carro que você dirige. Você não é o conteúdo da sua carteira. Você não é as calças cáqui que veste. Você não é um caixa de loja. Você é toda merda ambulante do mundo. Amanhã Raymond, você não voltará para cá, você irá terminar seu curso de biologia. Se você voltar a essa loja mais uma vez na sua vida, eu juro que vou encher o seu cu de balas, você ouviu bem, Raymond?

Sim, senhor.

Então vá! Vá Forrest, vá!

Amanhã será o dia mais bonito da vida de Raymond K. Hessle. Seu café da manhã terá um gosto melhor do que qualquer outra refeição que você e eu jamais tivemos

Nos créditos finais ficamos sabendo que o filme é baseado num romance de mesmo nome, de um tal de Chuck Palahniuk. Da noite para o dia, um pacato jornalista de Washington se torna uma celebridade.

Inspire. Inspire fundo. Esta estória deve levar o tempo que você consegue segurar sua respiração e um pouco mais...

Não por coincidência, em Sobrevivente, o seu livro seguinte a Clube da Luta, o personagem principal Tender Branson também se torna uma celebridade instantânea. Essa transformação acontece tão bruscamente que é preciso voltar algumas páginas pra ter certeza de que não deixamos escapar nada. Chuck revela os tão cobiçados segredos das celebridades para se menterem sempre tão bonitos, magros e jovens. Tudo é uma farsa dolorosa. Para ser uma celebridade Tender precisa ser mais alto, então toma hormonios para crescer, o que exige uma série de medicamentos para conter os efeitos colaterais, como a perda de cabelo. Mas ficar careca não tem problema, se seu cabelo é ruim mesmo. Você não come, você assobia. Você não mastiga, você aspira. Sujeitos as mais terríveis tecnicas estéticas, quando Tender Branson sobe ao palco para falar ao seu público cativo, ele é tudo, menos o velho Tender.

Na trama uma comunidade religiosa radical tem como habito enviar seus filhos para trabalhar fora para que esses enviem seu dinheiro e sustentem a comunidade, para isso eles recebem treinamento militar de como cuidar de uma casa, aprendem tudo de etiqueta y outras cositas más.

É quando acontece um suicídio em massa na comunidade, os membros que estão do lado de fora são instruídos a cometer suicídio também, os que não o fazem são chamados de sobreviventes. A história é contada sob o ponto de vista de um desses sobreviventes, Tender Branson. O livro todo é uma gravação dele. O que nós estamos lendo são registros da caixa preta do voo 2039, que caiu em algum lugar da Austrália.

A história de Tender é recheada de acontecimentos absurdos, mas esse Tender Branson, dos personagens de Chuck, é o menos perturbado. Veja bem, Tender é um cara bem normal, se você não souber de antemão que ele pertencia a uma religião de fanáticos que se mataram todos. É sério, digamos que você cruzasse com ele na rua, talvez desse uma segunda olhada por conta das grossas costeletas, mas nada mais. Tender não se veste como os outros sobreviventes e não gosta de falar neles. Há uma passagem muito interessante do livro quando ele está em um ônibus que um cara fica fazendo piada dos fiéis da Igreja do Credo, Tender ri bem alto, estaria tentando disfarçar seu desconforto ou temia ser reconhecido? No fim dessa cena, quando o cara das piadas levanta:

Sem nem mesmo pensar, digo o nome dele.

Adam. Adam Branson.

O piadista diz: “Eu te conheço de algum lugar?”

E eu digo, não.

A fila avança alguns passos, levando-o para mais longe, e ele diz: “Nós não crescemos
juntos?”

E eu digo, não.

De pé, à porta do ônibus, ele grita: “Você não é meu irmão?”

E eu grito, não.

E ele se vai.

Lucas, capítulo 22, versículo 34: 

“… três vezes tu negarás que me conheces.”

Acho que podemos afirmar com uma certa margem de certeza que Tender tinha deixado seu passado de fiel da Igreja do Credo para trás. Como se sua religião tivesse sido enterrada junto deles.

Mas é aí que as certezas acabam. Se no Clube da Luta tudo é muito bem resolvido no ato final. Em Sobrevivente quase tudo se constitui numa interrogação.

