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São quase 18 horas e os carros se amontoam como formigas em um dia de chuva. O anjo está aconchegado aos pés do velho, protegendo-se da garoa. Ele boceja esticando a língua o máximo que pode, tentando demonstrar todo o seu tédio. Lá em cima, ele vê a cabeça do velho irradiar uma luz vermelha. É o sinal, o anjo se levanta e acompanha o velho até aqueles grandes animais de ferro que resmungam parados. Ele escuta, um por um, os nós dos dedos dele baterem contra as janelas fechadas. Às vezes uma pequena fresta se abre e o velho diz: Não preciso do seu dinheiro nem pra limpar meu cu. E segue para outro carro. Vez ou outra alguém deixa a segurança metálica para empurrar o velho ou cuspir-lhe na cara. Tudo bem. O velho não se incomoda com isso. Pelo contrário. Enquanto limpa a saliva azeda do rosto, ele sorri. Para o anjo não existe uma palavra para descrever aquilo, mas é assim que podemos reconhecer. Faça o teste: tente insultá-lo. Você vai vê-lo sorrir, balançar o rabo e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder a sua agressão. Só vai continuar sorrindo daquele jeito estúpido.

Foi numa sexta-feira. Chuviscava serenamente. Os automóveis pareciam estar ainda mais bravos do que de costume. E aquele velho rabugento continuava a bater irritantemente com os nós dos dedos nas janelas fechadas e abafadas. Na maioria das vezes, o brilho vermelho acima da cabeça do velho se tornava verde antes de alguém ouvi-lo, mas aquele cara nem esperou a troca dos sinais. Por acaso, esse cara estava tendo o que as pessoas costumam chamar de “dia de cão”. O nome desse sujeito é Carlos.

Meniera, por favor. Ok. O senhor Meniera tinha muito orgulho do seu sobrenome, tinha uma sonoridade legal, era quase, digamos, imponente. Ele dizia para todo mundo que o sobrenome era de uma nobre família espanhola, muito embora quando criança tivesse escutado da avó que o sobrenome Meniera era de uma família de pé-rapados que ficaram conhecidos após saquear um navio da nobreza portuguesa que naufragara perto da costa brasileira. Isso lá na época das invasões napoleônicas. Mas esse Meniera fizera questão de não se lembrar disso. Até que sua filha fora presa roubando a casa de um vizinho. O senhor Meniera não podia conceber aquilo. Ele não era rico, é verdade, mas também não era pobre, de jeito nenhum. Era capitão de polícia na capital do país, local de melhor remuneração da corporação. Tinha uma casa de dois andares, com três quartos e uma suíte. Quatro banheiros. Quatro. Um deles com hidromassagem. Tinha um carro grande e dois outros populares. Estava financiando nesse momento uma casa de praia em segredo. Talvez até com um Jet-ski. Estava planejando fazer uma surpresa para a família. Estava.

O senhor Meniera se agarra ao volante observando as gotículas d’água escorregarem pelo pára-brisa. Só pode estar no sangue, pensava. Quando menor também dera de entrar na casa do vizinho, mas o senhor Meniera morava numa favela do Recife e o filho do vizinho vivia se gabando daquele supernitendo. Pensou nos irmãos, primos e tios presos. Isso. Só pode estar no sangue, repetia agarrado ao volante. É uma fase. Mas que dia!

Parecia que deus escolhera esse dia para castigá-lo, puni-lo com um único e fulminante golpe por todos os seus pecados. E eram muitos é claro. A começar pela mulher. Havia quatro anos que o senhor Meniera a traia. O senhor Meniera presenciara durante anos e anos os colegas comentando – e vangloriando-se, das diversas aventuras extraconjugais que mantinham. Sempre os julgou em silêncio. Sua devoção aos votos matrimoniais refletia-se no crucifixo pendurado no retrovisor. A pálida figura do senhor Meniera espiava do espelhinho aqueles olhos azuis avermelhados. O capitão estava chorando. Há quanto tempo não chorava? Desde a morte dele, diz sem titubear. Sim, outro pecado. Talvez o maior de todos. O senhor Meniera então pega o envelope branco em cima do painel e o amassa, com as duas mãos, amassa bem forte.

