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Os passos de um jovem viajante

Publicado: 17 de agosto de 2013 por Bill em A Vida
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Prepare-se para os passos desse jovem viajante.

Ele desce com a mochila nas costas. Dentro dela, 14 pertences. Escova comida por fungos, um sabonete rosa que só dá pra usar mais uma vez, uma pequena toalha vermelha com o número 42 bordado em amarelo, uma camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção com folhas da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma velha calça jeans, um caderno, um lápis, uma faca, pouco mais da metade de um sanduíche de presunto enrolado em guardanapos, uma pequena garrafa de cachaça de caju, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. Esse jovem caminha pela praia. Não se sente feliz. Não importa quão lindo seja o quadro pintado pelo sol. Não importa que carinhos a brisa lhe faça. Esse jovem sorri, mas quem vê seu sorriso se ressente de imediato, é como encontrar lixo espalhado pela praia. Desagradável. Desnecessário. O jovem logo vai embora, sabe que não é bem-vindo. Deus, em que lugar ele é? Esse jovem não tem lugar. Enquanto caminha revive aqueles seus últimos momentos. Uma vida passada. Um rapaz tranquilo, ateu. Já sentira os fervores da fé uma vez e jurara nunca mais sentir outra vez. Mas como é a vida? Numa barraca de cachorro-quente, surgiu um mendigo pedindo uns trocados. Algumas pessoa deram. O jovem deu também. O homem agradeceu as moedas e abençoou todos eles. O jovem chorou. Ele não queria chorar. Não queria sentir aquilo. Sabia que a força daquele pensamento destruiria sua vida. Sabia que se não interrompesse as lágrimas seu ego deixaria de existir ou se existisse ainda, seria apenas uma sombra amargurada e chorosa espreitando seus passos. Mas o jovem não parou de chorar. Ele se levantou. Correu para o mendigo. Queria abraça-lo. Mostrar seu amor. O homem se assustou quando sentiu sua presença e quando o jovem estendeu os braços, ele o empurrou. Empurrou e cuspiu. Foi embora e o jovem ficou ali, plantado. Quando voltou seus amigos não entenderam o que se passava. Não podiam compreender o tamanho da sua dor. De bom grado o jovem teria colocado sua mão na chapa do cachorro-quente. Segurou o choro e se despediu deles. Nunca mais os viu. Quando chegou em casa, colocou 14 coisas na mochila e saiu, saiu pra nunca mais voltar. Deixou uma carta colada com um imã na geladeira:

Mãe, irmãos. Eu os amo. Amo mesmo. Mas essa nossa vida não permite amar. Não de verdade. Desculpe. Não consigo olhar pra vocês sem agarrá-los. Eu preciso descobrir o amor.

E desde então o jovem tem procurado. Encontrou um grupo de estudantes que brigavam por causa de uma treta qualquer. O jovem largou a mochila no chão e correu para eles. Disse:

Poxa, vamos conversar pessoal?

Um jovem o encarou com desconfiança e deboche:

E o que você tem com isso, velho?

Eu? Eu não sou ninguém. Só vi muitas brigas na minha vida, e todas essas brigas são porque nos tornamos reféns do eu. Achamos que estamos em primeiro lugar e por isso brigamos. Brigamos porque queremos provar nosso valor. Ah! O orgulho! Como deixar de lado o eu, quando o outro joga seu eu sobre você? Podemos aceitar a injustiça de uma alteridade interferir sobre nossa vontade? Sabem o que fiz? Fugi. Não poderia enfrentar o eu. Tive que deixá-lo, ele e a todos que me lembravam dele.

Velho, tu tá é doido…

Sim. Corro pelo mundo fugindo de mim. Pois eu fui a causa de todas as desgraças do mundo. Ah, se eu pelo menos conseguisse deixar o orgulho de lado. Não posso! Não com eles que são parte de mim… Espere, deixe-me fazer entender. Ouça. Por que estão brigando? Não, não. Não importa o motivo. A questão é que vocês se colocam um acima do outro, como se nesse mundo houvesse verdade quando a única verdade que existe é aquela proferida. Deixe que ele vença, deixe! Ajoelhe-se! Beije seus pés!