Vamos lá:

1. Adam Branson

Adam é o nome dado ao primogênito da família. Adam será aquele que continuará na comunidade. Irá ter muitos filhos e um dia se tornará ancião. Tender é o nome dado a todo o resto (para as meninas também é assim, só que com Author e Biddy). O caso particular do nosso Tender  é que ele nasceu só uns segundos depois do seu irmão, eram gêmeos. A assistente social que cuida do caso de Tender, pergunta a ele se ele não sente raiva, rancor, algum ressentimento por ter sido injustiçado. Tender explica que não via como injustiça, mas como as coisas eram, nada mais.

E aqui há um link com o Clube da Luta, quando Tyler diz:

Você passa a vida toda represando. Você represa o ódio pelo seu pai sacana. O ódio pelos colegas mais fortes da escola. O ódio pela aquela garota que te desprezou. Do seu chefe, da sua mulher, dos seus filhos. Mas um dia a represa arrebenta e a merda toda sai rolando, cagando tudo por onde passa.

Será que Adam Brenson é a represa arrebentada de Tender, assim como era Tyler Durden?

Na cultura do Credo, seu nome mostrava a todos a quem você pertencia. Tender ou Biddy. Adam ou Author. Ou Elder.  Seu nome determinava como seria sua vida. Se você fosse uma Biddy, podia sonhar que um dia isso (tornar-se uma Author) poderia acontecer com você. Se você fosse um Tender, você não sonhava.

Acho que Chuck tenta nos confundir justamente porque sabia que para os leitores do Clube da Luta seria fácil fazer esse tipo de comparação. Então ele mistura personagens reais com representações do protagonista. Existiu um Adam Tender, mas ele morreu. Então Adam é aquilo do qual Tender foi privado. Era o irmão que lhe contava do mundo maldito “lá fora”. O irmão era o perfeito idiota, pois nada do que contava era verdade. Mas o irmão também era a lembrança amarga (e represada) de que ele devia ter cometido suicídio. O irmão personifica o Tender da Igreja do Credo, o Tender que obedecia cegamente as ordens dos anciões, o Tender que era o aluno mais aplicado das aulas. Seria Adam uma representação distorcida de Tender, um Tender muito puto com a idiotice do mundo?

Tender logo no inicio do livro diz que não é um assassino,  o avião que ele sequestrou vai cair, mas ele já deixou todos os passageiros em um aeroporto a caminho da Austrália.

Mas esse mesmo Tender é o Tender que atendia os telefonemas de pessoas pedindo por ajuda e ele dizia: se mate.

O que eu acho? Acho que Adam Tender ligava para os outros sobreviventes e dizia para eles se matarem.

A assistente social de Tender lhe diz que suspeita que exista uma pessoa assassinando os sobreviventes “só que ele faz de uma maneira que pareça ser suicídio, sabe. Você não precisa de muitos na verdade, quando um ou dois morrem, aí acontece um efeito cascata e os sobreviventes acham que chegou a hora e começam a se matar”

E por que Adam (o verdadeiro, se é que existe), mataria a assistente social? A sua “missão” não é com os sobreviventes? Acho que é porque a assistente incomodava Tender, ela era uma pessoa muito próxima a ele, quase uma amiga (o que já era desconfortável), sabia de muita coisa que poderia incriminá-lo e, acima de tudo, ela parecia uma daquelas pessoas que ligavam para Tender pedindo conselhos. No fim, é como se Adam Tender tivesse feito um favor a assistente social.

2. Fértil

Certo dia Tender recebe a ligação de um cara que diz não suportar mais sua vida, pois sabe tudo o que vai acontecer e está de saco cheio disso. Ele pede a opnião de Tender. Sua resposta? “Se mate”

Então, Tender confere o obituário no jornal e descobre onde foi enterrado mais um suicidado seu. No cemitério ele encontra Fértil, a irmã do cara que ele aconselhou a se suicidar. Essa personagem é mais complicada que Adam, pois é quase certo deduzir que o verdadeiro Adam (se é que ele existiu, falarei disso mais tarde) já está morto. No caso de Fértil, parece que ela existe mesmo. E de fato, podemos fazer alguns recortes na história, onde podemos identificar pelo menos duas “Fértil”. Uma doce e gentil moça e uma outra devassa e meio malvada. Tender descreve o encontro com a Fértil que ele encontrou no cemitério como muito agradável onde eles passearam e conversaram por mais de uma hora. Mas no dia seguinte, dentre os vários conselhos de “se mate”, ele reconhece estar falando com Fértil.  Segue o diálogo:

Há muitas boas razões para viver, digo a ela, e espero que ela não peça uma lista. Pergunto se não há ninguém que também esteja sofrendo com a morte do irmão dela. Talvez um velho amigo do irmão que possa apoiá-la nessa tragédia.