Logo pela manhã, nesse dia maldito, o chefe do seu pelotão dera pessoalmente o recado. A corregedoria irá investigar as denúncias de abuso de autoridade contra o capitão Meniera. Até a conclusão do inquérito disciplinar você está dispensado das suas funções. O senhor Meniera sabia que uma hora iria pagar pelos seus pecados, mas precisava ser tudo no mesmo dia? Hein, seu porra? O barulho longínquo de uma sirene o faz pensar naquela farda cinza. Estava matando aula para fumar um baseado com os amigos quando três policiais se aproximaram sorrateiramente e deram inicio ao festival de torturas. Jamais se esqueceria do cano frio do revólver encostado a nuca enquanto era estuprado. O senhor Meniera decidira que seria policial para impedir aquele tipo de atrocidade. E deus é testemunha de que nem um só dia deixou de tentar cumprir seu juramento secreto. Mas a vida é muito mais complicada do que um adolescente pode supor. As violências que o capitão sofreu nos seus primeiros anos de academia não se comparam com todo seu período de rebeldia civil. Com exceção do estupro, é claro, que era por si só uma exceção. Mas o senhor Meniera pensava nos pequenos delitos cotidianos e dizia para si: eles se sentem bem com isso, enquanto eu me sentir mal estarei salvo. O senhor Meniera se enxergava como um paladino da justiça. De verdade. Não estava ali para prender bandidos e traficantes, ou proteger os ricos e afortunados da violência social. O senhor Meniera vestira aquela farda para combater o mal. Lembra? Quando foi que ele parou de refletir sobre isso? Nem se lembra mais. Fora a tanto tempo aquilo. Agora o senhor Meniera é um policial barrigudo, de careca pronunciada, sem bigode ou ideais. Não era desiludido, não senhor. O senhor Meniera era um homem de fé. Só estava velho e cansado. Pare de chorar, capitão, diz enxugando as lágrimas. O estomago ruge faminto a espera do jantar. O senhor Meniera exaspera-se pela milésima vez com a lentidão do trânsito. Espreguiça-se. Tenta relaxar. Pensar em alguma coisa agradável. Repara num cartaz pintado a mão preso numa placa de sinalização. É uma pintura grotesca de uma árvore. Talvez a chuva tenha deformado o desenho, conforta-se o senhor Meniera. Mas se a intenção do autor fora pintar uma árvore horrível, ele tinha conseguido com louvor. Nunca houve árvore mais feia que aquela. Velha e garranchosa, seca e amarelada. O estomago torna a roncar. E o transito continua irremediavelmente atravancado. Tenta sintonizar uma rádio, mas só ouve estática. Amaldiçoa os céus e procura no porta-luvas algum cd. Nenhum. Aos poucos, o pensamento torna a concentrar-se na filha. Aquele monte de piercings, tatuagens e cortes e cores de cabelo malucos. Mas ele dizia que isso era uma fase. Seus colegas tinham enfrentado problemas parecidos. Logo ela iria criar juízo, ia perceber que se desfigurar daquela forma só chamava atenção para sua imaturidade e insegurança. A mulher protestava, mas o senhor Meniera respondia convicto: só existe aprendizado de verdade sozinho. Era um de seus lemas. Tinha nove ao todo. Todos dignos de serem tatuados. Mas agora o senhor Meniera se questionava. Será que deveria ter dito alguma coisa? Não. Ela jamais me escutaria. Sou a representação tirana do mundo adulto. Mas, e se o vizinho prestasse queixa? Valia a pena foder com seu futuro para aprender sobre a vida? Ele já vira centenas de jovens de classe média se perderem assim, sem mais nem menos. OS familiares ficavam perdidos, sem saber o que fazer. O senhor Meniera também os julgava. Imaginava que jamais passaria por uma situação como aquela. Mas aí estava… a forma como a filha o encarava, era nojo. Puro nojo. Também nesse dia a mulher soltara os cachorros. Usou maquiavelicamente os problemas da filha para despejar, bem, tudo. A depressão, a rotina, o sexo, o amor, as traições e eles… ah, o senhor Meniera descontou suas frustrações no carro, rasgando pela cidade afora. Por pouco não matou um ciclista desatento. O senhor Meniera esfrega as têmporas. Fome costuma dar-lhe uma dor de cabeça terrível. Ele respira fundo e se imagina deitado confortavelmente numa cadeira de praia, com uma sombrinha protegendo-o do sol forte e uma água de coco ao alcance da mão. Mas, repentinamente, o ar congela, para ser removido por uma ventania que dá lugar a um tsunami daqueles que a gente só viu na televisão. A cadeira é arrancada da bunda como um prego em analogia ao que aconteceu nesse dia. O senhor Meniera afunda, com toneladas de água esmagando seus pulmões. Vê, aturdido, aquele cartaz da árvore borrada passar por ele e mergulhar na escuridão. O senhor Meniera olha para o relógio e se surpreende com o horário. São quase seis. Agora é que essa porra não anda mesmo, xinga alto. E foi assim que aquele brilho vermelho dava lugar ao verde e o carro permanecia imóvel. Vermelho e verde e a porra do carro não andava mais de um metro. Vermelho e verde. Vermelho e verde. De novo. E de novo outra vez. TOC-TOC. Para completar a porra dum mendigo tinha aparecido e batia na janela do carro sem parar. O capitão foi surpreendentemente calmo ao agitar a mão num gesto de “estou sem troco, amigo”. Mas. TOC-TOC. A porra do mendigo não parava de bater. TOC-TOC. VERMELHO e VERDE. TOC-TOC. VERDE e VERMELHO. TOC VERMELHO. TOC VERDE. E nada. Nada. Até o estomago evitava incomodá-lo temendo sua fúria. Quando o mendigo bateu outra vez o capitão abriu a porta e sabe-se lá o que teria acontecido se o motoqueiro não tivesse reagido primeiro. A treta com o motoqueiro era coisa antiga. O velho e o motoqueiro se estranhavam a tempos e o motoqueiro prometera que se visse o velho por ali outra vez iria lhe dar uma surra pra ele nunca mais esquecer. O velho só sorriu mostrando-lhe o dedo do meio. Mas o motoqueiro falava serio. Esse era outro que também passava pelo seu dia de cão, mas por ora fiquemos com a causa do senhor Meniera, fôssemos retratar cada dia de cão presentes neste engarrafamento a humanidade não viveria o suficiente para ler este relato. Enfim, o motoqueiro avançou sobre o mendigo tirão.

– E ae, seu folgado do caralho?!! Te avisei pra não aparecer aqui, não avisei? Tira onda agora, vagabundo!