E esse jovem se atirou para os pés do menor dos rapazes, agarrando-se a suas pernas, tentando beijá-las. O rapaz se assustou e instintivamente lhe acertou o joelho na cara. Nosso jovem foi atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, agora ele via o sol, o mar, podia sentir a brisa lhe massagear o corpo. O jovem chorava de felicidade. Ele se atirou mais uma vez sobre o jovem. Os outros jovens começaram a rir e o rapaz se sentiu humilhado e ridicularizado por aquele mendigo e partiu pra cima dele. Pelo menos três socos conseguiu desferir antes de ser segurado pelos outros jovens. Alguns minutos depois o lugar estava vazio, há não ser pelo jovem que ficou deitado na calçada, olhando pro céu. Pode existir coisa mais perigosa que o amor? Veja o estado desse pobre homem. Nada possui no mundo. Nem mesmo orgulho próprio. Logo a tristeza lhe irá penetrar a carne, com tanta força que até os dentes serão sacudidos. Um vira-lata se aproxima e lhe lambe o sangue na bochecha. O jovem chora. Levanta-se, mesmo querendo ficar deitado, deitado pra nunca mais se levantar. Mas levanta. Pega sua mochila e retira o sanduíche de presunto enrolado em guardanapos. Joga o presunto pro cachorro e come o pão com salada e tomate. Depois de comer, o cachorro segue seu caminho. Ninguém se interrompe pelo nosso jovem. Ele retira o maço de cigarros e a caixinha de fósforos da mochila, pega um cigarro e um fósforo. Tenta acendê-lo, mas o vento apaga a chama antes que ele consiga tragar. O jovem se enfurece. Atira maço e fósforo para longe e grita. Grita com toda a força. O orgulho ainda está lá, junto a sombra do eu, remoendo-se, gemendo, envenenando, agonizando, sofrendo, implorando…

Pare de me machucar. Pare. Pare.

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Você

Publicado: 17 de agosto de 2013 por Bill em A Vida
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Poesia, a arte de dizer sem dizer

Posso dizer flores quando na verdade penso em outra coisa

Posso falar em estrelas e estarei igualmente pensando na mesma coisa

Maldigo o mundo quando penso nisso

A esse pensamento posso chamar de dor

Posso dizer paixão

Posso dizer saudade

Posso falar em desilusão

E tudo isso será a mesma coisa

Mas,

jamais

nunca

direi que coisa é essa

pois sei que essa coisa não me pertence

e temo dizê-lo em voz alta

e me tornar uma outra coisa

Dor

Publicado: 13 de agosto de 2013 por Bill em A Vida
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Diria Camões:

“É ferida que dói e não se sente”

Dói tanto, tão intensamente, que mesmo invisível, todos vêem

A cada sorriso

A cada manhã

A cada piada

A cada trago

Cada passo

Cada suspiro

Cadafalso

Imagino que foi essa dor que levou Cristo a cruz

Pois a morte pode pôr fim a isso

Imagino que cada chicotada era acompanhada por uma gargalhada histérica

“Hahaha, eu juro, juro, eu gosto disso, gosto mesmo!”

E os carrascos, sem poderem compreender os caminhos dessa dor, redobravam a intensidade de suas chicotadas, ao passo que Jesus respondia:

“Hahahaha, isso, isso! Mais forte!”

Se foi assim como imagino, triste figura a de Cristo

Não se pode disfarçar uma dor com outra

Não adianta topar o dedão na quina da cama

Não adianta esmurrar a parede até os ossos virarem uma pasta de cálcio

Não adianta xingar ou agredir ninguém

No fim, mesmo na morte, torna a ferida a sangrar e você se pergunta:

Deus, por que me abandonastes?

De tudo nessa dor, o mais doloroso

Não é a dúvida

Não é a saudade

Não é o amor

É o silêncio.

Das coisas simples

Publicado: 9 de agosto de 2013 por Bill em A Vida
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Estejais pronto para minha paixão. 

A ti devotarei meus mais ternos sentimentos

Não imiscuirei nenhum detalhe de minha personalidade

Nem lhe pouparei dos deslizes de caráter que aqui se expressam

Veja meus braços se agitarem no ar concomitante a uma gargalhada sobrenatural

que une a um só timbre

a felicidade mais pura e a tristeza menos incontida

Se lhe aparento poeta, rio-me de ti

falo assim, sem falar nada, porque não sei falar, em absoluto

Tudo é muito simples!