“Na verdade, não.”

Pergunto se ninguém mais vai ao túmulo do irmão dela.

“Não.”

Pergunto, ninguém? Ninguém mais coloca flores no caixão? Nem mesmo um amigo?

“Não.”

Ficou claro que deixei uma boa impressão.

“Não”, ela diz. “Espere. Tem um cara meio estranho.”

Ótimo. Eu sou estranho. Pergunto, como assim, estranho?

“Lembra daquelas pessoas, daquele culto, que se mataram todas?”, ela comenta. “Faz uns sete, oito anos. A cidade inteira, eles foram para a igreja e beberam veneno, e o FBI encontrou todos de mãos dadas, no chão, mortos. Esse cara me fez lembrar deles. Nem tanto pela roupa ridícula, mas pelo cabelo, que era como se ele mesmo tivesse cortado de olhos fechados.”

Foi há dez anos, e só tenho vontade de desligar.

2 Crônicas, capítulo 21, versículo 19: 

“… saíram-lhe as entranhas…”

“Alô,” ela diz. “Você ainda está aí?”

Estou, respondo. Algo mais?

“Nada mais” ela diz. “Ele só estava na catacumba do meu irmão com um ramalhete de

flores.”

Veja, eu digo a ela. É de uma pessoa bondosa assim que precisa procurar nesta crise.

“Acho que não”, ela retruca.

Pergunto se é casada.

“Não.”

Está saindo com alguém?

“Não.”

Então conheça melhor esse cara, digo a ela. Deixe que a perda que vocês dois sofreram os una. Isso poderia ser um novo romance para ela.

“Acho que não”, ela diz. “Para começar, você não viu esse cara. Puxa, sempre me perguntei se meu irmão era homossexual, e esse cara esquisito com flores na mão só confirma minhas suspeitas. Além disso, ele não era lá muito atraente.”

Lamentações, capítulo 2, versículo 11:

“… turbada está a minha alma, o meu coração se derramou de angústia…”

Eu digo, talvez se ele fizer um novo corte de cabelo, você poderia ajudá-lo. Dar um banho de loja nele.

“Acho que não”, ela fala. “Esse cara é feio demais. Ele tem um cabelo horroroso, com costeletas que chegam quase até a boca. Não é como os caras que usam barba para esconder um queixo duplo ou porque não têm as maçãs do rosto. Esse cara não tem nada que se salve. E ainda por cima é bicha.”

Essa que fala ao telefone com Tender, acredito eu, é a Fértil Tender, uma representação da sua sexualidade reprimida (os tender são virgens). Os fiéis da Igreja do Credo não podem se importar com coisas tão desprezíveis quanto a beleza. Mas fica evidente ao longo do livro que Tender quer ser mais bonito e acredito que as criticas da Fertil Tender sejam suas próprias criticas reprimidas, assim como o desejo sexual dela, algo que jamais é mencionado quando ele se encontra com Fértil Hollis (a verdadeira).

É bastante improvável que esses personagens sejam reais o tempo todo. Adam com certeza aparece e desaparece ao sabor do autor. Já Fértil parece ser real em alguns encontros com Tender, mas acho que aquela Fértil que fala com ele no telefone e a que lhe faz previsões do futuro no final, não são reais. Tomemos o encontro no banheiro. Tender está sentado em uma privada afoito, totalmente confuso e solitário. Aí surge em cada lado do box, as respectivas figuras de Fértil e Adam. Ali, os dois combinam seu plano com Tender. Não é absolutamente irreal essa cena? Não era Adam que queria matá-lo? Fértil não tinha lhe dito que não faria mais  previsões pra ele?