E acertou um soco bem no meio da garganta do velho que caiu, de joelhos. Ao que o motoqueiro emputecido respondeu com uma joelhada na cara. Nosso velho foi atirado para trás deixando um filete de sangue no ar. Mas ele estava sorrindo. Sim, sorria, é claro que sorria. Desse mundo cheio de ódio, de rancor, mágoa e desespero o velho queria levar tudo para o túmulo. E o capitão a tudo assistia, espantado demais para agir. Não com a violência do motoqueiro. Já vira aquilo centena, milhares de vezes. Ele mesmo teria feito algo parecido segundos atrás. Não. Era aquele sorriso maluco.

Há algo errado naquilo, você sabe, todos sabem. Quem nunca ouviu falar de Jesus Cristo? Mas presenciar aquilo acontecer era qualquer coisa demoníaca demais. Afinal, que tipo de espírito subjuga-se voluntariamente daquela forma? Ah, triste é a figura que sorri da ingratidão, da violência, do abandono, do escárnio, da tirania. O senhor Meniera contempla o estado deplorável daquele pobre homem como se espiasse um segredo proibido, uma indecência, algum ato de extrema vilania. Ele pensa no ímpeto revolucionário daquele coração… que triste é amar assim. Não existe tortura pior que essa, pois a mão que empurra o punhal contra suas costelas é sua, e você sabe disso. Talvez por isso doa tanto. Não há como conciliar amor e orgulho. Basta que o momento surja e, por mais insignificante que seja o confronto, você descartará seu orgulho com tanta facilidade que nem se dará conta da magnitude do ato perverso que atenta contra ti. Sim, pobre criatura que ama, teu corpo já não mais lhe pertence, você não pode mais controlar seu estado de espírito, não se engane, isso faz de tu um escravo. Escravo. Do mais vergonhoso tipo de escravidão. Daquele tipo que faz você se ajoelhar e rezar, deitar lágrimas, crente que um sinal, apenas um sinal, dissipará todos os males! Este é o mais ridículo dos escravos. Venera e amaldiçoa seu dono, porque o ama, não pode livrar-se dele. É um escravo sem correntes. Um cachorro que se deita a porta ansioso pela chegada do dono, cujo único deleite é lamber-lhe os sapatos. És uma figura tão deplorável esta que não se intimida com os chutes que lhe são desferidos a boca do estomago, não se importa com os olhares que fogem dos seus, nem tampouco com as palavras que voam como pedras a troçar do seu amor, e tudo porque ama! Tua única felicidade reside no reconhecimento do outro, daí o sofrimento, a angústia sem fim, claro, a realidade logo irá penetrar tão fundo que até os poucos dentes que lhe restam na boca serão sacudidos. Oh, tolo sonhador, engana-te, ludibria-se, reveste tua infelicidade de melancolia para lhe dar ares poéticos! Que mentira quixotesca dirá para si em seguida para suportar essa dor que lhe devassa o peito? Qualquer uma, simplesmente não importa. Esta triste figura é o tripulante desavisado daquele barco que está indo a pique. Agarrar-se-á a qualquer coisa.Que triste! Muito triste. E o capitão segura a arma. É preciso acordar. Então você tranca essa coisa naquele lugar da sua cabeça que é hermeticamente fechado, onde a árvore feia não pode ser vista. Ali, nem mesmo um tsunami, apesar de todo o poder de devastação, pode entrar. Pode perturbar, mas não entrar. Entrar nunca. Pois a única chave está bem segura na mão direita do capitão. Essa chave tem a forma de uma Colt .45 de uso restrito.

O motoqueiro chutava o estomago do velho. Duas. Três vezes. Só parou quando o anjo mordeu-lhe a perna. O motoqueiro caiu e o anjo instintivamente voou sobre a jugular. Provavelmente o capacete e a jaqueta de couro seriam suficientes para lhe preservar a integridade física, mas o capitão Meniera decidiu não arriscar e atirou contra o animal. O anjo soltou um frêmito ganido quando a bala alojou-se entre suas costelas. Foi aí que o velho parou de sorrir. Quão perigoso pode ser o amor? E o velho chora. Tem chorado muito ultimamente. O vira-lata ferido se aproxima e lhe lambe o sangue e as lágrimas da bochecha.

Enquanto isso o motoqueiro tenta se explicar ao policial. As pessoas na rua dividem-se quanto a questão. Alguns defendem o velho, outros o motoqueiro. Uns poucos questionam o tiro dado no cachorro. A discussão cresce entre buzinas e destemperos. Mas aos ouvidos do senhor Meniera jaz um silêncio absoluto. Tudo o que vê é aquele gesto de carinho na calçada enlameada. É tudo tão simplório e banal. As pessoas não vêem, mas nós vemos. O senhor Meniera chora. Ele tem chorado muito ultimamente. Não sabe porquê. Há algo naquele gesto que faz o senhor Meniera se arrepender profundamente de não ter estado ali antes, a descoberto, sob a chuva e o amor incondicional daqueles dois idiotas.

É tudo tão calmo aqui, murmura. E o senhor Meniera está calmo, em paz. Sem precisar imaginar uma casa de praia ou estar atrás de um volante a 200 por hora. Ele recolhe o revólver e pega o cachorro no colo, colocando-o no carro. Faz o mesmo com o velho. O senhor Meniera gira o volante e passa por cima do meio-fio pegando a estrada paralela, quase atropelando o motoqueiro e a multidão que se juntava no local.