Quer a língua expor

mas se estica, enrola, muda

Não se pode falar da simplicidade simplesmente

pois nelas se dão as coisas mais extraordinárias

Veja como elas se alternam simultaneamente sem ocupar um o lugar da outra

ai me torno vespa e flor

sou caranguejo que anda para frente

sou todo ossos quebradiços e sadios

sou deus ignorante

amor repulsivo

sim, sou

pus amarelo e doce

Ah, perdoa-me os devaneios,

mas esta represa arrebentou

e o juízo lhe foi junto

A triste figura

Publicado: 9 de agosto de 2013 por Bill em A Vida
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Como é triste amar. Triste, sim. Triste. Se você é uma pessoa cheia de ideais, se seu coração tem um ímpeto qualquer revolucionário… ah, que triste é amar para ti. Não existe tortura pior que essa, pois a mão que empurra o punhal contra suas costelas é sua… e você sabe disso! Não, não… não diga que pode conciliar seu amor com sua honra, não pode! Basta que o momento surja e, por mais insignificante que seja o confronto, você descartará sua honra com tanta facilidade que nem se dará conta da magnitude do ato perverso que atenta contra ti. Sim, pobre criatura que ama, teu corpo já não mais lhe pertence, você não pode mais controlar seu estado de espirito, não se engane, isso faz de tu um escravo. Escravo. Do mais vergonhoso tipo de escravidão. Daquele tipo que faz você se ajoelhar e rezar, deitar lágrimas, crente que um sinal, apenas um sinal seu, dissipará todos os males! Este é o mais ridiculo dos escravos. Venera e amaldiçoa seu dono, porque o ama, não pode livrar-se dele. É um escravo sem correntes. Um cachorro que se deita a porta ansioso pela chegada do dono, cujo único deleite é lamber-lhe os sapatos. Que triste! Quão triste! Se você tem planos para o futuro, amai e esqueça-os. O futuro, tal qual o passado, não interessam aos amantes, escravos do presente. Escravos da saudade. És uma figura tão deplorável esta que não se intimida com os chutes que lhe são desferidos a boca do estomago, não se importa com os olhares que fogem dos seus, nem tampouco com as palavras que voam como pedras a troçar do seu amor, e tudo porque ama! Tua única felicidade reside no reconhecimento do outro, esquece-vos claro, de que um escravo jamais é merecedor do amor. Por tal, nem todo infeliz ama, mas todo aquele que ama necessariamente é infeliz. Oh, tolo sonhador, engana-te, ludibria-se, reveste tua infelicidade de melancolia para lhe dar ares poéticos! Que mentira quixotesca dirá para si em seguida para suportar essa dor que lhe devassa o peito? Qualquer uma, simplesmente não importa. Esta triste figura é o tripulante desavisado daquele barco que está indo a pique. Agarrar-se-á a qualquer coisa. Triste. Muito triste.

Dilemas de despedida

Publicado: 5 de agosto de 2013 por Bill em A Vida
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Noturnos sopros mantém meus olhos abertos

Digo que quero estar com ela?

E se ela achar que estou pressionando?

Estou?

Melhor não dizer nada…

Só mandar um beijo de boa noite.

Só um?

Milhares.

Estarei sendo demasiado pegajoso

Melhor retirar o beijo e desejar um abraço

Como pode ser tão fria uma palavra calorosa como abraço?

Durma bem?

Será sarcasmo quando digo “durma bem” ao passo que me a insônia consome?

Não, juro, mas não sou eu que governo as palavras

Tudo que posso fazer é pesa-las e nisso me esmaga o silêncio!

Tudo que quero é dizer-lhe: estou pensando em você!

Mas todo pensamento é acompanhado por outros!

Preciso dizer boa noite sem envergonhar-me

Ah, melhor não dizer nada

Só um boa noite, amor

Não. Melhor tirar o amor

Amor é uma palavra forte

Pena não ser forte para dizê-la sem rodeios.

Boa noite, amor.

Reconheço-te, reconheço-me

Publicado: 4 de agosto de 2013 por Bill em A Vida
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Sim, que posso eu dizer da minha estupidez?

Se te pergunto as coisas mais ridículas unicamente para que saibas que estou pensando em ti!

Ah! De nada me vale a pergunta, pouco ela me importa, porque tudo de que preciso é seu reconhecimento

Veja que estou pensando em você, mesmo sabendo o quão bobo é fazê-lo

Triste sina desta paixão que necessita do teu sopro para manter a chama acesa! Que dor! Nem posso mensurar!

Tal criatura estará condenada a ser fustigada pelos sabores da dúvida que trêmula, frágil e selvagem ao mesmo tempo

Agonia! Se me reviro as noites sem parar é porque não possuo paz sem teu calor e passo a temer o escuro

Que me torturo por deixar de ser esse ser mesquinho que sou e sofro por pensar assim

Por que não posso ser só eu?

Por que preciso de você para ser?

NÃO PRECISO!

Deixe-me só!

Deixe-me pensar pois quando penso lembro que te amo e se te amo me perdoa

Ainda me tenho um pouco mesquinho

Mas esse ser está se esvaindo sob sua luz,

sua penumbra está tomada por um último lance de valentia,

és egoísta claro, só na morte pode revelar-se!

Deixemo-lo só a um canto e veja seu sorriso surgir, sua lingua cair, seus olhos lacrimejarem em zigue-zague, seu peito pular, sua respiração parar, seus pêlos se eriçarem, sua tempora molhar, a pressão aumentar, a temperatura cair, as pernas tremerem, a pele arrepiar, a mão forçada a entrar no bolso para disfarçar sua inquietação

Veja tudo isso!

Basta que se aproxime dele!

Ria! Ele é seu!

Negará sempre, mas é porque ás vezes se recinte das tolices que diz por você