OK. Mas por que diabos alguém produz duas outras personalidades? Chuck já disse que todos seus personagens são vítimas da solidão. A dupla ou tripla personalidade pode ser uma forma de lidar com o desespero da solidão. Há também o problema do sentido da vida que o capitalismo não consegue responder pela sua produção mecânica de sociedade. Você limpa, recolhe, lava. Você levanta, toma café, dá aula, deita e dorme. É incrível quando você percebe que seus melhores momentos de lazer são perdidos pela raiva de estar preso num engarrafamento ou esperando pelo ônibus ou ainda inquieto na cama, insone. São horas preciosas em que você pode relaxar. Não há nada pra se fazer, só relaxar. Mas você não relaxa, porque o relógio trabalha contra você, quando é você que se recusa a atirar o relógio na lixeira, pois por mais que vc confira as horas a cada minuto, o engarrafamento não se dissolverá, nem o ônibus nem insônia passarão. É você que está atrasado e não o relógio. Então você fica estressado no seu único momento livre, nesse limbo que existe entre a casa e o trabalho. Você dirá que é mentira, pois nós temos o fim de semana para relaxar. Mas você dorme de cansaço, que na maioria das vezes nem é cansaço físico, é cansaço mental, de uma vida angustiante, sem sentido. Você acha que estou sendo muito pessimista? Então você olha ao redor, agora. Se as pessoas não estiverem dormindo, estarão no trabalho. E dormir não é só deitar na cama, é se esticar no sofá e assistir a um programa ruim na televisão, é ir para um bar e encher a cara a tal ponto que no outro dia você olha pro espelho depois de escovar os dentes, com a cabeça latejando e se pergunta: cara, por que eu bebi tanto? E você vai represando essas coisas. Um insulto no trabalho, um calcanhar ferido, uma pessoa mal educada que lhe serve um café azedo que você toma por educação e por educação você não rebate aquele insulto do trabalho e você fica tão acostumado a aceitar as coisas como ela são (Tender Branson) que aceita a ferida no calcanhar como uma punição, um castigo sabe-se lá do quê assim como as bebedeiras do fim de semana.

Como eu disse anteriormente, o mais impressionante de tudo é que Tender Branson é um cara  comum, muito comum. Ao contrário do que Fértil Tender lhe diz, o Tender verdadeiro não corta o cabelo como um fiel desde que deixou o Credo. É verdade que é ele mesmo quem corta seu cabelo, mas ele é muito mais cuidadoso no corte do que fora seu irmão Adam. Ele também não usa as roupas tradicionais dos fiéis (imagino se chegou a usar mesmo antes do suicidio coletivo). Com uma costeleta à la Ramon Barroncas, no máximo Tender renderia uma segunda olhada se vc cruzasse com ele na rua, não mais que isso. Existem Tender Bransons por toda parte, limpando sua casa, servindo o café naquela lanchonete, o cobrador do 110. Eles estão lá, todos os dias. Você desconhece que eles façam parte de um culto fundamentalista, mesmo quando todos nós fazemos parte de um. E no dia em que ele se levantar e descarregar o tambor do 38 que ele tinha escondido no armário da cozinha em quem estiver ao seu redor, você verá no jornal na manhã seguinte que esse Tender tinha o estranho costume de rezar o tempo todo, então tudo estará bem e você poderá dormir tranquilo. Era só um louco, o mundo continua normal como sempre foi. Se assim como a assistente social você tentar compreender Tender pelo que ele foi e não pelo que ele é, então você também não entenderá porque ele sequestrou o avião, uma inversão de reflexão muito instigante, porque desde o inicio nós sabemos que Tender fez isso, mas até chegar lá, você estará tão perdido quanto ele.

Estamos na meia infância da história. Sem propósito ou lugar. Não temos uma grande guerra, nem uma grande depressão. Nossa grande guerra é espiritual. Nossa grande depressão é nossas vidas