Um anjo costuma ter uma aparência muito desagradável, tão desagradável que te faz ficar sob a chuva, admirando-a.

Você escuta risadas em algum lugar. Você pode esticar o nariz e sentir o aroma quente do chá que queima a língua. Você pode sentir o calor confortável de dentro da casa, com aquela gostosa brisa noturna correndo pela janela aberta. Mais risadas. Você imagina de que tipo de frivolidade aquelas pessoas estão rindo. Provavelmente estão vendo TV. E você imagina a trilha sonora daqueles vídeos engraçados em que as pessoas se machucam pra valer fazendo coisas estúpidas, como a de um cara tentando se equilibrar em uma escada com um pé só. A música estúpida sugere a forma como você deve encarar o desastre anunciado. Assim, quando ele escorregar, quando as pernas dele estiverem abertas bem no meio da escada, você deve uivar euforicamente com um tremendo UHHH! Você deve rir. Ria. Como toda piada sarcástica, essa piada é sobre você. Preste atenção. Eles estão dizendo que você é estúpido, que vão te machucar, que vão te machucar pra valer. Agora ria, seu idiota. Eles adoram brincar conosco.

Aos poucos, a rua se enche de silêncio. Aquelas pessoas risonhas foram dormir. E em seus sonhos elas irão cair de uma escada. Algumas acordarão assustadas, quem sabe levantem e tomem um pouco d’água. Ou fiquem em suas camas, no escuro, esperando. Outras ainda podem continuar caindo. Amanhã o pesadelo terá desvanecido. Mas quando elas encontrarem uma escada, irresistivelmente, irão dar-lhe a volta. Ah sim, como aquele jovem de cabelos maltratados que corria pela praia com uma pequena trouxa amarrada as costas. Dentro dela havia alguns pertences. Nove, ao todo. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. A trouxa balançava a suas costas febrilmente. Ninguém repara nele. Mas a quem por acaso batesse os olhos no rapaz, veria seu semblante intensamente contraído e a corredeira que se fazia abaixo do queixo. E pensaria: o que há com os jovens de hoje? Não sabem aproveitar a vida! Não importa quão suave seja a brisa que lhe massageia os cabelos, ou a alegria desse sol estupendo enchendo as coisas de vida, ou o doce prazer de sentir a areia quente ficar fria e quente e fria de novo. Não sabem! Será que não conseguem escutar o mar cantando sobre tudo isso??? Quiçá este jovem pode até sorrir, mas se alguém desse a sorte de vê-lo nesse momento, de imediato se ressentiria, como se encontrasse lixo espalhado em um lugar bonito. Desagradável. E extremamente irresponsável. E esse jovem corre, mergulhando cada vez mais fundo na escuridão. Posso ouvir os passos a suas costas. Sombras que se movimentam sozinhas. Pesadelos. Noites terrivelmente barulhentas, que ficam sussurrando um horror qualquer seu, que seja, um único medo indizível, irracional, tão profundamente enraizado no seu espírito que, um dia, você se dá conta das manchas escuras envolta dos olhos e, por mais que tente, não consegue lembrar qual foi a última vez que dormiu.

Ah! vida miserável essa! que se compraz com as sombras, com a sujeira, com a indiferença por que dela não lhe vem censura. Mas de que adianta? conquanto a consciência posta olhares neste corpo moribundo mesmo na escuridão! Sim! Esse jovem sabe. Sabe que a fuga é uma ilusão, mas é a ilusão que lhe permite continuar. Assim nos embriagamos até o raiar da morte. Todos os dias, repito. Porque você insiste em não me dar ouvidos. Todos os dias flertamos com a morte para, quem sabe, acidentalmente, possa ela um dia nos levar. Afinal, todo sobrevivente é um inocente.

Não. Não diga que sou louco. A loucura é uma desculpa fácil para se desfazer do meu problema. Não. Eles estão aí. Vigilantes. Sorridentes. São seus vizinhos. Colegas de trabalho. Aquele velho amigo da faculdade. Eles estão o tempo todo agarrando suas pálpebras para cima. Olhe, desgraçado, olhe! Veja os porcos que charfundam a lama. Felizes, entupidos de ração. Veja as galinhas amontoadas umas sobre as outras. Iluminadas artificialmente para que não parem de comer. De botar ovos. De viver. Olhe para isso. Eles seguem um padrão de propósito para se divertir conosco. Venha comigo agora. É noite profunda. Não há lua. Ou estrelas. Nem risadas. Agora, e somente agora, posso contar. Então, escute com atenção. O tempo é curto. Mas essa é sua chance. Você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Eu tinha uma irmã, ela começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas.

Meu pai está no chão em uma poça de sangue, minha mãe está embaixo de mim, a boca escancarada, os olhos vazios. Não vejo minha irmã. Sinto uma dor e um movimento de sobe e desce. Ah, é o doutorzinho. Ele está em cima de mim, está comendo a porra do meu cu. O cano frio do revolver está grudado no meu rosto. Sinto medo, um medo terrível. Um medo sem nome. Estou cagado. Cagado de medo, literalmente. Ele come meu cu cagado. Louco de merda. Sinto o calor do esperma irradiar-se pelas minhas pregas. O filha da puta geme, satisfeito.

– Cara, você tem um cu melhor que o dá tua irmã, falo sério. Porra!