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

No dia 15 de janeiro, Rogério foi trabalhar como fazia todas as segundas-feiras desde os 9 anos. Mas aquele era um dia diferente pra Rogério. Não que algo no mundo estivesse diferente, não, o galo cantara naquela manhã normalmente e sua mulher tinha preparado o café como sempre fizera. Era Rogério que estava diferente. Sua cabeça voava pelas calçadas estreitas, divagando a velocidade da luz. Milhões e milhões de pensamentos chocando-se uns nos outros, cada um provocando uma supernova de puro espanto e terror. Não que Rogério não gostasse de sonhar. Sonhava sempre, sempre que podia e quando não podia. A cabeça de Rogério era seu paraíso secreto. Lá, ele podia ser quem ele quisesse ser. Um ator famoso, um bom cantor, até um super-herói. Rogério não gostava de ser encaixotador. Não existia grandes encaixotadores no mundo. Encaixotar nunca será como compor uma bela música, nem escrever um best-seller. Para encaixotar não é preciso pensar. É só colocar, dobrar e lacrar. Colocar, dobrar e lacrar. Colocar, dobrar e lacrar. É como andar, uma vez em movimento, pode-se andar de olhos fechados. Rogério pensava em quão tola era sua vida. Acordar, trabalhar, comer, dormir, ir a Igreja aos domingos. A vida de Rogério era um verdadeiro processo de encaixotamento. Rogério estava sendo dobrado constantemente, e fechado, fechado para ser aberto e jogado no lixo. Rogério era uma caixa descartável. Todos os encaixotadores eram. Menos ainda, pois na caixa de Rogério não havia a frase “cuidado, frágil”. E Rogério era frágil. Sentia fragilidade todos os dias, antes mesmo dos 9 anos.  Por que alguns homens tinham que ser mais fortes que outros? Rogério fora criado rente ao cabresto. Homem não chora, homem não reclama. Ordem é pra ser cumprida, dizia o pai. Só de pensar na desgraça do pai, Rogério cerrava os dentes. O que aquele abestado sabia da vida afinal? Um covarde que se dobrou a vontade dos outros e fez o mesmo com os filhos e a mulher.

Bestando de novo Zézinho?? Assim não dá meu filho!

Rogério olhou a procura do pai, mas só viu o gerente da fábrica com sua camisa social branca bem passada de mangas dobradas. Tinha uma mão na cintura e um olhar impaciente e contrito, com raiva e pena de Rogério ao mesmo tempo.

Olha só Rogério, você é um ótimo funcionário, talvez o melhor dessa fábrica, juro. Mas encaixotar exige uma certa atenção, você opera uma máquina que pode cortar sua mão fora, entende? E se você corta um dedo hein meu filho? Como vai ser? Vai ficar encostado que nem aquele presidente safado?

Foi naquele instante que tudo aconteceu, todo o universo correu pelos sulcos de Rogério, penetrando e destruindo cada caudilho de certeza que construira até ali. Encaixotar era uma terapia, como num passeio ao zoológico, deixava Rogério livre para imaginar ser quem ele não era. E quem era Rogério? Pai? Marido? Um encaixotador? Rogério imaginava-se como um astro as vezes, formas diferentes de caixotes, mas caixas enfim. Tudo era uma grande caixa que encerrava outra caixa que encerrava outra caixa. Mas era uma caixa que se lacrava por dentro. Nós lacramos nossa existência.

Rogério pôs a mão embaixo da máquina de dobrar papelão e puxou a alavanca de prensar. A violência da dor da mão sendo destroçada deixou as pernas de Rogério bambas e por um instante sua consciência assobiou querendo desmaiar. Rogério ficou surpreso por se manter de pé, mais surpreso ainda por permanecer consciente de si, do que tinha feito e de quem era. A dor não o enlouquecera, mas Rogério não era mais normal tampouco. Rogério tinha rompido um lacre. Arrancou o que tinha sobrado da mão, matando um grito de dor do peito e mais um vacilo das pernas. Admirou a pasta de sangue e osso que tinha se formando onde antes tinha uma mão calombada por 29 anos de trabalho ininterrupto. Podia ter esmagado a esquerda em vez da direita, pensou Rogério.

Respirou fundo, sentia-se fraco, mas muito bem consigo, como numa manhã de domingo. Segurou o cotoco da mão e olhou em volta, surpreendendo-se com o chefe desmaiado ali perto. A camisa social branca amarrotada pela queda.

Rogério debruçou-se sobre o chefe e beijou-lhe a testa. Sentou-se a seu lado e ficou observando o sangue criar uma pequena poça a seu lado. Tinha que parar o sangramento, morrer depois da ressurgir seria uma ironia trágica na vida desse Zézinho. Mas antes de ir ao hospital, escreveu no chão da fábrica com seu sangue a seguinte frase:

Não fosse amanhã, que dia agitado hoje seria?

bill, o que ele faz? Faz história, literalmente. É, além de doido e meio afeminado, flamenguista, mineiro, sagitariano, otaku, metaleiro, sertanejeiro, petista, rabugento, boêmio, tonto, divertido y dulce…. um comunista pero no mucho.

PS: A inspiração para esse texto veio deste post aqui: http://linguaepistolar.blogspot.com/search?q=rato

PSS: E a frase é uma homenagem a pessoa que faz meus dias mais agitados