Uma parte de mim, uma parte antiga de mim, está espantada, absurdamente espantada com a violência, com o terror, com o sadismo, não consigo me mover, todo o corpo dói, retesado. E ele fica sorrindo. O desgraçado sorri diante do meu medo, está feliz! O cara acabou de violentar e matar toda minha família e está sorrindo! Que tipo de pessoa pode fazer isso? Sinto um frio e ao mesmo tempo um calor escorrer pelas pernas, estou mijando.

– Ah merda! Mas que merda! – ele grita pulando às gargalhadas

Eu me odeio. Como eu me odeio. Que espécie de homem eu sou? Por que eu não paro de tremer, levanto e arranco o sorriso desse bosta mesmo que antes ele me acerte um tiro no peito? Por quê? Ele sobe as calças, afivela o cinto com cuidado. Se aproxima de mim e me beija na testa. Sinto o suor de sabonete dele escorrer pelo meu rosto. Em seguida deve ter me acertado a cabeça com o revolver também porque apago instantaneamente. E acordo. Estão todos mortos! Mortos! Subo aos tropeços até meu quarto, apanho algumas coisas. Nove coisas na verdade. Uma escova comida por fungos, um sabonete rosa que só daria pra usar mais uma vez, uma toalha de rosto que pertencera a irmã, uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma samba-canção estampada com folhas que imitam as da maconha, maconha, uma bermuda jeans de uma calça jeans muito gasta, meio maço de cigarros e uma caixinha de fósforos com apenas dois fósforos virgens. E fujo, corro dali pra nunca mais voltar. Em algum momento, os vizinhos vão desconfiar, suspeito que a primeira a notar seja Dona Silvana, enxerida e fofoqueira como é, não deve demorar a estranhar o sumiço da gente, logo o fedor vai se espalhar pela rua, o telefone vai ficar tocando e tocando, tocando até cair, os cachorros vão latir de fome. Aí, alguém, dona Silvana, liga pra polícia. Queria ter deixado uma carta colada por um imã na geladeira para quem descobrisse os corpos:

Minha família está morta. Foram torturados e assassinados pelo doutor que namorava minha irmã. Eu sei porque ele me deixou viver. Ele quer brincar. Quer ver até onde eu posso ir. Fique olhando seu desgraçado. Eu vou frustrar todos os seus planos de merda.

Quisera estar calmo para deixar um bilhete. Minhas mãos mal conseguiam parar de tremer para assoar o nariz. Não… Tudo que fiz foi fugir. E esse jovem corre enlouquecido. O peito e o cu doloridos pelo esforço. Está chorando quando chega à praia. Ele jura que todos o observam. Que todos se afastam dele porque sabem quem ele é. Um fugitivo. Um egoísta desgraçado que luta covardemente pela sobrevivência. Esse jovem sente o gosto salgado das lágrimas misturado ao suor que escorre da testa. E ele corre, tentando fugir do passado, das memórias, da dor, da culpa, do ódio, da humilhação, da impotência. Vomita sem parar. O hálito de esperma ainda enche-lhe a boca. Ele lembra que quando criança fez um coleguinha chupá-lo. Ele lembra de obrigá-lo a engolir sua porra. Lembra sim. Lembra-se nitidamente disto. Lembra também de um menino que tomou a bicicleta da minha irmã e os dois tiveram que voltar a pé pra casa. Do vizinho que apanhou na escola, dele pedir ajuda chorando e o jovem-criança fingir não ouvir, e depois ainda se rir dele para os outros. Que covarde! Teria dito. E era seu melhor amigo, ele ia a sua casa todo dia jogar supernintendo. Lembra do pai colocando a minha irmã de castigo por dar um soco no nariz dele. A irmã ficara zangada porque descobrira que ele a espiava no banho. E ela não contou pro pai, nunca contou para ninguém. O jovem lembra do chefe passando um esporro em uma colega de trabalho. O jovem lembra que ele fora encarregado de ensinar o novato. O jovem lembra, lembra muito bem, de ensinar-lhe tudo errado. Ah, o jovem também lembra daquele dia horrível quando ficou preso no moedor e aquele mesmo colega salvara sua mão de ser mutilada. Talvez o jovem mereça a lembrança da mãe dizendo que estava tudo bem, que ia ficar tudo bem enquanto a violentava. E o jovem continua correndo pela praia. Ele passa por um senhor de 40, 50 anos, chapéu, e bastante protetor solar no rosto e no peito, sentado numa barraquinha, tomando água de coco, com um jornal estendido entre as mãos. Esse senhor lê sobre um casal de velhinhos, espancados até a morte pela neta, uma mocinha de 13 anos. Na mesma página há uma foto grande de um acidente de carro. A legenda diz: BEBIDA AO VOLANTE CAUSA MORTE. Ele lê que um motorista se irritou com a batida e espancou até a morte o responsável pelo acidente, que estava embriagado. O senhor lê a respeito de uma criança que saiu para comprar pão. Há imagens feitas pela câmera da padaria, em uma das fotos você vê um homem se aproximar. Eles saem juntos. A menina é estuprada tão violentamente que seu hímen é rompido, ela também é espancada até a morte. No final dessa página, o jornalista constata a total incapacidade do Estado em nos proteger, e deixa entrelinhas que uma redução de impostos seria muito bem-vinda. É. Eles se divertem conosco. Entre uma água de coco, violência e jornais está você. Você se enraivece. Gira o punho em minha direção dizendo que não foi você que fez aquelas coisas. Sim, como o coco. Não foi você quem plantou o coqueiro, ou a pessoa que derrubou o coco da árvore, não foi a pessoa que o transportou até a barraquinha, nem aquela que abriu o coco ou mesmo quem colocou o canudinho, a única coisa que você fez foi beber. Você dobra o jornal e sorve o último gole do cocô. E o mundo segue adiante. A violência é a roldana mestra de um deus sem nome, gênero ou propósito. Eles estão aí, divertindo-se. Deixam nossos corpos jazerem quentes em residências de janelas blindadas, muros altos com cercas elétricas, câmeras de segurança e cachorros grandes e raivosos. Tudo precisa inspirar confiança para que a roldana mestra possa funcionar. Porque o terror não existe sem esperança. Uma ilusão, para viver, para continuar, para justificar o sofrimento, suportá-lo e, principalmente, negligenciar o destino.

Daquele jovem de cabelos maltrados, só resta um velhinho de cabelos podres, desdentado, de queixo pontudo, vestido num jeans muito surrado, com metade do que fora uma estrupiada camisa do flamengo LUBRAX, uma trouxa aparentemente muito pesada às costas, um sério problema de audição e olhinhos bem apertados para a noite. Ele se levanta, o que era dificílimo de fazer com o cocô feito concreto colado nas magras pernas. Ao se mexer o cheiro desprende-se, fá-lo lacrimejar e quase o derrubar. Acostumado está esse velho a merda. Tem por merda o travesseiro, as conta-roupas, a cabeça. Assim é um sobrevivente de verdade. A merda é um lembrete do que caminha por aí. O velhinho então se arrasta pela rua escura, vai charfundar as lixeiras em busca de comida e, com sorte, alguma bebida. O lixo era mais generoso do que qualquer esmola. Na lixeira mais próxima, no entanto, o velho se depara com um rival, um vira-lata moído, meio desconfiado. Um sobrevivente reconhece outro. Eles se encaram. O velho vê seu rabo quebrado balançar. Espera comida? Algum osso que sobrou da janta talvez? Estico a mão amistosamente. O cão se aproxima e lambe-a. E choro. Tenho chorado muito ultimamente. Não sei porquê. Há algo naquele toque que me faz pensar nos sonhos distantes de uma humanidade esfacelada, alguns farelos que reluzem ao sol, cheios, não, transbordantes de esperança, é lindo, e trágico, ridiculamente cômico em sua construção piegas, é o velho discurso do amor, das mãos enrugadas e trepidantes à língua áspera, cansada e ferida. Neste toque barbaramente simplório, vejo o coração deste mundo bater mais alto.

Um anjo é um sobrevivente que encontra outro sobrevivente.

Com certeza você já viu um deles. No cinema, em uma festa qualquer, no engarrafamento das 18 horas. Pode até ser vizinho de um. São quase sempre médicos ou advogados por volta dos 40 anos. Fazem caminhada toda manhã, mesmo nos feriados e fins de semana. Às vezes em companhia do cachorro. Costumam morar em residência própria, vestir-se casualmente e ter carros esportivos. Eles seguem um padrão de propósito para divertir-se conosco. São irritantemente simpáticos e asseados, o que provoca uma situação curiosa. Faça o teste: tente cumprimentar um deles. Você vai vê-lo sorrir desagradavelmente, balançar a cabeça e saudá-lo com entusiasmo, mas sob hipótese alguma vai corresponder totalmente ao seu cumprimento. Só vai continuar sorrindo. É assim que podemos identificá-los.

Minha irmã começou a sair com um “cara espetacular” como contava minha mãe às amigas. O cara era um doutor. Minha irmã o conheceu quando um de seus alunos passou mal e ela o levou ao hospital. Ainda posso ouvi-la se derretendo sobre ele “Tão prestativo, tão atencioso, nunca tinha conhecido um médico assim!” A idiota da minha irmã sempre foi muito carente, lembro que ela se apaixonou por um amigo meu só porque ele a ajudou com as compras. Chegaram a namorar por um tempo. Quem sabe se esse meu amigo não fosse um imbecil, eles ainda estariam juntos e, bem, evitado o pior. Acompanhei minha irmã marcar encontros com o tal médico, recebendo flores e cestas de café da manhã com bilhetinhos cafonas de amor prometido. O babaca nem imaginava que com uma caixa de bombons já teria ganhado o coração dela. As flores, as promessas de amor, o namoro, tudo foi muito rápido pro meu gosto. Eu não conhecia muitos médicos, mas conhecia muitos homens e aquela atenção toda que o médico dispensava a minha irmã me incomodava bastante. Minha irmã não era um sinônimo de beleza, nem passava perto. Tirando meu amigo como namorado, ela só teve outro caso quando ainda era adolescente e vestia calças quatro números menor. Minha irmã era linda sabe, bonita mesmo, mas de um jeito diferente, de um jeito que essas revistas sobre celebridades não entendem. Daí, um cara aparece do nada e saca que ela é uma mulher maravilhosa com uns quilinhos a mais? Difícil crer, mas podia ser só ciúmes de irmão protetor. E era o que ela me dizia sempre que eu criticava as atitudes do doutorzinho. Acabou que ela conseguiu me convencer de que não havia nada de errado, eles tinham se apaixonado e só. Em verdade, eu sentia um aperto no peito toda vez que ela atendia o celular, o que não podia ser outra coisa senão ciúmes. Era preciso deixar de implicância e apoiá-la, por mais doloroso que isso fosse.

Foi num jantar de domingo que minha irmã decidiu apresentá-lo à família. O pai tratou de fazer as compras mais caras da vida, a mãe o melhor jantar que já preparara e minha irmã nunca tinha arrumado a casa tão bem. Quando acordei naquele dia e encontrei os preparativos para o jantar, a mágoa engolfou-me. Não podia desamarrar a cara para toda aquela bobagem. Só levei duas garotas para casa em toda a vida e minha mãe escorraçou uma delas de casa logo pela manhã. Agora pro doutor tinha até champanhe, acredita? Não podia deixar de me repreender pelos meus pensamentos. Ora, e daí que o tratamento fosse diferente? Tratava-se da minha irmã e não de mim. Mas quando a mãe ralhou comigo por não me aprontar com mais cuidado para receber o convidado, soltei os cachorros.

– Essa roupa estava muito boa quando a tia Carol casou.

O pai avançou sobre mim no mesmo instante:

– Se não quer trocar essa roupa mulambenta, ótimo! Mas faça o favor de não sair do seu quarto!

A mãe se aproveitou da truculência do pai e se aproximou para dizer:

– Você só trouxe vadias para essa casa! Respeite sua irmã e vista algo melhor já!

Mesmo resmungando, troquei de roupa. Embora a raiva provocasse meus olhos, eu não queria me comportar como uma criança e de birra, sentar maltrapilho à mesa estragando o esforço que meus pais e minha irmã faziam para que nossa casa parecesse a casa de outra família. Tentei trocar o ressentimento pela felicidade da minha irmã. Mas à mesa, enquanto ensaiávamos o jantar, a raiva tornou a atormentar-me. Não podia suportar a mãe dizer coisas que não dizia, falar de um jeito que não falava, sentar dura na cadeira e não refastelar-se como de costume. Novamente, o sarcasmo foi mais rápido que o bom-senso.

– Mãe, por que você não para de imitar o Robocop?

– E você podia parar de ser esse nojento insuportável antes que eu te bote pra fora! – berrou o pai, levantando-se.

– Gente, por favor, que isso… – tentava acalmar minha irmã, o que só ressaltava seu caráter condescendente. Quando a partida começava, só terminava com um ganhador. Normalmente eu jogava para perder, mas era o melhor jogador da família.

– Eu só não consigo entender pra quê esse circo? Vocês nem conhecem o cara!

– Mas você também não – intrometeu-se minha irmã na briga, pegando-me desprevenido. Aquele seu olhar peculiar de desculpas devassando-me por dentro.

– Eu sei, eu sei, é que… – calei-me. Embora em meu íntimo eu pudesse apreciar uma certa satisfação em insultá-la, ela não merecia isso. Bem sabia que era capaz de fazê-la chorar com três palavras minhas. Mas não queria acabar com sua noite. Não, aquela era a noite dela e não seria um cretino que nem eu a estragá-la. Abaixei a cabeça e segui o script.

Assim ele chegou. E todos os meus mais terríveis pressentimentos mostraram-se de fato, ciúmes bobos. Era um cara absolutamente normal. Enquanto todos vestiam suas melhores roupas para o jantar, ele aparecia casual, esbanjando simplicidade. Os cabelos meio grisalhos, os óculos grandes fora de moda. Tudo no maldito doutor denunciava suas boas intenções. Minha mãe certa vez disse que o diabo é cheio de boas intenções. Uma vez que eles atravessam o consolo da porta, você despede-se da vida. Depois de muitas apresentações, palavras polidas e outras amenidades do tipo, descarreguei meus preconceitos e aproximei-me estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas o doutor só manteve seu sorriso pregado na cara enquanto minha mão pairava seca no ar. Por um momento a cena congelou-se. Encarei-o, desafiando a não apertar minha mão e surpreendi-me dele não ceder. Eu era muito bom nesses joguinhos, mas ali estava um adversário a altura. Ia devolver-lhe o sorriso em resposta, quando senti um frio correr pela espinha e assobiar-me à nuca. Algumas pessoas ouvem o badalar da morte, diria Maria muitos anos depois. Os sinos daquela noite nunca mais me permitiram uma noite sossegada. Escute com atenção agora, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia.

Toda a gordura que acumulamos durante a vida dissolve-se num instante. Parece que o cálcio abandona nossos ossos e diminuímos, somos crianças outra vez diante de um terror desconhecido. Com curiosidade mórbida olhamos embaixo da cama e encaramos o que vivia lá. Esse bicho-papão é assustador porque estava lá o tempo todo, disfarçado de pelúcia, brincando com você, vigiando, divertindo-se. Naquele dia eu morri, não da forma literal, mas como uma lata de molho de tomate que é aberta e despejada na pia porque está fora do prazo de validade. As pessoas que sobreviveram costumam identificá-los pela forma de sorrir. Quando seus lábios se crisparam, de uma simples animosidade, a cena revelou-se sem cortinas ou preâmbulos. Nós éramos ratos, ratos que tinham colocado um felino dentro da sua toca. Não um gato domesticado preguiçoso, mas um leopardo, um caçador tão habituado a morte quanto os ratos aos buracos. Não há receitas do que fazer. Em primeiro lugar porque se você está vivo é porque ele quer que você esteja vivo. Normalmente, as pessoas só percebem a morte quando ela finca os dentes com força na sua carne. Mas há alguns que vêem a morte se aproximar. Eu vi, mas não pude acreditar. Há algo dentro da gente que imobiliza nossas ações. Aquele gaguejar nervoso, a língua seca, uma coceira num lugar impossível, um tique qualquer. De repente você sente os olhos sujos e não consegue parar de piscar. Você pensa na sua vida. Na porra do molho de tomate azedo. Nossa existência se agita diante da morte e a morte é como uma tempestade. O barco foi a pique, marujo. E o oceano é profundo e frio.

Pode-se dizer que um sobrevivente é alguém que viu a morte e continuou. Não tem muito tempo, ouvi a história de um sobrevivente que trabalhava como jardineiro na casa de um deles. Perto do Natal, o patrão por meio da empregada convidou ele e a família para um almoço. Ele contou-me que não queria ir, que não gostava da casa do patrão, tinha qualquer coisa de muito estranha no lugar, que ele não sabia explicar. Mas a esposa fez questão de ir. Assim, ele e a família entraram na toca do lobo. Contou-me que o patrão os recebeu muito bem, disse estar muito feliz por ter companhia na noite de Natal e sorriu-lhes com gosto. Ah sim, você só conhece um sobrevivente de verdade quando ele lhe conta a respeito da sua última ceia. Fiquei sabendo que esse sobrevivente não aguentou. Isso é muito comum entre os sobreviventes. Poucos conseguem continuar. Não os julgo. Não se pode matar aquilo que não tem vida. Depois da última ceia, não vivemos mais, nós morremos. Sobreviver é pouco a pouco tornar-se um deles. Se possível, uma coisa pior que eles. Como posso condená-los por não se transformar em algo assim?

Você sobrevive e é acusado de tudo que sua legislação penal puder oferecer. Com sorte, você é condenado a pena de morte pública. Em alguns lugares, porém, sua dor perdura. Você é mandado para a cadeia e lá passa o diabo antes de alguém se cansar e matá-lo. Mas se você têm forças para fugir, então você será procurado. Será o criminoso mais procurado do país. Sua foto estará estampada em todos os jornais, farão programas de TV sobre você, convidarão psicólogos, psicoterapeutas e qualquer oportunista que apareça para tentar explicar porque alguém faria aquilo que você fez. Pessoas xingarão seu nome, cuspiram no seu retrato, amaldiçoarão seus dias. Velhinhas irão rezar para que você queime no inferno. Queime seu desgraçado miserável! Passado um tempo, o mundo se esquece de você, mas você está morto de qualquer forma. Essa alma, ou seja lá o que for que possuímos quando vivos que não precisa de motivos para existir, bem, essa coisa é levada por eles. Tudo o que lhe resta são lembranças amargas da vida. Você está morto, e tudo a sua volta são vultos etéreos e sinistros. Para continuar você precisa encontrar um motivo.

Eu costumo classificar os sobreviventes pelos seus motivos. Alguns sobreviventes dedicam seu continuar a provar sua inocência. Até hoje ninguém conseguiu fazer isso. O motivo beira a estupidez da obviedade. Provar sua inocência seria provar a existência deles. As pessoas não estão preparadas para saber e não querem estar. Talvez por isso somente alguns possam vê-los e mesmo assim quando eles querem ser vistos. Se alguém me falasse deles antes da última ceia, eu também não acreditaria. Nem em um milhão de anos. A meu ver, continuar por um motivo desses é um desperdício de vontade. Mesmo que fosse possível provar a existência deles, você não pode viver outra vez. Esses sobreviventes são chamados de inocentes.

Depois vêm os fugitivos, como aquele jardineiro. São aqueles que escapam da última ceia e continuam fugindo. Fugir é de longe o motivo mais doloroso de todos para continuar, porque nem motivo é de verdade. Os fugitivos são os mais numerosos, eles estão em todo lugar. Você pode encontrá-los dormindo sob cobertores finos e fedidos em algum terminal rodoviário ou embaixo de um viaduto. Ainda sim, para reconhecê-los, é preciso uma boa colheitadeira para desfazer-se da barba esculpida por sujeira, restos de comida e uns bons anos de submundo, isso se não tiverem desfigurado o rosto. Existem outros, mas dentre eles quero destacar os devotos. São aqueles que continuam para se tornar parte deles.

Por muito tempo eu também fui um fugitivo, pensei estar só. Não sabia a respeito de outros sobreviventes. Na verdade você passa bastante tempo somente fugindo, escondendo-se do mundo. Você tenta dizer a si mesmo que não fez aquilo, mas o apresentador de TV cospe de raiva quando bate na mesa e grita que pessoas como eu mereciam a cadeira elétrica. Com toda aquela propaganda dizendo que você é um psicopata, você acaba acreditando que realmente fez aquilo. Você bebe até desmaiar todos os dias. Talvez amanhã você acorde desse pesadelo. Mas o outro dia só traz mal-estar, uma dor de cabeça horrível e o desespero de ainda estar ali. Aí você percebe que não pode esquecer, então vai pirando. E pira. Você pode encontrá-los falando sozinhos por aí. Caçoarem de você. Correrem da própria sombra. Pular de um viaduto para o asfalto, de algum edifício, cruzar uma rodovia bastante movimentada com os olhos fechados. Ou continuarem se escondendo. Você fica escondido até encontrar um anjo.